domingo, 28 de outubro de 2018

Cai na real, pá!


Um dia, tive de explicar a uma alta figura de Estado portuguesa que havia uma assimetria inescapável entre o modo como alguns portugueses olhavam o Brasil e a notória indiferença com que muitos milhões de brasileiros - cujos avós vieram de Aleppo ou da Pomerânia, e não de Freixo de Espada à Cinta ou de Almodovar - reagiam quando o nome de Portugal vinha à conversa. Para aqueles, Portugal é frequentemente o país em que, com estranho sotaque, “também se fala português”, de onde um dia chegou “seu Cabral”, o país que lhes levou o ouro, trouxe os escravos e deixou os vícios, e que, depois, produziu um patusco rei “fujão” que gostava de pernas de galinha, cujo filho devasso deu no Ipiranga o grito da sua independência, antes de se recolher de vez à tal “terrinha”, de onde ainda haviam de chegar carradas de “manueis” e “joaquins”, que eram em geral padeiros e tinham um jeito estranho de entender o que se lhes contava. Goste-se ou não, Portugal ainda é mais ou menos assim para muitos brasileiros.

Portugal, por seu turno, nunca se “descolonizou” totalmente do Brasil. Historicamente, olhou a grande colónia feita país como uma “jangada de pedra” a afastar-se de si, mas caiu na ilusão de pensar que por ali ficava uma espécie de “filho”, levando à conta da rebeldia adolescente deste alguma lusofobia recorrente. Foi assim que, depois, se espantou com a distância sobranceira com que, muitas vezes, este resistiu ao abraço afetivo, a cordialidade seca com que ia aceitando o gongorismo retórico criado em torno de uma comunidade de língua que era portuguesa e que, por alguma razão, não era brasileira. Por muito tempo, os portugueses acharam que percebiam o Brasil, porque simplificaram que o Brasil era uma espécie de Portugal otimista e descomplexado, com vida fácil e alguma dose de loucura saudável no posto de comando. E foram olhando aquela terra do outro lado, sempre com curiosidade, às vezes com interesse, outras com preconceito.

Nestas eleições, ao que se vê por aí, os portugueses também “votam”. A maioria parece que detesta Bolsonaro, pelo inegável primarismo, quase caricatural, da figura. E dando razão à “síndroma Gorbachev” - quando o exterior gosta mais de um líder do que os nativos - muitos conservam ainda uma imagem positiva da obra de Lula, um presidente que, além disso, deixou a ideia de ter sido simpático para Portugal, ao contrário de Dilma, vista como uma espécie de mestre-escola de esgar cínico. No Portugal que se interessa pelo Brasil – mesmo o que percebeu a tragédia da insegurança, o efeito Venezuela, o cansaço da corrupção -, muitos ainda não entendem por que razão o país se afastou afetivamente de Lula, mostrando agora vontade de se entregar nas mãos de um demagogo populista. Isso talvez aconteça porque, lá no fundo, alguns acham que o patrimonialismo é um vício endémico do sistema público brasileiro e que condenar Lula por tê-lo adubado mais não é do que um exagero com forte viés político.

O Brasil que hoje existe no Brasil parece assim já muito distante do Brasil que alguns portugueses alimentaram no seu imaginário. Só que as coisas são o que são e os portugueses ouvem, cada vez mais, os seus amigos brasileiros - os que estão tristes e os que estão contentes - dizer-lhes: “Cai na real, pá!”.

12 comentários:

Anónimo disse...

Lido com interesse.

Despacho:

A última frase.....estragou tudo pois o "pá" deu-nos a entender que quem o escreveu tem ainda uma visão do mundo dos anos 75.
Porque felizmente o tempo passou.......

Seria deferido se não tivesse terminado assim.

Anónimo disse...

Ficou, de facto um filho. Que ele não goste de ir a casa do pai, ao domingo, isso é outra coisa. Agora, que o Brasil é o único filho de Portugal, isso é indesmentível.

A Inglaterra teve vários: os EUA, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia. Países nascidos dos seus genes, com gente que era a sua e cuja cultura, na essência, reflete as das ilhas britânicas. Ainda hoje, nos EUA, muitos símbolos oficiais ostentam referências ao Reino Unido (veja-se a bandeira do Hawaii, por exemplo).

Da Espanha também nasceram o Uruguai e a Argentina.

Essa de "países irmãos" é uma coisa inventada para nivelar orgulhos.

Nós só temos um povo irmão: o galego.

Anónimo disse...

A ver na Netflix: O mecanismo.

Anónimo disse...

Com "pá" ou sem "pá"... a realidade está aí!

Joaquim de Freitas disse...

Os Franceses fizeram a sua Revolução há duzentos anos, em 1789. -1799.
(Mais ou menos à mesma época o Brasil fazia a sua Revolução, obtendo a Independência, resultado indirecto da Revolução Francesa que levou as tropas de Junot até Lisboa, provocando a fuga do rei para o Brasil.)

A Revolução Francesa foi originalmente uma revolta popular contra o poder absoluto do rei e contra os privilégios e riquezas da elite e foi perpetrada em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

Foi um período de agitação ideológica, política e social na história política da França e da Europa como um todo, durante a qual a política francesa, anteriormente uma monarquia absoluta com privilégios feudais para a aristocracia e o clero católico durante a idade média, sofreram mudanças radicais nas formas baseadas nos princípios do Iluminismo do republicanismo, da cidadania e dos direitos.
(No Brasil, os privilégios não só não foram abolidos mas aumentaram, nas mãos duma burguesia dominante)

Causas da Revolução: Factores económicos:

+ Situação económica fraca e uma dívida nacional incontrolável, causada e exacerbada pela carga de um sistema de tributação grosseiramente desigual.

+ A Igreja Católica Romana, o maior terrateniente do país, que cobrou um imposto áspero sobre as culturas conhecidas como dîme. Embora a diminuição tenha diminuído a gravidade dos aumentos de impostos da monarquia, no entanto, isso contribuiu para piorar a situação dos mais pobres que enfrentaram uma luta diária com a desnutrição. (No Brasil, o comportamento dos grandes latifúndios, produz o mesmo resultado.)

+Consumo conspícuo da classe nobre, (que podemos comparar à grande burguesia brasileira) apesar dos encargos financeiros e à miséria daa população.
+ Alto desemprego e altos preços do pão, fazendo com que mais dinheiro seja gasto em alimentos e menos em outras áreas da economia;
+ Fome e desnutrição generalizadas, o que aumentou a probabilidade de doença e morte e fome intencional nos segmentos mais desprovidos da população durante os meses imediatamente anteriores à Revolução.

No Brasil, podemos acrescentar a corrupção secular, a violência e a miséria endémica.

Ao ler as diatribes de Bolsonaro, no Brasil, e se este fosse um homem de cultura, diria que leu ou foi aconselhado por Descartes.
Descartes não se sentiu atraído pela confusão da democracia ateniense, mas, em vez disso, tomou Esparta como modelo.
Ele disse que a grandeza, de Esparta, “não se deveu à preeminência de cada uma de suas leis em particular … mas a circunstância de que, originada por um único indivíduo, todos tenderam a um único fim”.

O objectivo não era criar uma sociedade baseada em leis que garantiam a liberdade das pessoas para prosseguir seus próprios propósitos legítimos. Em vez disso, era criar uma sociedade em que todos seguissem os objectivos determinados pelo governante.
Não estamos longe do estabelecimento e a aceitação de uma regra ditatorial muito provável.

A votação de hoje, no Brasil, vai ditar o seu futuro. Se o resultado for o que todos os democratas receiam, vou ler de novo Rousseau, e imaginar a vida dos Brasileiros nos próximos anos.

Rousseau foi o filósofo político mais influente da França. Ele acreditava que os seres humanos nasciam sem pecado, mas eram corrompidos pela sociedade. Isso contrastava com a visão tradicional cristã de que as pessoas nascem egoístas e precisam ser socializadas em bom comportamento pela família e outras instituições sociais.

Rousseau pensou que tudo o que é necessário para que as pessoas percebessem seu potencial humano completo era mudar as condições sociais. O agente para conseguir essa perfeição é o governo. Para iniciar este processo, todos na sociedade devem inscrever-se para um novo contrato social.

A França, com os seus 65 milhões de habitantes, é hoje a quinta potência mundial, apesar de duas guerras mundiais.

O Brasil, potencialmente imensamente rico, com os seus 210 milhões de habitantes, ainda não saiu do obscurantismo do XV° século, e corre o risco, amanhã, de cair no caos.

Anónimo disse...

Acabo de falar com dois empregados brasileiros no restaurante onde costumo ir. Um é pardo, o outro, mestiço. Ambos, se votassem, dariam o voto a Bolsonaro.

A razão, é simples e dolorosa: a coisa já não se aguenta. Foram longos minutos a contarem os azares seus e das famílias. "Já assaltaram a minha mãe quatro vezes com arma apontada à cabeça. O Bolsonaro foi militar e vai saber tratar disso.".

Quando se bate no fundo (se bem que, ali, nunca se perceba bem onde ele está), qualquer coisa serve.

Anónimo disse...

@ Sr.De Freitas

Esqueceu-se de indicar o esforço financeiro e humano, efectuado por Luís XVI para ajudar a indepedência da América do poderio da Inglaterra. Essa mesma que incentivou de todas as formas possiveis a Revolução Francesa. São minudências mas foram importantes.

Luís Lavoura disse...

Exatamente, os portugueses precisam de "cair na real" de que o Brasil --- tal como Angola --- é um país estrangeiro e independente. Ao qual Portugal e os portugueses não têm o direito de tentar dar lições. Ou, se o tentarem fazer, vão ser duramente castigados por isso.

Anónimo disse...

Os portugueses o que tem a dizer, que o que ganhou com grande maioria no voto, não levou as eleições, e quem perdeu está no governo da geringonça. Quer dizer que não entendem nada para dar bitaco sobre eleições e candidatos. Tem um dito popular que vem bem ao caso aqui. "Em festa de jacu, nhambu não pia"

Anónimo disse...

Embaixador, concordo inteiramente consigo. Também já estive no Brasilma trabalhar por 3 vezes, a ultima das quais estive lá 4 anos. Muita gente em Portugal, acha que o Brasil é apenas aquilo que vê nas novelas aqui, ou pelos postais e fotos dos familiares que vão ao Nordeste á praia, onde apenas conhecem areia, mar e hotel. Outros acham que o Brasil é todo igual ao parente que imigrou para lá há 50 ou 60 anos. Mas agora vamos ter os Aiatolas do dizimo a mandar. Agora a Biblia vai passar a ser lei no Brasil. Pobre país e pobre povo que caminha para a escuridão total.

Rui C.Marques disse...

Como na canção,"Tanto mar!"...

Anónimo disse...

Anónimo de 29 de outubro de 2018 às 13:40, já leste o Crime do Padre Amaro????