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terça-feira, fevereiro 17, 2009

O cozinheiro "iraniano"

A revolução iraniana acabara de acontecer. Estava na Noruega, era 1980, há 30 anos. O Xá tinha saído do país e os nossos colegas iranianos tinham desaparecido dos circuitos diplomáticos. A Embaixada do Irão era um belo edifício, quase em frente à nossa, na Drammensvein.

Um dia, sou avisado que um português, residente em Oslo, queria falar comigo - eu era então o encarregado de negócios, na ausência do embaixador. Aparece-me um tipo gorducho, algo afogueado, a apresentar um problema. Desde há anos que era cozinheiro da Embaixada iraniana. De um dia para o outro, todos os iranianos da Embaixada se tinham ido embora. Ele estava sozinho, sem instruções, sem dinheiro... o que havia de fazer? Pensava ir à procura de um novo emprego. E faz-me uma pergunta inesperada: podia eu ficar com a chave da Embaixada, para eu a dar aos meus futuros novos colegas iranianos?

A ideia era bizarríssima. Cuidei em nem sequer transmitir o assunto a Lisboa. Os telegramas com historietas, subscritos pelos substitutos dos chefes de missão são, no anedotário do MNE, motivo regular de gozo dos colegas. E a história de um cozinheiro português a "entregar-me" a Embaixada do Irão iria fazer o gáudio dos claustros das Necessidades. Assim, optei por entrar em contacto com o serviço do protocolo do Ministério dos estrangeiros norueguês, com quem aconselhei o cozinheiro a falar.

Passadas semanas, uma nova e mais ortodoxa equipa diplomática iraniana chegou, finalmente. O nosso cozinheiro foi, de imediato, despedido. O menu tinha mudado no Irão.

Lembrei-me deste episódio ao verificar que, aqui por Paris, está a ser recordada a mudança política ocorrida há três séculos no Irão. Aliás, foi de França que, nesse mesmo ano de 1979, partiu o Ayatollah Khomeini, que aqui viveu refugiado por cerca de um ano, depois de um exílio por vários outros países.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...