sexta-feira, março 19, 2010

Férias

Este blogue passa, por algum tempo, a um registo de serviços mínimos, o qual se sentirá, em especial, no atraso com que aparecerão os comentários nele inseridos.

Futebóis

O futebol, para mim, é uma simples modalidade desportiva. Isto é, um jogo de que gosto muito e sobre o qual julgo até saber alguma coisa. Porém, a gravidade assumida nos discursos de adeptos, dirigentes ou comentadores, o tom pesado com que se analisam, em horas televisivas ou páginas de imprensa, confrontos de emblema ao peito entre o pé-de-obra de empresas nacionais falidas, algumas de dissolução adiada por complacência bancária e cobardia pública, dá-me imensa vontade de rir. 

Como a generalidade dos portugueses, tenho a minha preferência clubística, desagrada-me quando o meu clube perde, fico feliz quando ele ganha. E até me diverte, num estádio, exteriorizar sentimentos, protestar com o árbitro, fazer de "treinador de bancada". Mas distingo sempre, sem a menor dificuldade, a vida do jogo, as coisas sérias de um mero espetáculo, por mais motivante que ele possa ser. Por isso, e de há muito, recuso-me a transformar as derrotas em tragédias ou as vitórias em exaltações. Em toda a vida, nunca perdi um minuto de sono por qualquer delas.

Sei que nem toda a gente pensa como eu, que muitos levam a sério o seu sentimento clubista, que nele encontram um conforto grupal essencial ao seu quotidiano e talvez ao equilíbrio pessoal de afetos. Cada um é como é.
  
Talvez porque penso desta forma, chocou-me muito ouvir ontem a declaração de um energúmeno (assumo a plena responsabilidade pelo qualificativo) adepto do meu clube, um irresponsável de uma seita de apoiantes arruaceiros a merecer cadeia, que sintetizou na televisão, num discurso de anti-espanholismo primário a que já me tinha desabituado, tudo o que de nefasto o futebol pode trazer à sociedade. E pergunto-me se os órgãos de comunicação social portugueses não estão obrigados a não serem veículos neutros de sentimentos de xenofobia e agressividade criminosa.

quinta-feira, março 18, 2010

Turismo

Bela e digna presença portuguesa no Salon du Tourisme 2010, ontem inaugurado em Paris.  Pedro Pauleta, um excelente "embaixador dos Açores", que tem em França uma imagem pública do tamanho da sua simpatia, contribuiu para chamar ainda mais a atenção para o nosso stand.

Os fluxos de turismo francês em direção a Portugal aumentaram em contra-ciclo com a crise. Mas esta é uma área onde há muito a fazer, aqui por França. Que tal se cada português ou luso-descendente convencesse um amigo francês a visitar Portugal ?

Revoluções silenciosas

Não creio ser necessário dizer muito, mas gostava de chamar a atenção para duas "revoluções silenciosas" que ocorreram, nos últimos dias, e que vão afetar alguns  importantes equilíbrios  internacionais. Como todas as ruturas históricas, elas podem vir a ter recuos, mas o seu sentido passou a ser iniludível.

A primeira é a crise nas relações entre Jerusalém e Washington, que dá razão a quantos pensam que, agora, o importante passa a ser ajudar Israel a defender-se de si próprio.

A segunda são as declarações da chanceler Angela Merkel, ontem, no Bundestag. Por elas se aprecia melhor a notável presciência de Helmut Kohl.

Abril

É uma sensação reconfortante ver algumas dezenas de adolescentes portugueses, alunos do Collège Lycée Honoré de Balzac, interessados em discutir o Portugal de Abril, sem dogmas ideológicos, sem partidarites, apenas com vontade de perceberem o que mudou nessa data de que os pais e os livros lhes falam.

E não deixa de ser igualmente curioso notar uma emoção verdadeira nas palavras do "proviseur" Jean Louis Tretel, um "soixant-huitard" à beira da reforma, ao recordar os dias em que a França de então olhou, com um espanto simpático, para a "Révolution des oeillets", nesse "país que parecia condenado ao silêncio".

quarta-feira, março 17, 2010

Eça em Paris

Luis dos Santos Ferro é um "queirosiano" sem par. Ontem, numa visita à casa em que Eça de Queiroz viveu em Neuilly, ciceroneou-me como se tivesse passeado pelas salas ao tempo em que o meu antigo colega por aqui foi cônsul-geral de Portugal. Paris foi o último posto do escritor-diplomata e esta foi a cidade onde morreu.

A antiga residência de Eça de Queiroz é hoje propriedade de Philippe Mayer, alguém que "adotou" Eça como um dos seus e que se habituou a conviver com a sua presença nesta casa que tanto comove quem, como eu, sente de muito perto a memória que o escritor deixou por Paris.

"Língua não tem futuro"...

"A língua portuguesa é muito traiçoeira", dizia Herman José, nos seus bons tempos. A julgar pela forma como algumas coisas que afirmei numa entrevista foram reportadas na imprensa, eu diria que ela é particularmente traiçoeira quando nos referimos à... língua portuguesa.

Ontem, à saída de uma comissão parlamentar, na Assembleia da República, já a caminho de um taxi para o aeroporto, fui "apanhado", num vão de escada, por uma repórter da Lusa. Por uma razão que me escapou, perguntou-me sobre a melhor estratégia para a projeção internacional do Português no mundo. Disse e reiterei várias coisas óbvias e simples, todas de sentido idêntico, aliás corretamente transcritas no "take": "O melhor caminho é a articulação forte entre Portugal e Brasil para a promoção da língua portuguesa nos espaços multilaterais e internacionais"; "o Português tem futuro se for apoiado por todos os espaços, Portugal e Brasil, mas também os países africanos, com a sua influência quer nos países vizinhos, quer no espaço das instituições multilaterais"; "é uma acção conjunta em que todos nós temos que nos empenhar para a projeção do Português".

Num jornal português de hoje o título é "Língua não tem futuro 'sem uma relação frutuosa entre Portugal e Brasil'". O que prevalece, no título, é a suposta falta de futuro para a língua. Estupidez ou desonestidade? Ou as duas? Escolham... E ainda há quem diga que eu me preocupo muito com os títulos.

Português

Há dias que começam bem. Foi o caso de hoje. Foram duas horas de convívio, grande parte do qual dedicado a responder às muitas e curiosas perguntas públicas de quase duas dezenas de simpáticos estudantes, na Secção Internacional Portuguesa do belo Collège Jean Moulin, em Chaville.

Com a honrosa presença do "Maire" de Chaville, Jean Jacques Guillet, e da "Principale" do Collège, Catherine Onillon, além de pais das crianças, este encontro pretendeu ser, pela minha parte, um testemunho do grande interesse com que vejo a atividade das Secções Internacionais.

Ontem respondi às perguntas dos parlamentares, hoje às de estudantes portugueses. A vida de um diplomata tem esta interessante diversidade. 

terça-feira, março 16, 2010

Parlamento

A Assembleia da República, através da sua Comissão dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, iniciou uma nova prática: ouvir os embaixadores portugueses pelo mundo falar do funcionamento das missões diplomáticas que dirigem, dos interesses portugueses que lhes compete defender, das questões que se colocam ao seu dia-a-dia, bem como de várias outras matérias da sua atividade que interessam ao poder legislativo.

Como disse, esta é uma prática nova, que não afeta, naturalmente, o equilíbrio constitucional de poderes. Nem de responsabilidades. É o governo quem responde perante o parlamento. Ao diplomatas, como servidores públicos que têm a seu cargo a execução da política externa, compete prestar esclarecimentos sobre o modo como exercem a sua atividade e como dão sequência às instruções que recebem do poder político. Nem mais, nem menos.

Tive o prazer de inaugurar hoje estas audições, num ambiente muito simpático, muito interessante e muito interessado. E mais não digo, porque a sessão decorreu "à porta fechada".

segunda-feira, março 15, 2010

Reunião

"Uma reunião acaba, normalmente, ao final de 20 minutos... só que ninguém dá conta e todos insistem em repetir, nas horas seguintes, embora de forma diferente, os argumentos que os outros já disseram e que estiveram na base das decisões que há muito já foram tomadas".

Quem nos disse isto, hoje à tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, foi o professor Peter Magrath, um especialista de educação americano que, em muito boa hora, o meu querido amigo professor Marçal Grilo convidou para vir a Lisboa falar aos reitores e presidentes dos Conselhos Gerais das universidades públicas portuguesas.

Desta vez, Magrath desmentiu-se a si próprio. Nas cerca de três horas em que o ouvimos e com ele discutimos, nem um minuto foi perdido e todos saímos muito mais conhecedores, não apenas dos exemplos de gestão universitária dos EUA, mas igualmente do modo como cada um de nós, na sua universidade, interpreta o novo modelo de gestão que está em vigor em Portugal. Este é o único caminho para nos ajudar a tornar mais eficaz tal modelo.

Viegas

Há dias, alguns amigos queixaram-se pelo facto de eu ter escolhido João Villaret como o primeiro declamador apresentado neste blogue e alguns perguntaram-me se tinha algo "contra" Mário Viegas. Claro que não tenho. Conheci bem Mário Viegas (1948-1996), com quem fiz serviço militar. Foi uma figura extraordinária da cena portuguesa e a sua ironia faz imensa falta.

Aqui fica a sua "Cantiga dos Ais", um texto (um belo retrato nosso, traçado a ironia) de um poeta português que deveríamos conhecer melhor, Mendes de Carvalho (o qual, a talhe de foice, convém não confundir com o homónimo angolano, também bom poeta, que assina sob o nome de Uanhenga Xitu).

domingo, março 14, 2010

Emprego

Julgo que o nome era Silva. António Pedro de Vasconcelos contou-nos, há dias, em Paris, que ele era o funcionário que tinha por missão, nos tempos que antecediam o 25 de Abril, transportar entre o jornal "O Século" e os serviços da Censura (que o marcelismo crismou de "exame prévio") as provas tipográficas que eram submetidas à vistoria, antes da impressão das publicações. Era um vaivém diário constante, da rua do Século à rua da Misericórdia, até se obter a autorização final que permitisse dar ordem de preparação das edições. 

A.P. de Vasconcelos dirigia então o "Cinéfilo", uma revista do grupo controlado pelo jornal - onde figuravam algumas outras, como "O Século Ilustrado" ou a "Modas & Bordados". Sem exceção, tudo tinha de ir à censura, pela mão diligente do Silva, uma figura simpática, que já fazia parte da rotina da casa, bem conhecido de todos os jornalistas.

No dia 25 de Abril de 1974, a manhã estava, como se compreenderá, a ser muito confusa. Marcello Caetano ainda não se tinha rendido, o Carmo ainda não fora ocupado por Salgueiro Maia, a sorte da Revolução estava ainda longe de definida. Soube-se, porém, que o diário "República", muito próximo dos meios democráticos, tinha decidido arriscar e fizera já uma edição especial, sem se sujeitar ao controlo da censura. A vontade dos jornalistas de "O Século" e restantes publicações era, naturalmente, idêntica.

Entretanto, imbuído da rotina profissional, chega o Silva, para recolher as provas da edição seguinte do "Cinéfilo". A.P. de Vasconcelos diz-lhe que não tenciona mandar as provas do "Cinéfilo" para visto prévio. O Silva insiste, sem sucesso, e fica por ali, sem rumo certo, não podendo levar a cabo a sua tarefa habitual. Com as horas a passar, com o adensar das notícias de que o regime se estava a esboroar, parte do pessoal do jornal sai para a rua. A.P. de Vasconcelos convida então o perturbado Silva a acompanhá-lo à zona próxima da rua da Misericórdia, onde se sabia ser grande a movimentação popular, bem perto do quartel onde Marcelo Caetano se refugiara. Por ironia, era também nessa artéria que, num singular contraste, se situavam as instalações do "República" e as da da censura, cada uma do seu lado da rua. 

Aí chegados, o ambiente não enganava: a democracia estava na rua, o edifício da censura estava já como que isolado. A.P. de Vasconcelos, que comungava a alegria comum aos milhares de pessoas que enchiam a zona, nota que a cara do Silva era tudo menos felicidade. Seria saudosismo pela queda do regime? A interrogação não durou muito. O pobre do Silva pergunta-lhe, angustiado: "Ó senhor Vasconcelos, e agora o que é que eu vou fazer?"

O 25 de Abril não foram só alegrias.

sexta-feira, março 12, 2010

Jospin

Lionel Jospin foi primeiro-ministro socialista da França (1997-2002), em "coabitação" com o presidente Jacques Chirac. Afastou-se da política ao ser derrotado na primeira volta das eleições presidenciais de 2002, onde ficou atrás de Jean-Marie Le Pen.

Jospin assumiu, a partir de então, uma postura bastante discreta, não obstante ter publicado alguns livros e, aqui e ali, ter feito algumas declarações públicas, quase sempre ligadas à defesa da sua "herança" governativa. Já sem ambições para as eleições presidenciais de 2012, publicou, há algum tempo, o seu livro "Lionel raconte Jospin", uma conversa com dois jornalistas que pretende ser o seu inventário de memória política.

O livro traz poucas surpresas, para quem seguiu com algum cuidado o percurso de Jospin. Porém, traz a sua versão sobre a sua polémica permanência na órbita trotskista já como militante do PSF, adianta alguns dados às relações entre os socialistas e os comunistas franceses nos anos 80, introduz elementos interessantes sobre as tensões que emergiram na "coabitação" e, muito em particular, revela a sua quota de desilusão quando foi confrontado com aspetos do passado de François Mitterand. Uma novidade, pelo menos para mim: Jospin só por falta de apoios expressos não foi tentado a ser o "challenger" socialista contra Nicolas Sarkozy, nas eleições presidenciais de 2007.

Villaret

João Villaret (1913-1961) foi um "diseur" de poesia que marcou muito a minha geração. Dele guardo a imagem "a-preto-e-branco", como era então a (única) televisão desse tempo. Os seus discos, que recomendo vivamente, são uma apelativa introdução à poesia portuguesa.

Hoje, por uma qualquer razão, aparece-me partilhar esta sua vibrante versão do Cântico Negro, de José Régio. Ouçam-no bem, até ao fim.

quinta-feira, março 11, 2010

A conversa

O nosso embaixador, recém-chegado àquele país africano de expressão portuguesa, tinha toda a boa vontade do mundo na sua agenda de ambições, para os anos de trabalho que o esperavam. As relações políticas entre os dois países estavam muito tensas, fruto de traumas históricos ainda não ultrapassados, a que se somavam regulares polémicas conjunturais. Porém, o nosso homem vinha de espírito aberto e queria fazer a diferença.

Uma das suas primeiras visitas foi à Associação de Escritores locais, um órgão que, não obstante a ortodoxia política que o dominava, reunia alguns nomes de reconhecido mérito literário, de que lera algumas obras. Era um gesto de "soft diplomacy" em que colocava algumas esperanças, com vista a quebrar o gelo prevalecente.

O presidente da Associação era um velho resistente, que havia estado envolvido na luta contra a presença portuguesa, conhecido pelo seu radicalismo ideológico. Contudo, como o embaixador reconhecia, tratava-se de um escritor de apreciável qualidade.

E foi isso mesmo que o embaixador começou por dizer, no início da visita de cortesia que lhe fez. Nela adiantou também algumas ideias que trazia para a sua ação na área da cultura - desde os contactos entre academias, o intercâmbio de experiências, a oferta de bibliotecas, bolsas de estudo, etc. Reiterou a sua disponibilidade, bem como a da Embaixada que agora chefiava, para facilitar tudo o que pudesse ajudar a aproximar ambas as literaturas.

Quando acabou de falar, esperou uma resposta. Nada. Em seu lugar, instalou-se um silêncio que se começou a "ouvir" na sala. Curiosamente, deu-se conta de que não tinha ainda escutado a voz do Presidente, que apenas o saudara com um cumprimento de mão à entrada. Ele permanecia na sua cadeira, com uma cara muito branca, num esgar giocôndico indefinível,  por detrás da barba grisalha, a qual, à época, era como que uma marca corporativa da intelectualidade branca e mulata local. Mas, sempre, imóvel e em silêncio.

Para quebrar o gelo desses segundos de vazio, embora com alguma artificialidade, o embaixador ensaiou mais umas frases, desta vez falando do novo país onde estava, dos familiares distantes que por ali tinha, do seu interesse em visitar certas regiões que estavam na memória coletiva de Portugal. Os minutos esgotaram-se, tal como a sua intervenção, e a reação do seu anfitrião foi exatamente a mesma, isto é, nenhuma. 

A diplomacia ensina algumas coisas e uma delas é a capacidade de não revelar a menor surpresa, mesmo perante aquilo que nos choca. E conseguir sair por cima, com arte e até com gozo. Foi o que fez: agradeceu a "simpatia" do acolhimento, disse do gosto que tinha tido em "trocar impressões" com uma figura tão conhecida do mundo cultural do país em que estava acreditado e, com alguma ênfase, sublinhou o prazer que teria, numa próxima oportunidade, de receber o presidente da Associação na Embaixada, "para continuarmos este promissor intercâmbio".

Fora tão longe na provocação quanto a "lata" e a prudência aconselhavam. Fez menção de se levantar, no que logo foi imitado pelo seu potencial interlocutor, sempre silencioso, que esboçou um sorriso, talvez de alívio pelo fim do exercício, na melhor das hipóteses de  subtil reconhecimento pela "capacidade de encaixe" do embaixador. Este despediu-se com um aperto de mão, caminhando para o carro que o esperava no calor abrasador da tarde. Dentro dele, o ar condicionado esfriou-lhe alguma raiva. Dentro de si, sentiu que tinha ganho o dia: aprendera sobre o país, nesses muito breves minutos, uma bela lição.

quarta-feira, março 10, 2010

Partidas

A morte de um familiar que há muito não visitava projetou-me na memória um filme rápido com todas as recordações que sobre ele alimento. São imagens de tempos diversos das nossas vidas, nas quais se cruzam, entretanto, várias outras figuras do passado, mais próximas ou mais distantes, que estes momentos acabam inevitavelmente por convocar. Nestas ocasiões, atravessa-me sempre uma sensação de um tempo que se desperdiçou, de conversas que poderia ter tido e deixei de ter, de um convívio que poderia ter alimentado, de outra forma e com outra intensidade. Sei tudo isso, como também sei, muito bem, que outros familares e amigos estão precisamente nas mesmas circunstâncias e que, por esta inércia e comodismo que me marca os dias, em alguns casos acabarei por os não rever. E sei também que, quando desaparecerem, terei uma reação em tudo idêntica. Às vezes, dou comigo a desculpar-me de tudo isto com a vida errante que levo, quando se trata apenas de um imperdoável descuido com os afetos. Mas regresso sempre à justificação auto-complacente: não acontece isto a toda a gente?

Europa

A Europa esteve no centro de duas conversas diferentes e bem distintas que tive: um jantar ontem com o escritor Amin Maalouf e um almoço hoje com o conselheiro para os assuntos europeus do presidente Sarkozy, Fabien Reynaud.

Duas gerações, duas inteligências brilhantes e duas perspetivas que se cruzam na existência de interrogações - embora não as mesmas - que também partilho.

A sensação que, quase sempre, retiro das conversas que por aqui vou tendo é que a Europa e o seu futuro são hoje muito mais um menu de interrogações de que um manual de respostas credíveis para os problemas que temos perante nós. E que o grau de euro-entusiasmo, para aqueles que o partilham, varia na razão direta da fé que cada um coloca na eficácia das novas instituições, cujo dealbar - todos concordam - se mostra algo titubiante . 

terça-feira, março 09, 2010

Futebol

Embora eu navegue por outras ondas futebolísticas, gostava de deixar claro que não me comprazo minimamente com o naufrágio portista perante o Arsenal. A derrota de equipas portuguesas no plano internacional reflete-se sobre todo o futebol português, degrada a nossa imagem desportiva coletiva e - embora haja quem talvez não saiba isso e que tal pode vir a afetar, no futuro, o seu clube - conduz à redução da quota de equipas nacionais nas competições europeias.

Pode ser que eu esteja enganado, mas é minha convicção que o futuro dos clubes portugueses nas altas competições internacionais tenderá a ser, cada vez mais, sombrio. Com efeito, tendo em atenção a progressiva perda de capacidade financeira dos clubes nacionais, que lhes não permite manterem em Portugal os seus melhores valores, apenas na seleção nacional será possível depositar alguma esperança de uma boa representação do nosso futebol . Tal como já sucede com o Brasil, os melhores jogadores tenderão, no futuro, a ser cativados pelos campeonatos estrangeiros, mais ricos e mais atrativos.  

O Futebol Clube do Porto foi, nos últimos anos, uma exceção a esta regra - que se aplica já, de há muito, ao Benfica e ao Sporting. Infelizmente, parece hoje destinado a segui-la.

África(s)

Notei que a cara do nosso embaixador não era das mais felizes. Vim a saber que o ministro dos Negócios Estrangeiros o tinha informado, logo no início da nossa visita oficial ao país africano onde estava colocado, que o seu próximo destino seria... um outro país africano. Curiosamente, um país onde, anos atrás, estivera já em posto por quatro anos.

Ter passado, em duas vezes, oito anos em África, com a perspetiva de um período idêntico numa capital africana onde já servira, aliás bastante distante de Portugal, era uma ideia que não agradava, compreensivelmente, àquele meu colega. Não obstante o grande interesse profissional dos postos, a vida em África acarreta quase sempre problemas específicos, pessoais e familiares, pelo que, muito legitimamente, ansiaria ter agora um outro destino geográfico. O ministro, contudo, não lhe dera qualquer alternativa.

À noite, no jantar na residência oficial do ministro africano que nos recebia, a conversa derivou, a certa altura, para a Revolução do 25 de Abril. Pedagógico, o ministro português explicou ao anfitrião, com algum detalhe, as motivações subjacentes à revolta contra Marcello Caetano. Dentre essas razões, elencou os problemas de carreira e as pulsões democráticas que atravessavam a tropa, para concluir: "Além do mais, os oficiais portugueses estavam cansados de fazer várias comissões de serviço em África".

Foi aí que se ouviu, num sonoro aparte em português, a voz do meu colega em posto: "Como eu os compreendo!". Dei uma gargalhada de solidariedade, cujo significado poucos entenderam, com exceção do nosso ministro. Do outro lado da mesa, o António sorriu.

segunda-feira, março 08, 2010

Música na Embaixada

O dia 8 de Março, dia internacional da mulher, foi ontem comemorado com um concerto musical na Embaixada.

A soprano Eduarda Melo (na foto), acompanhada pela pianista Joana David, apresentou a um público de cerca de 100 convidados um recital variado, iniciado por canções de António Ramos Rosa com música de António Pinho Vargas, seguidas de peças de diversos compositores - Debussy, Mozart, Puccini, Menotti, Bizet, Lehar, Britten, Cole Porter e Gershwin.

Foi a 6ª sessão do programa musical Entre Partituras/Entre Partitions, organizado pelo Instituto Camões/Embaixada de Portugal, que tem vindo a apresentar talentos portugueses em diversas áreas musicais.

Feiras & vaidades

Há dois anos, quando publiquei “Antes que me Esqueça”, sugeriram-me que, na feira do livro seguinte, lá estivesse umas horas, num dia a defi...