Foi em 1989 que Marcelo Rebelo de Sousa mergulhou num Tejo poluído para chamar a si alguma visibilidade, por ocasião da sua candidatura à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Como ele já explicou, embora à época fosse um cronista influente do "Expresso" e até antigo membro do governo, o professor não era a vedeta mediática em que os anos vieram a transformá-lo e os portugueses, mesmos os lisboetas, não o conheciam muito bem. Esse mergulho, tal como outras iniciativas pretendidamente inéditas, como guiar um taxi pela cidade, não lhe vieram a servir de muito: seria derrotado facilmente por Jorge Sampaio.
Neste fim de semana, assistimos a Marcelo a visitar a Festa do Avante. Dir-se-á que, no passado, já havia estado naquela feira, mas ninguém deixará de ligar esta visita, acompanhada por câmaras de televisão, em tempos de uma próxima eleição presidencial, a um gesto marcado por algum oportunismo.
Marcelo (o facto de ser conhecido por "professor Marcelo" e não por "professor Rebelo de Sousa" é algo que deve ser ponderado) é uma figura única no panorama público português. À sua notoriedade corresponde um evidente registo de simpatia. Consegue ser popular sem ser popularucho, talvez porque o qualificativo de "professor", isto é, de alguém "que sabe" (ao que quer fazer parecer, sabe um pouco de tudo), introduza sempre uma certa distância face àqueles que o contactam e o ouvem. Ao encontrá-lo na rua, as pessoas sentem que está ali alguém que lhes entra pela casa dentro com regularidade, são naturalmente tocadas por uma espécie de distanciada intimidade, na sensação de que, no fundo, o conhecem, tantas vezes e tão obsessivamente o ouvem falar de tudo e de alguma coisa.
Será isso suficiente para o fazer eleger presidente da República? Melhor: será isso imperativo para que o PSD de Passos Coelho o venha a apoiar para essa aventura, sabendo, à partida, que, em caso de eleição, estaria longe de ter um "yes man" em Belém (também o não teriam com Rui Rio)? Depois da saída de cena de Santana Lopes, de um Rui Rio que continua a dizer coisas muito pouco marcantes, embora com ênfase quase artificial, o que não contribui para a fixação de uma imagem nacional sólida, Marcelo surge como alguém que todos achamos que já "conhecemos", pelo que parece ter a vida cada vez mais facilitada à direita - e, sejamos honestos, a cacofonia à esquerda também lhe está a "dar uma mão".
Mas, voltando ao princípio: no que me toca, ver um potencial candidato da direita a ir à Festa do Avante, para tirar umas "selfies" e ter um banho de abraços de camaradagem (no sentido mais "típico"), condiz muito pouco com a imagem que me apetece ter do presidente da República para o meu país. Mas eu não faço parte do eleitorado de Marcelo Rebelo de Sousa, pelo que o meu voto aqui nada conta...
