domingo, janeiro 26, 2020

Novo olhar no “Olhar o Mundo”


O “Olhar o Mundo”, para quem eventualmente não saiba, é um programa sobre política internacional que, todas as semanas, o jornalista António Mateus dirige na RTP, sendo atualmente emitido na RTP 3 e repetido em outros canais. Há vários anos que António Mateus assegura o programa, que antes teve a direção de Márcia Rodrigues e, depois, de Manuel Menezes.

Desde que António Mateus orienta o “Olhar o Mundo”, vários especialistas em relações internacionais conversam semanalmente com o jornalista sobre dois ou três temas de atualidade, num diálogo apoiado em peças televisivas (reportagens ou entrevistas), fazendo também uma análise sobre a semana anterior e deixando algumas pistas sobre a que se seguirá. Gravado à sexta-feira, cada “Olhar o Mundo” permanece atual apenas por escassos dias, porquanto a realidade internacional muda muito rapidamente. 

O que só poucas pessoas talvez saibam é que, desde sempre, todos os especialistas convidados fazem o programa sem a menor retribuição, o que julgo tornar o “Olhar o Mundo” num dos menos dispendiosos programas da empresa. Numa relação “qualidade/custo” deve ser difícil encontrar na programação da RTP algo mais eficaz.

Eu próprio fiz parte da equipa do programa durante alguns anos, tendo deixado de colaborar com regularidade no “Olhar o Mundo” a partir do momento em que assumi as funções que hoje ocupo na RTP (também sem qualquer retribuição, diga-se), como um dos seis membros do seu Conselho Geral Independente (CGI) - a entidade que escolhe a administração da empresa, que define as orientações estratégicas para a sua ação e que, em permanência, vela pelo cumprimento das obrigações de serviço público da rádio e da televisão públicas. Em princípio, nenhuma incompatibilidade existia entre as duas tarefas, mas senti-me mais cómodo ao não acumular ambas as funções.

A minha anterior ligação ao “Olhar o Mundo” torna-me assim algo “suspeito” na avaliação, altamente positiva, que faço do trabalho da equipa do programa. Assumo, sem o menor problema, esse viés, mas isso não condiciona a minha atividade na RTP, porquanto o CGI em nada interfere nos programas e na informação da estação.

É por essa razão que hoje me sinto totalmente à vontade para afirmar que o novo “recrutamento” feito por António Mateus, a professora Ana Santos Pinto, que esta semana se estreou no ”Olhar o Mundo”, constitui uma extraordinária mais-valia, por se tratar de alguém muito qualificado, com um grande rigor analítico e uma capacidade de exposição muito rara.

Todos os que, como espetadores, seguimos semanalmente o “Olhar o Mundo” estamos de parabéns por este valioso reforço da sua equipa. Ao António e à Ana deixo um abraço amigo, com votos de bom trabalho.

sábado, janeiro 25, 2020

Tempos interessantes


A um ano de distância, ninguém parece ter a menor dúvida de que Marcelo Rebelo de Sousa só não verá renovado o seu mandato como presidente da República se acaso decidir não se recandidatar. A sua extraordinária popularidade, mesmo que possa vir a sofrer entretanto alguma erosão, garante-lhe uma posição mais do que confortável face a qualquer putativo concorrente. Além disso, prevalece maioritário no país o sentimento de que a sua prestação, por muitas críticas que a alguns possa merecer, em especial no tocante à forma excessiva como por vezes se expõe no exercício do cargo, tem-se constituído como um contributo positivo para a estabilidade e para o apaziguamento de tensões, sempre num registo de rigor institucional.

Não anunciando por ora a sua recandidatura, o que tem toda a lógica à luz dos precedentes, o presidente tem igualmente sublinhado que a ponderação dessa decisão não está concluída, como que deixando claro que um juízo sobre as suas condições de saúde poderá sobrepor-se à sua evidente vontade de vir a exercer um segundo mandato. Neste domínio, porém, como alguém já assinalou, Marcelo Rebelo de Sousa não está totalmente “livre”. É que, no caso da decisão vir a ser negativa, o atraso no respetivo anúncio tem óbvios impactos sobre o processo de constituição tempestiva de uma alternativa no seio da sua própria família política. E todos podemos imaginar o que por aí viria, num cenário de não recandidatura do presidente! Por isso, o tempo de anúncio de uma não recandidatura terá de ser diferente do de uma decisão em sentido oposto.

Partamos, contudo, do princípio de que Marcelo Rebelo de Sousa anunciará, quando lhe aprouver, que será candidato a sucessor de si mesmo. Nem por isso as eleições deixarão de ser um tempo precioso para medir a temperatura política do país.

A quase certa vitória de Marcelo Rebelo de Sousa arrasta, aliás, consequências interessantes, em especial no lado direito do espetro político. Tal como nas últimas eleições legislativas, em que já se dava por adquirida a derrota do PSD e do CDS, muitos dos seus eleitores tradicionais se sentiram livres para fazer escolhas em novas alternativas, também em 2021 alguns dos potenciais votantes (mesmo que, no fundo, não muito entusiastas) no atual presidente poderão ser tentados a dar-se ao “luxo” de vir a oferecer o seu voto a outros candidatos da direita política.

Um partido como o “Chega” terá, como é quase certo, o seu líder como candidato, mas podemos perguntar-nos o que acontecerá àqueles eleitores de direita que, tendo justificado pudor em ir por esse caminho, mas querendo mostrar o seu desagrado face ao atual presidente (mas com a antecipada certeza de que este será reeleito), desejem robustecer com o seu voto o surgimento de um outro nome? Podemos imaginar que uma ala mais liberal (como o tempo altera os conceitos...) dentro do PSD, bem como quantos se revêem numa explícita direita política, possam ser tentados a seguir uma candidatura conservadora, com uma matriz “justicialista”, protagonizada por alguém que faça da luta contra a corrupção o seu “cavalo de batalha” (os nomes já andam por aí...). Refiro-me não apenas a quantos, num passado não tão longínquo como isso, apoiaram com o seu voto os governos Passos-Portas, mas igualmente a novos eleitores, tributários da doutrinação liberal ou capturados pelo neo-conservadorismo.

Está já muito claro que a temática do combate à corrupção, com razões justificadas pelo apelo muito forte que ela hoje tem na sociedade portuguesa, vai continuar muito presente no debate político futuro. Não é, assim, de excluir que a próxima campanha presidencial possa abrir uma discussão sobre se o papel do chefe de Estado, num regime semi-presidencialista como a “plasticidade” do nosso, em que parte do recorte funcional depende da vontade do próprio e da existência de condições políticas conjunturais para o seu exercício, não deverá colar-se a um perfil mais pró-activo no combate à corrupção. O clamor por uma maior intervenção do chefe de Estado junto do executivo, para reforço e independência das estruturas policiais e das instituições judiciais pode vir a figurar nessa agenda política de campanha.

Há boas razões para pensar que este tipo de abordagem, cujo grau de racionalidade e objetividade política sempre dependerá do nível de populismo que lhe esteja ou não associado, possa vira projetar-se transversalmente às várias áreas político-partidárias, quiçá procurando transcendê-las. Quero com isto dizer que será expectável que, ao lado de uma ou várias candidaturas de direita, que surjam com este “leit motiv” no centro da sua campanha, possam emergir candidaturas oriundas da esquerda, esperando colher apoios em terrenos próximos do PS (que, tudo o indica, não irá ter candidato próprio, mas onde se sabe haver gente relutante em votar no atual presidente), mas igualmente em outros setores políticos, como a área de votantes do Bloco de Esquerda e do Livre. A lógica explicativa da emergência de tais candidatos será muito simples: evitar que a bandeira da luta contra a corrupção fique monopolizada pela direita.

Se acrescentarmos a estes possíveis candidatos aquele que o PCP e outras formações não deixarão de apresentar, com vista a fixar, como habitualmente, o seu eleitorado, bem como os “espontâneos” do costume, está desenhado um cenário em que, ao contrário daquilo para que uma visão simplista poderia apontar, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa não terá a expressão estratosférica, em termos de números, que alguns vaticinavam.

Estou mais do que certo de que o atual presidente não vive com fantasmas de emulação virtual com o passado, agradando-lhe mesmo o facto de poder vir a ser o protagonista central de um momento eleitoral que coincide com um tempo político que, em face da fragmentação partidária reinante no parlamento, será de uma muito maior exigência política. E, por isso, para ele, muito mais estimulante.

Vão ser tempos interessantes para viver, pedindo de empréstimo uma velha expressão chinesa.

(Artigo que hoje publico a convite do “Expresso”)

O CDS

 

Será que o CDS perdeu, de vez, o seu lugar na sociedade política portuguesa? Depois do resultado catastrófico nas últimas eleições, a luta pela liderança, que se consumará neste fim de semana, pode, afinal, acabar num debate autofágico e autoflagelatório, que ajudará a dar cabo do que ainda resta do partido. Se assim acontecer, o novo líder que dali sair pode vir a ter uma vitória pírrica.

Pode parecer estranho que esteja aqui a preocupar-me com o CDS, mas a verdade é que se trata de um partido onde tenho alguns (e bons) amigos, cujo papel histórico no pós-25 de abril não subestimo. Não me é indiferente o futuro da direita em Portugal, porque o regime político democrático, que quero ver preservado, tem de a ter em conta, por muito que a cegueira sectária de alguma esquerda o não perceba. Por isso, o saldo do congresso do CDS interessa-me.

Se o CDS, para evitar que a direita radical se refugie no Chega, passar a mimetizar as suas causas populistas de medo e de ódio, estará condenado: os nostálgicos fascistas, os reacionários trauliteiros, preferem o original a um genérico com gente mais urbana e educada. 

Se o CDS pretende vir a ser a casa dos liberais, uma elite fina e modernaça, de camisa desapertada até ao quarto botão, pode acabar por conquistar algum do neoconservadorismo que anda pelo Twitter e por blogues residuais, bem como alguma da direita que polula na opinião do Observador e debita em certas “business schools”. Mas é claro que tudo isso, por muito barulho que faça, por muitas colunas de jornais que alimente, por muitos comentadores que promova, não enche muito mais do que um estádio de futebol. E, muito menos, o parlamento.

O CDS, que creio que há muito já percebeu que não poderá nunca titular o poder no país (quantas vezes Paulo Portas não se terá já arrependido de ter deixado a JSD?) e que só regressará ao governo como “muleta” do PSD ou em outras inimagináveis conjunturas, parece, contudo, não ter ainda entendido que, para continuar a ter um lugar minimamente relevante no espaço político, só lhe resta regressar à sua matriz ideológica original, trabalhando-a de forma contemporânea, educada, criativa, serena e dialogante. 

Para isso, o CDS não pode ser um partido “caceteiro” e ultramontano, deve largar a demagogia barata que o fez afundar nas duas últimas eleições, deixar-se de slogans demagógicos e de atitudes histéricas, e, acima de tudo, deve manter um respeito por si próprio, pela sua história, pelo que foi nos tempos em que chegou a ter um papel significativo na democracia portuguesa. E nestes não incluo os tempos da “troika”, bem entendido.

Domingo, logo se verá por onde o CDS quer ir. Ou se, afinal, não irá a parte nenhuma.

Conversas globais



 

Durante 25 minutos, estarei na TVI 24 à conversa com o jornalista Pedro Pinto, no programa “Conversas Globais”.

Falaremos da “guerra” EUA-China, da globalização, dos desafios da competitividade europeia, das oportunidades para Portugal no mercado global, etc.

O programa será transmitido na TVI 24 no domingo, dia 26 janeiro, à 01:10 e às 17:30, estando depois disponível no TVI Player.

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Aniversários


Nos idos de 1980, colocado na embaixada em Oslo, coube-me preparar a visita de Estado de Ramalho Eanes, então presidente da República, à Noruega.

Personalizo a frase porque, durante alguns meses, estive quase “home alone” na função: o anterior embaixador, Fernando Reino, tinha sido transferido para Lisboa (onde passou a ser, precisamente, chefe da casa civil de Eanes), e o novo embaixador, Cabrita Matias, só chegaria a Oslo poucas semanas antes da chegada do presidente. Assim, por ali estive sozinho, ainda com limitada experiência diplomática, com escassíssimo apoio, numa embaixada “microscópica”, como “encarregado de negócios”, a ter de acordar com os noruegueses todos os pormenores da organização de uma visita presidencial. Mal eu sabia que, no futuro, me caberia ter de organizar outras visitas presidenciais, bem mais complexas.

O meu interlocutor no palácio real norueguês foi Magne Hagen, um militar que, à época, era chefe de gabinete do rei Olavo V. Os noruegueses cedo tinham percebido a minha relativa “solidão” nas discussões sobre os temas em análise, que iam da clássica “marchandage” das trocas de condecorações aos pormenores protocolares e à agenda de conversas. A situação era tanto mais complexa quanto, em Lisboa, havia então uma forte conflitualidade entre o presidente e o governo, comigo a receber, por vezes, instruções contraditórias, umas das Necessidades, outras de Belém. Mas os noruegueses foram sempre de uma extrema simpatia.

Um jovem colega e amigo do nosso Protocolo seria entretanto enviado de Lisboa, por uns dias, a poucas semanas do evento, para nos ajudar a fixar os últimos pormenores: chamava-se José de Bouza Serrano, viria a ser embaixador e chefe do protocolo do Estado português. Sei que ele se lembra bem desses tempos.

Como resultado do frequentes contactos profissionais que fui mantendo com Hagen, acabámos por nos transformar em bons amigos. Da parte dele, uma prova dessa amizade seria o convite, no ano seguinte, para passarmos os dias da Páscoa com a sua família, na sua “hytte”, as cabanas de madeira nas montanhas que os noruegueses gostam sempre de ter. Não é muito fácil entrar na intimidade dos nórdicos mas, uma vez franqueado esse passo, revelam-se quase sempre gente de uma imensa franqueza e generosidade.

Por que é que me lembrei disto agora? Porque amanhã é 25 de janeiro. Nesses dias de junho de 1980, durante a estada de Eanes em Oslo, num dos intervalos do programa, apresentei-lhe Magne Hagen, sublinhando o papel decisivo que ele tivera na impecável organização da visita. Eanes agradeceu-lhe e eu aproveitei para assinar a coincidência do presidente e de Hagen fazerem anos no mesmo dia, 25 de janeiro.

(Meses depois, no final de 1980, Eanes iria disputar uma tensa campanha política para a sua reeleição, marcada pela morte de Sá Carneiro, com um adversário oriundo da direita militar, Soares Carneiro, que morreu em 2014. Curiosamente, Soares Carneiro tinha nascido... a 25 de janeiro.)

António Ramalho Eanes faz amanhã 85 anos e a História contemporânea do nosso país consagra já dele uma imagem de estadista e de uma personalidade de imensa probidade, muito por cima de todas as divergências que a sua ação, em determinados momentos, possa ter suscitado em vários setores, comigo incluído. O melhor elogio que lhe posso fazer é dizer que fazem muita falta a Portugal figuras com a sua estatura e integridade política.

Magne Hagen, o meu grande amigo norueguês, teve os últimos tempos da sua vida marcados por ocorrências de saúde que lhe tornam o quotidiano bastante difícil. Ainda há poucos anos, fomos visitá-lo à sua casa em Strømmen, perto de Oslo. Amanhã, telefonar-lhe-ei para o felicitar pelos seus 82 anos.

Curiosidades da vida.


quinta-feira, janeiro 23, 2020

Discutir Trump em Lisboa



Jerusalem


Vai por França uma forte polémica pelo facto de Emannuel Macron ter tido hoje uma altercação com a polícia israelita, em Jerusalem, que pretendia impedi-lo de seguir numa determinada direção. Alguns acusam o presidente francês de ter artificialmente construído um “remake” de uma cena similar passada na mesma cidade, mas com Jacques Chirac, em 1996.

Quem sabe se Chirac não se terá inspirado num episódio ocorrido com Mário Soares, meses antes, em novembro de 1995, quando este insistiu em subir o percurso do Monte das Oliveiras, não obstante a tentativa de uns imensos “bodyguards” de óculos escuros de o impedirem de prosseguir? Soares deu dois berros em português, afastou os polícias e fez, com toda a delegação, o caminho que lhe apeteceu fazer.

Afinal, Macron não só copiou Chirac, como Chirac já tinha copiado Soares.

(Uma imagem desses dias)

quarta-feira, janeiro 22, 2020

Que raio de país este!

Há gente já com netos que nasceu depois de ter sido anunciado que o novo aeroporto de Lisboa seria na Ota. Foram estudos e mais estudos, especialistas e mais especialistas, debates intermináveis e contestações múltiplas. Um dia, a ideia da Ota acabou. Depois foi o projeto de Alcochete. A “novela” foi parecida, embora mais breve. Caiu-se, finalmente, na solução Montijo, embora por aí agora se fale também da ideia de Portela + Alverca. Não sei se me esqueci de alguma coisa mais. Quando os estudos acabam e todas as audições terminam, quando parece estar prestes a surgir uma decisão final, lá recomeça a contestação. E, como regra, os governos acobardam-se e, como nos jogos de tabuleiro, tudo regressa à primeira casa.

Que raio de país este!

Uma oportunidade perdida



A imagem deprimente que passou para a opinião pública do congresso do Livre, com o que daí parece ir resultar para a eficácia da sua ação futura no parlamento, terá arruinado, pelo menos por algum tempo, a capacidade de afirmação nacional do partido. Nunca se terá ouvido falar tanto no Livre, mas, com toda a certeza, quem o apoia dispensaria bem o modo como o partido surgiu em evidência mediática.

Em política, como dizia o outro, o que parece é. E, por muito tempo, o Livre pareceu ser um partido “unipessoal”, criado em torno de Rui Tavares, um historiador que o Bloco de Esquerda fez um dia eleger para o Parlamento Europeu, mas com quem viria a entrar em posterior conflito.

O Livre surgiu com um discurso de esquerda culta e inventiva, aberto às temáticas de modernidade, do ambiente às questões de género. Do PS, o Livre distinguia-se por assumir uma agenda um tanto radical, bem mais estatizante, contrastando com a matriz “aggiornata” da social-democracia que hoje prevalece no Rato. Do Bloco de Esquerda, além da herança conflitual do passado, separava-o um muito maior pendor europeísta.

A personalidade suave e dialogante de Rui Tavares, que conquistara, com inegável mérito, um alargado espaço comunicacional, grangeava ao Livre uma promissora simpatia em diversos setores. Mas Tavares e o partido cedo terão entendido que seria necessário algo mais para conseguir ter acesso à Assembleia da República.

A escolha, por sufrágio alargado de simpatizantes, de uma mulher negra para representar o partido no parlamento parecia ser uma “trouvaille” interessante, ao mesmo tempo carregada de simbolismo. A condição para o sucesso do empreendimento era, naturalmente, que a figura escolhida estivesse em consonância plena com a linha partidária que representava. Ora, como já se viu, as coisas não se passam assim.

A deputada acha, provavelmente com razão, que, sem ela, o Livre não teria conseguido eleger ninguém. E reivindica uma forte autonomia decisória. O partido, por seu turno, entende que a única pessoa que tem em S. Bento em seu nome deve defender a sua orientação política, o que também tem algum sentido.

Não parecendo possível um compromisso entre estas duas perspetivas, o resultado é uma imagem de confusão política muito pouco dignificante. No fundo, estamos perante uma oportunidade perdida para afirmar uma mensagem parlamentar diferente, no âmbito de uma esquerda que, um pouco por todo o mundo, vive, nos dias de hoje, numa crise de imaginação e de ideias criativas.

terça-feira, janeiro 21, 2020

Médio Oriente


Hoje, terça-feira, 21 de janeiro, pelas 14 horas, estarei no programa “Sociedade Civil”, na RTP 2, dirigido por Luís Castro, a discutir a situação no Médio Oriente com Ana Santos Pinto, Armando Marques Guedes e Francisco Caramelo.

Regina Duarte


Foi em julho de 1992. Eu vivia então em Londres e fui uns dias, em férias, a Nova Iorque. Na Broadway, estava uma peça teatral de grande sucesso, “Death and the Maiden”, para a qual tive a sorte de conseguir arranjar bilhetes. Era a história de uma mulher que encontra, em sua própria casa, trazido casualmente pelo seu marido, o homem que a tinha torturado e violado, anos antes, durante um período de ditadura política. Sem que isso fosse explicitado, tudo apontava para situar o episódio no Chile de Pinochet, tanto mais que o autor da peça era dessa nacionalidade. O elenco era de luxo: Glenn Close, Gene Hackman e Richard Dreyfuss.

Sentámo-nos no teatro e, por uma imensa coincidência, ao meu lado ficou Regina Duarte, a excelente atriz brasileira, que tinha entrado em várias novelas que tínhamos visto na televisão. Não sou muito dado a esse tipo de gestos, mas não resisti a falar-lhe, expressando a minha admiração pelo seu trabalho como atriz. Foi muito simpática.

No final da peça, Regina Duarte chorava. Fiquei com grande respeito por aquelas lágrimas. O peso insuportável das ditaduras latino-americanas de extrema direita estava ali todo, naquela sala. Percebi que uma mulher e atriz brasileira, que também tinha passado por um regime similar àquele, sentia, como ninguém, a situação que ali via retratada.

Há horas, foi anunciado que Regina Duarte aceitou ser secretária da Cultura de Jair Bolsonaro.

Às vezes, há coisas que não rimam.

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Unidos por Trump


Muitos dão a Stalin o crédito de ser um dos “cimentos” da construção europeia. Na mesma lógica, foi Trump, cujos três anos de mandato hoje se “comemoram”, a razão que reuniu esta manhã, no Salão Nobre da Universidade de Lisboa, um conjunto de palestrantes, convidados por Eduardo Paz Ferrreira, presidente do Instituto Europeu da Faculdade de Direito, para fazerem, cada um a seu modo, o “saldo” do mandato presidente americano e as perspetivas que isso traz para o nosso futuro.

domingo, janeiro 19, 2020

Alentejo




Nunca fui um fã da paisagem alentejana, devo confessar. O campo “a sério”, para mim, tem de ter montes e vales pronunciados, penhascos, imensas subidas e descidas, coisas agrestes, rochedos. Como acontece em Trás-os-Montes, claro.

E, dito isto, o Alentejo (já Alto, é verdade) estava soberbo, como eu nunca o tinha visto, neste fim de semana que por lá passei. Talvez pela chuva recente, os verdes estavam imbatíveis, as planuras até me fizeram esquecer o meu Marão. E não sou fácil de contentar!

Justiças

Quando o processo Manuel Vicente transitou para Angola, ao abrigo dos acordos bilaterais existentes, muitos por cá afirmaram não confiar na justiça angolana. Agora que essa mesma justiça pode vir a acusar Isabel dos Santos, essa justiça, afinal, já merece confiança?

Isabel dos Santos


Um grupo de órgãos de comunicação internacional de vários países começou hoje a divulgar documentos que transmitem fortes indícios de que a conhecida fortuna de Isabel dos Santos poderá ter assentado em benefícios ilegítimos, proporcionados pelo apoio do seu pai, durante o imenso tempo em que este presidiu aos destinos de Angola.

A confirmarem-se essas suspeitas, elas apenas virão confortar a perceção, muito generalizada, naquele país e fora dele, de que tão imenso património dificilmente poderia ter crescido, da forma como cresceu, se não tivesse tido “impulsos” políticos muito fortes. A documentação que já se conhece vai, contudo, mais longe, ao adiantar elementos que, na perspetiva dos jornalistas, podem configurar, não apenas privilégios, mas igualmente a prática de delitos de diversa natureza. Essa é agora uma questão para a justiça angolana, que já tinha procedido ao arresto de muitos dos bens de Isabel dos Santos.

As últimas semanas tinham já mostrado Isabel dos Santos num esforço para contestar publicamente as ações da justiça angolana face ao seu “império” económico-financeiro. Perante o detalhe destas últimas acusações e a montanha documental avassaladora que deve vir por aí, o caso promete poder entreter-nos por muito tempo.

Na África descolonizada, o cíclico rodar dos “alcratruzes da nora”, em matéria política, criando contrastes entre os ciclos sucessivos de poder, com consequências judiciais, é quase uma regra. Mas, a acreditar nos vultuosos valores que parece estarem envolvidos neste caso particular, a questão Isabel dos Santos tem uma tal dimensão que arrisca tornar-se jm “modelo” histórico quase sem precedentes.

Olá, António!


Passaram dois anos, mas parece que foi ontem! Deixámos de ter as tuas ironias, as tuas indignações, a tua inteligência, as tuas memórias. Só não deixámos de ter saudades tuas, António.

A observar

Ontem, atravessaram uma noite eleitoral penosa. O domingo vai servir para lamber as feridas. Na segunda, entrarão na redação, mais uma vez, de orelha murcha. Tanto esforço para nada! Ainda com as olheiras mentais da ressaca, debitarão, para a rádio matutina, a sua enésima frustração. Depois, cabisbaixos, afiarão a tecla e, em tremendistas opiniões, avançarão com a tese simples, à medida do seu desgosto: assim não “vamos” lá! É que não vão mesmo! Não deve ser nada fácil regressar às trincheiras de uma guerra perdida, condenados a ficar por ali a observar...

sábado, janeiro 18, 2020

Rui Rio

Rui Rio perdeu uma oportunidade: anunciar que, se Marcelo Rebelo de Sousa decidir recandidatar-se, o apoiará. Se o fizesse, obrigaria Marcelo a agradecer-lhe e seria o primeiro a fazer esse anúncio. Mas não o fez...

PSD

... e agora, o PSD derrotado vai esperar por um mau resultado de Rio nas autárquicas e ficar à espera que Pedro Passos Coelho se disponibilize para cumprir o sebastianismo que por ali está ainda muito vivo

E nós falámos!


Verde

Mesmo ficando em casa, continuo equipado de verde.