sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Nabeiro e o contrabando


Acabo de ler uma entrevista com Manuel Rui de Azinhais Nabeiro, no site do "Expresso".

Com os anos, e praticamente sem o conhecer, criei uma forte admiração por este homem simples, empresário de muito valor, com um notável sentido de responsabilidade social, bem patente no modo como há muitas décadas intervem em favor da terra em que sempre viveu, Campo Maior. Nunca com ele falei mais do que em momentos de circunstância, tendo-o apenas cumprimentado brevemente uma meia dúzia de vezes.

Nabeiro, o homem que é a cara da companhia dos cafés "Delta", de que foi criador, tem origens humildes e não fez mais que a antiga escolaridade primária. No passado, confessa sem problemas ter estado envolvido em contrabando de café para Espanha, o que terá funcionado como a sua primeira fonte de rendimento. E também não esconde o facto de, ainda na ditadura, ter sido presidente da Câmara municipal de Campo Maior, nomeado pelo regime de então. Com a democracia, viria a ser eleito pelo PS para o mesmo cargo.

Para quem vive em terras distantes das zonas de fronteira, o fenómeno do contrabando é pouco conhecido e compreendido em toda a sua extensão. Com os tempos, aprendi que olhá-lo como um crime fiscal como outro qualquer é uma leitura demasiado simplista.

Uma noite de inícios de 1975, no palácio da Ajuda, no seu gabinete de chefe da 2a. Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, o general (creio que então brigadeiro) Pedro Cardoso, havia juntado para um café um grupo de quatro pessoas. Com uma exceção, éramos todos militares, sendo eu o único miliciano. Além de Pedro Cardoso, estava o também já desaparecido general (então major) Gabriel Espírito Santo. O civil era o pai de Pedro Cardoso, um senhor já bastante idoso e que, ao que lembro, tinha sido diretor-geral das Alfândegas.

O tema da noite - e não era por acaso que por ali estávamos, já bem tarde - era uma operação que estava simultaneamente a ser desencadeada na área de Setúbal pela "Secção de Apoio", uma espécie de grupo operacional da 2a Divisão, que dispunha de grande (e contestada) autonomia. Os resultados da ação demoravam a chegar, nesses tempos sem telemóveis. Tratava-se do desmantelamento de uma rede de contrabando, que me lembro envolver tabaco, mas não só: à época, essas redes eram utilizadas para levar obras de artes portuguesas e outros bens valiosos para o estrangeiro, alguns que vim a encontrar mais tarde em antiquários de Portugal e do Brasil.

Fiquei para sempre com aquilo que o pai de Pedro Cardoso então nos disse. Explicou ele que era uma verdadeira ironia serem agora os ricos a contrabandear, porque "o contrabando é uma arma dos pobres". Era algo irónico ver um antigo diretor-geral das Alfândegas explicar que, nas remotas áreas de fronteira, o exercício do contrabando era um recurso compreensível por parte de quem pouco tinha para comer e que usava essa prática, pela qual se eximia à fiscalidade oficiosa, para dar de comer às famílias. E contou que, sendo a travessia ilegal das fronteiras também um mecanismo para fugir à repressão policial por parte de ativistas políticos, era patente existir uma espécie de cumplicidade objetiva, em especial no Alentejo, entre os contrabandistas e os ativistas revolucionários, particularmente os comunistas. Dizia ele isto com um ar de compreensão, de naturalidade, que nessa noite abalou alguns dos preconceitos que eu tinha criado sobre a matéria.

Hoje, ao ler a entrevista de Nabeiro, que recomendo (pode lê-la aqui), recordei essa noite dos tempos agitados da Revolução. Fazendo eu parte daqueles (poucos?) que persistem em cumprir as leis fiscais rigorosamente "by the book" (impostos, multas, IRS, exigência permanente de faturas, antiga Sisa), sem nunca assumir qualquer relativização desculpabilizante, não fazendo em geral parte dos que olham o Estado como um "outro", ou como meu adversário, registei para sempre essa contextualização sócio-económica do contrabando. E passei a olhar para figuras como Manuel Rui de Azinhais Nabeiro com outros olhos.

14 comentários:

Anónimo disse...

Corrija aí a "extenção" sr embaixador, e apague o meu comentário...

Anónimo disse...

Deus vai compensá-lo um dia mais tarde e dar-lhe um lugarzinho confortável com vista para a Terra!Não se esqueça de pedir a factura da bica, também! Ou até de um rebuçadinho de 20 cêntimos para o netinho.

Luís Lavoura disse...

com um notável sentido de responsabilidade social

Há em Campo Maior bairros inteiros de casas (de boa qualidade, ao que aparentam) que foram construídas pela Cafés Delta para alojar os seus trabalhadores.

Luís Lavoura disse...

persistem em cumprir as leis fiscais rigorosamente "by the book" (impostos, multas, IRS, exigência permanente de faturas, antiga Sisa)

Quando tem que fazer obras em casa, o Francisco pede sempre fatura aos empreiteiros?!

António Ferreira disse...

Extensão (de extenso) e não extenção.

Reaça disse...

Há contrabandistas com sucesso, uns, e sem sucesso, outros.

E cada um é para o que nasce.

Sempre foi assim, se bem que há mais contrabando hoje por mar terra e ar, num dia, do que num ano nos 1000Klm de fronteira com Espanha, durante a guerra Franco/Salazar.

Muito complicada a vida! hoje!

Ésse Gê (sectário-geral) disse...

Este "comentário" não é para publicar e só o faço porque não vejo outro meio de lhe assinalar a palavra «extenção». Cumprimentos.

antonio luis disse...

E EU TAMBÉM DESDE AGORA, MEU CARO FRANCISCO...!!!
DEVERIAS FAZER UM "SCRIPT" PARA UM FILME...O QUE SERIA UM ENORME SUCESSO PORQUE PODERIAMOS TODOS NÓS VER/COMPREENDER/SENTIR UM "OUTRO" PORTUGAL, MAIS PROFUNDO E COMPLEXO, E QUE, APESAR DE PEQUENO, TEM VARIADISSIMAS "REALIDADES" TRANSVERSAIS COM AS INERENTES "VERSATILIDADES/RIQUEZAS", FRUTOS DA NOSSA HISTÓRIA! ABCS

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Luis Lavoura. Se me mandar o seu endereço de email, terei o maior gosto de lhe enviar cópia do recibo (com IVA, claro) de uma obra recentemente feita em minha casa. Eu cumpro sempre a lei, sinda não tinha percebido?

Anónimo disse...

Sobre contrabando, um dia que tenha tempo, contar-lhes-ei muito do volfrâmio, etc., etc. Terra de contrabandistas é a zona do Sabugal, concretamente Quadrazais, de que há ul livro escrito por um padre, Nuno de Montemor de pseudónimo, chamado "Maria Mim".
Sobre a zona de Monsanto, Penha Garcia e Monfortinho, na campina de Idanha, há os livros de um escritor nascido em Condeixa-a-Nova (Coimbra), médico, que na sua obra captou muito bem. Quem é o escritor, quem é ele?
Se o sr. Nabeiro contrabandeou, fez muito bem, tal como bem fizeram pessoas que ainda conheci nas Beiras. Para que é que servia o "quadrazenho"? Sabem, acaso, o que, na linguagem dos contrabandistas, quer dizer "dar à morte"? Pago uma bica Delta a quem souber.
Sobre contrabando, o P.e Fontes, de Vilar de Perdizes, também pode contar muitas histórias.
E em Trás-os-Montes, há um escritor dito regionalista (um grande escritor), Bento da Cruz, que nos seus livros nos conta o que se passava em Padornelos, Montalegre, Pitões... na fronteira com a Galiza. E sabem qual foi o papel dos contrabandistas nos anos sessenta? Não foi passar café nem volfrâmio, foi passar gente que, em França, procurava fugir da miséria salazarenta. Até conheci vários padres que se dedicavam a esta profissão, não de contrabandear café, mas de contrabandear pessoas para fora das nossas fronteiras. Abra-se uma subscrição pública para lhes erguer uma estátua bem grande!!!

Anónimo disse...

No tempo de Salazar muita gente cumpria as Leis, embora as ditas muita das vezes fossem o que sabemos! Esse argumento é incrível! Você percebe alguma coisa de Direito Fiscal? Provavelmente não. Não me vou estar aqui a alongar, não é o "forum" adequado, mas seria interessante...

Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 22:11, que já se percebeu que provavelmente foge ao pagamento dos impostos, confunde tudo e já traz o salazarismo à questão do civismo democrático. Fiquemos por aqui.

Carlos Fonseca disse...

É indiscutível que o sr. Nabeiro merece todos os encómios pelo que tem feito por Campo Maior e pelo seu povo. Nunca será demais referi-lo. Naquele concelho não se ouve uma palavra em seu desabono.

Posto isto, talvez valha a pena reflectir na forma como ele, que fala sobre todos os outros temas, se escusa a falar do seu "problema com o fisco", como lhe chama, que o levou a fugir para não ser preso. Na realidade, o caso teve a ver com uma acusação de contrabandear café do Brasil para Portugal.

Ele acabou por ser ilibado porque o despachante oficial que tratava dos assuntos na Alfândega de Lisboa assumiu toda a responsabilidade pelo crime.

Nos meios aduaneiros foram poucos - se é que houve alguns - os que acreditaram na inocência do sr. Nabeiro, mas a verdade é que o tribunal aceitou a culpabilidade exclusiva assumida pelo despachante oficial. Este acabaria por cumprir pena na Prisão de Pinheiro da Cruz, num regime muito especial. Não pôde, naturalmente, voltar a exercer a profissão, mas isso não lhe terá feito diferença nenhuma. Aparentemente, meios de subsistência não lhe faltaram durante e depois de cumprida a pena.


Unknown disse...

Eu andava à procura.... e encontrei!
Carlos Fonseca, agradeço o seu comentário. O COMENDADOR NABEIRO! Descarregou no Despachante a culpa da fuga ao Fisco. Caiu uma rocha inamovìvel, em cima dessa tumba, e aí permanece. O santo sepulcro. Com penitências, o "senhor" Nabeiro ganhou o céu, na terra. Desta massa, são feitos muitos dos "heróis" nacionais. Com Comenda!