quinta-feira, junho 04, 2020

Desperdício

A polícia portuguesa deve, com certeza, ter coisas muito mais úteis para fazer do que estar a perder tempo e dinheiro público a controlar o fanatismo de gangs coloridos.

Câmara dos Comuns


Há sempre uma primeira vez para tudo. Esta foi uma cena incomum, na tarde de hoje, na Câmara dos Comuns. Ver aqui.

Judiciária

Aos protagonistas da nossa Polícia Judiciária - instituição com elevado mérito e qualidade - no caso Madelaine McCann recomendar-se-ia alguma contenção, neste tempo do processo que lhes não pertence. Parece não se darem conta que assim arrastam a imagem do país para o ridículo.

Biden

Obama fala bem, é a voz da sensatez e até deve gerar alguma saudade em muitos americanos. Mas quando é necessário ouvi-lo para mostrar um contraponto sério a Trump, ele acaba por ser a prova subliminar de que Biden pode estar longe de ser a alternativa ganhadora. É pena!

Decidam-se!

Tenho muita pena, mas não gosto desta esquizofrenia oficial que tanto nos diz que vem aí uma ”batelada“ de dinheiro como nos avisa que os efeitos da pandemia sobre a economia vão ser terríveis.

O governo não se dá conta de que estas duas mensagens, podendo não sê-lo, são lidas como contraditórias?

Américas

Mais do que as fortes acusações feitas a Trump pelo antigo responsável pela Defesa, James Mattis, acusando-o de ser um fator de divisão do país, impressionou a declaração do atual titular, que se afastou da leitura do presidente sobre o uso das Forças Armadas no plano interno

Brasil

Há sinais de que o ministro da Educação do Brasil, apanhado no vídeo da “infamous” reunião ministerial de abril a proferir insultos contra o Supremo Tribunal Federal, pode ser sacrificado para aplacar a ira dos juízes. Se assim acontecer, haverá alguma “desescalada” nas tensões.

Nakhchivan


Quando entrei naquele quarto de hotel em Nakhchivan, daqueles que têm um aspeto que nos leva a hesitar em sequer vir a utilizar a roupa da cama, tive um rebate de consciência. Dei comigo a pensar que vários dos embaixadores junto da Unesco, que tinham ido comigo de Paris a um congresso a Baku, no Azerbaijão, haviam sido por mim convencidos a alinhar na aventura que era fazer uma surtida a Nakhchivan.

Comecemos pelo princípio. O Azerbaijão organizava com regularidade um congresso cultural, nesse ano de 2012 em torno de uma temática central que já não recordo. Decidi nele participar, confesso, porque, desde as descrições de Calouste Gulbenkian, tinha uma forte curiosidade em ir a Baku. Havia pago do meu bolso a hospedagem, sendo a viagem, desde Paris, oferecida pelo governo local, dada a minha qualidade de “keynote speaker” convidado num dos painéis.

Na papelada que, à chegada, nos foi entregue, vinha uma oferta: o governo azeri dava-nos a escolher uma de duas viagens de dois dias, na parte final do congresso. As alternativas eram uma ida de autocarro ao Azerbaijão profundo, com comezainas, folclore e visitas culturais, ou uma ida de avião a Nakhchivan. Qualquer das deslocações só se faria se houvesse um quorum mínimo de participantes.

Dos meus colegas, fui quem mais “puxou” pela deslocação a Nakhchivan. Porquê? Porque aquela tinha sido uma das mais misteriosas repúblicas soviéticas, com uma história bem curiosa, que sempre justificara o seu estatuto institucional muito atípico. Como bem atípica ainda se mantinha a sua situação presente.

O Nakhchivan - de que muitos dos leitores nunca terão ouvido falar e que duvido algum tenha visitado - é um território autónomo do Azerbaijão, tão “autónomo”, nos dias de hoje, que não tem qualquer ligação por terra com o resto do país. Trata-se de um enclave isolado, com uma curta fronteira de menos de oito quilómetros com a Turquia, outra com o Irão, uma outra ainda com a Arménia, tendo o território do Nagorno-Karabakh (disputado pelo Azerbaijão e pela Arménia) a tapar-lhe o acesso ao resto do Azerbaijão, de que faz parte. O Nagorno-Karabakh é uma área “neutralizada” pela disputa territorial, onde, nos anos 90, teve lugar uma guerra muito mortífera, sendo ainda palco de regulares incidentes armados. Para chegar de Baku a Nakhchivan é, pois, necessário ir sempre de avião, pedindo os azeris de empréstimo o espaço aéreo iraniano, dado que tentar voar sobre o Nagorno-Karabakh ou sobre o país seu arqui-inimigo, a Arménia, seria um suicídio garantido. Por todas estas razões, pode perceber-se que uma ida àquele bizarro destino não fosse uma coisa tida por cómoda para alguns dos diplomatas que comigo viajavam.

Muitos desses meus colegas inclinavam-se para aceitar o convite para o passeio sereno, de autocarro, pelo território, oportunidade para comprar tapetes e fazer belas fotografias. Fui eu, numa noite de conversa, em Baku, quem conseguiu juntar um grupo que tornara aquela ida a Nakhchivan possível. Invoquei a História e também devo ter inventado histórias que lá os convenceram.

Daí a minha preocupação culposa: o hotel era sinistro, a comida pouco menos, todo o ambiente parecia saído de um filme soviético dos anos 50, com uma coreografia teatral a envolver aquela que devia ser uma rara visita de uma delegação de diplomatas estrangeiros. À nossa volta, havia umas lojas “fake”, com coisas para um turismo que manifestamente não existia, salvo para aquele grupo de maduros, de várias nacionalidades, que o embaixador português conseguira arrebanhar, para poder concretizar o objetivo de uma ida a um local que o seu vício por lugares estranhos motivara.

A cidade de Nakhchivan, capital do território do mesmo nome, não é muito grande. Foi-nos proposto um passeio de autocarro. Eu trazia de Paris um raro guia com um mapa da cidade e, com base nele, comecei por pedir para passarmos junto da mesquita iraniana. Assisti então a uma conversa embaraçada entre o guia, que falava um péssimo inglês, e o motorista, tendo ambos concluído que... não sabiam onde era! Voluntariei-me: “Eu indico. Vai-se por esta avenida abaixo, corta-se na 3ª rua à esquerda e a mesquita fica numa praça ao fundo”. Qual quê! Novo conciliábulo, concluído pela recusa absoluta, com um argumento definitivo: a zona estava vedada, por obras. Pois...

E lá fomos, como é de regra nestes regimes, apenas aos locais a que eles nos queriam levar. Desde logo, para grande excitação de alguns dos meus colegas, àquilo que se diz ser o tumulo de Noé. Três anos mais tarde, fui de Lisboa a um congresso na Arménia e, perto da capital, Ierevan, lá fui ver ... os restos da Arca de Noé. Noé está muito presente no Cáucaso do Sul, sempre ligado ao monte Ararat, que ali prepondera na paisagem!

O ponto alto da visita seria, no entanto, a ida ao museu em honra de Heydar Aliyev, o filho mais ilustre de Nakhchivan, presidente do Azerbaijão por uma década, pai do atual líder. A visita foi longa, com uma explicação detalhada da vida da figura, desde o berço à morte. A certo ponto, a guia do museu esclareceu mesmo que fora Aliyev quem “livrara o Azerbaijão do comunismo”.

Aí, passei-me. Um diplomata, ainda por cima convidado, deve conter-se, mas a minha irritação foi mais forte do que eu: “Mas o presidente Aliyev não foi membro do Soviete Supremo da União Soviética?”. Aliyev havia sido, aliás, muito mais do que isso: foi uma figura destacada do KGB e da governação comunista no Azerbaijão. O seu conflito foi com a “perestroika” de Gorbachev, isto é, com quem quis “democratizar” o comunismo. Mas não entrei nestes detalhes, claro.

A guia sorria, perdida, não sabendo o que fazer: não ousava contraditar-me, mas a minha questão estava fora do seu roteiro. Recordo-me que as minhas colegas do Omã e da Albânia, duas boas amigas, imploraram, em voz baixa, que eu não embaraçasse a senhora e eu lá “deixei cair” os meus preciosismos históricos. E a palestra prosseguiu, para grande alívio dos nossos acompanhantes.

Não vou maçar quem aqui me lê com muitos mais detalhes dessa viagem, que também incluiu uma longa deslocação à fronteira iraniana, junto da qual havia uma espetacular mina de sal, transformada em clínica para doenças pulmonares.

A noite acabou, divertida, com uma refeição bem regada a vodka, como é de regra naquelas paragens. No final, um responsável local, com ar de autoridade política, aproximou-se de mim e disse, num tom cujo sentido não era de leitura unívoca: “Já vimos que é bastante interessado pela nossa terra. Esperamos vê-lo por cá de novo. Nessa altura, poderá ir ver a mesquita iraniana. E até o poderemos levar a outros lugares, que nem imagina que temos, para os estrangeiros curiosos...” A conversa acabou por ali. Desafiar ditaduras pode ter um preço.

Para o que me importa, nesse dia cumpri o meu objetivo de ir a Nakhchivan. Como costumava dizer alguém que já tive como amigo: “Você gosta de fazer ‘vezinhos’ em várias coisas bizarras, pelo mundo”. É verdade. Cada um é como é.

quarta-feira, junho 03, 2020

A “Visão” de Portugal


Porque há mais vida para além da pandemia, amanhã, na “Visão”, dou algumas ideias sobre onde fazer turismo em Portugal. 

Aproveitem, se puderem.

Europa


A força de Trump


O fenómeno Trump, qualquer que venha a ser o seu saldo final, tem já garantido um lugar na história política americana. Não o vai ser, com toda a certeza, pelas melhores razões, mas os Estados Unidos que sairão da sua passagem pela Casa Branca serão bastante diferentes daqueles que herdou de Obama. Não sabemos ainda é quanto.

Depois de Trump, todos iremos perceber se o corpo institucional americano permanece preservado no seu papel de gestor essencial dos “checks and balances”, ou se o desgaste induzido por um presidente que fez das roturas uma doutrina de ação acabou por se consagrar como um fator descaraterizador, com efeitos duradouros.

Trump chegou ao poder com uma intenção evidente: mudar a América de Obama. Fazer o contrário do seu antecessor foi a estratégia definida desde a primeira hora, numa linha que, tendo bastante de primário e de impressionista, traduzia o que ele pressentiu ser a vontade maioritária da sociedade.

Percebeu que havia uma parte do país violentada por uma leitura urbana, reverente a causas filosóficas da modernidade, que, na ordem externa, dava ares de fragilizar a imagem do país, colocado a jeito da satisfação de interesses que essa parte da América não via como americanos. A nostalgia de um país com um poder respeitado, que os oito anos de Obama teriam deixado banalizar, com compromissos económicos dependentes de um sistema multilateral globalizante, tido como responsável por desemprego e falências, conduziu ao “Make America great again”. Simples como slogan, eficaz como leit-motiv.

Como aquelas equipas de futebol que abrem o jogo “ao ataque”, que fazem do “pressing” a tática permanente e vivem as semanas, nas redes de televisão, a insultar os adversários e a proclamar que são “os maiores”, a onda Trump é uma espécie de “bullying” político permanente.

Curiosamente, se olharmos em perspetiva, estamos, desde o primeiro momento, perante um puro “one man show”, onde os atores secundários são mesmo secundários e descartáveis, à menor tentação de dissenso. 

O debate eleitoral que se aproxima, depois de uma pandemia com mais de 100 mil mortos e um rasto económico trágico, não vai ser entre Trump e Biden. Vai ser entre os que acreditam que, depois do vírus, é Trump quem tem mais força para afirmar a América no combate mundial de interesses, nomeadamente contra a diabolizada China, e os que entendem que a solução é recolocar no poder um “genérico de Obama”, da tal América fraca e dialogante. Espero estar enganado, mas os dados parecem lançados.

terça-feira, junho 02, 2020

Forte Príncipe da Beira


Várias foram as pessoas que, antes da minha ida como embaixador para o Brasil, em 2005, me falaram no Forte Príncipe da Beira, a maior edificação militar portuguesa construída fora da Europa. Todas essas pessoas, sem exceção, tinham “ouvido falar” do forte, mas nenhuma lá tinha ido. A fortaleza de São José de Macapá, de que há dias aqui falei, segue-se-lhe, em dimensão e importância estratégica.

Intimamente, prometi a mim mesmo que tudo faria para conseguir fazer aquela visita, durante a minha estada no Brasil.

O Forte Príncipe da Beira fica localizado no Estado brasileiro da Rondónia, numa zona remota, junto ao rio Guaporé, que faz fronteira com a Bolívia.

O forte teve várias utilizações, desde a sua inauguração, em 1783, até aos últimos anos do século XIX, quando era presídio militar, altura em que foi abandonado. Foi “descoberto” em 1913, mas a sua planeada recuperação não foi então avante. Só em 1930, o marechal Rondon, que daria o nome ao Estado em que a estrutura militar se situa, já com o forte uma vez mais tapado pela vegetação amazónica, conseguiu recuperá-lo. Em 1983, o presidente brasileiro João Figueiredo e o embaixador de Portugal, Adriano de Carvalho, visitaram o forte, lançando as bases para uma recuperação que a Fundação Calouste Gulbenkian viria, posteriormente, a ajudar a concretizar.

Hoje, a fortaleza, com os seus belos canhões com as armas portugueses, mantém-se preservada, na estrutura essencial, graças a uma pequena guarnição militar, que cuida da sua conservação. Se assim, não acontecesse, a mata amazónica “tomaria conta”, de novo, do forte.

Em 2008, a meu pedido, o nosso Adido de Defesa, coronel Jorge Santos, conseguiu montar uma “operação” de ida-e-volta ao forte, a partir da capital da Rondónia, Porto Velho, numa visita de trabalho que fiz a esse Estado e ao vizinho Acre. Junto ao forte, existe uma curta e improvisada pista, a que os aviões da Força Aérea brasileira conseguem aceder.

A viagem fez-se sobre uma imensa paisagem amazónica, tendo-nos acompanhado a figura magnífica do cineasta e historiador Beto Bertagna, um gaúcho que tem dedicado a sua vida à história da Rondónia. Foi um dia inesquecível, que guardo nas minhas memórias para sempre.

A entrada no forte, belíssimo e com uma construção muito curiosa, no conhecido modelo Vauban, foi para todos nós um momento emotivo. E sê-lo-ia mais quando deparei, na parede, com uma placa onde se lê um extrato de uma carta de junho de 1776, enviada por D. Luis de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, governador e 4º capitão-general da capitania de Mato Grosso.

O que está escrito nesse texto passou para mim a consubstanciar o verdadeiro conceito de Serviço Público:

"A soberania e o respeito de Portugal impõem que, neste lugar, se erga um Forte, e isso é obra e serviço dos homens de El-Rei nosso Senhor e, como tal, por mais duro, por mais difícil e por mais trabalhos que isso dê, é serviço de Portugal. E tem que se cumprir".

Em honra do embaixador de Portugal, a guarnição fez disparar na ocasião um velho canhão português. (Anos depois, o meu sucessor em Brasília, numa viagem idêntica, teve menos sorte do que eu, tendo então ocorrido um acidente durante a mesma cerimónia.)

Regressado a Brasília, consegui (sem encargos para o Estado, diga-se), reunir meios para enviar um jovem e talentoso fotógrafo brasileiro ao Forte Príncipe da Beira, tendo sido organizada, em dezembro desse ano, no Instituto Camões, em Brasília, uma belissima exposição com fotografias dessa visita. Foi, aliás, no ambiente dessa exposição que organizei a minha despedida oficial da capital brasileira.

Passaram entretanto alguns anos e, já em Portugal, fui uma noite dormir a um palacete, transformado em unidade hoteleira, em Penalva do Castelo (hoje incluído na rede dos Paradores espanhóis), a Casa da Ínsua. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que o primeiro proprietário daquele belo solar fora D. Luis de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, o responsável pela edificação do Forte Príncipe da Beira, lá longe, na atual Rondónia brasileira.

O mundo é pequeno, mas o mundo português é grande.

segunda-feira, junho 01, 2020

Hoje, na TVI


Hoje, durante o “Jornal das 8”, da TVI, estive à conversa com Pedro Pinto e Miguel Sousa Tavares sobre a situação nos Estados Unidos e no Brasil. Pode ver estas conversas, respetivamente aqui e aqui.n

America


domingo, maio 31, 2020

Olhar os olhos


A cada dia que passa, atento mais na beleza dos olhos de algumas mulheres, acima das máscaras. E, por vezes, dou comigo a tentar adivinhar, pelos olhos, como será o resto da cara. Estes também são efeitos colaterais da pandemia.

António Costa Silva


Viver no estrangeiro, durante bastantes anos, mesmo procurando estar atento à realidade portuguesa, traz como consequência que sejamos surpreendidos pela emergência de novas personalidades na cena pública.

Um dia, creio que de 2013, num debate em que participei no Teatro Nacional D. Maria II, “contracenei” com António Costa Silva. Não faço ideia do tema. Já nos tinhamos encontrado antes, num posto que eu ocupara, mas foi só durante esse colóquio que pude apreciar a sua exposição estruturada, informada e fundamentada, o saber “olhar em frente” sem cair na especulação irresponsável. Ligando uma sólida formação académica a uma relevante experiência prática no mundo dos petróleos, António Costa Silva é servido por uma capacidade pedagógica serena, o que dá imensa credibilidade às suas análises.

Daí em diante, e já lá vão alguns anos, sempre que penso em nomes para estruturar um colóquio ou conferência, sobre temáticas geopolíticas, o nome de António Costa Silva surge-me como uma obviedade. É o que tem acontecido em iniciativas do Clube de Lisboa, a que presido. E não posso deixar de destacar também a sua excelente contribuição no grupo de estudos criado pela Fundação Calouste Gulbenkian para pensar o seu futuro, a que ambos pertencemos.

Vejo agora que o primeiro-ministro decidiu recorrer a António Costa Silva para o ajudar a racionalizar a aplicação das novas ajudas europeias. Fá-lo, aparentemente, num modelo novo, desligado das estruturas institucionais tradicionais, o que já provocou uma expectável reação da “velha política”. Costa Silva estará nessa iniciativa “pro bono”, sem receber salário, apenas num ato de serviço público que decidiu assumir. Esperemos que, cedo ou tarde, da atual informalidade, essa sua relação com o governo possa vir a densificar-se. O país só ganharia com isso. É esse o meu voto.

sábado, maio 30, 2020

Mazagão Velho

 
Um dia, sendo embaixador no Brasil, recebi do governador do Estado do Amapá, Waldir Goes, um convite para estar presente numa solenidade em que seria feita uma homenagem aos fundadores da cidade de Mazagão Velho.

À época, 2006, tinha uma ideia muito vaga da história da localidade. Mazagão Velho fora criada, em 1775, para apoiar a fortaleza de São José de Macapá, na defesa do norte do Pará. O nome advinha do facto de ter sido fundada pelos antigos ocupantes da fortaleza de Mazagão (atual El Jadida), em Marrocos, a última que os portugueses haviam sido forçados a abandonar, já em 1769, dentre as várias que, desde o século XVI, haviam sido implantadas na costa marroquina.

É impressionante pensar, nos dias de hoje, como o poder político em Lisboa tomou a decisão de enviar, recém-saído da costa africana, depois de uma breve passagem pela Europa, um contingente mais de 300 famílias, mistas de portugueses e familiares marroquinos, para aquele remoto território, na fronteira norte do Brasil.

Olhando em perspetiva, em termos de resultados práticos, somos levados a concluir que essa terá sido uma decisão que acabou por contribuir para uma eficaz proteção dessa entrada do Amazonas, com vista à preservação da soberania setentrional do que é atualmente o Brasil.

É no Amapá, para quem não saiba, que o Brasil tem fronteira com ... a França! De facto, do outro lado do rio Amazonas, está a Guiana Francesa. É, no plano político-administrativo, um Estado brasileiro relativamente recente, fruto de uma divisão do Estado do Pará, ocorrida em 1943.

A data do evento era-me, contudo, bastante inconveniente: tratava-se do dia seguinte às eleições presidenciais em Portugal, a cujo encerramento da votação eu queria estar presente na capital federal. Isso obrigar-me-ia a sair de Brasília bastante tarde e chegar ao Amapá já bem dentro da madrugada, naqueles aviões noturnos que a insuperável imaginação brasileira crismou de "corujões", porque andam de noite, com preços mais baratos, que vão pousando, como se fosse um autocarro, por vários aeroportos, ao longo de milhares de quilómetros de território, o que transformava a viagem numa longuíssima jornada.

Foi a amável e reiterada pressão telefónica do governador Waldir Goes que me convenceu a ir. Cheguei ao aeroporto de Macapá, capital do Amapá, depois das duas da manhã, acompanhado por um diplomata marroquino, conselheiro cultural da sua embaixada. Esperava-nos uma simpática receção e, para nossa surpresa, aguardáva-nos uma ceia, no hotel, com convidados, tudo feito sem grandes pressas, com imensa cordialidade. No final, foi-nos dito que, às sete horas da manhã (!), passariam a buscar-nos... Se, depois do lauto repasto, acaso dormi uma hora, sob um inesquecível fundo musical, chegado das ruas de Macapá, terá sido já muito!

Logo de manhã, fomos levados do hotel ao porto, de onde embarcámos com destino a Mazagão Velho. A viagem acabou por ser problemática: a meio do rio, o barco avariou. Foi preciso mandar vir uma nova embarcação. O governador Waldir Goes mostrava uma serena fúria com o incidente, que perturbava o cerimonial previsto. Mas tudo se resolveu e a expedição continuou. Já perto do nosso destino, mudámo-nos para uma piroga, com remadores, em que havia músicos/cantores, com tambores e violas, que entoavam modinhas antigas, da tradição luso-mourisca do século XVIII, que viémos a saber ser a imagem de marca identitária da localidade. Uma experiência inesquecível!

Quer eu quer o diplomata marroquino estávamos comovidos. E mais ficámos ao aproximar-nos de Mazagão Velho, ao constatar que o que parecia ser toda população da cidade nos aguardava, na margem do braço de rio, chefiada pelo prefeito José Carlos "Marmitão", nome que condizia, à justa, com a dimensão da amável figura. Era enquadrada por garbosos cavaleiros, vestidos com coloridos trajes, que se pretendiam representativos da época remota de celebrávamos, das lutas entre os cristãos e os muçulmanos.

Dali saímos diretamente para o evento, pontuado por diversos momentos religiosos, que teria como ponto alto a inauguração de um memorial, onde ficaram depositados os restos mortais dos portugueses e das suas famílias marroquinas, que haviam sido descobertos em escavações recentes. Sentia-se um ambiente, ao mesmo tempo, de emoção e júbilo. Mazagão Velho tinha ali o seu momento de consagração histórica e eu senti o imenso privilégio que era poder representar Portugal naquela ocasião.

O calor do doa era imenso. Lembro-me de, na longa cerimónia, ter proferido, do palanque, à frente de uma multidão a perder de vista, um emocionado discurso, com os olhos a arder, pelo sal que vinha do suor que me caía da testa.

Seguir-se-ia um lauto almoço, no seio de uma multidão entusiasmada com o relevo que assim era dado à sua terra.

Hoje, sabendo o que sei, ficaria arrependido para toda a vida se acaso não tivesse estado, nesse dia, ao Amapá.

No regresso, bem mais longo, por terra a Macapá, tinha um pedido a fazer: queria visitar o Zerão. E foi feita a minha vontade. O que é o Zerão? É o estádio de futebol perto da capital do Amapá, cuja linha divisória, a meio, é ... a linha do equador. Tirar uma fotografia, com um pé em cada hemisfério, era uma experiência que eu, por nada, queria perder! E não perdi.

No dia seguinte, com o governador Waldir Goes, fui visitar a fantástica fortaleza de São José de Macapá, construída no tempo colonial português, um marco de soberania que, felizmente, nunca teve de disparar um único tiro, durante toda a sua história - o que é a glória máxima da eficácia da dissuasão.

Prometi então - e vim a cumprir, meses mais tarde - enviar o conselheiro cultural português no Brasil, o pianista Adriano Jordão, para fazer um concerto naquele belíssimo espaço, convertido em espaço cultural. Não foi fácil concretizar a iniciativa: os pianos não abundavam no Amapá! Mas essas são contas de outro rosário, que o Adriano, se quiser, contará.

Lembrei-me disto, há pouco, por uma razão triste, ao constatar, na televisão brasileira, que o Amapá é um dos Estados brasileiros onde a situação da pandemia é hoje bem trágica.

sexta-feira, maio 29, 2020

quinta-feira, maio 28, 2020

Modas


A máscara no queixo é o equivalente pandémico dos óculos de sol na cabeça.

Questões

Mafalda Anjos, diretora da “Visão”, suscita hoje uma questão que também já me tinha colocado: “Por que razão serão (...) menos independentes os meios (de comunicação social) que aceitam uma compra de espaço publicitário pelo Estado, que é “cega”, pública e indiscriminada, do que os que a recusam, mas vivem de subsidiação de dezenas de empresários com agendas políticas e interesses privados?”

Eu colocaria ainda a questão: se, desde o ínício, tivesse ficado claro que a ajuda do Estado era substancialmente maior, tê-la-iam recusado?

O amor liberal a Abril