Há uns meses, o país indignou-se com a tragédia do Meco e, por umas semanas, discutiu as praxes. Depois, com a cobardia das autoridades universitárias, tudo voltou mais ou menos ao mesmo. Deparei, há uns tempos, com um grupo de energúmenos (significativamente da mesma universidade) a humilharem colegas no jardim do Campo Grande, em Lisboa. Dias depois, numa noite chuvosa e fria de Viana do Castelo, assisti a práticas idênticas. Porque a violência, mesmo "consentida", é crime, senti-me tentado a chamar a polícia. Desisti da ideia, pela certeza da inutilidade do gesto.
Há dias, a televisão trouxe-nos o caso de práticas violentas ocorridas nos Pupilos do Exército, bem documentadas e sem margem para quaisquer dúvidas. Trata-se do quarto caso, em duas semanas. Há décadas que estas denúncias ocorrem, sempre seguidas de "rigorosos inquéritos" de cujos resultados ninguém mais ouve falar. Há como que uma aceitação tácita deste tipo de agressões, protegidas por uma espécie de "omertà" que silencia as crianças e protege os agressores, com muitos pais cúmplices dessa atitude.
É pena que a imprensa não siga este caso com atenção, não deixando que ele caia no esquecimento. É triste que a hierarquia militar se cale, por um aparente corporativismo castrense que a não dignifica. E se a Associação 25 de Abril, cujos membros tanto se bateram pela democracia, se interessasse pelo assunto, provando que a liberdade não se perde ao atrevessar a porta de armas das instituições militares?
