sábado, 27 de fevereiro de 2010

Títulos

Diverte-me analisar a construção dos títulos na imprensa. Os livros sobre jornalismo estão cheios de conselhos sobre a matéria, mas a realidade é que é a imaginação e a qualidade do tratamento do assunto que contam.

Alguma imprensa francesa, especialmente a menos convencional, procura explorar jogos de palavras e, muitas vezes, surpreende pelo brilhantismo. Outra, à revelia de belos tempos do passado, tem a "graça" de uma primeira página do "Novidades", de "A Voz", do "Diário da Manhã" ou do "Diário de Notícias" do tempo do (também) meu antecessor  neste posto, Augusto de Castro (para quem saiba o que esses jornais significavam).

Um bom título é um chamariz importante e já tenho visto crónicas, antecedidas de uma frase apelativa, na qual o autor começa por confessar que usou o título apenas para atrair o leitor, não tendo o texto nada a ver com ele...

Dizia-se que alguns jornalistas do semanário "O Independente", que marcou uma época na imprensa em Portugal, inventavam belos títulos e, depois, iam à procura de um assunto para encher a notícia.

Sendo que o rigor jornalístico parece hoje algo minoritário ou arqueológico, assistimos cada vez mais a verdadeiros atentados à deontologia. Um dos truques correntes consiste em transformar uma resposta de sim ou não, dada a uma pergunta inesperada e às vezes tonta e decontextualizada, num título, com uma frase que não foi, de facto, dita.

Querem um exemplo? Pergunte-se, por exemplo, ao presidente da TAP, se já voou numa companhia "low cost". Com toda a certeza, o engº Fernando Pinto  irá responder "não". Conheço pelo menos um certo jornal português que, sem a menor dúvida, iria puxar para título "Nunca viajei numa 'low cost'", com tudo o que isso tem de subliminarmente negativo. É isto sério? Não é, claro.

Mas há muitos outros "golpes". Um dia, em outras funções, dei uma longa entrevista a um jornal cuja seriedade era para muitos duvidosa. Apenas fui convencido por conhecer o jornalista, em cujo profissionalismo confiava. A entrevista correu bem e, se bem me lembro, o texto ficou irrepreensível. Mas nem tudo iria correr bem com essa entrevista. A certo passo, o jornalista perguntou-me se Portugal não pagava demasiado para o orçamento da União Europeia. Esclareci, num tom académico, que os países contribuíam de acordo com o seu PNB (produto nacional bruto), isto é, de acordo com a sua riqueza. Foi então que cometi um erro, ao ousar acrescentar uma ironia: até gostaríamos de pagar bem mais, porque isso significaria que éramos um país mais rico. O inevitável aconteceu: tive "direito" a primeira página, com grande fotografia, e a "citação": "Queremos pagar bem mais para a Europa!". Imagino a cara dos leitores...

5 comentários:

Margarida disse...

Estamos na máquina do tempo: nas televisões passam os entediantes pseudo entertenimentos de sábado à noite e chove. Acorda-se para esta noite que se espreguiça envolta em excessiva invernia e abre-se a maquineta que nos leva a todo o lado, sem sair daqui.
São vinte e três horas e escassos minutos do fim de um sábado corrido a vendavais e notícias impressionantes. Como ultimamente são quase todas as notícias e..., abre-se uma página já familiar e reconfortante, agora com o brilho do futuro: Domingo, 28 de Fevereiro...
À distância de um piscar de olhos, na sombra de um sorriso disfarçado, há outro dia.
Um novo dia.
Vamos ler - e escrever - mais.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
É verdade que alguma imprensa "vive" dessas "estórias". Mas, hoje, não é menos verdade que os políticos arranjam a notícia e os jornalistas vão à procura do título...

Margarida disse...

Sobre os títulos...
Em tempos de desmesurada solicitação e difícil concorrência, é um gesto de arte conquistar a atenção.
Há que ter espírito inventivo, sem fugir à verdade; e a verdade é que o que estava escrito foi dito.
Com ironia, em tempo verbal, numa inflexão e num contexto oposto àquele que foi traduzido?
Por certo, mas depois de lida a entrevista, seguramente que os leitores avaliaram o real espírito do entrevistado, bem como a afoiteza ‘criativa’ do entrevistador.
E o jornal lá conseguiu escoar mais uns exemplares.
Os tempos vão difíceis para as publicações, que nos prendem, além das parangonas, com extras nem sempre úteis ou interessantes.
Do que se chama à capa ou do que se reproduz polemicamente, sobram as interpretações e o espírito crítico.
“les jeux sont faits…”
Os entendimentos são sempre individuais e sujeitos a rectificação e ao contraditório.
E este, ao ser espicaçado, não pode depois escusar-se.
O tom académico é venerando excelência, mas o povo adora é circo.
Habituemo-nos.
;)

Guilherme disse...

Jornalismo, notícias e títulos em manhã de domingo, são pano para mangas. Um jovem faz o 12º ano, vai para a universidade como qualquer outro, tira um curso como qualquer outro, arranja um emprego como qualquer outro, e a partir daí adquire um direito mais importante do que todos os outros - o direito de dizer (ou escrever) literal e impunemente o que lhe apetecer, sem respeito pela verdade, sem respeito pela carreira, pela privacidade ou pela própria vida de quem escolhe como alvo.
E ai de quem reagir contra este tipo de clara prepotência mediática. Será de imediato erguida a bandeira da liberdade de expressão, e o autor acusado publicamente com o próprio pau (entenda-se simbolicamente) da fantasmagórica bandeira da censura.
Falou-se recentemente em calar ou querer calar alguma imprensa. E a outra imprensa, fez coro. Como se a comunicação fosse "calável", como se a imprensa de hoje tivesse o impacto e a importância dos periódicos de há um século, fonte única da informação total. Como se nós, leitores, não soubéssemos que esta coisa da Internet existe. Como se não houvesse emails, Blogs, Youtube ou Face Book. Mas parece que ainda há quem não saiba ou não os saiba usar, como se estivéssemos ainda no tempo do "slow-mail".
Provavelmente ainda antes do tempo da outra senhora, ainda antes de ser criado o direito de resposta, um certo entrevistado, descontente com a forma da publicação da sua entrevista, escreveu ao Diretor do jornal manifestando o seu desagrado, e terminando mesmo com uma ameaça:
- a partir de hoje, deixo de comprar esse jornal! Vou continuar a lê-lo, mas peço-o emprestado!
Um abraço e bom doingo

Ana Cortez disse...

Sempre gostei de jornais (sou suspeita). Mas gosto especialmente daqueles em que, além números e popularidade (não sejamos ingénuos, a sociedade da informação é, hoje, um mercado), a primazia é dada à competência de bem informar, de bem escrever. Com veracidade e integridade, claro está.
Estará mesmo?...

Há alguns meses atrás, foi-me pedido um artigo de carácter informativo para determinado jornal diário. Ora, não só o texto foi fragmentado e interpolado com afirmações alheias, como utilizado sem quaisquer aspas ou referência de autoria sempre que ao jornalista aprouve. Mas, mais grave ainda, foi desvirtuado nas informações que pretendia fornecer aos leitores. O resultado foi uma pérola de incoerências e incorrecções, que não só induziu em erro todos os que o leram, como deixou perplexos todos os que estimam a obediência às regras do português.

Convém no entanto realçar que, felizmente, existem ainda grandes profissionais do jornalismo e da arte informativa, autênticos privilégios de leitura, fomentação crítica e conhecimento. Que não se percam, por favor!...