domingo, 14 de dezembro de 2014

Socialismo à francesa

Os sinais que chegam de Paris apontam para um súbito agravamento das tensões no seio do Partido Socialista, com efeitos devastadores na sua potencial capacidade de sustentar futuros embates eleitorais. As vozes dentro do PSF são cada vez mais divergentes e isso tem um efeito muito negativo na leitura que os franceses fazem da formação à qual, há pouco mais de dois anos, deram uma sólida maioria para governar o país.

Em 2012, François Hollande foi eleito sob uma agenda onde se acantonavam todos os clichés que sustentavam a possibilidade do país continuar a viver "à grande e à francesa", com a ideia mirífica de que os índices macroeconómicos poderiam ser objeto daquilo que se pensava ser uma discussão de poder com Berlim. A realidade é diferente, a Europa está mais exigente, a Alemanha mais "teimosa" e a França bem mais fraca. Tem mesmo de aturar agora a reprimenda pública e as recomendações do novo comissário para as questões económicas, o francês Pierre Moscovici, que foi o primeiro ministro das Finanças de Hollande, por cujo lugar europeu tanto se bateu. Ele há ironias...

Como num governo de coligação, Hollande juntou inicialmente todas as alas do partido, numa ilusão de que a partilha de pastas ministeriais acalmaria as várias tendências, anulando a anterior luta entre si. Viu-se o resultado. O primeiro-ministro Ayrault foi incapaz de federar o infederável e, tal como Mitterrand havia feito com Rocard, Hollande optou por chamar Manuel Valls, no velho sonho de que é possível governar em nome da esquerda sem assustar a direita, para isso utilizando a esquerda de que a direita gosta (Rocard era chamado pelos críticos de esquerda "Rocard d'Estaing" e Valls sonha em mudar o nome do partido para "meter o socialismo na gaveta").

O resultado aí está: por exemplo, de um ministro do "Redressement Productif" (ninguém melhor que os franceses para inventar nomes para ministérios) bem à esquerda e soberanista, que assustava o empresariado, Hollande saltou para um economista liberal, reformador à moda do mercado, que já incendeia o seu grupo parlamentar e os sindicatos (do setor público, porque só esses contam na França de hoje). O resto do governo tem sido uma fonte de conflitos (e demissões) e muito poucos ministros (alguns teimam ainda em impor agendas modernaças e fraturantes) contribuem para uma imagem positiva do executivo, que o mesmo é dizer, da governação presidencial. Valls está assim a ser "frito" em lume brando e as suas hipóteses de vir a suceder a Hollande começam a desvanecer-se.

Neste quadro, com uma esquerda à procura de um novo registo e uma direita democrática que, apesar do regresso de Sarkozy às lides, não fez desaparecer as recorrentes "zizanias" entre os seus ambiciosos barões, sente-se a ascensão da extrema-direita, cujo discurso de egoísmo nacional e de rejeição da solidariedade começa a sedimentar caminho entre pessoas com mais problemas do que esperança.

François Hollande, cuja popularidade, por "gaffes" e desartes de avanços-e-recuos, está de rastos (exceto num certo "terreno" onde, pelos vistos, tem insuspeitados encantos e surpreendente tempo para os pôr em prática), parece um pouco "déboussolé" (uma expressão gaulesa magnífica, que por cá poderia designar o comportamento de catavento), tentando hoje o que ontem parecia impensável. Deve rezar para que ninguém se lembre do seu programático discurso de Le Bourget e, muito em particular, do que anunciou que faria como "Moi, président", no debate em que calou Sarkozy. Naquilo que é a tragédia dos governos que entram em agonia, avança agora medidas que desaparecem na espuma do dia imediato e apenas parece ter como destino acorrer às sucessivas crises (embora, no plano político-militar externo, tenhamos de convir que foi uma surpresa positiva). 

A V República havia criado no imaginário francês um perfil de presidente que, manifestamente, não se cola ao de Hollande. Ser um "presidente normal" é tudo aquilo que os franceses não esperam do ocupante do Eliseu. E daí a vê-lo como um presidente "vulgar" não vai uma grande distância...

Mas voltemos ao Partido Socialista Francês. Este PSF é uma criação de François Mitterrand e, por muito tempo depois dele, ficou preso à matriz do seu programa não realizado. Não será totalmente de estranhar que um futuro desaire eleitoral, que se adivinha de grandes proporções, possa pôr em causa a sua própria existência, cindindo-o entre duas alas. É que o atual PSF, nos tempos que correm, parece já estar mais "in office than in charge", para utilizar uma categoria do outro lado da Mancha. Posso (e espero) estar enganado, mas já esteve mais longe. 

12 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Ha algumas semanas, François Hollande condecorou com a "Grand Croix de la Légion d'Honneur" um escritor que aprecio muito - Jean d'Ormesson".
Recordo que começou o seu discurso, dizendo:

" « Vous avez réussi tout au long de votre vie à être aimé. Je me suis posé cette question : comment avez-vous fait ? Aimé de tous ! » Après un éloge, il conclut : « Ceux qui racontent l’Histoire ont plus de chances d’être aimés que ceux qui font l’Histoire. »

O facto de ter esquecido o famoso discurso do Bourget, condenou Hollande a ficar na história com um "H" minúsculo, e talvez como aquele que enterrou definitivamente o socialismo em França.

Muitos candidatos antes dele, ao posto de Presidente da República, foram obcecados pela ideia de ser amados, de deixar o seu nome na História, de fazer a História.

Paul Deschanel - presidente da República em 1921, caiu do comboio em pijama.
François Hollande , se continuar o seu programa, vai cair da cama.

A família socialista é uma expressão hoje muito explorada que não utilizarei, porque ela é hipócrita e mentirosa. Uma família é um espaço onde as pessoas se apreciam, se amam mesmo, ou pelo menos se respeitam. Cada um sabe que em política, com algumas excepções, poucas, toda a gente detesta toda a gente, sobretudo no mesmo partido.

Os sinais e os rumores de amizade ou de afecto são, no melhor dos casos, aderências tácticas, sinais e manipulações destinados ao grande público. Então, na falta de "família" falemos de conivência de ideias ou de grande projecto.

Tem razão, Sr.Embaixador : Os socialistas franceses estão em equilíbrio perigoso por uma razão simples : o seu horizonte pára em 2017.

Mas o que é grave, é que , num gesto de desespero, de suicídio colectivo, de vingança contra todos aqueles que os enganaram até agora...votem Le Pen.

Ou então, que por aversão do "agitado", "megalómano", "tagarela", mal educado, vendedor de banha da cobra, com uma camioneta plena de "caçarolas" judiciárias, reconduzam os socialistas para os castigar... e evitar assim a guerra civil ou uma ditadura que daria o mesmo resultado.

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador
peço desculpa sobre este assunto fora do contexto mas para que não fique esquecido, ou seja a quantidade de colégios (seriam 27!)que existiam em Coimbra para centralizar e espalhar depois, o saber da época:

http://gavetacomsaber.blogspot.pt/2007/10/quem-passa-pela-rua-da-sofia-em-coimbra.html

https://www.youtube.com/watch?v=1pXG4m7kVQ0

obrigada

Cyrano disse...

Fala de um PS francês, de Miterrand... Nunca considerei esse homem um socialista, nem nada que se assemelhe.Não falo de Vichy e das ligações que o homem teve, por pudor. Não chame nunca mais socialista a Miterrand,é colaborar num embuste!E não esqueçamos a "Francisca".

jj.amarante disse...

Eu traduziria "déboussolé" mais literalmente como "sem rumo", "desnorteado" também ficaria bem pois quem perde a bússola não sabe onde fica o Norte nem, em consequência, qual a direcção do seu rumo.

Joaquim de Freitas disse...

A CYRANO:



Mitterrand dizia que não nasceu socialista , nem foi precoce no caminho que o levou ao socialismo.

Creio que , como para muitos homens de esquerda, a esquerda para ele não era a liberdade, nem o progresso, nem a felicidade. Ele dizia que a esquerda era a justiça.

Teve o mérito, quando chegou ao poder em 1981, de chamar para o governo um verdadeiro socialista, Pierre Mauroy, com alguns comunistas, que deram uma certa imagem do socialismo em várias leis que , estando ainda em vigor, a direita, quando voltou ao poder, e agora a esquerda liberal ela mesmo, começaram a "descoser" , a "détricoter"! A guerra ao Estado social é de actualidade.

A justiça, ou a falta de justiça, é o sintoma da doença que levará à morte do socialismo.

Os partidos da direita, que parecem por vezes divididos, os barões, como escreve o Sr. Embaixador, são capazes de se unir quando as massas do povo trabalhador, o inimigo ancestral, os assedia.

A esquerda, agora liberal, não tem força suficiente para combater a direita, quando pretende gerir a economia como esta. Porque querer gerir a economia com as leis liberais e dar pequenos impulsos sociais de vez em quando para justificar a cor socialista, no final, não faz bem nem um nem outro: não chega para endireitar a economia segundo os requisitos do mercado, com reformas brutais como este exige hoje, nem para fazer justiça àqueles que são os seus eleitores e que sofrem da brutalidade do capitalismo.

O risco existe de ver agora o poder ir para as mãos daqueles que, demagogicamente, farão a promessa de se atacar sem peias aos centros de decisão económica , as oligarquias ou monopólios, que , como se sabe , se encontram no estrangeiro. Diluídos num molho soberanista e xenófobo, os discursos populistas podem seduzir as massas, elas também desorientadas, sequiosas de justiça e de esperança.

Helena Sacadura Cabral disse...

Joaquim de Freitas
Partilhamos a admiração por Jean d'Ormesson. Julgo que desde que me fiz gente - foi tarde, pelos cinquenta - li tudo o que ele publicou.
A frase que cita não podia ser mais verdadeira. Na política como na vida, todos queremos - precisamos - de ser amados.
Só que na política é mais fácil ser-se amado pelo que se pensa do que pelo que se faz...

Joaquim de Freitas disse...

Oui, Chère Madame : Jean d'Ormesson est un écrivain subtil, malicieux et sans doute un des plus agréables à lire. Sa "Douane de Mer" est un de mes livres préférés.

Joaquim de Freitas disse...

Ainda a propósito do seu comentário, Chère Madame, o que é mais insuportável é que os homens políticos para serem amados, prometem muito. E o que é terrível é que sejam obrigados de se renegar para sobreviver.

Anónimo disse...

O modelo do socialismo francês foi "un beau rêve".
La France c'est tropée.

Antonio Cristovao disse...

Para quem se passeia pelo comum trabalhador francês fica um pouco admirado das "ilusões" que povoam aquelas mentes(de quem tem emprego claro). Nada que o sector do estado e afins em Portugal não sofram também -basta ver a quantidade de comemorações de Lisboa sem metro, sem aviões, sem navios...
Claro que o declínio comparado com a Alemanha é progressivo e inevitável.

Antonio S. Leitão. disse...

Se Hollande foi eleito, nao foi porque uma maioria de franceses gostassem muito dele, mas porque detestavam Sarkozy; nas próximas eleições acontecera o mesmo, e assim sucessivamente durante muitos anos. Se Valls propõe que mudem o nome do PS, é porque este partido nao é mais que um Partido Social Democrata e por a embalagem em conformidade com o produto, é pura coerência. Deboussolé, tem mais a ver com alguém desorientado, cata- vento, tanto quanto sei, diz-se girouette? Voltarei se mo permitirem.

Antonio S. Leitão. disse...

Nao foi Hollande que foi eleito; foi Sarkozy que foi derrotado. (Jacques Attali).

Nao sei se Valls vai acabar frito, cozido ou assado, mas em França, sobretudo quando mar esta encapelado, nao é anormal o Pres. "usar" 2 ou 3 Prim. Min. ,porque estes desempenham o papel de fusíveis. Sarkozy recusou protecção do "fusível" expos-se e "queimou-se" ele proprio. Quando no passado, Mitterrand enviou Rocard para Matignon, certos observadores emprestaram-lhe a intenção cinica ou maquiavélica de o "queimar"e lhe retirar para sempre as veleidades presidenciais.