Por ocasião da saída do seu posto, os embaixadores escrevem, em geral, aos restantes colegas estrangeiros colocados na mesma cidade ou organização, cartas de um modelo tipificado, em que, para além de anunciarem a sua partida, fazem referência às "relações, tanto oficiais como pessoais" mantidas com os colegas, que sempre "refletem as excelentes relações entre os nossos dois países e missões". Acrescenta-se mesmo que foi "um privilégio e um prazer" manter esse relacionamento.
Verdade seja que estes salamaleques, que muitas vezes nada têm a ver com a realidade das coisas, são apenas almofadas de retórica que ajudam a tentar preservar a fluidez do relacionamento entre os agentes diplomáticos, para além de todas as conjunturas políticas. Como embaixador de Portugal, país que tem uma rede muito estável de relações externas, nunca senti necessidade de ser hipócrita ao assinar estas coisas, embora o gongorismo da carta assuma, em muitos casos, um evidente exagero em termos de proximidade no relacionamento. Casos há em que nem me lembro bem da cara do colega, quanto mais da "excelência" das relações com ele mantidas. É que estamos a falar de cerca de 300 pessoas, somados os embaixadores bilaterais em Paris com os da UNESCO. Como, em relação aos mais próximos, é de bom tom deixar uma palavra adicional à mão, fácil é perceber o tempo gasto. Já tive de mudar de caneta...
(Diga-se que os meus colegas estrangeiros que são embaixadores junto da UNESCO devem estar um tanto perplexos: contando desde fevereiro de 2009, o meu sucessor irá ser o quinto chefe de missão português que vão conhecer. Em quatro anos!)
Mas, hoje, a curiosidade deste tipo de cartas prende-se apenas com facto de uma das que assinei ter sido dirigida a Charles Aznavour. É que ele é o embaixador da Arménia junto da UNESCO. "Et pourtant", nunca o cruzei nos corredores da organização ou em alguma reunião. Fica a ideia de que dá apenas o nome e muito menos a honra da sua presença. Mas não deixei de achar graça ao facto de ter tido o ensejo de me corresponder, com presunçosa intimidade, com o grande Aznavour.
