Há dias, procurando na internet dados sobre uma determinada pessoa, fui conduzido, num cruzamento de dados, a uma estranha autobiografia de um antigo colega da carreira diplomática, com quem aliás julgo que nunca me cruzei. Essa figura viria a ter um final de carreira algo atribulado, a contas com a Justiça, que não lhe terá perdoado o facto de ter colocado no mercado alguns passaportes que tinha a seu cargo e que acabaram por surgir nas mãos de cidadãos estrangeiros, que lhos terão comprado por avultadas quantias. O diplomata em questão foi devidamente condenado e passou algum tempo na prisão. Foi uma das escassas manchas de uma profissão honrada que, em geral, é constituída por pessoas de bem, com elevado sentido de serviço público. Por isso, o seu nome é, simultaneamente, para lembrar tristemente entre nós e para esquecer em público, como farei aqui.
Falo disso hoje apenas para notar uma das perversidades da internet: quem ler o texto auto-elogioso assinado por aquele meu ex-colega, e não conhecer o vergonhoso final profissional que teve, é levado a pensar estar perante um funcionário qualificado, com uma carreira merecedora de encómios, tanto mais que ele recheia o texto de prosápias em que ninguém da profissão o reconhece. E, naturalmente, essa tal figura, que nem sequer sei se ainda é viva, não diz uma linha sobre o período negro da sua vida, embora gaste laudas a alindar o seu estatuto nobiliárquico.
Este é um dos graves problemas do mundo informático: poder servir de veículo fácil à mentira e às fantasias.

Chico
ResponderEliminarPor simples acaso sei quem é o figurão. Por isso nunca te doam as mãos.
Por intermédio do meu falecido tio e padrinho de casamento Dr. (ele gostava de ser assim chamado) Afonso Henriques Antunes, do MNE, mas não diplomata, conheci muitos destas. E normalmente eram homens de bem.
Esse meu tio (da primeira fornada da licenciatura em Económicas) também fora secretário pessoal de um tal Esteves/Botas durante oito anos.
E tinha na sala de-visitas dele um retrato pintado em tamanho natural do gajo de Santa Comba... com moldura dourada.
Quando veio o 25 de Abril, o retrato foi retirado para a cave e, pelo sim, pelo não, voltado para a parede.
Dele (do meu tio, claro, não do tipo do retrato, figas, canhoto) guardo a afirmação em sussurro: "Que pena, hoje há uma quantidade "deles" que são "daqueles". E antes que eu disse alguma inconveniência (já bastara o que comentara sobre o "tal" retrato): Já sabes a que me refiro e como não gosto de usar palavras "feias"...
Bom homem, o Dr. Afonso Henriques - Antunes, licenciado pela ainda Escola Superior do Comércio... E muito bem educado.
Abç
o autoelogioso portas fez o mesmo com os vistos gold e não foi preso. mais uma vez história da velhinha/champô/pingo doce vs portas/submarimos/ prescrição.
ResponderEliminar"com quem aliás julgo que nunca me cruzei"
ResponderEliminarMuito bem. Nós cruzamo-nos COM pessoas. Não cruzamos pessoas, como é seu hábito escrever.
Também vi e concordo.
ResponderEliminarJPGarcia
Mal, Senhor Embaixador! Para que serve a "internet"? Para construirmos uma "persona", uma figura pública na rede social, que se interponha oportunamente entre nós o mundo. Tenho lido muito Kierkegaard aqui no Golungo e, desde que me vi rejeitado para o jantar de Natal que ofereceu generosamente aos seus amigos, decidi passar a criticá-lo sem piedade, a exemplo dos seus correctores gramaticais (salvé, anónimo das 10.58!), mas numa perspectiva mais filosófica.
ResponderEliminara) Feliciano da Mata, o peripatético do Golungo
O jantar «do Procópio» já passa por jantar oferecido pelo Embaixador aos seus amigos...
ResponderEliminarO comentário anónimo das 21.14 tem razão. De facto, na notícia de um jornal, com a qual obviamente nada tenho a ver, o jantar da Mesa Dois do Procópio (e não "do Procópio") surge titulado por mim, quando todos sabem que sou um mero organizador do repasto e, no tocante à tertúlia, sou até um frequentador relapso. Mas, já agora, podias ter assinado o comentário...
ResponderEliminarAinda conheci a criatura,que era um ser penteado e franzino,de postiça boa educação e usava um anel de brazão que lhe transbordava do dedo. Era na altura Secretario-geral o embaixador Themido ,muito maltratado no texto ,algo que nāo me repugna excessivamente, tendo sido vítima de uma sua "deslealdade", que envolveu essa grande figura da diplomacia a quem uma imaginativa colega, em Paris, chamava "o pépin de la vallée".
ResponderEliminarO que na época se murmurava pelos corredores das Necessidadesera que esse percursor dos vistos gold,que guardava para si a contrapartida do investimento,tinha sido denunciádo pelo seu sucessor no posto, quando este foi abordado por um visitante chinês que lhe disse vir buscar o passaporte e estarar ali o envelope,como combinado com o seu amigo Fuman Chu (nome fictício).Tendo a ďenuncia sido feita por escrito,com abundancia de provas credíveis e precedentes identicos encontrados nos arquivos do Consulado, não era possível varrer o assunto para debaixo do tapete. O que se dizia pelos corredores era que o SG tinha oferecido ao putativo delinquente a alternativa de ele abandonar a Carreira ou de se confrontar com uma queixa-crime. Ele teria escolhido a renuncia, acolhida com presteza e alvoroço. Mas alguém terá dito que a natureza de crime público do delito cometido vedava o seu apagamento, e avançou a queixa à Judiciária. Percebe-se a amargura que prepassa no texto/memória.