segunda-feira, novembro 25, 2019

Onde?


Na alvorada de hoje, acordei estremunhado, com o toque do despertador. Quis abrir a luz e tateei sem sucesso, durante quase um minuto, na mesa de cabeceira. Por fim, lá consegui encontrar o interruptor. E calar o maldito relógio, que eu tinha prudentemente deixado à distância e que é daqueles que vão subindo de tom à medida que nos vamos atrasando em desligá-lo. É que, numa semana, em quatro atividades completamente diversas, dormi em quatro quartos diferentes de hotel, em outras tantas cidades. E se a “geografia” de todas as camas pode ser parecida, o sítio exato onde se acende e apaga a luz é, em cada um deles, um renovado enigma, que o estado de sonolência ao despertar não ajuda a decifrar.

Há uns anos, em tarefas em nome da pátria, a minha vida era uma romaria constante de hotéis. Cheguei a andar semanas fora de Portugal, a mudar de quarto quase todos os dias. Ficava normalmente em hotéis, muito raras vezes no quarto de hóspedes das nossas embaixadas. O cansaço acumulado, nesse tempo, tornou-se de tal forma endémico que, chegado aos quartos, caía “como uma pedra” na cama, apenas com o despertador a ajudar-me (agora uso sempre dois, para evitar que um desligar distraído de um deles me arruine a agenda) ao início do dia seguinte.

Um dia, vai para mais de vinte anos, despertei num desses lugares, lá consegui acender a luz mas não reconheci minimamente o local onde estava. Sentia-me excecionalmente arrasado e tinha a certeza de ter dormido muito pouco tempo. Olhei em volta: não era um quarto de hotel, era de uma casa. Devia ser de uma embaixada. Mas, por mais que puxasse pela cabeça, não conseguia lembrar-me de rigorosamente mais nada. Tinha a vaga ideia de ter havido um jantar na véspera, com bastante gente, mas que diabo de cidade seria aquela? Concentrei-me, fechei os olhos, a tentar situar-me, mas dei conta do risco que corria: se ficasse na cama mais um minuto que fosse, nesse estado semi-acordado de reflexão, era bem capaz de voltar a adormecer. 

Levantei-me e fui a uma janela. Chovia. Era uma rua comum, podia ser nórdica ou báltica, tinha também aquele cinzento indiferenciado das cidades do centro da Europa. Pensei, armado em esperto: vou ver a minha agenda! Mas logo concluí: de que é que me ia valer a agenda, se eu fazia lá ideia sequer do dia em que estava? Abri então a porta do quarto e olhei o corredor: o embaixador, um colega e velho amigo, passava ao fundo. “Olá, bom dia!”. Pronto! Lá me “encontrei”!

Não, hoje de manhã não aconteceu nada disso, sabia bem que estava em Varsóvia. Só não sabia onde era a luz...

25 de novembro

Compreendo quem saúda, no dia 25 de novembro, a criação de condições de estabilidade político-militar para Portugal vir a ter um regime democrático. 

Não tenho o menor respeito político por quem usa o 25 de novembro para disfarçar a derrota histórica que teve no dia 25 de abril.

25 de Abril, sempre!


domingo, novembro 24, 2019

Flores


Sou do tempo em que a Rua das Flores, no Porto, era um segredo discreto, partilhado por alguns sabedores. Tinha, claro, as ourivesarias, os alfarrábios do “Chaminé da Mota”, uma igreja belíssima mas escondida, a “Heróica”, uma papelaria de um casal idoso onde eu, por décadas, encomendei uns cadernos de bolso de capa preta que a “Moleskine” acabaria por “copiar”, e pouco mais.

Por ali perto, ia-se, ao final de tarde, à “Adega do Olho”, que costumava ter um presunto com que só a “Badalhoca”, que na altura operava apenas em Ramalde, era capaz de rivalizar.

Um dia, no extremo da rua oposto à estação de São Bento, ao Largo de São Domingos deu-lhe para entrar na moda. Três mesas recomendavam-se por lá: o LSD (nome “tirado” de Largo de São Domingos, nada de confusões!) para petiscos, o Traça (que, para meu gosto, já teve dias mais gloriosos) e o DOP, do agora “bi-estrelado” Rui Paula, casa sobre a qual, há dez anos (quando eu assinava “Augusto Maria de Saa” em crónicas gastronómicas na “Sábado”), escrevi um texto que ainda hoje é exatamente o que penso. Ah! E havia a “Araújo e Sobrinho”, imbatível em papéis, pincéis e lápis, hoje convertida em albergue de luxo.

Nos dias de hoje, a rua das Flores está transformada num “must” do Porto, com a turistada a fotografar tudo, com paletes de espanhóis a comerem coisas inenarráveis na parafernália de alegados restaurantes e “portwine” bares que enxameiam a artéria, onde proliferam ainda lojas com “recuerdos” turísticos de discutível qualidade e de indiscutível desinteresse.

Fui hoje “almoçar” (uso as aspas de propósito, porque se aquilo era almoço, vou ali e já venho!) a uma antiga bela ourivesaria, que se serve uma espécie de comida, num espaço lindíssimo. Hoje, fui lá três vezes: a primeira, a única e a última...

Depois, acabei a beber um café e um Jameson num fantástico hotel que o Porto Bay aqui instalou, para honra da qualidade da sua cadeia hoteleira e para benefício desta que é a mais bonita rua do Porto. Deixo aqui a imagem, para lhes abrir o apetite.

Nostalgia operária


Pertenço a uma outra escola de memória: um líder operário, no “bom tempo”, tinha o aspeto que hoje tem Philippe Martinez, secretário-geral da CGT francesa. 

Isto sim, é que é uma cara de agitador sindical como deve ser...

Livre?

Na nova polémica que envolve a deputada do Livre no parlamento apenas tenho uma dúvida (mas que é imensa): então a representante de um partido como o Livre hesita, sequer um instante, sobre qual deverá ser o sentido do seu voto numa questão que é tão óbvia para qualquer partido de esquerda?

Velha e relha

Gosto muito da definição que por aí anda de uma nova (embora velha e relha nas ideias) força política: o Chega dos queques.

O sorriso da política


Há dias, vi por aí surgir a crítica mais patética à nova ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho: é acusada de sorrir! Para um qualquer comentador, o sorriso da governante era natural quando ela se ocupava do radiante turismo, mas é agora inadequado à sóbria gravidade do tema trabalho.

Há um país de sobrolho carregado que teima em confundir um “carão” com seriedade. Ora o sorriso, na cara de uma mulher, torna a política mais bonita.

sábado, novembro 23, 2019

Muito obrigado, Jorge Jesus


O sucesso hoje obtido por Jorge Jesus na Libertadores, a somar ao que inevitavelmente aí virá no Brasileirão, representa uma grande vitória na carreira de um qualificado técnico de futebol português, agora por terras brasileiras. Jorge Jesus garantiu mesmo um lugar na história do futebol daquele país.

Porém, para quem conhece “o Portugal” que existe no Brasil, o “nosso” espaço naquela grande nação, este êxito de um treinador português representa muito mais do que isso. Sei que não preciso de dizer mais nada, deixando aqui apenas um imenso e solidário abraço aos muitos amigos portugueses e luso-descendentes, que entendem como ninguém o que quero significar com este meu muito sincero agradecimento a Jorge Jesus!

Madalena Fischer


As primeiras mulheres admitidas na carreira diplomática portuguesa entraram no Ministério dos Negócios Estrangeiros em agosto de 1975, no mesmo concurso público em que eu próprio ingressei. Tinha sido o ministro dos Negócios Estrangeiros Mário Soares quem, meses antes, havia feito alterar a retrógrada lei da ditadura que determinava que apenas os homens pudessem ser diplomatas.

Dinah Azevedo Neves foi a mais bem classificada mulher de quantos ingressaram naquele concurso, pelo que pode ser considerada a primeira mulher na história da carreira diplomática portuguesa.

Maria do Carmo Allegro Magalhães viria a ser a primeira funcionária diplomática a assumir funções como chefe de uma missão diplomática, com credenciais de embaixadora, na embaixada portuguesa na Namíbia. Depois dela, muitas outras mulheres viriam a dirigir embaixadas e missões multilaterais.

Anos mais tarde, a embaixadora Ana Martinho seria a primeira mulher a desempenhar funções de secretária-geral nas Necessidades, o mais elevado lugar da hierarquia formal do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Nos dias de hoje, Ana Paula Zacarias é secretária de Estado dos Assuntos Europeus, depois de, há já bastantes anos, a diplomata Manuela Franco ter tido funções similares num outro governo.

Agora, foi anunciado que Madalena Carvalho Fischer, atual embaixadora no Cairo, irá assumir o cargo mais importante na direção político-diplomática das Necessidades, como diretora-geral de Política Externa. Nunca uma mulher tinha, até hoje, ascendido a essas funções.

A história da presença feminina nos quadros diplomáticos portugueses, nas últimas décadas, reflete um percurso de inegável sucesso, com o surgimento de funcionárias altamente qualificadas a ocuparem lugares destacados, quer em Portugal, quer na rede diplomática e consular exterior, muito contribuindo para o prestígio da imagem de Portugal no mundo.

A nomeação de Madalena Fischer, uma qualificada profissional, com um perfil muito consensual na carreira diplomática portuguesa, é assim uma excelente notícia.

Muitos parabéns, Madalena! Os faraós vão sentir saudades suas...

sexta-feira, novembro 22, 2019

A “Piauí” na “Sarita”

Não sabe o que é a “Piauí”? É pena! É, de longe, a melhor revista brasileira da atualidade.

Não sabe o que é a “Sarita”? É pena! É o “lugar” onde, em Portalegre, ali perto do Rossio, se compra a imprensa que interessa. A prova provada é que, há minutos, encontrei por lá, à venda, a “Piauí”. Não comprei, apenas porque sou assinante e generoso: deixei o exemplar para quem quiser adquiri-lo.

quinta-feira, novembro 21, 2019


Estrelas


Não sou muito dado ao cultivo regular dos restaurantes de cozinha contemporânea, como quem faz o favor de me ler já se deve ter dado conta. A minha “praia” mais corrente são outras “freguesias” culinárias.

Mas reconheço, sem o menor esforço, que o refinamento da arte gastronómica atinge, em alguns desses locais de “fine dining”, formas superlativas de qualidade sensorial, superiores requintes de paladar, pela junção criativa de sabores, que correspondem a anos de trabalho e pesquisa, a uma aprendizagem feita com quem apurou a sensibilidade a níveis elevados de cultura culinária. Fico, muitas vezes, deslumbrado com aquilo que me chega ao prato, admirando imenso o trabalho desses artífices do gosto. Conheço muitos, admiro bastantes.

Rejubilo sempre, por essa razão, com a atribuição de mais estrelas Michelin aos chefes portugueses que se dedicam, dia e noite, a um esforço de constante aperfeiçoamento, apurando a oferta, qualificando o serviço de mesa, ajudando a que Portugal se torne num destino de quantos apreciam essa gastronomia requintada, a qual, naturalmente, tem de ser paga a um preço que se liga à qualidade dos produtos escolhidos, ao excecional tempo de confeção, ao conjunto da “produção” essencial para aquilo que apuradamente nos chega à mesa. O país e o seu turismo devem-lhes muito e, mais do que isso, devem agradecer-lhes o que têm feito pela nossa imagem de mesas acolhedoras.

Dito isto, vou-lhes contar um segredo. Às vezes, em alguns desses restaurantes em Portugal, fecho os olhos e pergunto a mim mesmo: se eu não soubesse onde estou, conseguiria perceber, pelo que estou a comer, onde de facto estou?

Irrita-me imenso a “oferta” (oferta é uma ironia, porque se paga uma “conta calada”) de alguns chefes (eu nunca escrevo “chefs”) de cozinha que por aí andam, portugueses ou não, que parece que, mais do que tudo, cuidam em “disfarçar” a geografia onde operam, “fingindo” que abancamos no Noma ou no Ambroisie. 

Ora eu, quando quiser (e se tiver dinheiro e pachorra), vou ao Noma ou ao Ambroisie. Mas o que eu quero, aqui e agora, é sentir que estou a comer, em Portugal, coisas com superior qualidade, com produtos que sei serem nossos, tributários da “memória” culinária portuguesa, tratada esta, embora de forma sofisticada - com espumas, reduções ou outras artes - por quem profundamente respeita a nossa história gastronómica.

É por todo este conjunto cumulativo de razões que ontem, ao ver anunciado que Rui Paula, um chefe cozinheiro com uma imensa genuinidade portuguesa - que conheço desde o Cepa Torta ao DOC, do DOP a Vidago, do Tivoli à Casa de Chá da Boa Nova - obteve, pelo seu dedicado, determinado e competente trabalho neste seu último espaço, a sua segunda estrela Michelin. O meu amigo José Quitério, às vezes, tem de concordar que os pneus nem sempre se enganam.

Um forte abraço, meu caro Rui Paula!

quarta-feira, novembro 20, 2019

O mal de Joacine


Ninguém suspeitaria, há uns meses, que a eleição de Joacine Katar Moreira para o parlamento português pudesse dar origem a uma controvérsia como aquela que entretanto se gerou em seu torno. Acho, aliás, que a questão da gaguez da deputada foi, neste contexto, um mero fator de diversão para algo mais essencial.

Joacine Katar Moreira é negra, feminista e, com frequência, tem deixado claro que pretende vir a utilizar aquela tribuna para abordar, numa perspetiva radical, algumas temáticas menos consensuais, tal como para fazer uma leitura, muito marcada pela sua experiência pessoal, sobre o fenómeno da exclusão rácica em Portugal, com as decorrências que daí advêm para a revisitação do colonialismo português e das suas sequelas contemporâneas. Recordo, a propósito, como o surgimento de uma bandeira da Guiné-Bissau, na noite da sua eleição, logo provocou uma patética histeria nacionalista e xenófoba, atitude contra a qual, aliás, me insurgi publicamente.

Mas, afinal, perguntar-se-á o leitor, a que propósito vem o título deste artigo? Qual é o “mal” de Joacine? Vou ser muito claro: temo que o radicalismo recorrente do discurso da deputada, a sistemática colagem do sensível tema racial a uma postura confrontacional e divisiva, que por muita gente, mesmo aquela que se considera moderada, pode vir a ser lida como estimuladora de um anti-portuguesismo no seio das comunidades imigradas de outras etnias, acabe por ser um adubo fácil para a doença que é o nacionalismo primário, cuja face política ela encontrará do outro lado do hemiciclo onde se senta. 

Ao olhar as redes sociais e alguma imprensa, noto que a postura de Joacine Katar Moreira deu azo à emergência de algum racismo alarve que vivia escondido em certas catacumbas da nossa sociedade, até aqui travado na sua expressão pública por um mínimo de vergonha, o que já era um considerável ganho civilizacional. Vejo, contudo, que alguns iluminados entendem que o “outing” desse primarismo miserável acaba, no fundo, por ser clarificador e separador das águas. A mim, que não me apetece viver num Portugal transformado num “ringue” de tensões sociais e de ódios, de “vendettas” históricas e de ajustes de contas intelectuais com o passado, isso parece-me péssimo. 

Joacine Katar Moreira, hoje deputada com toda a legitimidade, tem, é claro, o direito de pensar de forma diferente. Espero, com sinceridade, que, a prazo, não venha a arrepender-se por poder vir a ser a responsável por ter soltado por aí alguns perigosos demónios.

terça-feira, novembro 19, 2019

José Mário Branco


Não deviam faltar muitos anos para o 25 de abril. No programa “Página Um”, da Rádio Renascença, ouvi um dia José Manuel Nunes apresentar o primeiro trabalho editado por um compositor e cantor português, que não estava presente no estúdio e de quem eu nunca tinha ouvido falar. 

Tratava-se do primeiro disco de José Mário Branco. Foi então referido, com toda a naturalidade, que o autor não podia estar ali em estúdio, pelo facto de viver no estrangeiro. O verdadeiro motivo foi discretamente iludido: ele estava exilado em Paris.

Lembro-me, como se fosse hoje, da interessante peça instrumental “Gare de Austerlitz”, com que o disco abria: era um som ambiente, com ruídos de multidão e de comboios, que depois se iam enchendo progressivamente de música. Austerlitz era o nome da estação onde, em Paris, desembarcavam todos os portugueses que iam em busca de uma nova vida. Ou da liberdade.

Desde esse dia e até hoje, segui com algum cuidado o percurso de José Mário Branco, do trabalho que fez no exílio com Sérgio Godinho até às belas derivas que, como compositor, com Manuela de Freitas como letrista, empreendeu pela área do fado, de que Camané acabaria por ser um grande beneficiário. Pelo meio, nos anos 80, tivemos direito ao chocante “FMI”, um disco que me recordo de ter levado comigo para Angola e de ter ali o ouvido com amigos, em “alto berros”, que era como aquela peça de indignação radical merecia ser escutada.

Ao vivo, creio só ter visto José Mário Branco uma única vez, num espetáculo no CCB, já há muitos anos. Sempre o achei muito melhor compositor do que intérprete, embora ele soubesse tirar bom partido melódico daquela sua voz rouca e grave.

José Mário Branco morreu. Era de uma geração, a que também pertenço, que está agora de saída, embora com legítimo orgulho do legado que deixa.

Recordo-o aqui com uma canção divertida, de ritmo de marcha alegre, ancorada na geografia de Lisboa, que diz bastante mais do que aquilo que parece dizer: “ “Qual é a tua, ó meu?”. 

O clássico chunga “Tira a mão da popeline!”, que surge dito a meio da música, ficou ali consagrado para sempre.

segunda-feira, novembro 18, 2019

Cliente da “segunda série”


Não me passa hoje pela cabeça (já me passou um dia, mas arrependi-me vivamente) almoçar ou jantar no Alfa Pendular, entre Lisboa e Porto ou vice-versa (agora, vou no vice-versa). A qualidade do produto trazido ao lugar não me agrada minimamente, e isto é apenas um piedoso “understatement”.

Nos tempos do velho Foguete, o comboio prateado que fazia este trajeto creio que quase no dobro do tempo, havia uma carruagem restaurante, com mesas próprias com pequenos candeeiros, onde se tomavam as refeições. 

Marcavam-se estas no início da viagem, havendo dois turnos de serviço. Quando as refeições estavam prontas para serem servidas, surgia pelas coxias um empregado que tocava uma pequena sineta, ao mesmo tempo que ia anunciando em voz bem alta: “Primeira série!”. Uma hora e tal mais tarde, lá surgia a “segunda série!”. E, a essas chamadas, os comensais que haviam reservado iam para a carruagem restaurante.

Fui sempre um cliente da “segunda série”, porque esta permitia mantermo-nos à mesa por mais tempo, beber mais do que um café, nesses anos em que ainda tínhamos fígado para fechar a refeição com uma dose de aguardente velha (em balão aquecido, o que era feito, a nosso pedido, à falta de lamparina, com um pano embebido em água quente). Lembro-me também que, escolhendo a tal “segunda série”, só saíamos da mesa já por Vila Franca ou por Espinho, dependendo do sentido do comboio. E que belas conversas tive por aquelas mesas, de que agora não consegui arranjar uma imagem decente para ilustrar este post!

Como a comida vinha em travessas (na antiga tradição portuguesa de serviço à mesa), os empregados da Wagons-Lits serviam individualmente cada cliente. Ora a estabilidade do comboio era então muito periclitante, pelo que eles faziam uma cuidada coreografia para não provocarem “desastres” irrecuperáveis na roupa dos utentes. 

A “segunda série” tinha, aliás, um pormenor “técnico”, nas idas para o Porto. Havia um ponto do percurso para Norte, creio que ali pela Pampilhosa, onde um qualquer intrincado de linhas fazia o comboio abanar mais furiosamente. Víamos então os funcionários pararem o serviço e aguentarem-se no corredor, por uns instantes, com as travessas na mão, num equilíbrio hesitante, até que tudo acalmasse. Era um momento aguardado com sorrisos pelos “connaisseurs”. Sempre admirei aqueles hábeis “jongleurs” da restauração ferroviária, de que agora me lembrei, nestas horas com pouco aqui para fazer, neste Alfa sem alma nem wifi decente.

Tinham mais graça aquelas viagens antigas? Provavelmente não. Nós é que olhávamos com outros olhos aquele “cosmopolitismo” de trazer por casa, a versão lusa do “Expresso do Oriente” a que então tínhamos direito. Ah! E éramos mais novos...

Isto deve ser da idade!

Há cada vez mais coisas sobre as quais tenho dúvidas: sobre a atitude a tomar face à sem-abrigo que tentou matar o filho, sobre a autorização ou não do traje da desportista muçulmana, sobre se, afinal, o aeroporto deve ser ou não no Montijo, sobre se se deve proibir ou não a exploração de lítio, etc, etc.

Quando vejo tanta gente com tantas e tão profundas certezas sobre tudo e sobre todos, dou comigo a pensar: isto deve ser da idade...

Quem sabe, sabe!

Um Governo que (não) governa, uma oposição que não se opõe, e um país que anda ao sabor de conveniências, da resposta a interesses de curto prazo, eleitoralistas, sem a avaliação das consequências”.

Quem escreve isto hoje é o jornal online Eco. Podia ter sido o Observador. Ou outra folha similar.

Houve eleições, apenas há semanas. O país teve toda a liberdade para escolher - e escolheu. Quem ganhou, em total liberdade, teve a ingenuidade de pensar que tinha legitimidade política para governar, sob o escrutínio parlamentar que a Constituição prevê. 

Mas o Eco, cuja representatividade opinativa não sabemos onde nasce (esperando nós que não radique nos interesses económicos que o financiam), descarta, com a arrogância de uma “boutade”, essa decisão livre dos cidadãos, desqualifica de uma penada o sentido da sua escolha, apouca mesmo a ação da oposição da qual não gosta. 

Não sobra nada em Portugal? Sobra, nem tudo está perdido! Sobra a voz sábia e definitiva do Eco!

Os cidadãos votantes, para o Eco, são um bando de palermas, uns inconscientes. O Eco, que passou semanas a promover a Iniciativa Liberal, a quem o descuido do país só conferiu um deputado, é que sabe como melhor se defenderiam os interesses da pátria.

Afinal, tudo é tão simples, em política: para as coisas seguirem no melhor dos mundos, bastaria seguir o que dizem o Eco, o Observador e outras folhas. Afinal, para que é necessário esse gesto vão que é votar?

O sorriso matinal


“Bom dia, senhor Costa, são sete e meia”. Aquela voz feminina, que me despertou pelo telefone, à hora pedida, no Hotel Intercontinental, no Luxemburgo, em março de 1986, ficou-me para sempre na memória.

Naquela que era a minha primeira visita em trabalho por ali, bem no início da nossa aventura europeia, dei-me assim conta da sensação diferente que era estar como português no Luxemburgo.

A senhora, telefonista do hotel, terá pressentido, pelo meu nome, que estava a acordar um compatriota. E era muito confortável sentir aquela expressão de proximidade, no lugar do mundo onde a nossa comunidade é mais significativa, em relação à população total do país.

Desde então, nas muitas viagens que fiz ao Luxemburgo, “tropecei” com portugueses um pouco por todo o lado. Quantas vezes, em restaurantes, ouvi de empregados, depois de um “então o que é que vai ser?”, em voz baixa e cúmplice, “não peça o cerf“ ou “as moules hoje não estão muito boas”. E, pelos corredores do “Le Royal”, que, por anos, passou a ser o meu “albergue” no centro da cidade, era bem simpático trocar os bons-dias com as senhoras da limpeza que, entre si, falavam português pelos corredores.

Ontem à tarde, ao ver a bancada do Luxemburgo-Portugal pejada de bandeiras e cachecóis verdes e vermelhos, fiquei a pensar no prazer que os nossos compatriotas devem ter tido ao verem a nossa seleção ganhar, precisamente ali, o passaporte de acesso ao Europeu de futebol.

É que hoje, ao entrarem nos empregos e olharem os seus colegas de trabalho, tenho a certeza de que os portugueses do Luxemburgo afivelarão um sorriso matinal (e, vá lá!, compreensivelmente um pouco sobranceiro) muito especial...

O que eu não disse

A graça da vida é o improviso.  Na sexta-feira passada, fui convidado para falar sobre o tema "Liberdade e Democracia em desordem"...