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terça-feira, outubro 16, 2018

Há um ano


15 de outubro de 2017, domingo. O telefonema surgiu ao final da tarde: um familiar, bastante doente, acabara de falecer, numa cidade do norte. O funeral seria no dia seguinte. Com duas outras pessoas, parti de Lisboa, pela A8/A17. O tempo estava abafado, muito quente, ventoso. A espaços, começámos a observar clarões, visivelmente de incêndios, num horizonte que, progressivamente, se foi aproximando de nós. Liguei a rádio: música e conversa fiada. A certo ponto, perto da zona do pinhal de Leiria, as chamas aproximavam-se da estrada. Uma viatura de assistência corajosamente ali estacionada dizia para abrandar, mas a vontade era acelerar, para tentar fugir logo daquilo. Senti o vidro do meu lado a aquecer, embora as chamas estivessem bem para além da faixa de rodagem contrária, mas não falei disso a ninguém. Subitamente, porém, vimo-las já do outro lado da estrada, isto é, do nosso lado. Só podíamos prosseguir, ziguezagueando às vezes um pouco, com algum risco, para fugir ao calor das matas ardentes que dava a ideia que iam cair sobre a estrada, com as chamas arrastadas pelo vento. Havia faúlhas incandescentes, que pairavam à nossa frente. O ar adensava-se já dentro do carro, com forte cheiro a queimado. Comecei a ver a inquietação subir nos meus parceiros de viagem. A certo ponto, porém, durante algum tempo, as coisas deram ar de estar a acalmar. Haveria incêndios mais a norte? A rádio, repito, continuava na sua inconsciência lúdica. Não passaram, contudo, muitos mais quilómetros quando, de novo, em dimensões que iam variando mas não diminuindo, novos fogos iam surgindo. A ideia, sugerida por alguém, de comprarmos água, numa estação de serviço, num espaço que parecia menos afetado, depressa foi abandonada: o que era preciso era sair daquela zona, tão rapidamente quanto possível. Foi então que, de um momento para o outro, como se as coisas não estivessem já muito preocupantes, tudo se agravou imenso. Dos dois lados da estrada iam surgindo, em ritmo galopante, novos fogos, soprados por ventos, que se aproximavam dos carros, num baile vermelho, imprevisível e de quase terror. Eu tentava gracejar, no meio dos nervos, “explicando” que se havia cenário para utilizar o termo “dantesco”, usado pelos jornalistas sem imaginação, era mesmo aquele. Mas começava a haver fumo por todo o lado, o ambiente tornava-se dificilmente respirável, os vidros escaldavam, comecei a temer pelo estado dos pneus. Conduzia já com escassa visibilidade, com os outros carros por bem perto, agora com um forte receio de bater noutra viatura. Se houvesse um acidente, impeditivo de prosseguir, que nos aconteceria? Eu fazia das tripas coração, tentando transmitir uma confiança que não tinha, a quem ia comigo. A falta de informação da rádio continuava angustiante. Sair da estrada, numa próxima oportunidade, podia ser uma solução ou condenar-nos-ia a um destino idêntico ao das pessoas que, em julho, tinham morrido num túnel de fogo numa via secundária? Que estradas não estavam então utilizáveis? Sem o deixar transparecer, comecei a ficar já sem saber bem o que fazer, temendo que continuar na auto-estrada deixasse de ser uma opção sensata. Foi então que, finalmente, uma milagrosa brigada da GNR nos travou o caminho e indicou uma saída, na direção de Vagos. Eram, contudo, muitos os carros que por ali iam sendo encaminhados, andando a imensa fila num ritmo muito lento, às vezes com largas paragens, que nos deixavam inquietos, não fosse o fogo aproximar-se. Isso não veio a suceder, felizmente. Demos uma grande volta, mas lá conseguimos atingir um caminho seguro, sem fogos. Chegámos muito tarde ao norte. Vivos. No dia seguinte, um dia triste por razões de morte, o cheiro a queimado, impregnado no carro, recordava a angústia da véspera. Que noite! Não vou esquecê-la nunca!

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