É um lugar comum em algum discurso europeu dizer-se que não
soubemos lidar devidamente com a questão da Turquia e que o que hoje por lá se
passa, da deriva islamizante ao tropismo autoritário de Erdogan, com
gravíssimas consequências geo-políticas potenciais para o futuro do continente,
configura um cenário que poderia ter sido evitado. Dou por mim a repetir esse
mantra com regularidade, mas reconheço que raramente me interrogo sobre se as
coisas poderiam ter seguido um caminho diferente.
A Turquia foi um aliado essencial do ocidente durante a
guerra fria. A NATO e os EUA utilizaram-na como guarda avançada face a Moscovo,
porquanto era, com a Noruega, o único Estado-membro com fronteira com a então União
Soviética. Seria precisamente a importância do vetor militar no contexto do
país (que iria ter também forte expressão nas tensões com outro vizinho na Aliança,
a Grécia) que permitiu que as forças armadas aí desempenhassem, por décadas, um
papel de poder silencioso, a tutela por detrás do palco onde se digladiavam os
atores político-partidários.
No final da Guerra Fria, setores importantes da sociedade
turca manifestaram-se favoráveis a uma aproximação institucional com a Europa
comunitária. Esta demorou a perceber que o “timing” para uma resposta positiva
tinha um prazo de validade. Com efeito, os pró-europeus turcos sabiam que, à
diluição inexorável da tutela militar, corresponderia o recrudescimento daquilo
a que ela fazia frente: o avanço muçulmano na sociedade e nas instituições do
país. A “janela de oportunidade” começava a fechar-se.
Para a Europa, à época, a prioridade eram os antigos países
comunistas do seu Centro e Leste, aproveitando a fragilidade conjuntural da
Rússia. Daí a “pressa” da sua integração na UE e na NATO. Nesse processo, a UE
seria dotada de novos tratados, agora assentes na importância do fator demográfico
no processo decisório, por forma a preservar o poder dos grandes Estados e
anular o impacto da “multidão” de novos países a absorver. Ironicamente, se acaso
a Turquia entrasse nesse novo contexto, Ancara iria ficar no centro do poder em
Bruxelas, o que não era admissível para países como a Alemanha ou a França, com
esta última da “blindar-se” com a necessidade de um referendo de impossível
vitória no caso da entrada da Turquia vir a estar iminente. E, está hoje muito
claro, outros países se juntariam a essa recusa. Desde então, o processo de
adesão da Turquia é um patético “faz-de-conta” em que já nem os turcos acreditam.
A Europa recusou a Turquia, sem perceber o erro estratégico
que isso significou? Ela foi apenas incapaz de gerar, no seu seio, uma vontade coletiva
que permitisse uma solução institucional para a integração turca. Só isso.
Com a crise síria, com o eixo sunita a afirmar-se, a memória
de Ataturk e dos seus “jovens turcos” só sobrevive hoje no crescente autoritarismo.
No resto, é a velha Turquia em progressão, com Istambul a ser cada vez mais
Constantinopla.
(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")
