Perde-se uma caixa com óculos, bem caros. Passam 15 dias. Hoje, lembrei-me: “E se ligássemos ao parque de estacionamento, onde estivemos nessa tarde?”. Ligámos. Estavam lá. Um cidadão cuidou em ir entregá-los na receção. E depois não querem que eu ande bem disposto e otimista!
quarta-feira, julho 29, 2020
Adeus, meu capitão!
O capitão Teófilo Bento surgiu um dia na parada do quartel com um megafone. Estávamos nos primeiros meses de 1974, na Escola Prática de Administração Militar (EPAM), na Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa, a unidade que, tempos depois, na madrugada de 25 de abril, iria ser a primeira a sair para a rua, para tomar o objetivo estratégico que eram os estúdios da RTP.
Lembro-me de alguns de nós termos estranhado o inusitado uso daquele aparelho nas mãos do Bento, porque nada em particular o justificava. Creio que a ninguém passou pela cabeça ligar o uso do aparelho a uma revolução que estivesse ao virar da esquina. Porém, esse megafone iria ser a sua imagem de marca no 25 de abril.
À época, eu era, simultaneamente, bibliotecário, diretor do jornal “O Intendente”, oficial de Ação Psicológica da EPAM e instrutor dos cursos da oficiais e sargentos milicianos. Uma tarde de fevereiro de 1974, no meio da parada da unidade, Bento, com quem eu tinha uma relação simpática, mas respeitosamente distante, dirigiu-se-me:
“Ó Seixas da Costa, preciso de falar consigo!” E como se fosse a coisa mais natural do mundo, foi adiantando: “Você estaria disponível para entrar numa ação militar para deitar abaixo o regime?” ou uma frase parecida.
Caí das nuvens! Tinha algum conhecimento da agitação que atravessava os meios militares, tinha estado presente em duas reuniões clandestinas de milicianos, onde se procurava acompanhar essas movimenrações, mas não tinha a menor ideia de que Teófilo Bento tivesse um papel relevante nesse contexto. Reagi, por isso, com grande prudência, não fosse tratar-se de uma provocação:
“Ó meu capitão! Isso é um assunto que não pode ser tratado assim! Tenho de ter mais informações para pensar nele”.
“Muito bem. Um destes dias falamos melhor”, respondeu-me Bento.
Ainda nessa tarde, falei com António Reis, aspirante como eu, que politicamente “bebia do fino” e que, rindo-se da inabilidade conspirativa do Bento, me confirmou que o capitão era a figura central da EPAM para uma organização do que estava em curso. E que falaria com ele sobre o “incidente”.
Depois, as coisas aceleraram. Veio o 16 de março e, pelo modo como as pessoas na unidade reagiram a esse golpe frustrado, ficou mais claro de lado estava cada um e com quem era possível contar para uma eventual nova ação.
Na madrugada de 25 de abril, o capitão Teófilo Bento, acompanhado do alferes Geraldes e do António Reis, iriam ter um papel destacado na sublevação da unidade e na organização da coluna que iria tomar a RTP.
Ainda na noite desse dia, foi Teófilo Bento quem, com todos nós a seu lado, fez as “honras da casa”, na RTP, a Spínola e à Junta de Salvação Nacional, que dali se dirigiu ao país.
Dois dias depois, a 27 de Abril, Teófilo Bento, que interinamente passou a chefiar a RTP, coordenou, na sala da biblioteca da EPAM, um encontro com um impressionante grupo de intelectuais, num "brainstorming" em que foi acolitado por António Reis e por mim. Pela sala espalhavam-se figuras como Luís de Sttau Monteiro, Mário Castrim, Luís Filipe Costa, Luís Francisco Rebelo, Álvaro Guerra, Manuel Jorge Veloso, Manuel Ferreira, Adelino Gomes, Orlando da Costa e creio que cerca de duas dezenas mais de figuras cimeiras da nossa vida cultural e jornalística.
Spínola tinha entretanto outras ideias para a RTP e elas não passavam pela manutenção de Teófilo Bento e dos militares da EPAM por lá, em funções que ultrapassassem a segurança das instalações. Teófilo Bento viria a sair da EPAM. Iria mais tarde dirigir o empreendimento agrícola do Cachão, perto de Mirandela.
Perdemo-nos de vista por muitos anos. Cruzámo-nos episodicamente e mantivemos sempre uma relação solidária de camaradagem, fruto desses dias únicos que vivemos em conjunto.
O Bento foi um “puro”, um homem bom, com grande humor e forte sentido solidário. Estava, desde há não muitos anos, recolhido num lar, de onde um dia me telefonou, quando por aqui o referi num texto.
Teófilo Bento morreu hoje. Deixo esta nota de saudade
O país das trincheiras
Muita da crispação que hoje marca o ambiente futebolístico nacional releva de alguns incendiários da palavra, que excitam o sectarismo, garantindo a pés juntos que “foi penálti”, mas apenas quando tal corresponde aos interesses do seu clube e, claro, nada disso tendo a ver com a verdade objetiva dos factos, que é o que menos lhes importa.
As nossas televisões, à cata desesperada de audiências, enchem, por horas, esse circo de polémica, que é relativamente barato de sustentar e se sabe ter um mundo ululante de seguidores. Com mais ou menos adjetivos e decibéis, todos os canais televisivos seguem o mesmo caminho, mesmo aqueles que, pagos por todos nós, tinham obrigação de evitar esses vícios, assumindo a função pedagógica que o serviço público lhes deveria impor. Projetar verdades relativas, opiniões sobre factos que se sabe apenas motivadas por clubismo, às vezes com cartilhas de apoio, é um péssimo serviço prestado à educação cívica. A alguns media deveria ser a deontologia a impor essa obrigação, outros têm-na mesmo na sua natureza.
Mas fica-se por aqui esse mundo de trincheiras, a preto e branco, de factos relativos? Não fica. A política é também pasto para esse ambiente sectário, que sai das telas para se projetar nos jornais e, também, um pouco nas rádios.
Não conheço – mas admito poder estar enganado, se alguém mo provar – nenhuma democracia em que figuras eleitas ou dirigentes partidários disponham de colunas ou de outros espaços privativos de expressão mediática, com caráter regular, em órgãos de comunicação social, salvo naqueles que são, abertamente, folhas de propaganda das formações a que pertencem.
Por cá, contudo, há personalidades na política ativa que alimentam verdadeiros “tempos de antena” – nos jornais, rádios ou televisões. O que se pode esperar de alguém que foi eleito por uma certa cor, cujo futuro depende, em muito, da formação a que pertencem? Que critiquem os seus partidos? Multiplicando os atores, os media absolvem-se de acusação de sectarismo e alimentam a cacofonia, enchendo assim as horas e as páginas.
Isto já não muda, dizem alguns. São capazes de ter razão.
segunda-feira, julho 27, 2020
Abecedário de Salazar
“Então hoje não escreves nada sobre o Salazar?”. O que é eu hei-de escrever sobre o Salazar? Antes que passe a data do passamento, há meio século, deixo um abecedário, ao correr rápido da memória:
- Américo Tomás, António Ferro, Aljube, Álvaro Cunhal, Angola
- Bissaia Barreto, Barbieri Cardoso, Baixa do Cassange, Beja, Bispo do Porto, Botelho Moniz, Botas, Batepá, “Ballets Rose”
- Censura, Cadeira, Craveiro Lopes, Caxias, Catarina Eufémia, Cunha Leal, Christine Garnier
- Dona Maria, Duarte Pacheco, Diário da Manhã
- Ezequiel de Campos, “Estátua”, “Eleições”, Emídio Santana
- Francisco Franco, Franco Nogueira, “Frigideira”
- Guerra colonial, Godinho (general), Gonçalves Cerejeira
- Humberto Delgado, Henrique Galvão
- Índia
- José Gonçalves, Jorge Jardim, Júlio Dantas
- Kaúlza de Arriaga
- Legião Portuguesa, “Leninha” (Madalena Oliveira), Lajes
- Marcelo Caetano, Maria Lamas, Mocidade Portuguesa, Mueda, Mário de Figueiredo, MUD, Maltez (capitão), Maria Guardiola
- Norton de Matos
- Oscar Carmona
- Pide, PCP, Peniche, Pidjiguiti, Palma Inácio
- Quirino de Jesus, Quintão Meireles
- Rolão Preto, Rosa Casaco, Raul Lino
- Supico Pinto, Santos Costa, “Santa Maria”, Sousa Mendes, São Nicolau
- Tarrafal, Teotónio Pereira
- União Nacional
- Viscondessa de Asseca, Viriatos, Volfrâmio, Vimieiro, Villanueva del Fresno
E, como imagem, deixo esta (roubada a Luís Pinheiro de Almeida), que vale por todos os retratos da ditadura.
Memória
Alguns acham que a nossa memória coletiva procura esconder os tempos colonialismo e da escravatura. Outros acham que estamos sempre a lembrar o fascismo e o Salazar. No fundo, o que divide o país é a memória?
Ronaldo
Ora essa! Claro que importa o país! Ronaldo veio de Portugal, campeão da Europa. Anotem, para o caso de não saberem!
sábado, julho 25, 2020
Ferreira Fernandes
José Ferreira Fernandes reinicia hoje a sua colaboração com o “Público” com uma belíssima carta de amor a Angola.
(Uma vez, sem exemplo, permito-me reproduzir um artigo de um jornal que, para ser lido, deve ser pago)
sexta-feira, julho 24, 2020
quinta-feira, julho 23, 2020
Corredoura
No início dos anos 80 do século passado, vivi por alguns meses no Hotel Trópico, em Luanda. Tendo misteriosamente “desaparecido”, antes da minha chegada, por artes mágicas e nunca investigadas, o apartamento que albergara os meus antecessores na embaixada, num edifício na marginal de Luanda, não tive outro remédio senão ocupar, por esse período que me pareceu bem longo, um quarto no hotel, então já bastante degradado.
Era no Trópico que se acolhiam muitos estrangeiros, em especial portugueses em negócios e tripulações de aviões, numa mescla cuja convivência até poderia ter alguma graça, não fossem as dificuldades do abastecimento, nesses dias de guerra civil e recolher obrigatório.
Com o nosso cônsul-geral (este também por lá aboletado, embora por menos tempo do que eu), Fernando Andresen Guimarães, e o ministro-conselheiro da embaixada, José Stichini Vilela, eu almoçava e jantava, quase por regra, no "grill" do hotel, uma facilidade rara, que não era estranha à nossa, localmente muito invejada, condição diplomática.
Nesse tempo, obter uma "reserva" para comer no "grill" era uma benesse pouco comum, muito apreciada pelos portugueses e angolanos que para lá convidávamos. Diga-se que esse privilégio acontecia não obstante as tensões políticas que, à época, marcavam fortemente as relações entre Lisboa e Luanda, o que só revela que alguma afetividade, fruto de certas cumplicidades, se sobrepunha à difícil conjuntura política bilateral que se vivia. Por essas e por outras é que, ainda hoje, tenho amigos lá por Luanda.
Com algum exagero, o humor local corrente afirmava que, no outro restaurante do Trópico, no topo do edifício, que era bem menos sofisticado, havia, ao almoço, "arroz com peixe frito" e, ao jantar, "peixe frito com arroz"... No "grill", as coisas era ligeiramente melhores, mas a variedade de menus também não ia muito longe. Longe, sim, iam os tempos em que os grelhados teriam dado nome ao local. Recordo apenas o cíclico "émincé" de vitela, que nos pousava na mesa várias vezes por semana, e o sempre presente bolo Trópico, uma espécie de pão-de-ló coberto com claras de ovos, com que fechava a maioria das refeições.
O "chefe de sala" era um velho e simpático angolano que havia trabalhado no "Café de Paris", em Lisboa, o Smith. Quando perguntado sobre o menu do dia, costumava ironizar, sabiamente, respondendo coisas como: "Eu hoje aconselhava um magnífico caldo verde, seguido de um bacalhau à lagareiro. Depois, teremos um bife à Marrare. E fecharemos com um pudim abade de Priscos, que está "de truz" ". Esses e outros pratos virtuais, que se deliciava a relembrar, com expressões do léxico luso, fruto da sua longínqua memória da culinária e da vida lisboeta, logo contrastavam com as limitações do pobre menu do dia, a única realidade a que iríamos ter direito.
O vinho era, invariavelmente, o mesmo: português, de uma marca que nunca esquecerei, de que nunca mais ouvi falar - Corredoura. Não o retive, contudo, na minha memória sensorial como um néctar digno de figurar na história vinícola portuguesa, embora, nas condições locais da época, a minha escala de valores em matéria de consumo tivesse então atingido generosos limites de complacência.
O serviço às mesas do "grill", chefiado pelo Smith, coadjuvado pelo excelente Sambo, era feito por alunos da escola de hotelaria local, que rodavam com grande frequência. Eram jovens muito simples, alguns vindos das províncias, inexperientes, terreno fácil para ensaiarmos algumas graças.
A piada cíclica mais fácil era perguntar ao jovens alunos: "Há vinho?". A resposta era sempre positiva, como antecipadamente sabíamos. Essa era então a oportunidade para que um de nós lançasse, variando cada dia de fórmula, uma coisa assim: "Hoje, estava-me a apetecer um vinho português. Talvez um maduro tinto. Por acaso não tem um Corredoura, não?". Ou assim: "Para acompanhar o almoço, traga-me um tinto. Podia ser, por exemplo, Corredoura. Tem?"
Os olhos dos ingénuos e solícitos rapazes brilhavam de felicidade. "Por acaso", tinham - esse que era o único vinho existente, à época, em toda a Angola, "de Cabinda ao Cunene", para utilizar um lema então em voga. E, minutos depois, a uma temperatura sempre sinistra, lá surgia, saído da cave, um Corredoura tinto.
Consumimos então o que me pareceram serem hectolitros de Corredoura. Provavelmente esgotámo-lo. Deve ser por isso que nunca mais ouvi falar desse vinho. Tenho ideia que era dele este rótulo, que hoje encontrei.
quarta-feira, julho 22, 2020
Legalidades
A necessidade de mudar a lei, que até agora exige a luz verde municipal, para a construção do aeroporto do Montijo, lembrou-me a clássica frase atribuída a Correia de Oliveira, ministro de Salazar: o que é legal faz-se por despacho, o que é ilegal faz-se por decreto.
Rir no fim
O Reino Unido, que historicamente começara por recusar a integração europeia, rendera-se, com íntima relutância, a ter de dele fazer parte, pelas desvantagens que resultavam da sua ausência. Fugiu, depois, a todos os compromissos que pôde evitar. Até um dia. Thatcher teria rejubilado, se tivesse assistido ao Brexit.
Lembrei-me ontem dela. As cinzas não riem, mas dei-me ao luxo de imaginar algumas gargalhadas a saírem do sítio onde as de Thatcher repousam, no Royal Hospital, em Chelsea. Mas teria ela razão para rir?
Ao assistir à feroz barganha das últimas horas, em especial à multiplicação dos “cheques” para compensação de alguns parceiros que mais avessos se tinham mostrado ao compromisso, lembrei-me do célebre “I want my money back!” (Quero o meu dinheiro de volta!), que sintetizava a sua postura reivindicativa dentro da Europa.
O processo financeiro europeu embrulhou-se ontem num modelo da maior complexidade, com algumas incoerências, induzindo dúvidas sobre a racionalidade de algumas soluções.
Mas isso importa para alguma coisa? Ontem, a Europa foi capaz, com todos esses defeitos processuais, de levar à prática exatamente aquilo para que foi criada: resolver os problemas dos cidadãos.
Há uns meses, falar da mutualização da dívida era um tabu. O tabu desfez-se. Por anos, era inviável a criação de “novos recursos”, isto é, novas fontes de financiamento orçamental. Agora, são inevitáveis.
A Europa é lenta no processo, hesitante nas decisões, complexa nos mecanismos. É defeito? Talvez seja, mas é um defeito democrático. Quem se senta à roda daquela mesa tem um mandato a cumprir. Uns foram votados para serem avaros, com a solidariedade no fundo das prioridades. Outros clamam por compensações pela abertura dos seus mercados, arrostando com a imagem de pedinchões. Cada um tem a sua legitimidade. Discutem e resolvem.
Thatcher pode ter-se rido, ontem. Mas, na Europa, ri melhor quem ri no fim.
terça-feira, julho 21, 2020
Confissão
Devo ser dos poucos portugueses que não tem a menor certeza sobre se deve haver ou não TGV. E sou talvez o único que não tem qualquer opinião sobre o lugar onde deve ser o novo aeroporto. E então sobre a terceira travessia do Tejo...
Onde anda a trovoada?

“Anda cá! Chega aqui!”.
Encostado ao muro de pedra da varanda da Casa do Pereiro, em Bornes de Aguiar, do lado do caminho, o meu tio Fernando, o mais novo dos irmãos da minha mãe, disse-me para olhar para o céu, onde raiava uma tempestade das antigas, com uma caloraça, soprada a vento, que, agora imagino, devia anunciar uma chuvada forte para dali a pouco.
Conto isto hoje, com toda a ciência e calma, mas, nessa altura, nos meus seis ou sete anos, estava completamente acagaçado com o ribombar dos trovões, com receio de que um daqueles raios acabasse por se despenhar sobre a casa dos meus avós, nesse início de noite de verão, depois do jantar.
Até a empregada lá de casa eu tinha visto a remoer orações a Santa Bárbara, prenúncio certo de que as coisas poderiam descambar para o torto. Em noites parecidas, na minha casa lá por Vila Real, havia assistido a tudo entrar no breu, com as luzes a irem abaixo, às vezes com estrondo, uma vela a surgir e alguém, mais jeitoso, a ir colocar um filamento metálico no fusível. Nada que sossegasse minimamente uma criança, filho único, nada dada a riscos, temente ao escuro e ao desconhecido! Ao lado do meu tio, contudo, sentia-me protegido, ao ver a sua coragem para enfrentrar os elementos, própria, penso hoje, de quem teve a infância no campo.
“Vais aprender a que distância está a trovoada”. Achei aquilo estranho. A trovoada andava por ali, saltitava, via-se, mas era um pouco etérea essa ideia de onde ela “estava”.
“Já viste que entre o instante em que vês o relâmpago, a luz, e o momento em que ouves o trovão, o ruído, passa um certo tempo?”. De facto, notara isso, mas nunca ligara muito, eu que nunca tive uma grande curiosidade pelas coisas da natureza.
Ele explicou-me, então: “A luz anda mais rápido do que o som. O raio é praticamente instantâneo. O som é mais “preguiçoso”, anda a 330 metros por segundo. O que é que são 330 metros? Olha, é aí do Fundo de Vila até à estrada para Vila Real. Quer dizer: por cada três segundos que o som demora a chegar, isso significa que a trovoada está a um quilómetro, que é três vezes essa distância. Agora, olha e ouve-a bem!”.
E lá fiquei eu a contar pelos dedos, num ritmo que equiparei a segundos, o tempo que me demorou a ouvir o som correspondente ao raio seguinte que vira no céu. E recebi uma lição de geografia rural: se fosse a dois quilómetros, em linha, a trovoada andaria aí por Rebordochão ou por Vila Meã, se passassem cinco ou seis segundos já estava em Vila Pouca ou, se fosse para norte, depois de Sabroso, ia a caminho do Reigaz e de Oura.
Esta noite, sob a fortíssima trovoada que desabou sob Lisboa, lá estive eu a fazer as minhas contas, trocando o Beato por Eiriz, Odivelas por Nuzedo, Algés por Soutelinho, a outra banda pelo Bragado. E lembrei-me que devo isso ao meu tio Fernando.
“Mas isso serve-te para alguma coisa?”, perguntará um cético, munido de alguma app que, se calhar, já foi criada para essas medições. Não sei, ou melhor, sei: sei que, entre saber ou não saber coisas, prefiro saber. Que se há-de fazer? Feitios!
segunda-feira, julho 20, 2020
Livros para férias
Só para esclarecer: os livros que por aqui tenho mostrado como “para férias” não são, de forma alguma, recomendações: são apenas aquilo que vou (ou tenciono) ler (ou reler). Nada de confusões!
Dois amigos
Mário Centeno é um conhecimento mais recente. Fizemos dupla num debate, na Universidade Nova de Lisboa, creio que em 2013, sobre o processo de ajustamento da Troika. Nunca antes o tinha visto, embora tivesse lido coisas que publicou. Disseram-me então que era um quadro superior do Banco de Portugal e lembro-me que me impressionou pela simplicidade culta e profunda com que desenvolvia os seus argumentos. Voltámos a cruzar-nos em bastantes outras vezes, a partir de então. Mário Centeno demonstrou, nos anos seguintes, toda a sua capacidade técnica, mas também política, quando soube desenhar, com maestria, a planificação orçamental que permitiu compatibilizar o cumprimento estrito das obrigações europeias a que o Estado português estava comprometido com as medidas de política que permitiram ao PS garantir um apoio parlamentar, ao longo de toda a legislatura. Não foi só o país que apreciou o trabalho de Centeno: os seus colegas do Eurogrupo deram-lhe a presidência desse órgão, o que representou, simultaneamente, um raro reconhecimento e uma forte prova de confiança. A sua ida para o Banco de Portugal não é um prémio: é algo que deveria ser uma coisa óbvia para o país. Por mim, quero enviar-lhe uma saudação de amizade, com votos de muitas felicidades.
Só a medíocre chicana política em que está mergulhado o debate público em Portugal pode justificar a polémica que se criou a propósito da ida de Centeno para o Banco de Portugal. A inveja, o despeito e o horror ao sucesso alheio, que fazem parte da matriz comportamental de muita gente que por aí vegeta, no tempo que vivemos, procuraram criar obstáculos a que o antigo ministro das Finanças viesse a ter o destino a que melhor estava destinado. Ainda bem que António Costa não hesitou nunca nessa decisão. E que o presidente da República o apoiou.
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Tempus fugit
Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...












