domingo, 15 de março de 2015

Razões para morrer

Há dias, atentei numa cerimónia em Londres onde se honrava a memória dos 453 militares britânicos mortos no Afeganistão, na decorrência da ação militar desencadeada nesse país por uma coligação de forças liderada pelos EUA. Recordo que se tratou da resposta militar aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, a coberto de um mandato das Nações Unidas, com indiscutível legitimidade. O Afeganistão acolhia grupos terroristas que, naquele como noutros casos, se tornaram fortemente detrimentais para a paz mundial. Portugal integrou essa ação e fez bem.

Porém, ao refletir sobre os 453 mortos britânicos (para 2356 americanos e 2 portugueses), não pude deixar de comparar este sacrifício com o resultado efetivo deste esforço político-militar. Olhando para o Afeganistão dos nossos dias, para a extrema fragilidade das suas instituições políticas, para a permissividade ao compromisso com alguns grupos de "talibans" claramente responsáveis por ações de extrema violência, observando os efeitos que a campanha teve na perigosíssima desestabilização do Paquistão, a interrogação é legítima: valeu a pena? Se eu me coloco esta questão, muito mais legítimo é que ela surja aos familiares dos mortos.

Nos últimos tempos, temos vindo a assistir a uma evidente retração do Reino Unido no cenário político-militar global. O tradicional "compagnon de route" dos EUA mostra-se cada vez mais relutante a envolver-se em aventuras militares, sendo a da Líbia, em 2011, a última conhecida - cuja resultante está bem longe de se poder considerar brilhante. Pensando nos 453 mortos no Afeganistão, no peso orçamental de umas forças armadas qualificadas, nos militares e nas suas famílias, pergunto-me sobre a liberdade que um governo como o britânico terá hoje para comprometer tropas em zonas de conflito e de risco, que não sejam percebidas pelas populações como representando a sua fronteira natural de segurança.

E dei comigo a pensar sobre a NATO, sobre o artigo 5º do seu tratado constitutivo, sobre a agressão a um Estado dever ser considerada como uma agressão a que todos os outros têm de responder. Até que ponto a acumulação destas frustrações geopolíticas, a atenção crítica das opiniões públicas, o regredir do patriotismo, a leitura diferenciada dos interesses não terá já corroído os fundamentos de um compromisso que vem de um tempo em que o adversário era claro e existencial, em que quase ninguém aceitava o princípio complacente do "better red than dead"?

Esta é uma questão da maior importância, num tempo em que se ouve Jean-Claude Juncker falar, com alguma ligeireza, da necessidade do "exército europeu"? Onde está o "patriotismo" europeu que pode levar alguém, algum dia, a correr o risco de poder morrer em combate longe da sua fronteira natural? Devemos refletir muito bem em tudo isto quando analisamos a questão da Ucrânia e das fronteiras NATO por essa área.

6 comentários:

Anónimo disse...

Pois é. Os portugueses não irão morrer por Varsóvia por causa da Rússia. Os polacos também não virão morrer por Lisboa por causa do EI. Assim vai o Mundo e a Europa. Assim vão a NATO e a UE. Temos todos que nos acomodar - menos a Rússia e o EI, enquanto ali houver carne para canhão.
a) É a vida

Bartolomeu disse...

Também achei imensa piada ao que foi dito pelo ex-PM Luxemburguês, relativamente à criação do tel exército.
Este sim, seria motivo para o nosso PM repetir aquela alegoria da "brincadeira de crianças". A menos que Jean-Claude Juncker esteja a planear alguma coisa ao estilo dos filmes de ficção científica com a formação de exércitos constituídos por androides invencíveis, criados em laboratório a partir de uma base robotica revestida numa matéria semelhante à pele humana mas resistente ao impacto das balas... etc, etc, etc.
Agora; não tenhamos dúvidas de que, pelo jeito que a coisa leva, com o aumento dos atentados terroristas e do recrutamento de futuros talibãs entre os cidadãos europeus... urge que sejam tomadas medidas muito sérias e eficazes.

Joaquim de Freitas disse...

A invasão do Afeganistão não foi legítima.

Primeiramente, a legitima defesa, em direito internacional como em direito interno, deve ser claramente distinta do emprego da força visando uma vingança ou punição: Os Estados, como as pessoas não devem fazer justiça eles mesmos.

O artigo 51 da Carta das Nações Unidas considera o direito natural de legitima defesa, mas só no caso em que um membro das Nações Unidas é objecto duma agressão armada.

A noção de legitima defesa não se aplicava para os atentados do 11 Setembro, o Afeganistão não podendo ser considerado agressor por atentados que não cometeu, Ben Laden e sete outros autores sendo Sauditas e os atentados tendo sido planificados na Alemanha.
Foi só em Outubro de 2004, portanto três anos depois da invasão que Ben Laden afirmou que Al Qaida era o autor. Antes desta data, os EUA não tinham feito a demonstração da sua culpabilidade, nem a de Al Qaida e ainda menos a do Afeganistão, perante uma instância apropriada. Os EUA rejeitaram mesmo a oferta dos Talibãs para extrair Ben Laden ao Paquistão para ser processado.

Em direito internacional, quando não se pode identificar o agressor, não se pode evocar a legitima defesa, para atacar mais tarde um país que se presume ou pretende ser o agressor.

A agressão dos EUA contra o Afeganistão em Outubro 2001 foi na realidade a aplicação da nova doutrina de "guerra preventiva" que este país oficializou em seguida, concedendo-se o direito de atacar unilateralmente "preventivamente" não importa qual país que possam perceber como uma ameaça aos seus interesses vitais ou dos seus aliados.

Foi aliás em nome desta nova doutrina que o Iraque foi invadido, assim como a Líbia, e amanha o Irão ? Estes actos são nada mais nada menos que a aplicação da lei do mais forte na cena internacional.

Não, a guerra no Afeganistão foi decidida e dirigida pelos EUA. Foi conduzida por uma coligação, principalmente de membros da NATO, ( incluindo o Canada) que invocaram desde o 4 de Outubro de 2001, o artigo 5 do Tratado de Washington, em virtude do qual todo ataque contra um país da NATO, lançado do exterior deste país, é interpretado como um ataque contra todos os países da NATO.

Nenhuma resolução do Conselho de Segurança autorizou os EUA a fazer esta guerra. A Resolução 1368 condenou fortemente os atentados, e a 1373 estabeleceu certas medidas contra o terrorismo a adoptar pelos Estados. Nem o nome do Afeganistão aparece nestas Resoluções.

A grande simpatia do mundo inteiro de que beneficiaram os EUA, merecida, foi transformada num "passe-droit" do qual este país vai abusar em seguida.

Enfim, Senhor Embaixador, desde o Verão de 2001 que apareceram nos média britânicos, franceses e indianos, revelações de alguns altos funcionários americanos revelando a intenção de invasão do Afeganistão. " Antes da primeira neve ", isto é mais ou menos em Outubro. E assim foi feito.

Quanto ao resultado desta guerra e das outras guerras para os povos respectivos, se houvesse um tribunal internacional há muito tempo que os culpados dessas centenas de milhares de mortes teriam sido condenados. Mas quem pode condenar o Império

Anónimo disse...

o sr.JF voltou do esqui alpino..

"“O grande objetivo que o Estado Islâmico tem é Roma e o Vaticano – toda a inteligência europeia já sabe disto -, para desencadear um ataque ao Papa Francisco. Porque nesse dia a guerra santa estará criada, os cristãos vão sentir-se ressentidos e vão criar um sentimento anti-islâmico muito maior.”, Paulo Rangel no Observador.

A Europa "dorme-politicamente-correcta! !!!!

Manuel do Edmundo-Filho disse...

"Onde está o "patriotismo" europeu que pode levar alguém, algum dia, a correr o risco de poder morrer em combate longe da sua fronteira natural?"

A pergunta poderia ser feita de igual modo para as próprias fronteiras.

O patriotismo,como quase tudo na vida, especialmente em política, é uma coisa que se cultiva. E neste ponto, a esquerda, mesmo a democrática, (na qual me incluo) tem grandes responsabilidades...

A desvalorização da patriotismo, muitas vezes,a sua própria ridicularização, foi uma das piores, entre muitas...,sequelas do combate à ditadura.

A nossa esquerda (até diria: nós, os portugueses), tem a tendência de juntamente com a água suja do banho, deitar fora também a criançinha.

Anónimo disse...

Boa noite,

Steve McQueen(artista plastico, realizador de cinema)que em 1999 recebeu o Turner Prize com uma exposicao no ICA e uma instalacao na Tate foi nomeado "official war artist" durante a Guerra do Iraque. Esteve com as tropas do Reino Unido no Iraque e um dia teve a ideia luminosa de, com o apoio das familias dos militares falecidos durante a campanha,fazer, para cada um, uma folha de selos de correio com a foto do morto, e em anexo breves dados biograficos: nome, regimento, idade, data de morte. A sua ideia inicial era que os selos fossem usados como tal, circulando coladcos nos envelopes.Creio que ao todo sao 160 folhas de selos. Houve um pequeno numero de familias que nao autorizou o uso de fotografia do militar falecido. Para esses o selo tem imagem a preto. O problema foi obter dos Correios (antes da Privatizacao) a autorizacao para a circulacao dos selos. Nao autorizou.

Encurtando a historia, O Imperial War Museum fez circular a exposicao pelo pais entre 2007 e 2010, apos uma inauguracao no National Portrait Museum. Numa sala de dimensoes medias havia um expositor/caixa de madeira de carvalho, com gavetas ao alto. Os visitantes puxando gaveta eram confrontados com a folha de selos e a foto do militar que do selo nos olhava nos olhos. Os militares estao organizados por ordem cronologica (21 de Marco de 2003 a 12 de Fevereiro de 2009) Assim descrito pode parecer morbido mas nao era. Comovente sim.

O nome do projecto/exposicao..."Queen and Country"

Steve McQueen e, claro, o realizador de "Hunger" (2008) e "12 Years a Slave" (2013) Para informacao mais detalhada ha o catalogo, postais e o google...

Cumprimentos

F. Crabtree