domingo, 4 de dezembro de 2011

Ainda o Irão

Em Junho de 2000, coube-me chefiar uma missão de "diálogo político" da União Europeia a Teerão. Da "troika" (já as havia...) que me acompanhava, faziam parte um diretor do Quai d'Orsay (a França iria suceder-nos na presidência, dias depois) e um representante da Comissão Europeia, cuja nacionalidade não consigo precisar. A delegação iraniana era chefiada por um vice-ministro dos Negócios Estrangeiros.

O diálogo com as autoridades do Irão era, previsivelmente, difícil. Cabia-me colocar-lhes todas as questões que a União Europeia via como polémicas, desde os direitos humanos à observância de princípios democráticos, com o tema dos dissidentes e presos políticos, bem como do tratamento de minorias e estrangeiros, na agenda. A conversa começou assim algo tensa, se bem que a experiência diplomática dos dois principais interlocutores a tentasse manter num registo funcional de cordialidade. No meu caso pessoal, não esquecia que, enquanto país, Portugal tem um histórico de relacionamento bastante positivo com o Irão, que devemos tentar salvaguardar, para além de todas as divergências conjunturais. 

Para evitar veleidades que pudessem fragilizar a condução da reunião pela presidência, eu havia decidido, de uma forma algo imperativa, quais os dois temas da agenda cuja apresentação, como é de regra, ficava a cargo dos outros membros da "troika", contrariando explicitamente as propostas que, nesse sentido, me haviam sido feitas pelo secretariado-geral do Conselho, que assessora (e, às vezes, quer conduzir) as presidências semestrais. Nem a representação francesa nem a da Comissão me pareceram apreciar esse meu estilo afirmativo, mas isso era o que menos me importava: para as capitais europeias, o "saldo" geral da conversa, que tinha que ser "craftly worded" na ata, recairía sempre sobre mim. Não estava disposto a que outros condicionassem o trabalho e, por essa razão, decidi "controlar o jogo", desde o primeiro minuto, sem conceder espaço para criatividades.

A agenda foi percorrida no tradicional "ping-pong" de argumentos. Os temas eram introduzidos, alternadamente, pela União Europeia e pelo lado iraniano, com "statements" de cada lado, complementados por comentários de "réplica" e, por vezes, "tréplica", que ficariam registados em ata. 

A certo passo da abordagem de um ponto da agenda, o vice-ministro iraniano acusou um Estado membro da União Europeia, que não identificou, de estar a levar a cabo "atos de espionagem", em articulação com inimigos do país, contra a segurança do Estado iraniano. Interrompi-o, de imediato, e pedi-lhe para identificar o país em causa, dada a gravidade da acusação, porque isso se refletiria, de forma inescapável, sobre toda a nossa política exterior comum. Respondeu-me que não lhe era possível dizer o nome desse Estado, "para não agravar ainda mais as coisas". 

Para grande surpresa dos membros da delegação europeia, reagi de forma muito firme: ou ele identificava o nome do país ou retirava formalmente a acusação, com efeitos na ata da sessão. O "diálogo político" não podia prosseguir sem uma dessas opções. Não podíamos aceitar que ficasse registada uma acusação genérica, que não permitisse uma contestação específica. A solidariedade entre os Estados membros da União a isso obrigava. Pelo que sugeri que o intervalo da reunião que estava previsto para mais tarde, tivesse lugar de imediato.

O ambiente, naquela sala do ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, toldou-se. A delegação do Irão saiu da sala, perplexa e de cara fechada. Nela ficaram os representantes europeus, entre os quais se contavam também os embaixadores português e francês, além do delegado local da Comissão, que me rodearam, perguntando-me alguns se tinha medido bem o risco de dramatização que estava a fazer correr ao já muito crítico e sensível diálogo com Teerão. Eu disse que sim, mas, interiormente, perguntava-me se o "bluff" iria resultar.

Tinha razão. Resultou. Minutos depois, o chefe da delegação iraniana reabriu a sessão dizendo que, com vista "a facilitar um eficaz funcionamento dos trabalhos", propunha que, da ata, não constassem as referências que antes tinha feito sobre o "tal" Estado membro europeu. Agradeci-lhe o esforço e prosseguimos o debate num ambiente que, de certo modo, ficou bem mais distendido. O desfecho provocou um aliviado e expresso agrado do diretor francês, que nos sucederia na presidência e que, seguramente, temeu, por alguns minutos, ficar nas mãos com uma "batata quente", para os próximos seis meses.

Vale a pena notar que, desde o início, todos nós sabíamos que a acusação iraniana se dirigia ao Reino Unido, país com o qual, de há muito, Teerão tem um recorrente contencioso, como os acontecimentos dos últimos dias vieram, uma vez mais, a evidenciar. Ora o vice-ministro iraniano, meu contraparte na chefia das negociações, havia-me revelado, em conversa privada antes da reunião, que, no final desse ano de 2000, deveria ir para Londres como embaixador (o que realmente veio a acontecer), solução que muito lhe agradava. Ao colocá-lo "contra a parede", exigindo a retirada das acusações e a revelação do nome do país, eu tinha tido isso em conta. Se acaso ele mencionasse o nome do Reino Unido, e ficasse na ata ter sido ele quem lançara internacionalmente essa atoarda não provada, com toda a certeza que o governo de Londres nunca lhe daria "agrément".

A vida diplomática também se faz com alguns truques, como se vê.

11 comentários:

Energoúmenon non possessus disse...

em 2000 o Irão teria umas dezenas de milhões de almas a menos e muito menos dinheiro pois apenas se tinha passado uma década sobre a mãe de todas as guerras de trincheiras (que matou mais pessoal (em termos demográficos - menos de 50 milhões de gajos de Abadan ao Norte e menos de 4 milhões de mobilizados com 25 a 30% de mortos)que o Somme e durou mais anos

logo comparar o Irão do pós-guerra e do pitroil baratucho
com a potência (à falta de competição excepto as 300 a 500 ogivas israelitas e a centena ou duas das pakis)militar e económica que existe no XXIº

Alexandre Rosa disse...

Mas só diplomatas com grande experiência podem dar-se a esse luxo.
Mais uma bonita estória, para a história da nossa diplomacia, que aqui nos diexas.
Um abraço..

Helena Oneto disse...

"craftly worded" too. Diplomata, epicuro, escritor, estratega e brilhante comediante. All in one!

Francisco Seixas da Costa disse...

"Bralhante comediante"?????

Anónimo disse...

Eis as consequencias a que uma pequena e aparentemente insignificante confidencia que se "escapa" pode levar... Mas a embaixada londrina era deveras importante para o homem !  
José Barros

Anónimo disse...

Graças à ambição de vice-ministro iraniano e à argúcia do Sr. Embaixador lá ficou fora da acta aquilo que todos sabiam ser verdade.
Salvou-se a política exterior comum.
É a política.
V

Helena Oneto disse...

Oups:):) foi um lapso, Senhor Embaixador. Sorry! please read "brilhante contador de historias"

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Que calafrio de situação. Percebo, cada vez melhor, porque não seria fadada para a diplomacia. Logo eu, que tanto quis ter tido acesso à carreira...
Deus existe, de facto, para nos evitar escolhas insensatas. Noutras escolhas que fiz... já creio que Ele tivesse estado distraído!

Anónimo disse...

Eu vejo que o tema " direitos humanos à observância de princípios democráticos, com o tema dos dissidentes e presos políticos, bem como do tratamento de minorias e estrangeiros" é recorrente em todos os paises que têm recursos naturais abundantes e/ou poderes politicos autoritários !

Angola, Venezuela , Ex- Libia, Ex-Egipto, Ex-tunisia , Marrocos;Argélia;China; India ; Indonésia; Malásia ; Vietnam ; Syria ; Arabia Saudita; EAU; Koweit; Coreia do Norte , etc..

Já viu se essa agenda pega nesses paises que listei, o trabalho que não era ???
Dava para muitos anos em reuniões diplomáticas !!

OGman

Anónimo disse...

Como o Sr Emmbaixador gosta de histórias eu vou contar-lhe uma que se liga com o Irão, mas longe das embaixadas e dentro das prisões!

Dr. Batmanghelidj era um médico nascido no Irão , mas que estudou em Inglaterra e foi disciplo de FLeming ( o pai da penicilina e premio nóbel ). Este médico voltou ao Irão para desenvolver as estruturas de saude ( centros de Saude e Hospitais ) do país e equipamento desportivo para a juventude que culminou com a construção do palacio do gelo, que o Sr embaixador deve ter visto .
Até ai tudo normal, senão quanddo se dá a revolução de 1979 e este médico foi preso e graças à sua profissão, não foi fuzilado como outros ! Nas guerras e revoluções o médicos são sempre poupados porque fazem sempre falta !
E assim foi! Este homem ficou na prisão e era usado para dar assistência a outros presos.Como médico , sabia uns truques e podia usar os medicamentos se houvessem para atenuar o sofrimento . Só que como não havia medicamentos , o Homem começõu a dar copos de água. Quando fazia a revisão aos doentes na prisão na qual ele também era prisioneiro, a unica coisa que ele fazia era dar copos de água!
Deu tanta água que os presos começaram a melhorar e ele começou a notar algo estranho na saude dos doentes e a constactar que havia ali algo que merecia ser estudado!
Ao ponto de as autoridades o quererem libertar e ele a pedir para ficar mais 6 meses porque precisava de comprovar e certificar os resultados que tinha atingido!

Este homem comprovou e estudou o efeito da água no nosso organismo e viveu quase na obscuridade. A sua morte também foi um pouco esquisita mas isso é o que menos importa agora!

Este homem tem várias obras publicadas de grande interesse :

Dr. F. Batmaghelidj wrote his first self-help book “Your Body’s Many Cries for Water” in 1992, in which he stated that a dry mouth is not a reliable indicator of dehydration. The body signals its water shortage by producing pain. Dehydration actually produces pain and many degenerative diseases, including asthma, arthritis, hypertension, angina, adult-onset diabetes, lupus and multiple sclerosis. Dr. B’s message to the world is, “You are not sick, you are thirsty. Don’t treat thirst with medication.”

Eu aconselho e classifico sua obra como "essencial e importantissima"

Espero que tenha gostado da História eque os seus admiradores também !

OGman

Isabel Seixas disse...

Passou-me pela cabeça o quão seria interessante um rastreio da frequência cardiaca(pulso)e tensão arterial aos elementos das delegações no decurso do tal período designado de dramatização.

Claro comparando à posterióri com os valores normais de cada um.
Daria um estudo interessante decerto.