terça-feira, 26 de novembro de 2013

Camaradas

“Escreve sobre Angola. É o que está a dar!”. “Não o metas por aí! Depois do que se passou no sábado? Só vai estragar as coisas! Fala sobre as eleições em Moçambique. Uma nota de acalmia vai cair bem”. “Não, isso pode ser visto como ingerência. O acordo sobre o nuclear no Irão seria uma boa malha”. “Nem penses! É terreno movediço. Não viste a reacção israelita?”. “Mas, afinal, se ele anda pelo Centro Norte-Sul, porque não aborda o estado em que estão as “primaveras árabes?” “É insensato! Seria delicado o homem abordar temas desses. Então ele não disse que vai à Argélia, para a semana?”

Interrompi o simpático ping-pong de dicas, sugestões para o meu primeiro artigo no “Económico”, dizendo àqueles dois amigos: “Vou falar da Europa”. A decepção coreografou-se nas suas caras. Há anos que me andam a ler e a ouvir sobre as sucessivas Europas. No topo das suas estantes, jazem volumes nos quais, sobre o tema, encadernei o ego e contribuí para os saldos editoriais. “O artigo vai ser sobre as divergências dentro do BCE e da Comissão Europeia quanto ao processo de ajustamento em Portugal”. Ganhei a noite! Ambos olharam para mim com um ar surpreendido. O que é que eu sabia que eles desconheciam? Um era um reputado economista, eurocrítico, sempre de “FT” à ilharga. O outro, jurista com sólidos contactos, “bebia do fino” em nichos do poder de turno. Nunca ninguém lhes falara da existência de opiniões diferentes, dentro das instituições europeias da “troika”. No FMI, sim! Esse órgão de Bretton Woods já gerara textos contraditórios sobre Portugal, numa heteronimia bizarra, que deu para manchetes e confusões.

Mas, afinal, que sabia eu sobre as conflitualidades no seio da dupla europeia? Pacientemente, expliquei uma coisa bem simples. Desde logo, no BCE. Quem é, por ali, o único vice-presidente, a figura mais proeminente, e presume-se que preeminente, depois de Mário Draghi? É Vítor Constâncio, não é? Vocês conhecem um socialista português, por mais moderado que seja, que esteja de acordo com o rigor do ajustamento que o BCE impõe no seio da “troika”? Nenhum, claro! Imaginem então o que devem ser as “peixeiradas” no “board” do BCE, com Constâncio a partir a loiça financeira da casa. O que, no futuro, não revelarão aquelas actas! E na Comissão? Já pensaram aquilo pelo que estarão a passar os vários comissários socialistas e sociais-democratas (lá fora, isso é outra coisa, como se sabe), camaradas dos socialistas lusos, os esforços que terão feito para flexibilizarem juros e maturidades, para aligeirar a carga infernal de austeridade que cai sobre os portugueses? É que não haverá só falcões liberais nos comissários que cada país escolheu (fora o país que não pôde escolher) para o representar.

Acabámos a conversa pensando nesses heróis solidários. Gratos mas curiosos.   
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

17 comentários:

Isabel Seixas disse...

Camaradas

"Encadernei o ego" in FSC

Credo e agora?!

Anónimo disse...

Vítor Constàncio é um caso de polícia. Que se saiba, o Banco de Portugal tem como uma das suas poucas tarefas que lhe restam a de controlar os bancos portuguesese a de evitar tragédias no nosso sistema bancário. Viu-se...BPP, BPN, etc. E quem paga isto é o povo. Que também pagou a Constâncio no BP um salário mais elevado do que o do Presidente da FED. O facto de ter sido aceite em Frankfurt mostra bem o estado de decrepitude a que chegou o sistema financeiro na Europa. Isto não é populismo. É a verdade.

Gonçalo Pereira disse...

Finíssima ironia. Constâncio, o herói invisível, opondo-se aos falcões. Com certeza que as actas do futuro o revelarão! E só nessa altura a pátria chorosa reconhecerá a injustiça. Belo texto.

David Caldeira disse...

Muito bom. Mesmo. Um tratado de ironia, apontado direitinho às criaturas que, agachadas até mais não, pululam por essa Europa fora, nomeadamente aqueles que de terras lusas partiram feitos caixeiros viajantes, prontos a vender a alma e a dignidade das pessoas ao Diabo.
Obrigado!

Anónimo disse...

Como não sou economista tenho “toda a legitimidade” para “mandar atoardas”: Ninguém tem a mínima ideia de como resolver o problema! Assim, tudo o que dizem e prescrevem é só condicionado pelo seu posicionamento no presente e, nessa mesma perspetiva, no próximo futuro.
Se as atas fossem gravações (da peixeirada) e em aparelhos blindados…
antonio pa

São disse...

Houve pacto dos EUA com o Irão? Israel deve estar mais do que furioso!

Quanto à sua análise sobre a Europa , gostei.

Esperemos que o cherne, de quem nos foi dito ser óptimo para o país abandoná-lo para ser Presidente da CE, pois assim o ajudaria, consiga arranjar ainda alguma dignidade.

Os meus respeitos

Carlos Santos disse...

Na semana passada passou na televisão portuguesa um programa, de uma estação francesa, sobre a entrada da Grécia no Euro. A maquilhagem das contas daquele país é explicada com bastante pormenor bem como a atitude passiva das autoridades europeias (principalmente políticas), que nas palavras de alguns dos mais altos dirigentes do BCE foi vergonhosa.
Mas, Constâncio está entre iguais. Sobre a responsabilidade do vice presidente grego do BCE, ministro das finanças à data da entrada no Euro, nenhum destes dirigentes se compromete. "É muito boa pessoa", são todos amigos pessoais! Quem disse que os brandos costumes são só portugueses?
Quanto a Constâncio, pela atuação pública que lhe conheço, a sua intervenção, feita provavelmente no intervalo para o café, deve ser do tipo: "Ó Mário [Dragui] achas mesmo que a austeridade é o melhor caminho?"
Carlos Santos

Alcipe disse...

Se nao fosse o Draghi já tínhamos ido todos ao fundo a cantar "Heilige Nacht". Quanto ao papel da social-democracia nesta crise, vejo que te aproximas perigosamente das ideias deste, e de muitos outros dos teus amigos radicais...

a) Alcipe (se quiserem assino o meu nome)

Alcipe disse...

Quando falo em social democracia, refiro-me obviamente aos partidos socialistas europeus, com um pensamento de especial carinho para Tony Blair e Gordon Brown

Defreitas disse...

Ah, o B.C.E. de Draghi , o homem da Goldman Sachs, o coveiro da Grécia! !!!! O Senhor Embaixador, no seu estilo de escrita impar, que aprecio, tem ai um tema extraordinário, porque tanto haverá para dizer desta instituição!

Ah a salvação de Chipre pelo BCE vai ficar na Historia . Contrariamente ao que se passou com a descida aos infernos das obrigações gregas, a dos cipriotas era impossível porque as obrigações cipriotas serviam de últimas garantias a um BCE submerso, já, pelo "tsunami" de títulos podres da Europa do sul.
O que ninguém disse, e Draghi ainda menos, é que a falência dos bancos cipriotas significaria uma perda de 12 mil milhões de euros para o BCE, que obrigaria os países membros a compensar imediatamente com dinheiro fresco ( e a Alemanha, só ela, eram 3 mil milhões).
Compreende-se bem que a Troïka e Mario Draghi mais que ninguém , eram obrigados a salvar, custe o que custasse, o edifício bancário cipriota. Mesmo se fosse necessário dar cabo do tabu da inviolabilidade dos credores e accionistas . Mesmo se fosse necessário violar as próprias regras de circulação dos capitais da UE.

Compreende-se bem que os malvados de Bruxelas encurralados não tenham podido deixar ir o euro pela água abaixo , sem pôr em perigo as dívidas dos credores protegidos. Aliás, visto sob este ângulo, o hold-up organizado dos bancos cipriotas não era o mais grave. Draghi e os salvadores do euro não se bateram para salvar Chipre , mas para se salvar eles mesmos! Que diabo!

Ah, Senhor Embaixador, escreva sobre o salve-se quem puder dos oligarcas de Bruxelas e Frankfurt, que obtiveram da Corte Internacional de Justiça que seja concedido ao BCE o benefício do "segredo defesa", o que protege a fortaleza do Mário Dragui, que já existe sem nenhum controlo democrático, e lhe permite de fazer o que lhe apetece.

Isto chegou " à point nommé" quando se sabe que esta decisão da Corte Internacional foi a reacção que resultou dum pedido da agência Blomberg de certos documentos, para saber como Mário Dragui pôde pôr a Grécia de tanga fazendo explodir a sua taxa de endividamento.

Vê-se bem como neste cesto de caranguejos estes se defendem com todas as pinças , prontos a tudo, para não cair na panela de água a ferver duma justiça popular que bem mereciam . Só os islandeses, finalmente, foram capazes de meter na água os malandrins que a perversão do sistema que eles serviam levou à prisão!

Que seria bom se os povos da Europa acordassem em 2014, e aproveitassem as eleições europeias para dar uns pontapés bem ajustados no "derrière" destes sanguessugas dos tempos modernos.

E quando penso que Portugal está nas mãos destes "salvadores", tremo pela minha Pátria.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Alcipe. Por muito que não pareça, há alguma diferença entre Blair e Brown, talvez devido às raízes deste último no "Tribune", um órgão opinativo onde o Scargill chegou a escrever e por onde se cruzavam o Michael Foot e a Barbara Castle. Mas, no fim do dia (traduzindo à letra "at the end of the day"), se calhar vai dar tudo ao mesmo. É como o Flórida e a D. Carlos...

Defreitas disse...

Com o respeito da opinião como se deve, não pude evitar de tremer ao ler o comentário de Alcipe sobre Blair et Brown.
Blair, o segundo "commis" de Bush nos Açores. Blair, o mentiroso e de múltiplos serviços de sua majestade que criaram a partir de nada as provas da existência das armas de destruição massiva.
O antigo primeiro ministro reconvertido nos negócios e na função álibi de chefe de "quarteto" tinha tido o desplante, olhando sem pestanejar, direito como uma flecha, nos olhos dos Britânicos, até a afirmar que Saddam Hussein podia atingir Londres em 45 minutos com os seus ADM ! O tempo dum meio tempo dum desafio de futebol! Tony Blair tinha mentido sem despudor algum e os serviços de sua majestade também.
Num espectáculo de "obras para a paz" e em favor do "desenvolvimento" que lhe permitem de aumentar a fortuna acumulada desde a sua saída do governo, as viagens de Tony Blair limitam-se aos emirados do Golfo, aos EUA, a Israel e alguns paraísos tais como o pequeno pais africano do Ruanda. Desde 2007, Blair efectuou seta visitas ao Ruanda, onde o jacto privado do presidente Paul Kagamé é posto à sua disposição. SegundoBlair, o regime Kagamé, no qual os oponentes foram reduzidos ao silêncio, é inovador e "leader" na África.
Ah, e a terceira via ! Reunir as duas grandes correntes do centro esquerda - o socialismo democrático e o liberalismo - ! que deu como resultado final uma traição do trabalhismo a favor do liberalismo. Basta ver em que estado se encontra hoje o RU. As escolas são obrigadas a alimentar as crianças que chegam à escola com o estômago vazio!
Como se fosse possível conciliar o liberalismo baseado no individualismo e o socialismo baseado na solidariedade e a justiça social.

Alcipe disse...

Defreitas, por favor, o meu carinho pelos dois personagens é ferozmente irónico!

Francisco, não esqueço o que o Brown disse, maravilhado, sobre o "engenho criativo" dos novos mecanismos financeiros...

a) Alcipe

Anónimo disse...

Uma sugestão: um comentário sério à votação conjunta PSD+PS+CDS sobre o escândalo das «pensões vitalícias» - página 5, Expresso, 23 de Novembro.

Defreitas disse...

Respiro, Caro Alcipe ! Embora o tivesse suposto!
Cordialmente

patricio branco disse...

sim, sobre politica externa portuguesa, interna não, sim sobre politica e situação internacional, neste momento irão nuclear, ou ucrania-russia, a russia a ganhar por 3 a 0, ou sobre as relações portugal- brasil, venezuela, ou com outros, para politica interna portuguesa já temos demasiados, é uma inflacção, começa a enfartar, temas europeus tambem está bem, mas constâncio será mesmo o homem forte do bce? de facto percebo pouco disso, aprendo portanto.
boa sorte, boa escrita, bons temas, portanto...

Anónimo disse...

No próxima crónica poderá fala dos mais de 20 mil milhões de euros que foram homologados e aprovados para as políticas de coesão para o período de 2014 a 2020 .As velhas raposas, não se movem por "ideais" políticos, mas tão sò por deitar a mão à "grana" de qualquer modo (comissões,lugares de poder, etc)

Os fins justificam os meios.

É dificil acreditar,sem serem resolvidos os casos de polícia do passado, "os elefantes não esquecem"

Ramalho Eanes com todos os defeitos, foi o melhor Presidente da República, após o 25 de Abril !

Desejo-lhe felicidades no "Económico".

Alexandre