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terça-feira, fevereiro 24, 2009

Cher collègue...

Da sina de um embaixador chegado a um novo posto faz parte uma prática tradicional: a visita aos colegas. Não a todos, como é evidente, em especial em capitais como Paris, porque, se assim acontecesse, passaríamos meses em conversas. Mas a verdade é que, quantos mais embaixadores visitarmos, mais rapidamente nos tornaremos populares e conhecidos, valha isso o que valer.

Este é o tipo de exercício que, se bem aproveitado, nos pode dar o ensejo de adquirir alguma rápida sensibilidade, extraída da experiência específica de cada um dos colegas visitados. Alguns são mais formais e parcos em palavras, outros mais exuberantes e prolixos, uns mais conhecedores e profundos, outros mais “leves” na qualidade dos seus comentários, uns mais prudentes, outros mais indiscretos. Mas de todos se recolhe sempre alguma coisa de útil, lições resultantes da sua estada no país, do seu contacto com as autoridades, da sua leitura dos acontecimentos políticos, da sua opinião sobre determinadas figuras. E até de aspectos práticos da vida local.

A conversa-tipo tem quatro tempos clássicos: alguma referência ao nosso último posto e a aspectos particulares da nossa carreira (com notas de eventuais contactos com a do interlocutor), lembrança de colegas do embaixador visitado com quem fomos cruzando por esse mundo (quase sempre esquecendo os respectivos nomes...), idem para os portugueses que ele conhece (e que, penosamente, teremos de ajudar a identificar...) e, naturalmente e como “grand final” substantivo, uma abordagem da situação no país onde ambos estamos representados. Enfim, meia-hora de café ou chá e simpatia, que termina, invariavelmente, pela decisão de nos tratarmos pelo nome próprio.

Regra importante da convivência diplomática é procurar conseguir decorar o primeiro nome dos novos conhecimentos, em especial se são oriundos de países com os quais temos relações mais próximas. Mas decisivo, também, é vir evitar a gafe fatal: confundir o nome dos países que eles representam. Vir a encontrar o embaixador, por exemplo, do Ruanda e dizer-lhe “Alors, mon cher Philippe, comment vont les choses à Kigali?” e descobrir, no segundo seguinte, que, afinal, se chama Jacques e é o colega do Burundi, seria garantia certa de desagrado eterno. Nas Nações Unidas, significaria que o voto do Ruanda estaria perdido por muito tempo...

Num mundo diplomático em que muitos nos vamos cruzando, acaba por ser agradável deparar com colegas com os quais coincidimos noutros postos, reforçando uma relação que até pode ter sido então algo distante, mas que a lógica destas coisas leva a que agora seja promovida e saudada como uma “velha amizade”. Não se trata de hipocrisia: trata-se de aproveitar esses ténues laços de ligação pessoal para ultrapassar, de certa forma, algum artificialismo que esta carreira provoca e para atenuar alguma deriva para a solidão a que a vida diplomática a todos nos condena.

O leitor já deve estar a interrogar-se: mas, afinal, a vida diplomática é isto? Não é só isto, mas é também isto. E este tipo de relacionamento humano, por mais “ligeiro” que possa parecer, acaba por ser a rede informal onde assenta muita da nossa recolha de novidades, de confirmação de notícias, de descoberta de algumas informações que nos é importante conhecer. Talvez por esse motivo, alguém já qualificou a diplomacia como o “smart power”.

Voltando ainda à anterior questão do nome do “cher collègue”, e ao facto de podermos lembrar-nos ou não dele, cada vez mais me convenço que a vida social da diplomacia tem a imensa e assustadora virtualidade de funcionar como um permanente teste preventivo da doença de Alzheimer.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...