Nos anos 70, em Portugal, a minha geração ouvia falar bastante do "grupo de Genebra", um núcleo de exilados portugueses, alguns deles em rutura com o PCP, que produziam uma reflexão política original, a qual, a certo passo, passou a expressar-se através da revista "Polémica". Sabia-se que nomes como os antigos dirigentes associativos e líderes académicos como Eurico Figueiredo, António Barreto e José Medeiros Ferreira faziam parte desse núcleo. Mais tarde, Ana Benavente (que vim a cruzar no MES) e Valentim Alexandre foram revelados como também integrantes do grupo. Ao lado dessas pessoas, citava-se o nome de Carlos Almeida, um funcionário internacional que nunca regressou a Portugal e que, com Barreto, viria a publicar, ainda antes do 25 de abril, um livro que se tornou importante: "Capitalismo e emigração em Portugal".
Os membros do "grupo de Genebra", após a Revolução de abril, tiveram percursos, políticos e profissionais, algo diversos. Agora decidiram pôr em texto as suas memórias - "Pátria utópica - o grupo de Genebra revisitado" -, prefaciados por outro exilado, o escritor Amadeu Lopes Sabino. Cada um escreveu três capítulos, respetivamente sobre a saída de Portugal, a estada na Suiça e o regresso ao país.
Para quem se interessa por estas coisas, como é o meu caso, trata-se de um repositório interessante de memórias, que nos ajuda a perceber melhor um certo tempo de Portugal. Os textos são desiguais, na qualidade da escrita, na profundidade das ideias e até no modo como cada um tenta ou não desenhar, para a História, o seu caso pessoal. Mas é um livro que vale a pena.
