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domingo, setembro 06, 2015

O segundo mergulho de Marcelo


Foi em 1989 que Marcelo Rebelo de Sousa mergulhou num Tejo poluído para chamar a si alguma visibilidade, por ocasião da sua candidatura à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Como ele já explicou, embora à época fosse um cronista influente do "Expresso" e até antigo membro do governo, o professor não era a vedeta mediática em que os anos vieram a transformá-lo e os portugueses, mesmos os lisboetas, não o conheciam muito bem. Esse mergulho, tal como outras iniciativas pretendidamente inéditas, como guiar um taxi pela cidade, não lhe vieram a servir de muito: seria derrotado facilmente por Jorge Sampaio.

Neste fim de semana, assistimos a Marcelo a visitar a Festa do Avante. Dir-se-á que, no passado, já havia estado naquela feira, mas ninguém deixará de ligar esta visita, acompanhada por câmaras de televisão, em tempos de uma próxima eleição presidencial, a um gesto marcado por algum oportunismo. 

Marcelo (o facto de ser conhecido por "professor Marcelo" e não por "professor Rebelo de Sousa" é algo que deve ser ponderado) é uma figura única no panorama público português. À sua notoriedade corresponde um evidente registo de simpatia. Consegue ser popular sem ser popularucho, talvez porque o qualificativo de "professor", isto é, de alguém "que sabe" (ao que quer fazer parecer, sabe um pouco de tudo), introduza sempre uma certa distância face àqueles que o contactam e o ouvem. Ao encontrá-lo na rua, as pessoas sentem que está ali alguém que lhes entra pela casa dentro com regularidade, são naturalmente tocadas por uma espécie de distanciada intimidade, na sensação de que, no fundo, o conhecem, tantas vezes e tão obsessivamente o ouvem falar de tudo e de alguma coisa.

Será isso suficiente para o fazer eleger presidente da República? Melhor: será isso imperativo para que o PSD de Passos Coelho o venha a apoiar para essa aventura, sabendo, à partida, que, em caso de eleição, estaria longe de ter um "yes man" em Belém (também o não teriam com Rui Rio)? Depois da saída de cena de Santana Lopes, de um Rui Rio que continua a dizer coisas muito pouco marcantes, embora com ênfase quase artificial, o que não contribui para a fixação de uma imagem nacional sólida, Marcelo surge como alguém que todos achamos que já "conhecemos", pelo que parece ter a vida cada vez mais facilitada à direita - e, sejamos honestos, a cacofonia à esquerda também lhe está a "dar uma mão".

Mas, voltando ao princípio: no que me toca, ver um potencial candidato da direita a ir à Festa do Avante, para tirar umas "selfies" e ter um banho de abraços de camaradagem (no sentido mais "típico"), condiz muito pouco com a imagem que me apetece ter do presidente da República para o meu país. Mas eu não faço parte do eleitorado de Marcelo Rebelo de Sousa, pelo que o meu voto aqui nada conta...  

São todos iguais?

Ontem falei aqui dos cartazes políticos que se eternizam na paisagem. Não expliquei por que razão ninguém reprime isso, com fortes coimas ou...