quinta-feira, dezembro 04, 2014

As fotos

Há bastantes anos, num momento complexo de uma negociação financeira europeia, em que a posição portuguesa era muito delicada, dei uma entrevista a um jornal diário. Foi um prestação relutante, pela sua oportunidade, só realizada dada a particular consideração que a jornalista que a solicitou me merecia. Acrescia o facto de estar engripado e com um pouco de febre. A conversa correu bem, mas, talvez talvez pela minha concentração, distraí-me e não atentei no deambular do fotógrafo pelo gabinete. No dia seguinte, ao olhar para o jornal, dei-me conta do texto ter sido ilustrado por fotografias em que surjo com um braço estranhamente cruzado sobre a testa e numa atitude facial que poderia significar quase desespero. A seleção feita pelo paginador privilegiou imagens que pretendiam ilustrar um tempo de "tragédia". Na realidade, apenas refletiam um entrevistado febril.

Recordo-me que a jornalista que fez a entrevista ficou desagradada e me pediu desculpa pelo modo como ela fora tratada pelo jornal, no que havia sido, objetivamente, um ato de desrespeito pouco consentâneo com um profissionalismo correto. 

Com um fotógrafo a passarinhar à nossa volta durante largos minutos, é impossível que ele não fixe instantes que, se isolados, podem parecer ridículos. Os nossos gestos não são controlados ao ponto de mantermos sempre a maior das elegâncias, particularmente se estivermos descontraídos a falar com alguém. Todos nós temos a experiência de eliminar, com regularidade, fotografias em que achamos que "estamos mal". Imagine-se agora que era feito um álbum nosso precisamente com a coleção dessas imagens...

Tenho-me lembrado disto ao observar as fotografias que os jornais escolhem, nos últimos dias, para acompanhar as reportagens sobre José Sócrates. É uma interessante ilustração do modo como a seleção das imagens, o caráter sombrio dos planos ou os esgares captados numa imagem de rua ou numa pausa de uma cerimónia, servem para transmitir uma nota subliminar, ligada ao sentido da mensagem que o texto pretende fazer passar. Sublinho que esta minha observação não tem qualquer sentido crítico. É perfeitamente natural que isto assim suceda, que as reportagens procurem, nos arquivos, os apoios de imagem mais adequados, mas isso não impede que ache interessante que saibamos "desconstruir" o modo como as nossas sensações são condicionadas.

4 comentários:

patricio branco disse...

tudo tem uma técnica, uma orientação, regras, truques, significados, no caso da entrevista teria sido de elementar colaboração o fotógrafo ter perguntado à entrevistadora que tipo de fotografia preferia, parece-me.
já no caso de sócrates, dado que não é um homem particularmente expressivo (com variedade expressiva) possivelmente aparecem as mais típicas, que conhecemos, ou as que mostram o homem preocupado.

Anónimo disse...

Muito aborrecido essa situação !

Estou muito entristecido. Deviam antes publicar a fotografia o Sr.Pinto de Sousa , mostra orgulhoso o certificado do mestrado obtido nas Ciences Pro, em Paris.

Anónimo disse...

Aquela fotografia, quando as duas "personalidades" acabaram a sua conferencia e há o tradicional aperto de mão, querendo transparecer que tudo correu e irá correr bem para o futuro próximo, é do melhor!... Depois temos as escolhas no arquivo para "vestir" o texto do momento!...
E assim é o teatro da vida!

Anónimo disse...

E quando fotografaram a biografia do Salazar no carro do Passos Coelho? Isso é que foi a malta de esquerda a cascar no fascista do PM!

A Europa de que eles gostam

Ora aqui está um conselho do patusco do Musk que, se bem os conheço, vai encontrar apoio nuns maluquinhos raivosos que também temos por cá. ...