domingo, 14 de fevereiro de 2016

A simpatia de um embaixador

O embaixador dinamarquês em Lisboa foi ao parlamento português, correspondendo a um pedido feito para dar explicações sobre medidas polémicas adotadas no seu país face aos refugiados, que haviam justificado um voto unânime de protesto na Assembleia da República. 

O diplomata havia-se já mostrado disponível para falar na comissão parlamentar respetiva sobre o assunto, o que desde logo revelava uma atitude de grande respeito para com a instituição parlamentar portuguesa.

Tudo estaria bem, se se tivesse passado assim. Porém, o parlamento português, num ato de bravata sem sentido, decidiu convidar (a imprensa disse “convocar”) o diplomata, “esquecendo” deliberadamente a anterior disponibilidade mostrada por este. Alguns deputados tiveram consciência da indelicadeza deste ato, a maioria não teve. O que é triste.

Convém deixar muito clara uma coisa: nenhum diplomata estrangeiro tem a obrigação de obedecer a uma “convocatória” do parlamento português, nem sequer de aceitar um “convite” por este formulado. A Assembleia da República não tem competências nesta área que lhe conferiram esse direito. 

As relações entre os diplomatas em posto em Lisboa e o Estado português processam-se exclusivamente por intermédio das duas únicas entidades constitucionais que intervêm na sua acreditação: governo, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e Presidência da República.

Para sublinhar ainda mais o absurdo desta situação, convém notar que nem os próprios embaixadores portugueses, salvo em caso de convocatória por matéria em investigação em comissão parlamentar, são obrigados a estar presentes em audições no nosso parlamento. Podem fazê-lo, a convite mas sempre sob autorização do governo. Sei do que falo, porque fui o primeiro embaixador a estar presente numa comissão nessa condição.

Voltando ao caso em apreço, quero deixar uma palavra pela simpatia e respeito para com Portugal demonstrados pelo embaixador da Dinamarca.

(Artigo publicado no Diário de Notícias de 15.2.16)

6 comentários:

Anónimo disse...

A causa era boa mas a ignorância e a incompetência estragaram tudo. Daqui a uns tempos, o embaixador de Portugal em Copenhaga lá que ir ao parlamento do pais responder a uma convocatória. Uma vergonha.

JPGarcia

Anónimo disse...

Fosse eu embaixador, jamais ninguém me iria ver eu ir a um parlamento estrangeiro dizer fosse o que fosse de assuntos do interesse do meu País.

Majo disse...

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Muito bem, FSC.
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ECD disse...

O termo certo é de facto "bravata sem sentido". Em linguagem de não diplomata, uma tontice pegada! Mesmo sem conhecer como FSC os modi operandi fiquei estarrecido. Pela tontice e tb pelo vexame feito ao embaixador dinamarquês.

Luís Lavoura disse...

Foi uma vergonha o que a Assembleia da República fez, metendo-se num assunto que em nada diz respeito a Portugal.
Deveriam era, isso sim, convidar o embaixador francês para explicar de que forma a nova lei da retirada de nacionalidade poderá afetar cidadãos portugueses. Mas, para isso, duvido que tenham tomates.

Anónimo disse...

A simpatia da Dinamarca podia começar por colocar à porta da embaixada um letreiro em Português e não o que lá está em Dinamarquês e... Inglês.