quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Irão e os seus hábitos

Agora que a decisão italiana de tapar algumas estátuas desnudas, nos locais por onde passou o presidente iraniano, na sua visita a Roma, está ainda a provocar reações por esse mundo fora, creio ser interessante contar um episódio ocorrido com a visita a Lisboa, a meu convite, de um vice-ministro do governo de Teerão, creio que no final de 2000.

Meses antes, eu tinha chefiado uma missão da União Europeia ao Irão, para diálogo político. Depois de um início algo atribulado, por virtude de acusações iranianas à UE por intromissão nos seus assuntos internos, as conversas acabaram por correr bem e, no rescaldo do exercício, o meu interlocutor disse-me da sua vontade de visitar Lisboa, agora no plano bilateral. Porque isso também era interessante para nós, nomeadamente no plano económico, ali mesmo lhe formalizei o convite. 

Meio ano depois, o vice-ministro para os Negócios Estrangeiros desembarcava em Lisboa. Como a sua chegada era da parte da tarde, decidi oferecer-lhe, bem como à delegação, um jantar de trabalho no palácio das Necessidades, a que se seguiria, no dia seguinte, uma sessão plenária, com a presença de representantes de vários ministérios. A ideia foi aceite pela embaixada iraniana em Lisboa, a qual,  no entanto, informou que desejaria que não houvesse vinho ou qualquer outro tipo de álcool à mesa. Mandei informar a delegação iraniana de que, naturalmente, lhes não seriam oferecidas bebidas alcoólicas. No entanto, para os portugueses presentes, haveria vinho, se acaso quisessem. A resposta da embaixada foi clara: nesse caso, não estariam disponíveis para jantar. Na sua perspetiva, não seram admissíveis bebidas alcoólicas à mesa.

Devo confessar que estava já à espera de uma reação destas, pelo que mandei transformar o jantar num pequeno-almoço de trabalho, num hotel. Os iranianos não devem ter apreciado muito, mas aceitaram. Cheguei à hora combinada, acompanhado por quatro senhoras. Notei, na cara do meu interlocutor, um visível desagrado. Como é sabido, os iranianos não cumprimentam as senhoras, ou melhor, não lhes estendem a mão e colocam a sua sobre o próprio peito. Pelo "body language" getal, deduzi que estavam a considerar a composição da nossa delegação como uma evidente provocação.

Sentámo-nos à mesa e fiz as apresentações: era a minha chefe de gabinete, a diretora do serviço do Médio Oriente e do Magrebe, a diretora do serviço de Política Externa e de Segurança Comum e, se ainda bem me lembro, a diretora do serviço das Relações Externas, na área europeia. A avaliar pela súbita mudança dos fácies, os iranianos sossegaram. Afinal, aquelas senhoras estavam ali, não por uma escolha propositada, para os provocar, mas pelo facto de titularem funções indiscutíveis no quasro da nossa política externa.

Não faço ideia que impressão íntima esta presença maciça de mulheres em cargos dirigentes da nossa diolomacia terá feito na delegação iraniana, mas a única certeza que tenho é que isso os não deixou indiferentes. Cada terra com seu uso...

18 comentários:

Portugalredecouvertes disse...

Seria interessante que tivessem feito algum relatório que agora pudéssemos ler sobre esse pequeno-almoço bem acompanhado !
onde o vinho foi transformado em mulheres :)

Santiago Macias disse...

Justamente! Cada terra com seu uso.
Não obrigo os meus amigos muçulmanos a beberem vinho. Não me impeçam eles de manter os meus hábitos e a minha cultura.

Deixo-lhe aqui este link, se tiver pachorra para tal:
http://avenidadasaluquia34.blogspot.pt/2012/06/de-haram-halal.html

Uma pequena batota, para não embaraçar ninguém (na altura): o "diretor" era o Presidente da Câmara de Moura. Eu era, na altura, vereador.

Anónimo disse...

E no entanto até têm uma data de mulheres giras por lá! E quando saem de lá para a Turquia passam-se dos carretos! É um ver se te avias.

Anónimo disse...

Se eu fôr convidado para tua casa, respeito os teus hábitos, se te convido para minha casa espero que respeites os meus. O que fizeram os italianos e não foi a primeira vez foi vergonhoso, um povo não é respeitado senão se dá ao respeito.

Anónimo disse...

Decididamente os muçulmanos desconhecem o provérbio "em Roma sê romano". Quanto aos ocidentais deveriam meditar a sério num outro provérbio, a saber "quem muito se agacha o cu lhe aparece". Pardon my french...
MPDAguiar

Anónimo disse...

so quem nao conhece a muita juventude iraniana que anda pela europa fora a estudar pode pensar que é um povo de fundamentalistas... (mas que os ha, nao haja duvidas)

os amigos sauditas esses sao sempre bem vindos, malgré tudo o resto

a ver quem critica a arabia saudita, o qatar, os emirados e israel...

a europa é fraca

(eu sei que o embaixador os critica, falo dos média...)

Luís Lavoura disse...

Tenho as maiores dúvidas que o Irão hoje em dia (talvez não em 2000) não tenha montes de mulheres em cargos importantes, tanto nos ministérios como noutros sítios. No Irão, tal como em Portugal, as mulheres são bem mais de metade dos estudantes universitários, e dificilmente vejo esse país a desperdiçar o talento de tantas mulheres altamente educadas que tem.

Fernando Correia de Oliveira disse...

nem de propósito - a resposta à francesa: http://www.tvi24.iol.pt/internacional/francois-hollande/almoco-entre-hollande-e-presidente-do-irao-cancelado-por-causa-de-vinho?utm_campaign=ed-tvi24&utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_content=-post

António Ferreira disse...

Nem de propósito, senhor embaixador.

Iran and France cancel diplomatic lunch to welcome Hassan Rouhani after French refuse to take wine off the menu. Iranian officials asked that a lunch between the two countries' presidents be Halal and alcohol-free.

http://www.independent.co.uk/news/world/europe/irans-european-tour-french-officials-cancel-diplomatic-lunch-with-visiting-president-hassan-rouhani-a6838181.html

Anónimo disse...

Aquilo que os Italianos fizeram cham-se provincianismo. Ao que chega a hipócrisia internacional. Não admira que a Europa esteja a ser invadida por fundamentalistas e terroristas. Mas depois os maus são só os Hungaros e os Polacos. Pelo menos esses já mostraram de que massa são feitos, se eu fosse Italiano deitava-me ao Mar.

Anónimo disse...

Para um Ateu como eu, tudo a que me cheira rastejar junto de qualquer religião mete-me nojo. Outra coisa em minha casa mando eu, sempre assim foi. Agora parece que na Itália não será bem assim, ali mandam os amigos de Peniche, ou melhor da Pérsia. Tenham vergonha seus Italianos de segunda. Respeitem a vossa História.

David Lencastre disse...

Eu dia mais, MPDAguiar, quem parece desconher essa máxima, de "em Roma sê Romano" são, pelos visto e lamentavelmente, os próprios italianos.

Anónimo disse...

Esteve bem a França, e péssima a Itália. Se eu fosse Italiano morria de vergonha de me rebaixar a seres inferiores fanáticos por religião. Começo a ficar com simpatias pelos grupos racistas e xenófobos que não gostam destes seres desses continentes.

Mal por Mal disse...

Mesmo que amandessemos o virus zika para aquelas bandas não resultava por causa da protecção das burkas.

Anónimo disse...

"The Independent" de ontem (28/01) tem na pagina 3 um magnifico cartoon que recomendo, embora nao possa enviar. Roma, estatua em caixote,forca...um mimo por Dave Brown colaborador assiduo da pagina 3 do Independent.On line ha uma seleccao "The best of Dave Brown que recomendo.

Bom dia de sol que aqui nao ha!!!

F. Crabtree

Luís Lavoura disse...

mandei transformar o jantar num pequeno-almoço de trabalho

Acho isto muito estranho. Crê que todos os convivas portugueses do aprazado jantar necessitariam e não prescindiriam de beber vinho? Quem lhe diz que uma parte substancial desses convivas não aceitaria estar presente a menos que houvesse vinho?
Antes de cancelar o jantar deveria, na minha humilde opinião, ter indagado dos convivas portugueses se não se importavam de prescindir do vinho. Possivelmente, muitos deles não se importariam e prefeririam ir adiantando o trabalho logo nesse jantar.

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura não percebeu. O jantar teria, da nossa parte e da parte iraniana, exatamente as mesmas pessoas que teve o pequeno-almoço. E a diplomacia, que é um ritual para a acomodação e gestão de interesses, é um exercício de bom senso.

Isabel Figueira disse...

Gostei de ler este seu post e é bem verdade Em Roma sê romano. Fiquei estupefacta quando li a noticia. Coitado do Michelangelo se fosse vivo dava-lhe um ataque apopletico. Vergonhoso!!!!! Eu até tremo só de pensar o que irão fazer se/quando esse senhorito vier a Lisboa.
Os europeus têm que ensinar boas maneiras a essa gente. Será que eles têm medo se por acaso se sentam numa mesa onde estão várias garrafas de vinho não conseguem resistir a bebê-lo?

Tenha uma boa tarde :)