domingo, 18 de dezembro de 2011

O secretário-geral

Na grande maioria dos ministérios que, por todo o mundo, se ocupam das relações externas existe a figura do secretário-geral. O leque de funções dos secretários-gerais varia bastante de país para país, podendo a figura surgir no cume da formulação substantiva das políticas até a um modelo que assenta na sua preeminência na organização e na gestão superior da "casa". (Mas é sempre, convém deixar claro, uma entidade muito diferente daquelas que, com a mesma designação, existem noutros ministérios.)

Em Portugal, o embaixador que exerce as funções de secretário-geral tem um papel muito importante como "chefe da carreira" e como ligação desta ao poder político que o nomeou. A sua atividade acarreta consigo uma imensa dose de responsabilidade, que se objetiva nas propostas das pessoas que vão ocupar cargos no exterior ou de chefia interna, nos processos de promoção e na muito difícil preservação de uma cultura diplomática, para compensar a transitoriedade dos ciclos políticos. Pelo secretário-geral passa muito daquilo são as carreiras dos funcionários, a alocação de principais meios financeiros, materiais e de recursos humanos. Isso faz com que, com frequência, ele seja como que uma espécie de "muro das lamentações", perante a disponibilidade limitada dos meios existentes. E, por essa mesma via, o secretário-geral é, também muitas vezes, o bode expiatório do mal-estar de algumas decisões, gerando frustrações e desânimos num corpo profissional cuja distribuição pelo mundo tem especificidades que não são comuns a outras carreiras assentes em Portugal..

A experiência mostra que o lugar de secretário-geral é muito "feito" pelas personalidades que o ocupam, porque há uma margem da função que é desenhada através da autoridade que cada um consegue criar e pelo modo como os embaixadores que ocupam o cargo se estabilizam no quadro interno de poder. Conheci secretários-gerais muito diversos, com estilos quase opostos e que, como é óbvio, deixaram marcas muito diferentes na memória da carreira.

Até meados dos anos 80, o gabinete do secretário-geral do MNE situava-se no "terceiro andar" do palácio das Necessidades, o andar do poder, onde está o gabinete do ministro e, com variações, os de alguns secretários de Estado. Era uma sala muito ampla, com um quase idêntico espaço destinado ao seu chefe de gabinete e secretariado, naquilo que foi uma antecâmara que tinha sido testemunha de muito da história da casa.

Nesses anos 80, um novo ministro chegou ao MNE e o secretário-geral da época fez-lhe o "tour" das principais instalações. A certo passo, mostrou ao ministro o gabinete que ele próprio ocupava, suscitando no novo chefe da diplomacia comentários de admiração sobre a grande dignidade do espaço, com um tom que se anunciava vagamente cobiçoso. Gentil mas naif, o secretário-geral terá dito qualquer coisa como "o meu gabinete está naturalmente à sua disposição, senhor ministro". Algumas horas passaram e, ao final da tarde, o ministro terá decidido levar à letra a delicada disponibilidade manifestada pelo secretário-geral e deu-lhe instruções para procurar novas instalações para se alojar, porque pretendia dar um destino diferente ao gabinete que, por muitas décadas, fora ocupado pelo "chefe da carreira".

Nos tempos que correm, o secretário-geral do MNE está já instalado com toda a dignidade, embora fora do tal "terceiro andar". Na data de hoje, o seu gabinete vai receber um novo titular, um embaixador que nos vai representar a todos nós e a quem desejo, com a sinceridade da muita amizade, a maior sorte. É que o novo secretário-geral vai exercer funções num contexto restritivo muito particular, num tempo de grande exigência. A sua sorte será a nossa sorte.

10 comentários:

Anónimo disse...

"espiatório" ou "expiatório" ?

Correia de Araújo disse...

Caro Embaixador,

Gostaria de ter visto um post seu sobre Vaclav Havel. Entretanto, se ainda for a tempo...

Abraço

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Correia de Araújo: não verá. O que, durante o fia de hoje foi expresso sobre Havel esgota o que eu poderia ter dito. Conheci-o pessoalmente, no seu gabinete em Praga, quando António Guterres aí o visitou. Não guardo a menor memória da conversa.
Aplica-se a Cesária Évora a mesma lógica de Havel.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
.
O Correio da Manhã de hoje fala de si.
E: "Homem Põe e Deus Dispõe...!!!"
Saudações de Banguecoque
José Martins

patricio branco disse...

O canto ou angulo do palacio das necessidades mostrado na imagem, foi pintado pelo menos por 2 pintores, vou ver se encontro os seus nomes.

Boa pessoa mas ingénuo o secretário geral, o meu gabinete está à sua disposição sr ministro! melhor que o novo tire ensinamentos da história e não repita o oferecimento do seu antepassado.

como c de araujo tambem esperei ver uma fotografia e umas linhas sobre o pacifico e simpatico vaclav havel...

ARPires disse...

Senhor embaixador, para a história do seu próprio blogue, umas palavras simples, como simples era a grande Cesária Évora, não seriam descabidas.
Para Vaclav Havel já as palavras teriam que ter um toque de veludo.
Sendo personalidades diferentes, uma e outra, bem mereciam ocupar por aqui um pouco do seu espaço e um pouco do seu tempo.
Contudo há que respeitar a vontade de cada um e de cada qual.

Anónimo disse...

Eu pensava que aqui não era a necrologia...

a) Feliciano da Mata

Anónimo disse...

SG ventil, ou SG gigante, o que vem aí?

Catinga disse...

E, acima de tudo, isto não é o "Quando o telefone toca"...

Traquinices disse...

Sigo este este Blogue pela clareza com que se escreve e pelos assuntos que nele são trazidos à liça. Neste espaço escrever-se-á aquilo que o seu proprietário entender escrever. Como diz Catinga "Quando o telefone toca" já terminou há muito.
Estão sempre a tempo de criar um e plasmar nele tudo o que for do vosso interesse.
Mª Fátima