terça-feira, 20 de outubro de 2015

Uma agenda 'fraturante"


A eleição de um deputado do PAN, partido das Pessoas, Animais e da Natureza para a Assembleia da República tem sido tratada com alguma displicência pela comunicação social e pelas redes sociais. Até eu já meti a minha "colherada" humorística!

Ora posso imaginar que o PAN possa vir a trazer para o plenário parlamentar um ponto de agenda que, estou certo, vai criar muitos problemas. Refiro-me à questão da proibição das touradas.

Se o partido quiser, de facto, ser consequente com a grande maioria dos que o apoiam, não poderá deixar de colocar o tema em sede parlamentar de discussão. E isso converter-se-á numa questão polémica, podem crer.

Julgo saber que, pelo menos no PS, PSD, PCP e CDS - desconheço se no Bloco de Esquerda - há, simultaneamente, pessoas favoráveis e desfavoráveis às touradas. Este ameaça assim ser um debate transversal aos partidos.

As touradas são uma questão que, claramente, divide o país. Não é uma tema esquerda-direita, porque conheço muito boa gente de esquerda que adora uma boa "faena" e figuras conservadoras que detestam a "festa brava".

No que me toca, e desde há muitos anos, sou abertamente contra as touradas. As razões de ser desta posição, que se foi maturando com o tempo, não são para aqui chamadas.

Um dia de 1997, quando negociava em nome de Portugal o Tratado de Amesterdão, o negociador-chefe espanhol veio ter comigo pedindo o meu co-patrocínio para "atenuar" um Protocolo, proposto por um grande número de Estados, para ficar em anexo ao tratado, relativo à proteção e ao bem-estar dos animais. Convicto de que tinha em mim um colega "aficionado", explicou claramente a motivação da iniciativa do seu governo e disse-me que estava certo de poder contar com o meu apoio para introduzir uma salvaguarda nesse protocolo, de forma a evitar que as touradas fossem afetadas.

Lembro-me de ter sorrido e de lhe responder qualquer coisa como isto: "Estás muito enganado! Detesto touradas e toda a suposta "cultura" à volta delas. Mas vou apoiar o que me pedes. Não porque tenha a menor instrução nesse sentido do governo de que faço parte, mas porque sei que, se o não fizesse, podia vir a desencadear em Portugal um debate sem fim. Por isso, estarei contigo a defender o "statu quo" ".

E lá está hoje, anexo ao Tratado de Amesterdão, o Protocolo nº 33 que assinala que, na aplicação de diversas políticas comunitárias, "serão tidas plenamente em conta as exigências em matéria de bem-estar dos animais". Logo de seguida, porém, e ainda na mesma frase, a disposição é diluída com o seguinte texto: "respeitando simultaneamente as disposições legislativas e administrativas e os costumes dos Estados-Membros, nomeadamente em matéria de ritos religiosos, tradições culturais e património regional". Outros negociadores, por diversas razões, juntaram-se a esta "frente ibérica". Lembro-me dos franceses, porque as touradas são "sagradas" numa faixa geográfica que vai da zona basca francesa à Camargue, já na Côte d'Azur.

Não tenho esta pela minha "finest hour" enquanto negociador europeu, mas eu não estava ali em representação das minhas ideias. Desta vez, porém, desejo ao PAN o maior sucesso.

10 comentários:

jj.amarante disse...

Não resisto a recomendar um post meu, a propósito de touradas, que poderá ser acedido googlando "O Touro, a Lagosta e o templo Jain de Ranakpur"

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Chico amigo

O meu Pai era forcado dos Amadores de Santarém na altura capitaneado por António Augusto de Abreu (fundador); o meu irmão Braz Manuel Antunes Ferreira foi pegador de touros nos Amadores de Santarém; eu que me borrava de medo não fui nada tauromaquicamente falando. Vejo corridas de touros na TV e até as via na praça.

Não sei por que bulas deixei de ver touradas (nem na TV) mas continua ter medo dum garraio, quanto mais dum touro e quiçá duma vaca leiteira (daquelas que nos Açores sorriam de felicidade segundo Cavaco)

No meu partido (que é o PS) há gente a favor e gente contra; falo de touradas é evidente. Mas posso relembrar que até na tauromaquia o PS é um partido plural...

Abç do Leãozão

E antes que me esqueça gosto à brava (não escrevi Festa Brava) do PAN que, pelo menos não engana ninguém...

Catinga disse...

E o "foie gras", também é para proibir? Parece que há países onde a sua venda já não é permitida. Devemos aderir ao boicote?

Aguarda-se a coerência...

Maria disse...

Esta na hora de ouvir Jacques Brel

Les toros s'ennuit le dimanche
Quand il s'agit de courir pour nous
Un peu de sable du soleil et des planches
Un peu de sang pour faire un peu de boue...

Saudades

F. Crabtree

António Azevedo disse...

Ontem veio à baila a pessoa que matou outras três por causa de um cão. O meu interlocutor tentou justificar a desgraça com a ultrapassagem dos limites de qualquer paciência.
Eu disse: mas dava um tiro no cão, ora essa!
No cão??? Mas o cão não tem qualquer culpa! (isto veio de uma pessoa que está aqui ao meu lado… portanto, ao que podemos chegar…)
Até já há interpretações sobre os "pensamentos" dos ditos:
O cão sendo “amado”, mimoseado e bem nutrido pensa: o meu dono é deus!
Já o gato pensa: eu sou deus!
antónio pa (gosto muito da tourada à portuguesa e não gosto mesmo nada da morte do touro na arena!)

Majo disse...

~~~
~ Compreendo as razões que o levaram a apoiar o negociador espanhol em 1997, porém, constato que a diplomacia é uma arte que obriga a atitudes raras e estranhas!

~ Secundo os seus votos em relação ao PAN e ao fim das touradas. Que seja desta vez!
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septuagenário disse...

Há labradores e serras da estrela e galgos e mesmo rotweileres, martirizados entre 3 metros quadrados de varanda e o sofá frente à televisão, com 5 minutos para fazer as necessidades no jardim, a cada 12 horas, durante a vida inteira.

Excepto os cães que são abandonados quando as crianças cresceram e se tornaram doutores no desemprego e carecas, e sem paciência para os passear e se tornam mais tarde defensores dos animais.

Preocupem-se com este animais impróprios para apartamentos e deixem os toiros com 5 anos a passearem-se livremente até que vão para bifes e costeletas.

Pessoalmente nem vou a touradas nem tenho cão, mas a minha/nossa geração 80% rural, sabemos muito bem o que são animais e para que podem servir.

opjj disse...

O deputado do PAN começou com uma grande mentira. Diz ele; em Portugal 50% das pessoas têm animais (cães).
Mal estaria o país se isso fosse verdade. Estavamos perante uma BOStada ainda maior do que já é. Hoje nem podemos olhar para o céu, senão...
Faça leis sim para que as pessoas sejam limpas e responsáveis e não deixem os cães defecar nos passeios e à porta dos outros, façam-no na suas casas, pois tb têm paredes.
Na minha Rua que vai até ao nº 15, habitam mais de 300 pessoas e não há 6 cães.Conheço famílias grandes (40) em que só 1 tem cão.
A grande maioria das pessoas ainda têm cabeça.
Cumps.

Catinga disse...

Quem fala de cães e gatos deverá perceber que as pessoas que fundam e aderem a coisas como o PAN são, precisamente, os fanáticos dos ditos bichanos, portanto, nunca farão nada que ponha em causa o seu eleitorado - e, sobretudo, a crescente base à qual poderão ir caçar votos. O PAN (que começou como "partido dos animais" e, recentemente, sofreu um "restyling" para "Pessoas, Animais e Natureza - a redundância dos termos demonstrando a apressada busca por "legitimidade"), está-se borrifando para a destruição das dunas, a desertificação, a sobre-exploração dos solos, a reintrodução de espécies, etc. A "natureza" deles não é a dos ecossistemas e sua proteção mas sim a natureza pequeno-burguesa das alminhas muito condoídas com o cavalinho que está magro, o lulu que precisa de festas ou o tareco que mia triste. Depois, colam-se a estas beatas criaturas os habituais radicais anti-hamburgueres e os misantripos. A tourada, aqui, é apenas o cego do costume. Bate-se nele porque sim.

Isabel Figueira disse...

Deixem mas é essa fobia contra as touradas e dirijam toda a atenção para os homens, mulheres e crianças que passam fome e outros que calcorreiam meio mundo para fugir à maldade do Homem. Façam uma lei para que a todos os animais domésticos lhes seja aplicado um chip, sem custos para os donos, para quando forem encontrados nas ruas, as autoridades possam recolhê-los e verificarem quem são os donos.

Ah! Eu gosto de Touros, de Cavalos e de Forcados. Já fui muito aficionada à tourada mas agora só vejo na TV, gravada, para ter a certeza que não vou ver acidentes ou seja: forcados pelo ar, cavalos feridos pelo touro... Adoro ver pela TV os Encierros em Pamplona, especialmente os Touros Miura.

Tenho dito!