sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Foi assim...


Não éramos muitos. Apenas algumas dezenas. Na maioria, especialistas nas áreas económica e jurídica, além de uns quantos diplomatas, numa convivência pouco habitual mas que, com os anos, se foi tornando cada vez mais natural e frutuosa. Grande parte vinha da estrutura que havia representado os interesses sectoriais portugueses no processo de adesão às então chamadas "Comunidades europeias". Alguns haviam sido destacados de outros departamentos técnicos. Outros ainda, provinham do núcleo que, nas Necessidades, tinha sido responsável pelas negociações. Eu vinha... de Angola! Juntámo-nos todos naquele edifício da Visconde de Valmor, para dar início à grande aventura que começou a fazer-se há precisamente 30 anos.

O "know-how" português sobre as questões europeias era considerável, mas algo lacunar. No MNE, no Ministério das Finanças e em vários outros departamentos do Estado, havia já gente com forte experiência em alguns dossiês, em particular dos que haviam sido objeto de negociação mais intensa. Porém, a globalidade do universo bruxelense era algo que ainda nos transcendia.

Sabíamos bem o que era essencial para os nossos interesses, aquilo a que deveríamos estar atentos em prioridade. Essa era a agenda “defensiva” a que estávamos aculturados. Mas havia um conjunto de temas que, por não serem relevantes para essa nossa agenda nacional, não suscitavam então a nossa reação.

As instituições europeias são uma "fábrica" de papelada, se bem que, à época, a sua "produção" fosse bem mais limitada do que hoje sucede. Não obstante, lembro-me de aterrarem então sobre as nossas secretárias resmas de documentação sobre cujo tratamento nos interrogávamos, com “deadlines” para eventual resposta que nos angustiavam e que, passadas que fossem, nos deixavam “aliviados”.

Depois dos primeiros meses de 1986, tudo começou a ficar mais claro: os assuntos coneçavam a ser hierarquizados com maior realismo e, pouco a pouco, o que sentíamos como alheio passou a mobilizar a nossa atenção. Porém, muitas das vezes, os departamentos técnicos que consultávamos não eram capazes de manifestar nenhuma opinião e, recordo, a perplexidade sobre a atitude que devíamos assumir podia ser imensa. 

Interessante passou a ser a nossa participação nas reuniões de Bruxelas, onde à timidez inicial de alguns sucedeu o “atrevimento” de outros, quando ousavam pronunciar o “Portugal pensa que…” Éramos todos aprendizes de uma arte nova, alguns já com experiência internacional anterior, outros dando os primeiros passos num terreno em que todos tínhamos a consciência de ir assentar muito do nosso futuro.

Foi assim. Correu bem, mesmo muito bem, essa magnífica aventura iniciada a 1 de janeiro de 1986.

3 comentários:

Majo disse...

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Parabéns pela efeméride
que coincide com o Dia Mundial da Paz...

Desejo-lhe a continuação de muito sucesso.
Acho muito complicada a arte da diplomacia.
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aamgvieira disse...

Correu muito bem!..... depois de :

"O processo pelo qual a nossa banca se vai tornar espanhola não começou agora. Começou em 1975, quando o MFA decidiu destruir os grupos financeiros nacionais." como diria Rui Ramos !

Anónimo disse...

Não há dúvida que estão melhores...........alguns

http://economico.sapo.pt/noticias/adesao-a-cee-foi-ha-30-anos-nivel-de-vida-dos-portugueses-ao-nivel-de-1990_238660.html