quarta-feira, 11 de março de 2015

Corrupção


Não conheço Paulo Morais. Ouvi falar dele pela primeira vez quando, há anos, se soube que um vereador tinha abandonado a Câmara Municipal do Porto (creio que) em protesto contra a falta de determinação revelada pela instituição em matéria de combate à corrupção. Estranhei, tanto mais que se havia uma qualidade que se colara à pele do então presidente do município, Rui Rio, essa era a honestidade. Mas acabei por ficar com admiração por quem, aparentemente, queria ir mais longe nessa nunca concluída luta pela limpeza de processos na administração.

A partir daí, comecei a atentar mais no discurso público de Paulo Morais, que surgiu ligado à ONG Transparency International. Leio-o e ouço-o, a espaços. Notei que cavalgava essa saudável onda que percorre o país na rejeição dos atos de corrupção, na denúncia dos tráficos de influência e de todas as formas de conduta ilegítima e ilegal, que corroem a política e a administração pública.

Até aí tudo bem. Mas, ressalvada a hipótese de me ter falhado alguma coisa substancial (o que não excluo e, a ser verdade, me fará retratar) nunca me constou que Paulo Morais tivesse apresentado às autoridades dados comprovativos de malfeitorias dos quais tivessem resultados condenações. O que tenho visto é um discurso vago, que se aproxima muito da chamada "conversa de taxista", isto é, o apontar, com sobrolho cerrado e ar grave e indignado, de suspeitas sobre um mundo sem fim de áreas económicas e da administração, como se bastasse dizer que "toda a gente sabe" e "as autoridades que investiguem". Paulo Morais tem vivido a coberto de uma espécie de bula, que está consagrada aos olhos dos utentes dos meios de comunicação que lhe acolhem os textos e as intervenções, meio em que se criou já a ideia de que basta denunciar e que não se tem a menor obrigação de ir mais além - no género, "eu já avisei que ali há marosca, agora atuem". Acho isto de uma ligeireza inaudita.

Ontem, ficou-se a saber que Paulo Morais enviou à Assembleia da República dados sobre um determinado caso de corrupção em que o suporte das denúncias assenta... em citações de si mesmo e em programas de televisão em que participou. Com ironia, fez-me lembrar o exemplo daquele académico francês que passava o tempo a citar-se a si mesmo e de quem se dizia que tinha como rendimentos os "royalties" que recebia dos direitos de autor que pagava pelo uso das suas próprias citações...

O combate à corrupção, ao tráfico de influências e a outra criminalidade de "colarinho branco" é uma coisa demasiado séria para ficar reduzida a este tipo de caricaturas que só o desqualificam e apenas bebem de um populismo mediático que vive à base de "bocas & bitaites", apoiadas na má língua e na inveja reinante. Se Paulo Morais quer estar para além disto, tem de ser mais consequente e concreto. 

10 comentários:

Ésse Gê (sectário-geral) disse...

Havia um que dizia que futebóis e autarquias era tudo corrupto; tendo sido citado para dar pistas sobre os seus fundamentos, dizia que não era polícia.
Há uma que diz que futebóis e autarquias é tudo corrupto; tendo na mão o apito dourado e a polícia para investigar e promover, aquilo foi por água abaixo.
Há uns que dizem que obras públicas e autoestradas é tudo corrupção; sendo desafiados a trocar a coisa por miúdos; parecem, afinal, ganapos a brincar aos polícias-e-ladrões e aos bombeiros: veem o que toda a gente vê, que anda fumo no ar, mas é só um ouvi dizer que. Esperam que algum dia os levam a sério e sejam elevados a poleiro.
E lá de cima cantarão mais alto e farão como os outros: NADA.

Isabel Seixas disse...

Gostei muito do post. Há de facto tanta mas tanta superficialidade/leviandade e aproveitamento do diz que diz que.
Ainda mais agora na época pré campanha em que já começam a vislumbrar-se sinais claros de conspiração do silêncio para os aproveitadores e alpinistas do poder só pelo poder e para obterem dividendos à custa da habilitação politico partidária, pior ainda os sonsos que sofrem de amnésia conveniente e criticam os antecessores que nada fizeram no mandato social para o qual foram pagos, sem se lembrarem que eram eles próprios .

Anónimo disse...

Este Paulo Morais tem prestado um enorme apoio à corrupção de "colarinho branco" com as denúncias inconsequentes, na minha opinião!
Mas mais grave é a corrupção de “colarinho às riscas”, a pequena corrupção, de favorzinhos de colocações (zinhas), de familiazinhas açambarcarem, serviços, escolas, universidades, etc. Quando aparece alguém num serviço, pergunta-se logo: de quem é?
E as empresas? Que só medram se estiverem “perto” de uma mamita…
Como não quero “fazer” de Paulo Morais proponho-lhe duas medidas e uma consequência para o P de um G:
“Para qualquer serviço pago por dinheiros públicos não pode entrar alguém que seja familiar de um funcionário desse serviço”
“Exclusividade TOTAL (de todos) para quem receba dinheiros públicos”
“É razão bastante de demissão do PM se aparecer uma exceção a estas duas regras”

Luís Lavoura disse...

Bom post.
E agora li algures que Paulo Morais quer criar um novo partido, precisamente para promover o combate à corrupção. Pergunto-me qual será, precisamente, o programa desse partido. Que medidas defende Paulo Morais para que se acabe com a corrupção?

Anónimo disse...

http://jornalf8.net/2015/deputados-jornalistas-hum/

Anónimo disse...


O dito cujo Paulo Morais é um mosqueteiro contra a corrupção.É o seu emprego...
Berra,berra e não diz nada!
Quando o discurso é o de "todos são corruptos" só serve a corrupção!Se são todos não há nada a fazer...
Ignorância e bazófia são o ingrediente do populismo!

Anónimo disse...

enfim, ao nível do seu conterrâneo antónio barreto que clamava por todo o lado haver cláusulas secretas nas ppp´s. quando foi chamado ao parlamento para concretizar o que andava a dizer, confessou que tinha ficado com a impressão.
os últimos anos têm estado de feição para estes crápulas. mas pronto, têm sorte porque se acabaram as bengaladas do sec. xix.

EGR disse...

Senhor Embaixador: tem toda a razão quanto ao facto de Paulo Morais nunca ter sido capaz de apresentar quaisquer dados que permitam sustentar as afirmações que faz.
Devo dizer que tive opurtunidade de conhecer poliiticamente, e de perto, o comportamento dele.
E, devo por isso mesmo dizer também, que sempre tive a impresão que o Dr. Paulo Morais tem, digamos assim, uma relação dificil com a democracia.
O Dr. Paulo Morais só existe em termos publicos porque há uma comunicação social que adora o tipo de discurso justiceiro que ele adopta.
O Dr. Paulo Morias é, politicamente, um frustrado.
O senhor embaixador tem inteira razão quanto ao episódio com Rui Rio,pessoa com quem não possuo qualquer afininade politíca e muito menos pessoal.

Anónimo disse...

"Mas, ressalvada a hipótese de me ter falhado alguma coisa substancial (o que não excluo e, a ser verdade, me fará retratar) nunca me constou que Paulo Morais tivesse apresentado às autoridades dados comprovativos de malfeitorias dos quais tivessem resultados condenações." Que apresentou malfeirorias várias aos polícias ou a quem de direito, lá isso apresentou (o caso entre outros, das quantias de dinheiro que lhe eram depositadas na sua conta bancária sem que conhecesse os autores de tais liberalidades e sem que tivesse com os beneméritos, qualquer negócio). Esperar que por esta via, houvesse "condenações", não é ingenuidade, é vontade de não ver porque não se quer ver. Se há coisa que Paulo Morais tem feito é demonstrar em concreto um sistema completamente apodrecido e organizado segundo as regras das redes mafiosas. No mesmo contexto da análise, quem não se lembra da denúncia de corupção generalizada denunciada por Ferraz da Costa e o modo como foi coberto de ridículo e incómodos a que se sujeitou por ter denunciado a corrupção generalizada? Mas convem dizer que é preciso pôr provas em cima da mesa até porque o Paulo Morais ou o Ferraz da Costa, até chefes auto-proclamados da agência Pinkerton deveriam ser, visto que que aqueles que são pagos pelos contribuintes para perseguir o crime (de colarinho branco? Com a a falta de elegância que demonstram?)ou não estão para isso ou recebem ordens para se fazerem de mortos ...Ressalvada que está a dúvida, toda a reflexão posterior e o arrozoado consequente estão prejudicados e fragorosamente colapados.
Quem nao vê a corrupção generalizada até lá na Freguesia onde toda a gente se conehce, ou é ingénuo ou...dá como bom que se vive no "melhor dos países possíveis".

José Carlos Casimiro disse...

O facto de ele não apresentar provas não significa que não haja corrupção, porque de certeza não foi com bons comportamentos que o país chegou à desgraça em que se encontra. Há pessoas que parece não gostarem de ouvir falar de corrupção.