segunda-feira, novembro 18, 2019

Leituras



Um amigo mandou-me esta fotografia tirada numa estante do Parlamento Europeu. Que boas leituras eles têm por lá!

domingo, novembro 17, 2019

20 anos do euro


A convite do governador do Banco de Portugal, tive muito gosto, na passada sexta-feira, em ser o moderador de um interessante debate entre Wolfgang Munchäu, do Financial Times, Paul De Grauwe, da London School of Economics, e Carlos Moedas, comissário europeu cessante. Com essa conversa, culminou um dia dedicado a uma conferência comemorativa dos 20 anos do euro, com a presença de vários especialistas portugueses e estrangeiros.

No debate, suscitei a questão do estatuto do euro como instrumento de poder europeu. Foi interessante perceber, em alguns dos meus interlocutores, a ideia de que a moeda única, tendo sido um inegável sucesso, poderá, contudo, ter ficado aquém das mais optimistas expetativas suscitadas aquando do seu lançamento, em especial no tocante à partilha de “mercado” com o dólar, que permanece líder incontestado como moeda de referência.

Interessante foi ouvir, falando da assistência, o antigo presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, ser de opinião que um maior “êxito” do euro poderia ter criado pressões difíceis de comportar, numa eurozona sem poder político suficientemente forte. As atuais debilidades dessa eurozona, por incompletamento da União Bancária, foram referidas por alguns intervenientes, tal como, neste contexto, alguma falta de sintonia entre Paris e Berlim, circunstância que torna difíceis alguns avanços tidos por essenciais para o reforço do euro.

Falou-se bastante da China, da pluralidade de perspetivas dentro da UE sobre o relacionamento com Beijing, dos EUA e das suas dissonâncias com as posições europeias, do pós-Brexit e das dúvidas sobre se a atitude comum europeia na atitude face a Londres tem condições para de se manter, no processo negocial que irá estruturar o futuro relacionamento.

Muito mais foi discutido, nesta hora e meia de debate, que incluiu perguntas da assistência, e que encerrou esta excelente iniciativa do Banco de Portugal.

Alf pendular


Viajei hoje no Alfa Pendular, a caminho do Porto, e vejam com quem me cruzei na carruagem! Parece que entrou no Entroncamento!

II Encontro de Cascais



Foi uma bela jornada aquela que, este fim de semana, tivemos no II Encontro de Cascais, organizado pelo jornal “Expresso” e pela Câmara de Cascais. 

Democracia, sustentabilidade, saúde e educação estiveram este ano em análise, com cada tema a ser introduzido por dois especialistas, a que se seguiu um alargado e animado debate. 

Ao jantar, o “plat de résistance” foi uma intervenção, bem substantiva, feita pelo presidente da República.

sábado, novembro 16, 2019

Gente de direita

Um grupo de algumas dezenas de pessoas, que, politicamente, se assumem de direita, acaba de publicar uma coletânea de textos.

Nesse grupo, que vai de uma direita radical, com velhas simpatias pela ditadura, a pessoas com um perfil reconhecidamente democrático, encontro mesmo alguns amigos pessoais e figuras por quem tenho consideração e estima. Por outros, não.

Não adquiri ainda o livro e não deixarei de o ler, no meu eterno gosto masoquista de me “ilustrar” com aquilo com que sei ir divergir em absoluto.

Com sinceridade, acho que é bastante saudável assistir a este “outing” descomplexado da direita portuguesa, que, pelo menos desta vez, optou por não se esconder atrás do eufemismo tíbio do “centro-direita”.

Pena é, no entanto, que esta direita encadernada não se tenha ainda conseguido libertar do fantasma da esquerda, essa sua eterna e traumática ”bête noire”, que acaba mesmo por figurar, em linguagem acrimoniosamente agressiva, na citação do prefácio que surge na capa do livro. 

Coisa que, estou seguro, nunca aconteceria num livro escrito por pessoas de esquerda, a quem dificilmente passaria pela cabeça falarem da direita na capa de um seu livro. Quem acaso tiver um exemplo contrário, faça favor de o mostrar.

Aqui fica essa citação: “Essa é precisamente a riqueza da direita, onde a liberdade e a ousadia sempre prevaleceram sobre a procura de ortodoxias e a arregimentação sectária que vigoraram à esquerda”.

A direita portuguesa mostra, assim, que ainda não consegue afirmar uma identidade por si própria, necessitando de fazer o contraponto com a esquerda para sublinhar a sua matriz. É pena! Mas não há que perder a esperança: com o tempo, talvez lá chegue... 

Também foi para dar direito de cidade a uma direita democrática, desde que tenha a coragem de exorcizar sem ambiguidades a ditadura que, em Portugal, lhe manchou o nome, que se fez o 25 de abril...

Da água


Ao ouvir hoje, num debate, Catarina Albuquerque, uma especialista portuguesa que se tem destacado mundo multilateral que se ocupa da questão vital da água, falar-nos, com o seu convincente entusiasmo, da tragédia - porque é de uma tragédia que se trata - que envolve a gestão global desse recurso escasso, lembrei-me de um episódio passado comigo há cerca de 15 anos. 

Foi numa travessia do Usebequistão, na Ásia Central, numa carrinha da OSCE. O calor exterior, nessa viagem pelas montanhas, era imenso e nós ali íamos, bem instalados, muito confortáveis, numa espécie de “oásis” em movimento.

Era uma estrada de montanha, sem localidades visíveis, com uns casebres à distância, de quando em quando. Em um ou dois locais do percurso, reparei que havia umas crianças que nos estendiam garrafas de água, que traziam na mão. Por curiosidade, perguntei à funcionária local da organização, que nos acompanhava, se elas estavam a vender água. 

A jovem, funcionária local da OSCE, riu-se: “Não. Eles estão a pedir água a quem passa. São mandadas pelos pais, das casas lá em baixo, para pedirem um pouco de água para beberem, em especial nesta altura de grande calor”.

Fiquei siderado com a revelação. As pessoas que me acompanhavam, quatro embaixadores junto da OSCE em Viena, ficaram incomodados pela firme recusa do motorista e da guia de voltarmos atrás, para darmos aos miúdos algumas garrafas das muitas que, bem geladas, nos abasteciam a carrinha. Isso atrasaria o nosso programa, disseram-nos. Verdade seja que não íamos resolver nada de essencial, apenas apaziguar a nossa consciência. Mas sempre seria melhor do que não fazer nada.

Não existe ainda entre nós uma consciência da importância política do tema da água, que é central nas questões de sustentabilidade com que o mundo se confronta. E que isto é já, nos dias de hoje, um problema já com um potencial de conflito muito sério em certas regiões do mundo.

sexta-feira, novembro 15, 2019

Da gravidade


Cruzei-me ontem com ele, na FNAC do Chiado. Falámos uns instantes. Está bastante mais velho (estamos todos) mas, essencialmente, está muito mais “grave”. Era, no passado, um companheirão, um pacholas, sempre com uma graça na ponta da língua, um sorriso aberto à vida e aos amigos que encontrava. Ontem, quando o vi à distância, quase o não reconheci, pareceu-me outro: sério, “cara de caso”, ar patibular, como se lhe tivesse morrido alguém. Na conversa breve, abriu-se um pouco, mas foi sorriso de pouca dura. Logo depois da despedida, lá o vi, de novo, façanhudo. Parecia “importante”! E foi-se, com o mesmo ar de quem ia “contra o vento”. Será isto natural?

Será a idade que torna as pessoas mais fechadas de cara? Há uns anos, comentei isto com uma amiga, em Vila Real, ambos sentados na esplanada da Gomes, vendo passar pessoas da terra, quase todos com esse fácies cerrado, com uma espécie de “gravitas” adotada como estilo. Ela dizia-me: “Os homens de Vila Real, para “crescerem” no seu estatuto perante os outros, parece que têm necessidade de ter “ar de maus”, para serem levados a sério. Repara que quando eles abrem o guarda-vento para entrarem na Gomes, enfrentando aquela plateia de olhares que sobre eles converge, é um pouco o estatuto que pretendem afirmar que transparece do modo como afivelam o rosto”.

Estivesse por ali o Steinbroken, o diplomata finlandês de “Os Maias”, do Eça, e diria, aplicando a um desses “cromos” de Vila Real o que dizia sobre os eventos do mundo: “C’est grave, excessivement grave!” E acrescentaria, como toda a razão: “Et pourtant, où va-t-il?” E na realidade, o mais longe que esse tipo de homem vai, lá por Vila Real, é ao Cabo da Bila (com “b”, claro)...

Testei isto com outra pessoa e a explicação foi outra: “É quase sempre apenas timidez. O “carão” é uma simples defesa. O estatuto de “homem na cidade” (como o disco de Carlos do Carmo), em especial na província e ainda mais nas pequenas localidades, implica uma coreografia própria no esgar. Um ar de brincalhão, mesmo um leve sorriso, fragilizá-lo-ia, abriria caminho a não ser tomado a sério, daria ideias aos outros para o abordarem com comentários leves e jocosos, lidos como excesso ou exploração de confiança”.

Um velho embaixador que em tempos conheci, e que era obsessivamente preocupado com a exegese dos sinais que regulam os registos de comportamento mútuo, tinha uma tese bizarra (e, para mim, ridícula): temos de estar sempre “acima” do nosso interlocutor. Porquê? Porque as relações sociais são, por regra, desequilibradas. Assim, ele passava o tempo a usar uma expressão anglo-saxónica que traduzia essa sua ideia: “if you are not one point up, you are one point down”. A cara de mauzão fará parte desse estilo?

As coisas com que algumas pessoas se preocupam!

O destino das Américas

Se há coisa que a História cada vez mais nos ensina é que temos ser muito prudentes ao ler os seus sinais. Prudentes e modestos, em especial na tentativa de dela tirar ilações para o futuro.

Há uma dezena de anos, muitos de nós olhávamos para a América Latina como uma geografia política que seguia um curso relativamente linear, embora diverso dentro de si e com alguns identificáveis riscos de percurso. 

Sabíamos e sabemos que os Estados Unidos nunca prescindiram de ter um “droit de regard” sobre um sub-continente que consideraram, na aplicação da (sua) “doutrina Monroe”, como uma zona de legítima influência direta, parte do seu perímetro de segurança próxima. O fator cubano, inserido no contexto da Guerra Fria, deu-lhes um alibi fácil para poderem continuar a apoiar e a gerar, na região, alguns títeres autoritários e, em caso de evidente desvio dos seus interesses, intervirem e recolocarem as coisas nos eixos favoráveis ao “mundo livre”, mesmo que para tal fosse necessário reforçar alguns ditadores. A “liberdade” do seu mundo, de que os EUA sempre se arrogam como lídimos intérpretes, vale sempre o condicionamento da liberdade de outros. A frase de Roosevelt para qualificar um dos ditadores que interessavam a Washington ficou na História da “realpolitik” mais cínica: “He is a son-of-a-bitch, but he is our son-of-a-bitch”.

O mundo ocidental, em geral, viveu sempre confortável com a ideia de que a América era, em princípio, um “assunto” dos americanos (do Norte). Com o fim da Guerra Fria, embora com a política interna dos EUA a determinar a continuação da quarentena a Cuba, os americanos descortinaram um novo alibi para manterem a sua intervenção na região: a luta contra o tráfico de droga. Era um problema real, que rapidamente se converteu num pretexto para facilitar intervenção nos assuntos internos de alguns parceiros, com a América Central como alvo mais óbvio.

Mas, um pouco por todo o sub-continente, o tempo das ditaduras militares, que a polarização Leste-Oeste adubara, parecia estar a ser sucedido por regimes cada vez mais democráticos, embora alguns com alguma dose de autoritarismo, muitos ainda com processos de guerrilha militarizada cujo efeito a comunidade internacional procurava atenuar por mediações pacificadoras. A Europa, agora com uma ambição política a orientar-lhe uma atitude externa comum, começou a tentar mostrar-se relevante no diálogo com os países latino-americanos e com as suas novas estruturas intergovernamentais. Era um proselitismo democrático que, de certo modo, cobria um interesse de presença económica, ajudando esses Estados a sair do exclusivismo da relação intra-americana, a que atores de outras geografias (China, Turquia, etc.) igualmente ajudavam.

Os modelos tendencialmente democráticos que iam surgindo um pouco por toda a América Latina, alguns marcados por artificialismo institucional, que só a esperança podia fazer crer que teriam sustentabilidade temporal, não parecia, contudo, conseguir atacar uma realidade que, em lugar de se atenuar, se ia mesmo agravando: as clivagens sociais e económicas, em parte disfarçadas por surtos conjunturais de crescimento que absorviam alguns dos seus efeitos, nomeadamente de natureza política. Noutros contextos, como aconteceu nos modelos “bolivarianos”, essa abertura cedo teve derivas de populismo, às vezes com o sublinhar dos direitos das comunidades indígenas como pretexto de base.

Uma coisa ficou – e está a tornar-se – muito evidente. Talvez com exceção da Colômbia e da Costa Rica, em quase nenhum dos restantes casos, embora diferentes entre si, se nota estar a sedimentar-se um espírito de reconciliação nacional que nos permita afirmar, com alguma certeza, que a legitimidade das instituições será capaz de sustentar as tensões sociais internas existentes, preservando esses Estados de convulsões potencialmente perigosas. Os exemplos recentes do Chile e do Brasil, que há meia dúzia de anos pareciam encaminhados num rumo de estabilidade e progresso, mostram-nos a inesperada debilidade de alguns modeloS e, regressando ao que disse no início do texto, a necessidade de sermos modestos na certeza das nossas análises.

quinta-feira, novembro 14, 2019

Cilindrada diplomática


Era um homem simpático, já idoso, o motorista local daquela nossa embaixada, bem fora da Europa. Esforçava-se por falar português, mas com escasso sucesso. Dizia o básico.

Um dia, o novo embaixador, para alimentar conversa durante uma viagem, perguntou-lhe com quantos dos seus antecessores ele tinha trabalhado. Tinham sido vários e o motorista lembrava-se bem do nome de todos.

Por uma qualquer razão, veio à baila o automóvel pessoal do primeiro daqueles embaixadores: “Ah! Carro muito bom! Cadillac! Graaaande!”. Esse Cadillac tinha impressionado fortemente o homem.

Mas não se ficou por aí. Sem ser perguntado, resolveu continuar: “Depois, vem embaixador “Silva”. Lincoln! Carro graaaande!”. E prosseguiu: “E embaixador “Santos”. Mercedes! Graaaande!”. Os automóveis de grande porte dos seus embaixadores tinham-no marcado.

E o homem parou as evocações automobilísticas, sem, curiosamente, mencionar a viatura do imediato antecessor do seu atual chefe. Este, intrigado, perguntou: “E o Embaixador “Pinto”? Que carro tinha?“.

Nova pausa do motorista que, com uma entoação de voz bem menos entusiástica, finalmente disse: “Embaixador “Pinto”. Mercedes!” Fez um silêncio de alguns segundos e acrescentou: “... mas ‘piquinino’!”. E riu!

O embaixador, no banco de trás, estava divertido com aquele elenco de colegas e automóveis. E decidiu espicaçá-lo, lembrando-se do seu próprio carro: “E agora?”. O homem, lá à frente, tinha embatucado. Mas ele insistiu: “E agora? Diga lá!”

O velho motorista percebeu que não podia escapar e, sem se voltar para trás, em voz mais baixa, saída de entre os dentes bem brancos, a contrastar com a sua cara, usando um tom “declinante” que não iludia o que lhe ia na alma, lá comentou, imagina-se que com algum sorriso: “Agora? Agora é só Toyotta, embaixador...”

quarta-feira, novembro 13, 2019

A preto e branco


Nos anos 60, em Vila Real, a récita do “1° de dezembro” reunia, no Teatro Avenida, os estudantes do Liceu e as suas famílias. Os alunos da Escola Comercial e Industrial, da Escola do Magistério Primário e do Colégio da Boavista não integravam então a “Academia”, por razões que o espírito do tempo explicava.

No liceu, havia então um estudante com grande talento teatral: José Viana.

Há muito que perdi de vista o Zé Viana, filho de um dentista que era nosso professor de ginástica, que sei que chegou a fazer incursões no teatro profissional e, se bem me lembro (mas posso estar a lembrar-me mal), trabalhava na TAP. Na vida lisboeta cruzámo-nos um par de vezes, já há muitos anos.

Numa dessas récitas, logo no início dos anos 60, o Zé Viana apresentou um monólogo que era, creio, da sua autoria. O texto era bem simples: “O branco e o preto”. Toda a arte estava na entoação dada àquelas palavras, que, quase por 10 minutos, ele conseguia ir transformando. É impossível explicar, sem suporte fonético, essa modulação inteligente, sublinhando cada vocábulo de forma diferente, “enchendo” um ou “esvaziando” outro, de forma interrogativa ou admirativa, em sonoridades imensamente criativas. Aquela “performance” ficou-me no ouvido para sempre. (Alguém, da Vila Real desse tempo, se lembra disto?)

Contudo, aquela prestação, se bem que original na forma, disse-me muito pouco em termos de conteúdo. Nessa noite, o meu pai, chegado a casa, comentou para a minha mãe: “Foi muito corajoso, o filho do Viana” (em Vila Real era-se “filho” de alguém até ter vida profissional própria; e mesmo assim...). Eu não percebi bem, mas aquilo ficou-me no ouvido.

Foi uns tempos mais tarde que somei dois-e-dois: pensando que aquela glosa teatral, em torno das palavras “preto” e “branco”, era feita numa época em que eclodira a primeira guerra colonial, em que as referências aos “turras” (fórmula popular para “terroristas”, como eram qualificados os guerrilheiros independentistas) estavam por todas as conversas, o atrevimento do Zé Viana era digno de imensa admiração. É que os tempos não iam fáceis para as relações entre pretos e brancos, nos dias da ida para Angola, “rapidamente e em força”.

Lembrei-me deste episódio, há minutos, no carro, ao ouvir, num noticiário, que o futebolista Bernardo Silva foi condenado por ter feito, no Twitter, uma graça tida como “racista” pelas autoridades do futebol britânico, não obstante o próprio “ofendido” ter já vindo a terreiro desmentir que se tivesse sentido alvo de qualquer “agressão” por parte daquele que é, de há muito, um seu grande amigo.

Fico espantado com a hipocrisia das vírgens do “politicamente correto”, que parece absolverem a sua consciência no escândalo façanhudo destas solenes retificações semânticas, arregalando os olhos quando, em lugar de falarmos em “afrodescendentes”, nos saem da boca, com a maior naturalidade e sem a menor intenção, as palavras pretos ou negros. 

Esses puristas, contudo, parece não terem nenhuma preocupação em se interrogarem sobre se o verdadeiro e profundo racismo não estará, afinal, naquilo que parecem encarar como “natural”: que os negros continuem a ser, nas nossas sociedades desenvolvidas, as faixas de população económica e socialmente mais desfavorecidas. Isso, esse verdadeiro racismo das nossas sociedades, não parece preocupá-los nada.

A nós, também não nos preocupava que os estudantes que não eram do liceu não integrassem a Academia, lá por essa Vila Real dos anos 60...

As “Duas Espanhas”

 
O projeto de solução política anunciado em Espanha nada tem a ver com o que Portugal inaugurou em 2015: a Geringonça não foi uma coligação. O PS esteve sozinho no poder, tendo acedido a algumas propostas programáticas da “esquerda da esquerda”, motivada esta pelo interesse em evitar o regresso da direita e por frutos eleitorais que acabou por não vir a obter. Essas medidas, em geral não radicais, acabaram não só por satisfazer a ala esquerda dos próprios socialistas como foram colocadas a seu crédito pelo eleitorado nas últimas eleições. António Costa teve também o cuidado de “blindar” aspetos essenciais do programa do PS – desde logo, o cumprimento das regras orçamentais europeias e a preservação, integral e sem reticências, de um conjunto importante de outros compromissos externos do país. Não é nada disto que se prevê para Espanha.

Contudo, estou convicto de que o acordo que agora se anuncia em Espanha não teria sido possível sem que, em Portugal, se tivesse passado o que se passou.

Ao procurar trazer o partido de Iglesias para o poder executivo, num país que, na atual democracia, nunca foi governado em coligação, Pedro Sánchez sabe que corre uma imensidão de riscos, muito agravados pela circunstância de necessitar de fazer compromissos orçamentais e outros com alguns deputados das autonomias, cujo impacto é difícil prever. 

Os riscos desta opção são essencialmente internos, tendo a ver com a matriz identitária e a imagem de Estado do PSOE, bem como com a reação dos agentes económicos. Mas também externos, com um franzir do sobrolho da Europa que o governo espanhol não pode hostilizar. É neste último terreno que Sánchez se procurará louvar, com toda a certeza, no precedente português. E irá também dizer aos parceiros europeus que tudo tentou para evitar ter de recorrer a esta solução, mas que ela é a única que permite garantir um mínimo de governabilidade à Espanha e, de caminho, de travar o crescimento da extrema-direita. 

Esse é o maior risco: criar um governo quase de “frente popular” agravará a clivagem esquerda-direita, fazendo ressurgir as velhas e tristes “Duas Espanhas”, de que o Vox poderá afinal vir a ser o grande beneficiário. Se Sánchez vier a seguir uma agenda política que seja vista como muito marcada pelo radicalismo do Unidas Podemos e do Más País, confortando simultaneamente reivindicações autonómicas interpretadas como podendo erodir a unidade nacional, o novo governo pode vir a ter uma vida difícil, sempre com a Catalunha no cenário de fundo.

terça-feira, novembro 12, 2019

O chefe


O Miranda (chamemos-lhe assim) era um "velho primeiro-secretário". Na carreira diplomática, este conceito "de corredor", por esses anos 70, abrangia quantos se eternizavam na categoria que antecedia a ascensão a conselheiro. O concurso público para ser conselheiro de embaixada era complexo, o que criara uma multidão de "velhos primeiros-secretários".

O nosso Miranda tinha vindo da América Latina, por onde andara em mais do que um posto e agora fora parar à nossa Repartição.

A Repartição tinha um chefe e, abaixo dele, não havia qualquer hierarquia formal, exceto a antiguidade. E nesta, por razão óbvia, o Miranda imperava sobre nós, funcionários que nunca tinham sido colocados no estrangeiro. Por isso, partindo o chefe de férias, o Miranda assumia a direção da Repartição. E assim aconteceu, num certo dia.

Na manhã seguinte, ao chegar à minha secretária, dou de caras com uma pilha de documentos "para dar andamento", muito superior à média habitual. Fui ver e dei-me conta que parte substancial da papelada era do pelouro do Miranda. Procurei-o na sua sala, que partilhava com uma leitora regular destes textos, mas não estava. Lembrei-me então de ir ao gabinete do chefe da Repartição.

E lá estava o Miranda, com os pés sobre a mesa, regalado a ler o "Diário de Notícias" a que função dava direito. Perguntei-lhe por que diabo tinha canalizado todos os papéis do seu pelouro para mim. A sua resposta, marcada pela chocada surpresa, foi cristalina: "Ó homem! Eu agora estou a chefiar!"

segunda-feira, novembro 11, 2019

Humor brasileiro


Até na imprensa brasileira a “novela” do Brexit é motivo de chacota. Veja-se esta página da “Folha de São Paulo” de 1 de novembro.

A era Morales


Foi agora conhecida uma nota de desagrado do recém-libertado Lula face ao golpe palaciano que, “manu militari”, afastou Evo Morales do poder, na Bolívia. Não é de estranhar, atento o facto de, cada vez mais, voltar a haver “duas Américas Latinas” e o maniqueísmo crescente da região tender a forçar a opção por uma delas. Recordaria que foi também por virtude desta deriva favorável ao mundo “bolivariano” que o PT brasileiro nunca conseguiu ser minimamente crítico da Venezuela de Nicolas Maduro, com o peso que isso acabou por ter no ambiente que ajudou a eleger Bolsonaro.

Quando fui embaixador no Brasil, e não obstante o “namoro” que o Brasil então fazia à generalidade dos países da América do Sul (exceção feita à Colômbia e, em parte, ao Chile), para reforço da sua influência na Unasul, as relações com a Bolívia de Morales chegaram a atravessar um momento particularmente difícil. As atividades da Petrobras no país sofreram forte pressão e houve mesmo um momento de alguma tensão entre Lula e Morales. 

Uma noite, numa conversa a anteceder um jantar na nossa embaixada, vi Lula exasperado com a atitude do governo boliviano, que por esses dias tinha feito algum agravo ao Brasil. Depois, com o tempo e alguma inteligente transigência da diplomacia do Brasil, que sabia distinguir o que era acessório daquilo que era essencial, as coisas compuseram-se. Mas o relacionamento entre La Paz e Brasília foi sempre uma gestão complexa.

Lula tinha, no seu gabinete, um “expert” para as questões latino-americanas, Marco Aurélio Garcia, uma figura que morreu há dois anos e com quem eu tinha construído uma boa relação pessoal. Repito agora um episódio que já por aqui contei. 

Um dia, Marco Aurélio foi à Bolívia encontrar-se com o recém-nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros de Morales. Pouco após o seu regresso, coincidiu ter ido almoçar comigo à residência e, naturalmente, tentei “confessá-lo” sobre as suas impressões da visita. Contou-me então a conversa "surreal" que havia tido, em La Paz, com o chefe da diplomacia do país, que já tinha entretanto feito umas declarações públicas um tanto bizarras, numa linguagem cheia de metáforas e de difícil descriptagem, que a imprensa brasileira reportara de forma divertida. 

Marco Aurélio descreveu-mo como uma figura estranha, com um mantra "filosófico" de quem "tinha os pés bem assentes no ar", num discurso errático e alegórico, quase incompreensível. E comentava, no meio de gargalhadas: "Você conhece-me, Francisco! Imagina que, quando quero, sou capaz de rivalizar em efabulações e imagens ligadas ao universo onírico, mas o homem batia-nos a todos! Saí de lá sem perceber quase nada e com medo de me ter enganado naquilo em que julguei tê-lo percebido..."

Era também assim a Bolívia de Morales.

domingo, novembro 10, 2019

De vitória em vitória...


É ridícula a “alegria” de Pedro Sanchez. Quis eleições para ter uma maioria absoluta, perdeu deputados e ficou mais longe dela. Teve menos um milhão de votos! O principal rival do PSOE, o PP, recuperou mais de 30% face às ultimas eleições. A extrema-direita mais que duplicou. Bela “vitória”!

“Pronunciamiento”


Na América Latina, estão a acontecer tantas coisas nos últimos tempos que, de facto, já “fazia falta” um pronunciamento (para quem não saiba ou não se lembre é uma espécie de “ou fazes o que dizemos ou fazemos um golpe de Estado”) à antiga, como agora aconteceu na Bolívia.

Uma Espanha nórdica?


Na Noruega, as eleições só podem ter lugar de quatro em quatro anos. Não existe, constitucionalmente, a possibilidade do parlamento poder alguma vez ser dissolvido, com a sequente realização de eleições antecipadas. No dia seguinte a uma eleição, os partidos noruegueses têm de conseguir formar um governo, ainda que em coligação ou mesmo minoritário. E se não conseguirem? Esse cenário não se coloca: para um partido que, um dia, obstaculizasse uma solução de governo, gerando uma crise constitucional, haveria consequências políticas graves. Por isso, com maiorias absolutas ou relativas, os executivos noruegueses formam-se e governam sempre por quatro anos, desde que por lá há democracia.

Lembrei-me disto ao ver, há minutos, as primeiras estimativas sobre os resultados das eleições de hoje em Espanha. A cada dia, com a atual fragmentação partidária, a hipótese de voltar a haver por ali maiorias absolutas se afasta mais. E como não é possível continuar a realizar eleições legislativas sucessivas, até pelo cansaço cívico que isso já está a provocar no eleitorado, os partidos espanhóis vão ser obrigados a procurar encontrar soluções do governo, com base no resultado das urnas, seja ele qual for. E se isso não fôr viável? Nesse caso, será o próprio modelo constitucional - e, porventura, democrático - que estará em causa.

Sophia


Porque

Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.

sábado, novembro 09, 2019

Há três anos


Faz hoje precisamente três anos, estava em Berlim, onde tinha sido convidado para debater a Europa com interlocutores alemães. Numa conversa, alguém lembrou, quase por acaso, que, nesse dia, passavam 27 anos desde que o muro caíra. Escrevi “quase por acaso” porque, por esses dias, as atenções estavam concentradas noutro acontecimento, ocorrido horas antes: a eleição de Donald Trump. Nesse cenário, a recordação da queda do muro não mobilizou ninguém.

Um pouco por toda a Europa, a vitória de Trump, se bem que já pressentida por alguns, tinha provocado um choque político. Porém, fiquei com a sensação de que o discurso equívoco do novo presidente americano face à Rússia, as suas críticas à Nato e, muito em particular, o início de uma atitude de direta hostilidade à União Europeia e ao mundo multilateral estavam a provocar um trauma muito especial nos alemães. Todos quantos, de Portugal, tínhamos ido nessa missão a Berlim pudémos constatar a grande intranquilidade que transparecia dos nossos interlocutores.

Trump não falava então do muro de Berlim, mas já suscitava a questão de um outro muro, desta vez com o México.

Há uma coisa em que temos de ser justos: Trump não pode ser acusado de ter desiludido a forte expetativa negativa que criou.

Os “amigos” de Marcelo

Descobri, há pouco, este texto de julho de 2016, há mais de três anos. Como ele está atual!

“Encontro-os (mais "as", curiosamente) todos os dias (e noites). São as gentes da direita desencantadas com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Emitem ironias, encolhem os ombros, estão "cansados" com a agitação que vai por Belém. Detestam-lhe as "selfies", os beijinhos, a ubiquidade, a palavra a toda a hora. Verdadeiramente, nunca foram "marcelistas": votaram nele porque não havia mais ninguém "do nosso lado". São órfãos de um estilo que já lá vai e que identificavam com a "pose de Estado". Do que eles verdadeiramente gostavam era de um presidente que, passados os seis meses da praxe, tivesse dissolvido o parlamento e colocasse de volta quem lá estava. Marcelo não lhes fez a vontade. Todos sabiam que ele era imprevisível, mas não pensavam que fosse tão longe. Pressentem que está tentado a dar uma oportunidade à "geringonça", para esta levar até ao limite as suas hipóteses de sobrevivência, por forma a que nunca possa ser apontado como institucionalmente culpado pelas crises em que ela possa vir a tropeçar. Se o governo cair, ninguém poderá dizer que foi por culpa de Marcelo. Já o viram ao lado da Costa em momentos complicados para o executivo, com sinais de solidariedade interinstitucional que ninguém esperaria possível. Aquelas cenas de "lua-de-mel" em Paris e por ocasião do futebol colocaram a gente da direita furiosa. "É isto! Que se há-de fazer? É o Marcelo, filha!", ouve-se a gente não conformada nos "dîner en ville". Para esta nossa (salvo seja!) direita, este não é "o seu presidente". Mas não têm outro, que maçada!”

Sarko

O antigo presidente francês Nicolas Sarkozy prossegue o seu longo calvário nos tribunais. Embora já condenado em termos definitivos em diver...