sexta-feira, 27 de março de 2015

Não há Gelo para todos!

Andei muito pelo Montecarlo, mas nunca me sentei com o José Gomes Ferreira ou o Carlos de Oliveira. Nem com o Luiz Pacheco, que só vislumbrei entre as mesas. No Vává, nunca fui íntimo dos cineastas ou dos cantores. De alguns deles, só o fui décadas mais tarde. Parei na Smarta, mas nunca por lá falei com o Santareno ou a Natália Correia. Fui ao Café Lisboa algumas vezes, mas não fiz parte da gloriosa trupe jornalístico-cultural que fez a histórica travessia das cadeiras e das mesas, para o outro lado da Avenida da Liberdade, aquando da mudança de endereço. Fui visitante, regular ou episódico, de muitos e interessantes cafés e bares, cruzei muita gente que era ou veio a ser famosa, mas só conheci ou fui amigos de muito poucos, só à distância vi a esmagadora maioria dos outros. E não fiquei menos feliz por isso, podem crer.

Tenho amigos que conheceram toda essa gente, ou melhor, uns conheceram uns e outros outros. Ouço com gosto as suas histórias desse tempo, de uma Lisboa que passou por ali ao meu lado, que vi e apreciei como espetador, como aconteceu a tantos outros da minha geração. E, olhando para trás, acho que posso dar-me por muito satisfeito pelo privilégio de ter conhecido gente bem intetessante, pelo que não preciso de "inventar" os amigos que não tive e que, no parecer de alguns, parece que "dava jeito" ter. Por isso, irritam-me os que se colocam em "bicos-de-pé", algumas aves de arribação à sociedade intelectual lisboeta que hoje se colam a quem mal conheceram ontem. 

Neste capítulo, nada me atazana mais supinamente do que as memórias do "Gelo". Ando, há anos, a encontrar por aí pessoal que diz que esteve horas numa esquina de mesa do Café Gelo com os surrealistas, gente que um dia dirá que foi "quase por um pêlo" que não entrou nas antologias ou nas mostras plásticas, que só não fez parte da foto com o O'Neill a fingir de maneta porque foi ele próprio quem tirou o retrato. Como, nos dias que passam, já quase todos os famosos do Gelo estão mortos, há ainda alguns que ainda "estão mortos" por contarem, sem testemunhas desabonatórias, que eram íntimos do Cesariny, do Cruzeiro Seixas (se foram íntimos, porque o não visitam em Vila do Conde, onde ele hoje apaga a existência?), do Manuel de Lima, do Mário Henrique Leiria. 

A propósito da morte de Herberto Helder, que foi do "grupo do Gelo", eu pediria assim ao meu querido amigo Helder Macedo - esse sim, figura do grupo - que, de uma vez por todos, "fixasse" a lista dos habitués do local, por forma a evitar que o passado cultural do Gelo passe a ser como as enciclopédias da União Soviética, que mudavam as páginas quando alguém caía em desgraça. Lá em Moscovo, como acontece às vezes a propósito do Gelo, o passado estava sempre cheio de futuro...

10 comentários:

Moreira da Costa disse...

Só uma ligeira correcção. Penso que Cruzeiro Seixas reside, actualmente, em Vila Nova de Famalicão, perto de grande parte da sua obra detida pela Fundação Cupertino de Miranda.

Anónimo disse...

Diz-m com quem dizes que andas que eu te direi quem gostarias de ser.

Bartolomeu disse...

Se Helder Macedo acede ao seu pedido e afixa essa lista VIP, não se livra de uma convocação para depor perante uma comissão de inquérito, constituida por distintos deputados da Assembleia da Cultura, membros do Clube dos Escritores, Poetas, Pintores e Escultores Mortos. Morta está a cultura, mortas estão as artes neste país clandestino, rural, artesanal, todo ele, desde as primeiras auroras feito à mão e com muita lenda mística a compor o caldeirão.

patricio branco disse...

temos ou não razão para ser saudosistas, dos cafés de lisboa, neste caso? mas há sem duvida uma rica história nestes cafés, as diferentes tertúlias artistico-literárias, desportivas, tauromáqicas, cinematograficas, politicas, oposicionistas, situacinistas, etc, que existiam e funcionavam nuns e noutros.
grande parte destes cafés desapareceram, é pena, mas será assim a vida dos cafés...
existirá uma história socio-cultural dos cafés? mereciam, há nisso grande riqueza, é uma parte da nossa história cultuiral.
não sei como é agora, nos novos cafés, algum tipo de distintas frequencias deve haver...

Anónimo disse...

É Portugal, melhor, é Lisboa... O Porto é bem diferente.
Se o ridículo matasse, era um alívio...

Anónimo disse...

Por lá andei também na década de 60, sobretudo no Monte Carlo, mas não me lembro do Sr. Embaixador.

Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 18.39 andou "por lá", presumo que pelo Gelo. Eu não, nem sequer me recordo de lá ter entrado uma vez que fosse. E o Anónimo também foi ao Montecarlo e diz que não se lembra de mim por lá. É uma pena, porque eu lembro-me bem dele, nesse tempo, idto é, no tempo em que tinha nome e corahem para o usar.

domingos disse...

Apesar de ser um cliché já gasto, admira-me que ninguém tivesse mencionado a icónica Brasileira do Chiado, albergue de tantos escritores, jornalistas, políticos, artistas e aparentados. Creio mesmo que um dos seus habitués escreveu umas "Memórias da Brasileia do Chiado". Havia até um diplomata, já retirado, que cantava ópera e passava a vida lá metido.

Anónimo disse...

Nessa altura vim para Lisboa para frequentar a faculdade... As greves eram muitas... e, tudo o resto pouco saudável! E, o cinema?! Sim, ao cinema devo tudo. Lisboa estreava os últimos filmes ao mesmo tempo que Paris ou New York. Foi uma sorte. Devo tudo ao cinema. Não precisava de andar muito para chegar ao VÁVÁ. Morava perto. Discretamente ia apanhando umas coisas, e percebendo melhor "muita coisa" para onde derivavam os críticos dos filmes. Agradeço sempre que digo que a minha vida fez-se nas salas de cinema. No "City" quando começaram as sérias mensais: um filme por dia na sessão da meia-noite, lá estava eu... morava entretanto ao lado do Quartel General no Largo de S. Sebastião, a uns metros do novo cinema... Foi assim, calhou. Foi uma sorte como já disse antes. Nessas noites encontrei "nas noites de inverno" pessoas que hoje são públicas figuras, muito importantes no estilo que "talvez" no cinema aprenderam a imitar... O cinema foi a escola melhor do país. Quem ia regularmente ao VÁVÁ ou foi político, escritor ou jornalista. Foi assim, com a gente que discutia os filmes que acabávamos de ver, ou rever até ao fim do elenco se apagar na fita! Bonito tempo. Boa escola, no mínimo! Obrigada, por mais esta lembrança. Não se esqueça que Lisboa era Lisboa, e, o resto...

Anónimo disse...

E onde é que há tempo para ir a esses cafés?

As pessoas não trabalham ou não têm família para cuidar?