domingo, 24 de janeiro de 2016

França: a direita em papel


Coincidindo com a decisão da direita francesa de organizar, no final deste ano, umas eleições "primárias" para a escolha do seu candidado presidencial em 2017, surgiram a público vários livros assinados pelos potenciais contendores. O mais recente é o Nicolas Sarkozy, publicado nesta sexta-feira e que, a avaliar pelos comentários da imprensa, apresenta uma versão escrita da postura "j'ai changé!", com que o antigo presidente se apresentou não há muito tempo numa célebre entrevista à TF1.

Ninguém em França acredita que Sarkozy tenha mudado. Mas cai sempre bem dar um ar de humildade, de arrependimento, porque talvez seja esse o caminho para tentar atenuar a elevadíssima taxa de rejeição que as sondagens mostram a seu respeito. Sarkozy mudou entretanto o nome do partido UMP para "Les Republicans" (em França isto é vulgar acontecer à direita e ao centro, embora menos à esquerda), num "rellabeling" que também quer fazer presumir mudanças de rumo. Veremos em que medida terá sucesso nesta operação, perante um país que, em 2012, se revelou exausto da sua "hiperpresidência", da sua agressividade e com crescentes dúvidas sobre a sua distância face a certos "affaires". Agora, o "novo Sarkozy" quer sugerir-se como "protetor" dos franceses, procurando evitar que a sedução do "Front National" de Marine Le Pen se acentue. Resta saber se não acabará por reproduzir a agenda da extrema-direita, como muitas das suas atitudes recentes parecem indicar.

Sarkozy não está isolado nesta sua nova aventura editorial (em França, um político que não publica um "bouquin" todos os dois anos praticamente não existe). Desde logo, das cinzas da última eleição interna dentro da ex-UMP, "renasceu" Jean-François Copé, o "maire" de Meaux, uma figura muito controversa, que tenta um "comeback" com um livro "de ideias". Nas mesas das livrarias, vi também edições dos dois outros pretendentes ao Eliseu, os ex-PM François Fillon e Alain Juppé e o ex-ministro Bruno Le Maire. E anunciam-se publicações de mulheres que já foram "escudeiras" de Sarkozy e que agora se distanciaram, como Nathalie Kosciusko-Morizet, Nadine Morano e Valérie Pécresse. E outros aparecerão, pela certa.

Um amigo socialista francês comentava-me, há dias, que os próximos tempos da direita vão ser muito interessantes de seguir. E, maldoso, comentava: "Não sei se Valls ou Macron não se aventurarão a concorrer às 'primárias' da direita". Ora Manuel Valls e Emmanuel Macron são respetivamente primeiro-ministro e ministro das Finanças ... do atual governo socialista! Mas ambos têm uma posição política tão à direita que a anedota não deixa de ter algum sentido.

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

As classes dominantes ganharam a batalha das ideias. Beneficiaram da crise, para operar uma inversão radical dos valores, para credibilizar a sua alternativa - ultra liberal - à crise do seu sistema : o neoliberalismo. Os dois asseguram a hegemonia de classes, o controlo social, a sua perenidade no poder, a acumulação dos lucros.

Rebelo de Sousa é a "suite"de Cavaco, que trará de volta Passos ou outro do mesmo sistema. E mesmo se o governo actual é de esquerda, a acção segue a linha da direita que lhe é imposta do exterior. Os semáforos de Bruxelas já se puseram a piscar no vermelho.

Estas classes dominantes conseguiram fazer aceitar ao maior numero escolhas políticas de "restauração" e de regressão total. E quem o "vê" na massa dos quase 50% ou mais que vão votar por Rebelo de Sousa? Onde está a educação política desta massa que lhe teria permitido de votar de outra maneira? E, no fundo, como é possível para essa massa separar o trigo do joio na barafunda da esquerda? Inflação de candidatos e penúria de políticos.

Estas classes dominantes fizeram cair o país numa sociedade de ruptura com aquela que era globalmente a nossa desde o fim da guerra.
E isto é verdade para Portugal como para a França e outros países. Hugo, Zola, Jaurés, os "frontpopulistas", os Resistentes, devem retornar-se nas suas tombas.
As classes dominantes inverteram os termos da luta de classes, enquanto que no mesmo momento, à esquerda, alguns questionavam-se onde esta teria passado.

Estes espoliadores , abarrotados de notas de 500 de preferência, culpabilizam a fundo as classes populares, tornadas responsáveis da situação. Os exploradores, os privilegiados, são doravante estes parasitas de funcionários, protegidos pelo "insuportável" estatuto da função pública, velha relíquia comunista, dizem eles, todos estes parasitas abastados, beneficiários dos "mínima sociais" e que enriquecem a dormir, estes desempregados preguiçosos assistidos, alérgicos ao trabalho, estes precários famintos , estes depenados que têm um estatuto e o defendem.

E o que é grave é que este discurso é o de muitos da classe dominada. Goebbels tinha razão : o que é preciso é repetir, repetir sempre e ainda as mesmas mentiras. Algo ficará na memória dos imbecis.

O Senhor Embaixador fala de Macron? O ministro da Economia "socialista" ? O cínico "politicard" transgénico, este "winner" pronto a tudo, forrado aos milhares de milhões, advogado da sua classe, que mistura alegremente tudo, dizendo que a vida é mais fácil para os assalariados que para os empresários, confundindo à passagem os bilionários do CAC40, com os pequenos artesãos que não sabem como fazer os salários no fim do mês.
Como se chamam os sósias de Macron em Portugal? Relvas, Ulrich & Cia?

As classes dominantes conseguiram convencer a maioria que "se faz demais" para os "perdedores", que as desigualdades são factor de eficácia económica, que o "Estado Social" trava a modernidade e o progresso. Velho discurso Thatcheriano e Reaganiano!

Um dia será preciso escolher entre a barbaria e o socialismo. E afirmar uma vez para sempre que é o custo do capital, a corrida aos dividendos exorbitantes e à remuneração máxima deste capital, que sangram, esterilizam, a economia.
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Anónimo disse...

Como diria o João Gaspar Simões (citado pelo Luiz Pacheco): têm tanto que escrever que nem têm tempo de fazer política...

Atenciosamente