sábado, 25 de dezembro de 2010

No topo

O jovem diplomata tinha chegado àquele posto há poucos meses. O seu chefe era uma figura da velha escola das Necessidades, algo severo, um pouco ácido e nada dado a confianças com os subordinados. Recebia-os o mínimo tempo necessário e não criava um ambiente propício a conversas. Apesar de tudo - havia que reconhecer -, não se podia queixar: era tratado por ele com atenção e, profissionalmente, a experiência estava a ser interessante.

Um dia, o chefe chamou-o: deveria, nos três dias seguintes, acompanhar um velho embaixador vindo de Lisboa, que fora destacado para executar uma missão especial naquela cidade, ligada a uma qualquer estrutura internacional. Pela forma como o seu chefe lhe referiu o assunto, percebeu logo não se tratar de alguém com quem ele tivesse uma relação de simpatia muito forte. Aliás, o visitante nem sequer tinha prevista, no seu programa, uma deslocação à Embaixada.

O contacto com o diplomata chegado de Portugal revelou-se, para o nosso jovem, uma surpresa muito agradável. Era um "gentleman" - cordial, falador, contador de histórias interessantíssimas sobre a carreira e a vida diplomática. Estava a ser um prazer acompanhá-lo.

Uma noite, no bar do hotel onde o velho embaixador estava instalado, e talvez abusando um pouco da familiariedade com que estava a ser tratado, o jovem diplomata ousou perguntar:

- O senhor embaixador vai-me desculpar mas, dado o seu profundo conhecimento da nossa carreira diplomática, gostava de lhe colocar uma pergunta um pouco delicada...

- Ó homem, esteja à vontade!, diga lá o que quer saber - responde-lhe, condescendente, o colega mais antigo.

- Como sabe, estou há poucos meses neste posto. Tenho uma boa relação com o meu embaixador, mas já deu para perceber que tem um feitio complicado e dizem-me que está longe de ser uma pessoa consensual na nossa carreira. Tinha, por isso, alguma curiosidade em saber como é que ele é, de facto, cotado no âmbito do MNE.

- Mas isso é muito fácil, caro colega: o seu embaixador está, sem a menor sombra de dúvida, qualificado no topo dos nossos colegas!

- Ah! sim? É tido como um dos nossos melhores embaixadores?

- Não, homem! Nada disso! Está no topo dos maiores estupores da nossa carreira, claro!

Não tenho registado o historial de conflito que terá existido entre os dois velhos diplomatas. Mas coisa séria deve ter sido...

3 comentários:

Anónimo disse...

Estar no Topo...
Pois, é a vida...

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um 'não'.

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

(Fernando Pessoa)

Citado por
Isabel Seixas

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Eu experimentei a acidez de um chefe de missão por 7 anos!
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Ele eu por este longo período fizemos a 1ª presidência portuguesa da União Europeia ao que viria a informar a Secretaria de Estado que a presidência no seu posto tinha corrido sobre rodas.
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Uma incógnita saber-se, em que modos, chegava pela manhã ao seu gabinete... Dependia dos copitos que no dia anterior tivesse bebido, cujo o cheiro, por vezes exalado pela boca era semelhante a de alambique de destilar “bagaço”.
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Pregava, praticamente, todos os dias comigo e com o pessoal, contratado, localmente por dá cá aquela palha.
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Diplomata que fosse convidado para número dois do posto recusava-se e chegaram três, alternamente, em comissão de serviço de seis meses.
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Com a pequena comunidade portuguesa não houve relacionamento salutar e nunca mais chegava o dia de partir definitivamente do posto para meu alívio e dos contratados.
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Depois de tanto e mais martírios, em sete anos, o meu salário proposto por ele às Necessidades de 500 dólares, quando partiu estava em 570 dólares.
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Uns dias antes de dizer o adeus à diplomacia, enchi-me de coragem pedi licença para entrar no seu gabinete de trabalho e digo-lhe: “Senhor embaixador eu servi-o por 7 anos e vai-se embora e não vai fazer nada por mim?”
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Bem ele sabia que eu desejava que me propusesse a vice-cônsul, vago havia quatro anos e a minha licenciatura com a 4ª classse da primária chegava,melhorando assim o meu o salário.
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Respondeu: “Ó Martins o senhor não tem habilitações!” Digo-lhe: “Senhor embaixador o Fernão Mendes Pinto também não tinha habilitações nenhumas e foi o primeiro embaixador de Portugal no Japão...!!!
Retorquiu: Oh Martins isso foi noutros tempos!
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Entendi então: “Mudam-se os tempos e com ele as vontades” Razão tinha o Camões quando escreveu o soneto.
Saudações de Banguecoque
José Martins
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P.S. – Nada tenho contra os diplomatas, boa gente, porque no meio do pântano também nascem e brotam flores.

Helena Sacadura Cabral disse...

Curioso post e delicado comentário da "nossa" Isabel.
Estas "petites histoires" deliciosas do Senhor desta casa têm-me feito um bem imenso. Afinal, as carreiras profissionais não são assim tão diferentes. Às vezes, chego mesmo a pensar que, em todas elas, há uns topos muito semelhantes!