As eleições
não se ganham apenas com os votos dos militantes e dos simpatizantes ferrenhos.
PS e PSD têm, cada um, uma percentagem basicamente similar de votantes
garantidos (que alguns dizem rondar 22-25%, cada um). Essa quase metade do país
votante, em princípio, “não mexe”, não depende dos líderes que os partidos
tiverem, tem um estado de alma “clubista”. Não é a eles que se destinam as
campanhas eleitorais. Tenho a certeza de que muitos leitores, qualquer que seja
a sua “lateralização” política, reveem-se neste retrato.
Descontados os
votantes regulares em outros partidos menores, as campanhas são conduzidas com
vista a seduzir um número de pessoas bem inferior a metade do eleitorado, os
quais, como diz um amigo meu, “é afinal quem manda no país”. É a flutuação de
voto dessas pessoas, de quem se move alternadamente nas duas direções, que faz
a diferença: derrota uns e elege outros. É nestes “swinging voters” que estarão
os muitos indecisos que as sondagens revelam. Porquê tantos? Cada um terá a sua
explicação, eu tenho a minha.
Desde logo,
porque há muita gente que não quer reeditar a experiência deste governo e lhe
recusa o voto. Gente que não esquece o que se passou: os cortes a torto e a
direito, o desemprego, a emigração, a permanente instabilidade na sua vida e
dos seus, a arrogância, legislativa e não só. Gente que olha para o nível da
nossa dívida e, agora também, para o défice e, com razão, duvida que tenham
valido a pena os sacrifícios feitos. Gente que não compra o discurso de que
“Portugal está melhor, embora os portugueses possam estar pior”. Gente que
percebe que é a Europa que aqui induz esta aparente acalmia, vendida como
melhoria virtuosa. Gente que preferirá abster-se a votar nesta maioria.
Mas, se assim
é, por que é que essas pessoas não decidem optar pelo PS, a única real
alternativa à coligação?
Porque o PS,
causticado pela imagem de um passado, que um conjunto de fatores acumulados
impediu de explicar devidamente, optou por fazer uma campanha sem um mínimo de
demagogia, assente num grande sentido de responsabilidade. E na verdade. O
“cenário macroeconómico” e o programa do PS não trazem mudanças entusiasmantes?
Talvez, mas trazem políticas que rompem com a austeridade sem romper com os
compromissos e indiciam medidas para um futuro de crescimento. Medidas
quantificadas e não ideias vagas, como acontece do outro lado do espetro
político.
É aos
indecisos que cabe entender que, no dia 4 de outubro, mais do que uma eleição,
estarão perante um plebiscito: serão eles a decidir se querem repetir a experiência
de uma governação que lhes infernizou o passado recente ou se pretendem uma
mudança moderada, titulada por um líder com provas dadas, que recusa ser
“económico com a verdade”?
(Artigo que
hoje publico no "Jornal de Noticias")
