quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Passagem de poder

Bela prática aquela a que ontem se assistiu em Espanha: os ministros cessantes e aqueles que os vão substituir encontram-se numa cerimónia pública, na presença dos altos funcionários do ministério, num gesto que tem o simbolismo da continuidade das funções de Estado. Em França, embora creio que sem discursos formais, tem lugar um ritual idêntico.

É pena que, em Portugal, não se tenha consagrado este costume, digno de uma grande democracia, que reflete e projeta publicamente a naturalidade da alternância. No nosso caso, à saída da cerimónia da Ajuda, onde os novos e ex-ministros se saúdam, os futuros titulares apenas encontram, à saída, um automóvel para os transportar, sendo que os antigos governantes têm geralmente de contar com um amigo que os leve de volta a casa. 

Com a vida, aprendi que alguns formalismos têm um valor que vai para além do simbólico e que ajudam a sedimentar o respeito democrático.

8 comentários:

Santiago Macias disse...

Senhor Embaixador, tem toda a razão.

Em Portugal, esse costume falta a todos os níveis: do Governo ao Poder Local. Da direita à esquerda. Isso faz com que o exercício do poder tenha, com frequência, contornos "clubísticos". Todos perdemos.

Anónimo disse...

e não faltam amigos por aí...

Isabel Seixas disse...

Bem interessante esta reflexão,que subrepticia, indicia o quanto o poder está de passagem na passagem de poder...

Helena Oneto disse...

Senhor Embaixador,
Encanta-me o seu "côté rêveur":
"digno de uma grande democracia";
"valor simbólico";
"respeito democrático";
são palavras lindas que caíram em desuso.
Com 'esta' vida desaprende-se.

Catinga disse...

Penso que os antigos governantes não "saem" para casa. Primeiro têm de ir ao seu escritório de advocacia tratar dos assuntos correntes ou dar um pulo até uma empresa de construção civil para tratar dos pormenores do gabinete que ocuparão no dia seguinte ou, se a coisa estiver um pouco difícil, irem almoçar à Loja para, irmanamente, meditarem sobre o seu futuro.

patricio branco disse...

talvez o economist tambem tenha levado em conta esse significativo, mesmo que aparentemente pequeno, pormenor da nossa particular democracia. E há muitos outros sinais que levam à mesma conclusão

Anónimo disse...

Para assegurar a continuidade das funções de Estado e pensar antes de mais na alta função que vão ocupar e não no clubismo, os regimes democráticos precisam de homens com uma formação e uma vivencia democrática muito sólidas. Portugal, neste dominio, continua muito pobre!
Na região onde resido, a sul de Paris, uma Camara de gestão comunista passou para uma maioria de direita e só um ano depois é que o secretário geral do municipio que não se habituava a escrever os novos discursos do novo Presidente é que pediu a sua transferencia para outra Camara... Mas o responsável dos serviços culturais, vinte anos depois, continua a assegurar as responsabilidades dos programas culturais com a mesma liberdade de ação de sempre e sem qualquer interferencia politica!
Serão exceções, serão! Mas destas exceções também Portugal precisa. E muitas!
José Barros

Helena Sacadura Cabral disse...

Tem toda a razão Senhor Embaixador.
De facto, como diz a nossa Isabel, sempre lúcida, o poder está de passagem na passagem de poder!
E razão à nossa Helena O. quando diz que nesta vida desaprende-se. Só alguns, felizmente. Outros... vão sempre aprendendo!