segunda-feira, 30 de março de 2015

Armando Sevinate Pinto (1946-2015)


Creio que em 1998, fiz uma visita oficial à Roménia, como secretário de Estado dos Assuntos europeus. Aquele país estava então a trabalhar no seu processo de adesão às instituições europeias e o setor da agricultura era um dos dossiês mais difíceis que tinha de enfrentar.

A pedido das autoridades romenas, decidimos organizar, em paralelo à visita, um "workshop" sobre o tema. Convidei para orientar o "workshop" Armando Sevinate Pinto, um dos mais reputados especialistas na área, que havia trabalhado no processo de adesão de Portugal e, em Bruxelas, viria a ocupar funções da maior importância na área agrícola da Comissão. Sendo um homem de pendor conservador, a sua escolha para esta tarefa ia fazendo "cair o Carmo e a Trindade"... mais o Rato! Borrifei-me para estas reações e, como era expectável, o seminário foi um sucesso para a imagem de Portugal.

No final do dia de trabalhos, encerrei o "workshop" com um curto discurso. Expliquei aos romenos presentes que "aquele senhor" ali ao meu lado, se acaso a oposição em Portugal viesse a ganhar futuramente as eleições, seria, muito provavelmente, o próximo ministro da Agricultura. E acrescentei que, nesse cenário, também era provável que eu viesse a ser o futuro embaixador ... talvez em Bucareste. Enganei-me em termos relativos: Armando Sevinate Pinto iria, de facto, ser o futuro ministro. Eu, porém, acabei por não ir parar a Bucareste. Como eu esperava, o governo em que Sevinate Pinto era ministro retirou-me quase imediatamente da ONU, em Nova Iorque, mas decidiu mandar-me para... Viena.

Meses mais tarde, publiquei, em Lisboa, um livro. Não obstante eu ser, à época, "persona non grata" do governo em funções, Armando Sevinate Pinto fez questão de estar presente no lançamento, o que, segundo soube, não foi visto com muitos bons olhos em S. Bento.

Fui amigo de Armando Sevinate Pinto por cerca de quatro décadas. Hoje, o António Luis Neto, outro comparsa desses tempos, ao avisar-me da morte do Armando, lembrou-me que, de uma "célebre" equipa que fez parte do serviço militar em determinadas "guerras", só restamos nós os dois, de quantos se sentavam então na mesma sala. O mundo está perigoso!

Armando Sevinate Pinto era, para além do especialista indiscutível na agricultura do nosso país (e espero que alguém publique o importante conjunto de artigos que nos últimos tempos editou no "Público"), um excelente amigo, uma pessoa de sorriso são, quase adolescente, que se sentia que estava de bem com a vida e que tinha do país uma leitura positiva e de esperança. Não coincidíamos politicamente, divergíamos mesmo em coisas importantes e sobre pessoas sobre cuja importância discordávamos em absoluto, mas, em nenhum momento, essas dissonâncias criaram a menor núvem na nossa relação. Sempre que nos encontrávamos, regressávamos aos dias em que nos conhecêramos, como se o tempo se tivesse suspendido.

O Armando estava muito doente, como eu já sabia. Morreu agora. Vai hoje a enterrar, na terra que ele estudou como poucos, nessa "arte" da agricultura que foi o seu grande e glorioso destino de vida.

Um último abraço para ti, Armando!

1 comentário:

Isabel Seixas disse...

um mosto de ternura já dorme
num sono solto,
já tínhamos morrido para nós
no ultimo olhar plácido
sem apego.