quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A Casa de Saud


O caso do jornalista saudita, barbaramente assassinado no consulado do seu país em Istambul, recorda-nos os extremos impensáveis a que a violência de Estado pode chegar. E convida-nos a refletir sobre o estatuto de impunidade de que certos países têm vindo a usufruir na cena internacional.

É um segredo de Polichinelo o terrível panorama dos Direitos Humanos em algumas monarquias do Golfo, em especial na Arábia Saudita, país a que igualmente a ninguém passa pela cabeça exigir um mínimo de respeito pelas regras básicas de gestão democrática, quanto mais a observância dos preceitos do Estado de direito, como a separação de poderes. O medievalismo institucional que por ali se vive é, de há muito, uma espécie de dado adquirido e praticamente incontestado, salvo quando a pressão mediática obriga a atenção, geralmente em face de algum arbítrio cometido contra cidadãos estrangeiros. Cortar mãos a ladrões, chicotear prisioneiros ou fazê-los desaparecer, bem como outras barbaridades similares, parece serem práticas entendidas como fazendo parte de uma espécie de excecionalidade cultural. Sublinhe-se que nem todos os países do Golfo se comportam da mesma maneira, sendo a Arábia Saudita o caso mais marcante pela negativa.

Com o anunciado recuo físico dos Estados Unidos da região, os sauditas, que vivem num histórico pânico estratégico face ao Irão, só atenuado ao tempo do equilíbrio armado Irão-Iraque, foram levados a concluir que têm de assumir rapidamente a liderança da sua própria defesa e mesmo tomar a ofensiva em zonas de confluência de poderes, como é o caso do Iemen. Barack Obama tinha deixado claros os limites da complacência da América de então, e todos recordamos o ambiente gélido com que saiu, pela última vez, de Riade. Trump, pelo contrário, sem os pruridos do seu antecessor, usou a orfandade saudita para anunciar vendas fabulosas de armamento, sob o aplauso de Israel, objetivamente e de há muito o grande aliado da Arábia Saudita na região.

A “Casa de Saud” tinha, nos últimos tempos, tentado “vender” uma nova imagem, “modernizante” – expressão que no Golfo é usada para aplaudir qualquer mínima abertura no ambiente concentracionário que ali se vive, de discriminação e desrespeito pelas mulheres e minorias. O novo príncipe, designado mediaticamente por uma sigla, passeava-se de jeans e era parceiro dos familiares do presidente americano. Só que, por detrás das aparências, havia a realidade e essa, ao que agora se sabe, é sinistra e violenta. Algum mundo reagiu. Até quando?

6 comentários:

Anónimo disse...

O erro do Irão é opor-se a Israel. Sem isso seriam quase uma Turquia.

Joaquim de Freitas disse...

A falta de protesto internacional contra a guerra no Iémen e o envolvimento dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido como aliados da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos podem explicar um dos mistérios da morte de Khashoggi.

Se os Sauditas assassinaram Khashoggi, por que acham que podem agir sem provocar um clamor internacional? Sem dúvida, porque, tendo cometido atrocidades muito piores no Iémen, pensaram que poderiam gerir sem dificuldade um clamor sobre o desaparecimento de um só homem no consulado Saudita, em Istambul.

Trump simplesmente sublinhou a necessidade de manter boas relações com os Sauditas por causa do contrato de armamentos de 110.000.000.000 dólares.

Quanto a Blair disse que a Arábia Saudita deve conduzir uma investigação e dar explicações, porque senão seria totalmente contrário ao processo de modernização.

Mas de tudo isto o que choca, além do crime, é a imensa hipocrisia do Ocidente, que não ousa tocar nos seus aliados na região, e não é somente a Arábia Saudita mas também os Emirados Árabes Unidos (EAU), grandes clientes das fábricas de armamento.

Só na França, 160 000 empregos dependem dessa actividade de morte. Os valores do Ocidente passam em lucros e perdas !

A coalizão massacra impunemente no Iémen milhares de pessoas, e sobretudo faz morrer de fome muitas crianças, bombardeando deliberadamente os fornecimentos e distribuição de alimentos, no momento do desembarque, além da destruição de 250 barcos de pesca, reduzindo de metade o volume da pesca, afim de esfomear o povo, para ganhar a guerra.

Anónimo disse...

A minha pergunta é esta: recentemente, circularam notícias da decapitação de uma "ativista", apelando à indignação geral por mais um caso de violência contra as mulheres. Afinal, eram notícias falsas. Aqui, no entanto, a notícia é bem verdadeira e mete mais do que cortar a cabeça. Pergunto: é legítimo iniciar uma campanha indignada contra a violência aplicada aos homens?

Anónimo disse...

O Embaixador concorda por outro lado que qualquer um que roube em Portugal tem pena suspensa, e pode repetir o mesmo roubo 100 vezes que leva pena suspensa?
E aqueles que lesam o Estado em milhões também levam pena suspensa?
É caso para dizer que em Portugal o crime compensa.
Para aqueles lados pelos vistos não pensam assim

Anónimo disse...

Na Arábia quem não gosta da dinastia fica sem Saud
Fernando Neves

Anónimo disse...

é o mesmo que vai acontecer no Brasil, caro Fernando Neves!...