quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Grupo de Genebra

Nos anos 70, em Portugal, a minha geração ouvia falar bastante do "grupo de Genebra", um núcleo de exilados portugueses, alguns deles em rutura com o PCP, que produziam uma reflexão política original, a qual, a certo passo, passou a expressar-se através da revista "Polémica". Sabia-se que nomes como os antigos dirigentes associativos e líderes académicos como Eurico Figueiredo, António Barreto e José Medeiros Ferreira faziam parte desse núcleo. Mais tarde, Ana Benavente (que vim a cruzar no MES) e Valentim Alexandre foram revelados como também integrantes do grupo. Ao lado dessas pessoas, citava-se o nome de Carlos Almeida, um funcionário internacional que nunca regressou a Portugal e que, com Barreto, viria a publicar, ainda antes do 25 de abril, um livro que se tornou importante: "Capitalismo e emigração em Portugal".

Os membros do "grupo de Genebra", após a Revolução de abril, tiveram percursos, políticos e profissionais, algo diversos. Agora decidiram pôr em texto as suas memórias - "Pátria utópica - o grupo de Genebra revisitado" -, prefaciados por outro exilado, o escritor Amadeu Lopes Sabino. Cada um escreveu três capítulos, respetivamente sobre a saída de Portugal, a estada na Suiça e o regresso ao país.

Para quem se interessa por estas coisas, como é o meu caso, trata-se de um repositório interessante de memórias, que nos ajuda a perceber melhor um certo tempo de Portugal. Os textos são desiguais, na qualidade da escrita, na profundidade das ideias e até no modo como cada um tenta ou não desenhar, para a História, o seu caso pessoal. Mas é um livro que vale a pena.

15 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Ora aí está um livro que não vou perder!

patricio branco disse...

Boa informação a que nos é dada na entrada, motivo para ir a uma livraria folhear o livro e decidir se comprar.
Antonio barreto, um homem simpatico que diz coisas sempre interessantes naquela sua forma calma de falar, participou no ultimo programa das 2as na tvi com medina carreira e judite de sousa. Programa sempre divertido pela personalidade de M C. (no ultimo, instado por j de s referiu se ao ministro das finanças de maneira comiquissima, a proposito da maneira de falar em publico do ministro.)

As semelhanças entre barreto e medeiros ferreira são muitas, ligados originalmente ao ps mas agora autónomos, ministros nos anos 70 1 vez, ambos mais teoricos e intelectuais que práticos, etc.
Amadeu lopes sabino é um excelente escritor que tambem escreveu sobre exilados ou expatriados, a missão da almeida garrett em bruxelas deu essa interessantíssima "lua de bruxelas".
Boa informação, livro para ver.

Anónimo disse...

"que vim a cruzar no MES" ou "com que me vim a cruzar no MES" ?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anonimo: A expressao que utilizei e' perfeitamente correta. Como o seria se tivesse escrito "com quem me vim a cruzar no MES". Ja' tenho duvidas sobre a sua.
De qualquer forma, devo dizer que o recurso 'a formula que utilizei derivou de uma licao de jornalismo que recebi, nos anos 70, do meu amigo Jose Silva Pinto, entao jornalista de "O Seculo", que me chamou a atencao para evitar utilizar algumas expressoes que se prestassem a duplo sentido. Nao posso, no entanto, registar aqui o que T
textualmente ele me disse...

Anónimo disse...

Sim, o "grupo de Genebra" alimentava tambem a nossa reflexao aqui em França  e algumas verdades que entao o grupo afirmou, a historia da emigracao nao as desmentiu com o tempo! 
Cito duas frases do livro "Capitalismo e Emigracao em Portugal" de Carlos Almeida e Antonio Barreto, nas edicoes "cadernos de hoje No 10 de 1970:
 "A emigracao portuguesa està em relacao direta com a estagnacao das estruturas economicas do Pais".
Era verdade em 1970 e sera uma verdade que se repete!
E esta:
"a partida crescente de familias inteiras é um sintoma do carater definitivo da emigracao, tendente a interdizer todas as suposicoes quanto a um regresso macico ou mesmo escalonado dos emograntes."
Em 1970, este "enterrar" das esperancas de regresso era por demais insuportavel para os que acreditavam num regresso possivel e continuavam o combate! Afinal o movimento esfalfou e aqui tambem a historia impos aquela visao!
José Barros   

tulipas disse...

Livro Bom, decerto, vou tentar adquiri-lo. Sobre os comentários que antecederam este meu, deixem-me confirmar aquela máxima: "a historia repete-se" e o que lamento, é este caminhar para trás... Tinham-me ensinado que para a frente é que era o caminho... mas actualmente, também esse conceito está fora de "uso"(?)
Boas Festas Sr. Embaixador!

Paulo Abreu e Lima disse...

Senhor Embaixador,

Parece-me um excelente livro para ler e refletir acompanhado por uma boa água ardente com zimbro, olhe, uma Genebra com uma pedra de gelo e meia rodela de limão verde. Obrigado pela dica.

ps: fiz questão de recolher as minhas pulsões elogiosas no seu post anterior sobre o ensino do Português em França, pois «Aos homens fora do comum devemos evitar os lugares-comuns.» QED

Anónimo disse...

A emigração politica dos anos 70 era organizada pelas células do partido comunista e outras organizações correlacionadas !
Nada tem a ver com a emigração generalizada do pedreiro, do electricista, do canalizador etc que tinha como objectivo principal desertar da tropa, que os encaminhavam para muito perto da morte!

Ainda hoje, há quem queira atirar fumo para cima de nós, profanos e parvos à luz desses intelectuais previlegiados!

O António Barreto , foi o fundador da reforma agrária, lembrm-se ??

Atirou a nossa agricultura para a miséria que se vive hoje !

O Medeiros Ferreira, foi ministro dos neg estrangeiros e tem aquela celebre tirada açoriana : " ... não é assim? " !

Esta malta intelectual foi usada para determinados propositos e hoje têm muitas história para contar mas no caso do António Barreto, divia ir ver o alentejo hoje das cooperativas e ver o que restou da sua politica da reforma agraria! Devia ver uns filmes do trbalho agricola em 1973 e comparar com o trabalho que se realizava à data das suas iluminadas politicas!!!

Eu sei que as politicas não eram dele, mas se fosse eu , ficaria com a vergonha para o resto da vida e não aparecia a pregar a pensador, quando como executante mandei milhares para a miseria, por várias gerações a fora !

Eu não vou gastar dinheiro nesse manual de propaganda!

OGman

gherkin disse...

Caríssimo senhor embaixador. Ao consultar o “site” da Bizâncio, no sentido de adquirir “Pátria Utópica”, obejeto desta sua crónica, não encontro ainda este título para venda. Naturalmente, como bom ex jornalista, quis dar a notícia em primeira mão sem que a editora o tenha ainda feito! Mais uma virtude e UTILIDADE, além da excelente habitual prosa deste invulgar sítio!
Um reparo: Noto que se deu ao incómodo de responder a um “anónimo” sobre a crítica feita. No meu caso, quando alguem “anónimo” responde a qualquer artigo meu, tenho o princípio de como quer que seja não tem coragem de se identificar não MERECE qualquer resposta. Critérios diferentes! O habitual abraço.
Gilberto Ferraz

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Gilberto Ferraz: este blogue de horas tardias tem tido a vantagem de me revelar alguns "corajosos" anonimos, por cuja escrita perpassam "necessidades" mal disfarcadas. Gosto de os publicar, mesmo quando a sua escrita roca o insulto, porque essa e' tambem uma "rica" faceta do seu "retrato". Nem imagina o que tenho aprendido...

Portugalredecouvertes disse...

É de salientar que no que diz respeito às cooperativas do Alentejo, aós a reforma agrária, tenho ouvido alguns alentejanos que falam dessa época com saudades, dizendo que se viam aqueles campos todos cultivados pelos trabalhadores que tomaram conta deles e que era muito bonito com muitas colheitas...

Devemos pensar que em Portugal se concretizou a experiencia de um tipo de sociedade que era sonhada por grandes camadas de populações por essa Europa fora e que na altura parecia generosa e ter como finalidade as pessoas tomarem conta do próprio destino

Anónimo disse...

Na vida estamos sempre a aprender e até um imperador russo aprendeu que era melhor perguntar à criada se estava bonito do que ficar mal disposto a olhar-se ao espelho.

OGman

Maria Climénia Rodrigues disse...

Acabei de ler a semana passada esse livro, sobretudo os escritos de Ana Benavente, talvez por ser mulher, fizeram-me relembrar os meus tempos de muito jovem, em que só aos 10 anos e por uma breve incursão no catolicismo me quis baptizar(filha de Pai ateu e Mãe católica, mas não seguidora do culto das igrejas) decidi essa experiência, que pouco durou...então filha da única professora da minha terra e de um engenheiro altamente ligado ao pcp, resolvi praticar esse acto, e não é que tive que fazer uns sapatos por medida com a folha de cartão debaixo dos pés para tirar o molde,como a Ana Benavente tão bem descreve na sua primeira crónica do livro.... claro que o meu Pai andou uns tempos trombudo, mas depressa lhe passou, quando eu aos 10 anos ingressei no liceu em Setúbal, e aceitei que ele fizesse uma declaração ao Reitor do liceu , em que não autorizava a filha de têr actividades na Mocidade Portuguesa, o que me deixou amuada, pois a farda era linda e sempre variáva da eterna bata branca....depressa abri os olhos, e tão bem o compreendi, e com 15 anos já, em vez de brincar com bonecas, dáva aulas de alfabetização aos adultos de zonas dificeis , sempre acompanhada com o Daniel Cabrita, grande discipulo do meu pai, e que decerto poucas pessoas de agora, se lembram da sua existência, mas foi por causa dele, bancário, anos mais tarde, e preso pela Pide, que os bancários de Lisboa fizeram greve ainda no tempo do bafiento Salazar...belos tempos, grandes voltas a minha aptência por um esquerdismo diferente do pcp, a minha volta deu....mas para além das escritas da Ana Benavente, este é um livro interessante de ser, e que não tem grande notoriedade neste País....

Anónimo disse...

É, todos a trabalharem para Moscovo em Paris e, depois, já instalados em Lisboa, a prepararem a tal "ditadura do proletariado" enquanto o PC dava empregos. Em 1991, passaram todos de armas e bagagens para o PS e para o PSD.

Portugalredecouvertes disse...

É caso para dizer "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"!