segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O Brasil não é linear


O Brasil é, por estes dias, um país estranho. A divisão esquerda-direita, que faz as delícias da caricatura política pela Europa, não funciona por lá exatamente da mesma forma, no instante do voto. E na memória das pessoas.

Vou contar um episódio passado em Salvador da Bahia, em 2006. Numa reviravolta política que, à época, pareceu surpreendente para muitos, o PT tinha acabado de ganhar, na pessoa de Jacques Wagner, o governo do Estado, simultaneamente com a reeleição de Lula para a presidência da República. O anterior governador, Paulo Souto, fora copiosamente derrotado. Ele era, a nível local, a face mais evidente da força de um grande “cacique” político, António Carlos de Magalhães, conhecido por ACM, que acabara de sofrer talvez a sua maior derrota política.

ACM era uma figura muito polémica. Fora um “filho” da ditadura militar, membro da Arena, o “partido” dos militares, que a democracia viria a converter em PFL e, depois, no DEM, que hoje existe. ACM era tudo isso mas, para nós, fora sempre um amigo de Portugal, fiel em momentos difíceis. E o embaixador português, nesse momento de derrota do velho político, não podia esquecer isso.

Nessa manhã, o novo governador, o “petista” Jacques Wagner, dera-me uma receção de luxo - aliás, portar-se-ia impecavelmente connosco, ao longo do período do seu mandato em que com ele coexisti. No final do encontro no palácio do governo, não longe do aeroporto, onde o fui cumprimentar, escassos dias depois da sua retumbante vitória (eu queria ser o primeiro embaixador a fazê-lo), deixei as coisas bem claras: “Gostava que soubesse que, esta noite, no hotel Convento do Carmo, onde ficarei, vou oferecer um jantar a ACM. Sempre foi um bom amigo de Portugal e nós não esquecemos isso”. Wagner olhou-me, da sua barba quase cubana num perfil sereno de burguês, e comentou: “Faz muito bem, embaixador. O ACM é um político que faz parte da história do Brasil. Teve a gentileza de me ligar na noite das eleições. Eu era amigo do seu filho, o Luiz Carlos, que morreu. Um destes dias, vou encontrar-me com o ACM. Preciso de conversar com ele”.

Nessa noite, a jornalista Maria João Avillez, que por acaso estava na Bahia, testemunharia a confirmação que ACM me fez da amizade e respeito entre o seu filho e Jacques Wagner, por cima da política que os dividia.

Continuei depois a viagem para o hotel, no carro do governo. O motorista era um homem bem disposto, com quem fui trocando impressões sobre a vida, sobre Salvador. A certa altura perguntei-lhe: “Está contente com a vitória do Lula?” O presidente tinha acabado de ser reeleito, com uma forte votação na Bahia. “Muito! O Lula é excelente! É um grande presidente. Vai fazer muito pela Bahia”. Continuávamos pela estrada que nos levava ao centro da cidade, com muita obra de infraestrutura à vista. E não resisti: “E o ACM? O que é que as pessoas, aqui na Bahia, acham do ACM?” A pergunta ia em claro contraciclo do elogio que o homem acaba de fazer a Lula, adversário jurado do político baiano. Mas eu é que estava equivocado, porque, para ele, a resposta era muito simples: “O ACM? Foi ele quem nos deu tudo isto! O ACM foi um grande homem. Devemos-lhe muito!” E continuou a conversa.

Hoje, o “Público” cita um alegado familiar de Francisco da Costa Gomes a dizer: “O que temos devemos aos militares”. Partindo do princípio de que não estava a falar do apelido comum, mas da herança da clique fardada que deu ao país mais de vinte anos de ditadura, só podemos concluir que, em política, o Brasil está longe de ser um país linear.

10 comentários:

Anónimo disse...

Tem que ter a gentileza de informar que o estado da Bahia é um microclima social e politico no Brasil. O Brasil é um país grande, e o que se passa no Nordeste e no litoral Norte não é necessariamente o que se passa no Sul, que, por sua vez… etc.. O ACM foi o último grande representante do coronelismo paternalista da região. Uma sugestão: fica-se a saber mais do estado da Bahia lendo (ainda agora) o Jorge Amado, particularmente o Gabriela Cravo e Canela, do que dezenas de análises politicas.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 17:32. Um post num blogue é isso mesmo e nada mais. Não pretende ser uma lição de política, é um relato pontual que vale apenas aquilo que cada um quiser que valha. A única coisa que se lhe exige é que não falte à verdade, senão terá que explicitar-se que se trata de ficção.

Joaquim de Freitas disse...

O anónimo das 17 :32, tem razão quando escreve, que “o estado da Bahia é um microclima social e politico no Brasil. O Brasil é um país grande… »

A História ensina-nos que nos EUA, também existiu, numa certa época, um “microclima social e politico” no Sul desse grande país. Mas não era o mesmo que na Bahia. Era o país do Ku Klux ,Klan, que incendiava cruzes nas noites negras de Alabama , como ainda hoje, e enforcava Negros nas árvores da região , porque eram Negros.

Quando leio a propaganda, neste momento, no Brasil do Sul, (Vamos matar toda essa pretalhada”), é exactamente o que promete Bolsonaro aos Negros brasileiros e a todos os que são “diferentes”.

Quero dizer, que o “microclima” social e político que se vê no Brasil do Sul, se lhes deixam o caminho livre no dia 28 de Outubro, criará as condições que justificariam que aparecesse um dia, um Lincoln brasileiro para combater esse “microclima doentio”, mesmo ao preço duma guerra civil. Que de qualquer maneira rebentará um dia ou outro, sob a forma duma ditadura feroz.

Como escreve o Senhor Embaixador, o Brasil não é linear. E os “microclimas” também não. O que é linear no Brasil são a corrupção e a miséria endémica, o racismo e o obscurantismo da maioria do povo brasileiro, que ainda crê nos “Messias”, para o grade prazer da burguesia, que quer continuar a ter “nounous” e “boys” baratinhos e servis.

Conheço um pouco a Bahia. Bolsonaro e a sua matilha, o que detestam é algo que os ultrapassa e que existe na Bahia , mas que gostariam de extirpar. Mas para isso seria preciso matà-los todos…

A alma negra ocupa todo o subconsciente do país, incluindo o dos brancos. Os escravos negros do Brasil conseguiram impor a sua identidade psicológica e cultural. É a atmosfera na qual a identidade brasileira banha. A África respira-se talvez mais na Bahia que no resto do Brasil, mas é omnipresente.

Os brancos vão até dar o nome de Yemania a uma cadeia de supermercados! A deusa Yoruba do mar.

Os brasileiros comem, vestem-se, dançam o samba, cantam e ouvem música negra, lêem poesia e frequentam o candomblé. Os negros do Brasil não são uma comunidade como nos Estados Unidos, onde tiveram que reivindicar uma identidade histórica e cultural. e lutar para existir. E ter um Kennedy para lhes dar os direitos aos quais aspiravam. E que talvez lhe tenha custado a vida.

Só que, esta realidade não se traduz nos campos económicos e políticos, onde os negros não estão presentes. Foi o facto de que eles foram capazes de marcar a identidade nacional que os levou a acreditar que não há razão para serem mantidos afastados da riqueza nacional.

E isso, Bolsonaro e a classe que representa, não aceitarão. Antes matà-los.

Anónimo disse...

Já por aqui escreveu algumas vezes que a Direita brasileira beneficia a relação com Portugal (por oposição à Esquerda, contaminada por teorias sociais radicais - palavras minhas). Ora, era bem interessante ver a sua opinião sobre o facto de demasiadas pessoas no topo da nossa classe política estarem a comprometer-se (e, quiçá ao país), com opiniões virulentas sobre o indíviduo que vai liderar a nação-filha (essa de irmã, é treta).

Posso estar enganado mas até o PR já falou demais (OK... é o costume). Quando Bolsonaro for eleito, o que fará a nossa diplomacia? Ostracizará o Brasil (como nunca fez com Angola, claro), "entregando-o" aos nossos rivais espanhóis e franceses?

Se eu tiver direito a um disco pedido, gostaria que tocasse este.

Anónimo disse...

Caro Embaixador, não precisa de estar na defensiva. Eu apenas quis explicar uma certa coisa, nada mais. E é claro que um post num blogue não pretende ser lição de nada.

Junior will disse...

Vamos para uma nova era, pela graça de Deus. Quem manda agora é o PSL, que os brasileiros com sua força, fé e uma grande dose de humor já trocou o nome da sigla PSL = País Sem Lula.
O Messias está chegando Aleluia Glória a Deus!!!!

Anónimo disse...

infelizmente os nordestinos votam errado, depois vem para São Paulo, no primeiro pau de arara. São Paulo já é o estado que tem mais nordestinos, que toda a região nordeste.

Anónimo disse...

um português dando uma aula de socialismo geringonça a um brasileiro estúpido, sem noção e desorientado.

https://www.youtube.com/watch?v=-FluaJ5Bfco&feature=youtu.be&fbclid=IwAR1y_UiJxlT1sghm4lvFlpi59Xg7_zzf24J0BeBuakdAw_OcgT4hoW9fYM4

Anónimo disse...

"O Messias está chegando Aleluia Glória a Deus!!!!"

-I wish I was born in Saudi Arabia- said the guy, and suddenly passed an UFO with a mother of saint at its top.

Há o racionalismo, há o empirismo e cada vez mais parece haver uma terceira via, que das duas anteriores nada herda.

Anónimo disse...

Só uma precisão: o mencionado artigo do Público diz que o senhor Costa Gomes brasileiro é neto do General Costa Gomes. Contudo o general Costa Gomes, que apenas teve um filho sem descendência, não teve qualquer neto...