quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Do anonimato

Alguns comentários anónimos em blogues ou em sítios informáticos de jornais, quando deliberadamente ofensivos ou obscenos, devem merecer da nossa parte a consideração dada à cobardia de uma carta não assinada. Para mim, sem excepção, convocam a piedade que é devida aos pobres de espírito.

É claro que não me estou a referir a anódinos e civilizados comentários que, mesmo quando sem assinatura, dão graça e vida aos blogues e sítios informáticos, servem de estímulo, e até de saudável contraditório, a quem escreve. Esse é o anonimato benévolo, perfeitamente normal e sempre bem-vindo.

O que eu quero notar é a circunstância de, com grande frequência, depararmos, nas áreas dedicadas aos comentários, com uma imensa legião de corajosos escribas anónimos que, na solidão cómoda do seu teclado, se dedicam a insultar quem lhes desagrada, a denegrir aquilo que nunca teriam a coragem de dizer cara-a-cara ou a assinar com o nome verdadeiro e identificável por debaixo.

Há hoje por aí um mundo clandestino que destila fel e acrimónia, muitas vezes com laivos xenófobos e racistas, prenhe de adjectivação ácida e de óbvios recalcamentos. Todas as sociedades, ao que parece, tem destas "faunas rascas", o que talvez justificasse um estudo sócio-psicológico, com uma dimensão médica a ajudar. Embora já haja um óptimo medicamento para esta patologia: chama-se "Delete", é eficaz, tem um efeito imediato e pode usar-se as vezes que se quiser.

9 comentários:

Samuel de Paiva Pires disse...

Estou completamente de acordo com o Sr. Embaixador. Não percebo qual é o problema das pessoas em darem a cara e assinarem o que escrevem, por isso é que também não costumo ter grande consideração por comentários anónimos insultuosos. Como dizia o outro "os cães ladram e a caravana passa".

Saudações

Paulo M. A. Martins disse...

Subscrevo, incondicionalmente, o seu ponto de vista.

Na realidade, seguindo essa vergonhosa atitude, o anonimato, é mais fácil ficar em "cima do muro" do que saltar para um dos lados. Pelo menis, não dá incómodos, nem se sujeita às críticas e ao rigor da lei.

Isto de "pegar o boi pelos cornos" ou "dar o nome ao boi" tem muito que se lhe diga...

Senhor Embaixador, proveito, para o parabenizar por ter tido a coragem de, com toda a frontalidade, ter colocado o dedo numa ferida que, infelizmente, porque não pára de alastrar, já se assume como uma gangrena!

E ocorre-me contar um caso ocorrido no Rio de Janeiro, quando à boca do caixa, uma senhora, virando-se para o caixa, grita em voz alta e bom som: - Você roubou-me!

Naquele momento, foram dezenas as pessoas que estavam na fila a ouvir assim como as que estavam a passar, e, de imediato, olharam para o rosto do caixa.

O caixa, serena e educadamente, convidou a senhora a conferir o dinheiro. Após o que ela disse em tom baixo e moderado: - A final, o dinheiro está certo!

Se dezenas de pessoas ouviram o grito, depois já ninguém conseguiu ouvir o que ela disse. E, logo, de imediato, abandonou a agência bancária...

Assim funcionam os textos anónimos, em que qualquer um, irresponsavelmente, diz e escreve os insultos e as difamações que lhes ocorre vem à mente, só que o ofendido não tem como reagir, repôr a verdade dos factos e até de chamar à razão!

No fundo, no fundo, sempre é muita gente a ler...

Se no caso do caixa, se pode fixar o rosto, no outro é um qualquer bom nome que é enxovalhado e, legalmente, ainda não há como combatê-los...

Infelizmente, o DELETE ainda não funciona em todos os casos...

Saudações fraternas.

Osvaldo Castro disse...

Meu Caro,
Completamente de acordo.É bom que pessoas como tu façam a pedagogia da honradez da palavra, do dar a cara e assinar por baixo...
Abraço.

aminhapele disse...

Uma postagem oportuna e atenta,como aliás os seus escritos que,há pouco tempo,tenho lido.

josé Martins disse...

Bem (este manga de alpaca reformado de Banguecoque) imagino que o senhor embaixador Seixas da Costa deve estar cheio de inimigos até ao "gargalo".
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Normal que isso suceda quando as pessoas gostam de "fazer coisas", dormir pouco e ter ideias brilhantes e aproveitáveis.
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Surgem então os inimigos que se agazalham com o "capote" do anonimato.
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Claro essa gente (mediocre e de cabeça vazia de ideias) não têm coragem de mostrar a face.
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Alguma até se apresentam como amigos quando topam o seu inimigo, abrem os braços e dão-lhe o abraço amistoso, só que uma das mãos segura o punhal imaginário que bem lho cravavam nas costas.
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É bom ter inimigos, mesmo que se apresentem anónimos.
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O ter inimigos dá valor ao Homem e faz inveja de "roer" ao que se apresenta como a coruja no escuro.
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No meu caso adoro as "corujas" minhas inimigas!
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Vou-me deliciando com a prosa do embaixador Seixas da Costa.
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De Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

Também concordo, até com a presença(esperta e saloia do usuário do anonimato) explicita da desfaçatez na primeira etapa da redução do medo "comprar um cão" (coitado do cão).Mas de facto podem causar dolo... aos incautos, dos aspectos positivos ajudam a diferenciar amigos.

Faço questão neste contexto de ostentar o nome completo... subscrevendo tudo o que disseram... Isabel Maria Ruivo Seixas Martins
Isabel Seixas

Margarida disse...

“When a man sends you an imprudent letter, sit right down and give it back to him with interest tem times compounded – and then throw both letters in the wastebasket.”

Elbert Hubbard

Um anglicanismo, para contrapor à doce língua “des flâneurs”.
Porque foi o que me ocorreu de imediato. E porque, confesso, vivo rodeada de máximas anglo-saxónicas. Uma globalização subliminar que se sobrepôs a todas as outras línguas. Facto.
Na verdade, surpreendeu-me esta ira, mesmo que ‘diplomática’, não por ela mesma – justa – mas pela razão que a origina. Ingenuidades. Jamais me ocorreria que se dirigissem a tão digno espaço em termos menos que correctos. Opiniões, conceitos ou sonhos à parte, a cordialidade e o respeito seriam sempre dados adquiridos. Não são. Mais um sorriso amargo, mais uma caída no mundo real.
Talvez que nem merecessem qualquer menção.
Talvez que este protesto, que tem tanto de discretamente flamejante quanto de sentido, não lhes fosse sequer devido.
Combato desde há muito o conceito do ‘anónimo’. Mas procuro entendê-lo e respeitá-lo quando tal merece.
No fundo, tal não passa de resignação, porque continuo a acreditar que os rostos devem responder pelas mãos e os olhos pelas bocas e estas pelo coração.

Anónimo disse...

Sou anonimo
pseudonimo
heteronimo
se quiser

mas nao penso
nem pretendo
num remendo
me esconder

luis filipe
aqui fique
castro mendes
pra se ver

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,
O tema do "comentário anónimo", que se seguiu ao do "blog anónimo" faz parte dos primórdios, da arqueologia da blogosfera, como estou certo que sabe.
Claro que o anonimato usado para insultar, para caluniar ou denegrir é repulsivo.
Mas o comentário anónimo, tal como o blog "anónimo", podem ser utilizadas por inúmeras razões que nada têm a ver com cobardia, mediocridade ou pretensões menos confessáveis. Estou certo que sabe isto e não quero "ensinar o padre-nosso ao vigário".
Este comentário, faço-o para benefício de alguns comentadores que parecem assimilar um comentário inócuo e explicitamente anónimo à baixeza de uma carta anónima. A esses, basta lembrar a facilidade com que, na internet, se cria um "avatar" ou uma pseudo-identidade. Quem pode garantir que um nome de um autor de um comentário, só porque aparece a azul no ecran do meu computador corresponde a uma pessoa com esse nome ou sequer a uma pessoa?
O comentário de luis filipe castro mendes, cujo nome julgo ser o da pessoa que escreve, é, ostensivamente, de "anônomo"(sic).
Eu próprio poderia assinar o meu com qualquer nome que me ocorresse ou, até, criar no "blogger" uma identidade virtual...e "azul".Debaixo dessa cortina, podia mesmo invectivar os repeltes "anônimos" que enchem caixas e caixas de comentários.
Não o farei.