terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O excelente José Gravia

A notícia chegou-me na noite de ontem: morreu, no Brasil, José Gravia. A generalidade dos leitores deste blogue, bem como a imensa maioria dos brasileiros (que não dos brasilienses, que são os brasileiros de Brasília), não fará a mais leve ideia de que era este português, saído de Ourém para o Brasil, há mais de 60 anos, que a pulso construiu um nome e a rara dignidade de o poder usar como carta de confiança. Eu também nunca ouvira falar nele, até 2005.

O nome de José Gravia tinha vindo à baila, a montante da minha partida para Brasília, numa conversa durante a qual o meu antecessor, embaixador António Franco, me tentou indicar algumas figuras de referência no seio da nossa comunidade. Recordo-me bem do que disse: "Tens por lá um grande senhor, um homem de bem, o excelente José Gravia". Na memória, ficou-me para sempre o "excelente". Quatro anos de Brasília e de contacto com a nossa comunidade confirmaram a consabida agudeza de leitura de carácteres do António Franco.

Já em Brasília, conheci cedo a Raquel e o José Gravia, creio que em casa do António Luis Cotrim. Era um homem grande, com um permanente sorriso, gentil no trato e suave nas palavras. Tinha uma história longa de trabalho, de iniciativa e de sucesso empresarial. "Candango" (primeiros ocupantes de Brasília) por opção de vida, passou a fazer a sua atividade profissional no planalto, entre Anápolis e a cidade-satélite de Taguatinga, onde presidiu à Associação Portuguesa de Brasília, cujas magníficas instalações muito lhe devem. Portugal e o Brasil atribuiram-lhe, a seu tempo, merecidas distinções. Era  conhecido como um homem solidário, amigo de fazer bem. Encontrávamo-nos a espaços e lembro-me bem de uma longa conversa, num dos muitos jantares em que coincidimos, onde me elucidou, com equilíbrio, realismo e sabedoria, sobre algumas peculiaridades da sensível relação entre a política local e os interesses económicos. Reavaliei muita coisa, depois do que dele ouvi.

Aos homens fora do comum devemos evitar os lugares-comuns. Mas são estes que frequentemente ocorrem na reação simples de quantos, não sendo poetas ou mágicos da escrita, pretendem apenas deixar uma nota sentida pela saída de cena de alguém que muito respeitavam. Como o é este nosso abraço à Raquel, à memória do amigo José Gravia.

11 comentários:

tulipas disse...

"...Era um homem grande, com um permanente sorriso, gentil no trato e suave nas palavras...Era conhecido como um homem solidário, amigo de fazer bem..."
Que bonita e sentida Homenagem!
Bem haja!

Isabel Seixas disse...

"Aos homens fora do comum devemos evitar os lugares-comuns."In FSC

Nunca tinha pensado nisso assim, embora na prática as reverências deixam transparecer o tamanho do valor atribuido.

Helena Oneto disse...

Subscrevo o comentário de "tulipas". Que bom se houvesse muitos senhores como ele. Ele há-os, mas são, hélas, muito poucos.

Manuel CD Figueiredo disse...

Um homem simples, um homem digno.
Um português, Homem!
A sua vida deveria servir de guia, ou de exemplo.

Anónimo disse...

Um Familiar maravilhoso que ajudou toda a sua familia,sentiremos nossa familia perdeu um homem maravilhoso.

Helena Sacadura Cabral disse...

Belo texto Senhor Embaixador. Sorte ter alguém que sobre nós possa escrever assim!

Anónimo disse...

Era meu tio do coração!!!
Homem simples, tinha um coração do tamanho do mundo!!!
Para quem não sabe ajudou muitas creches, asilos e sempre se preocupou em ajudar ao próximo.
A maioria dos seus funcionários cresceu junto com a empresa e se orgulham disso.
Tio, Valeu por tudo, orgulho de ter tido vc como meu tio do coração. Sentiremos muito sua falta

carlos cristo disse...

Ele foi o exemplo do imigrante português que ajudou a construir o Brasil e, em especial, Brasília. Chegou pobre, mas determinado. Trabalhador e correto construiu uma empresa, uma família e uma comunidade. Generoso, distribuiu muito a quem precisava. Deixa-nos esse exemplo e uma grande saudade.

Anónimo disse...

Tive o privilégio de conhecer e conviver com o Comendador José Gravia e com a Raquel. Naturalmente que o seu permanente sorriso, a sua simplicidade e afabilidade não deixavam ninguém indiferente.
Porém, o que nele mais me marcou foi a sua capacidade para ser solidário. Muitos dos trabalhadores das suas empresas, que na sua acção encontraram tecto, cuidados de saúde, ensino básico ou formação universitária, continuarão a ser disso a prova viva.
JR

Anónimo disse...

"um ser humano ímpar, do bem, honestíssimo, verdadeiro e amoroso. Tive o privilégio de conviver com ele nesses últimos 24 anos e ver o quanto ele contribuiu para termos um mundo melhor...deixa muita saudade!!!"

antonio luis disse...

Meu caro Francisco

MAGNÍFICO ELOGIO e, como sempre num lindíssimo português!Não poderia ser mais "tocante". Muito embora tenha presente que "Aos Homens fora de comum devemos evitar os lugares-comuns"..., não queria deixar de expressar o quão tristíssimo fiquei com a notícia da partida do nosso "Grande Amigo" José Gravia. Na minha próxima ida a Brasília, tinha na minha "agenda" mais um daqueles nossos fabulosos almoços de conversas e iguarias!E sempre transmitindo a maior das generosidades e bondades, com um enorme sentido de "Visão" da Vida e do Mundo, cada dia em transformação!Era extraordinária e impressionante a sua "energia pôsitchiva" que transmitia a todos,sempre com a maior das
educações e atenções para com os Outros! Ele estará sempre connosco como um Grande Exemplo de um Grande Ser Humano.
AL