terça-feira, setembro 24, 2019

“Order!”


Aos leitores deste espaço a quem tal possa interessar e que tenham possibilidade de o fazer, recomendo vivamente a leitura da decisão da Justiça britânica, relativa à suspensão do Parlamento.

Escrito numa linguagem que combina o rigor jurídico com o estilo político, este interessante documento de 24 páginas ensina-nos mais sobre a filosofia do sistema britânico do que muita bibliografia que possamos consultar.

Por mim, não dei por mal empregue o tempo que dediquei a esta leitura.

Pode ser lida aqui.

segunda-feira, setembro 23, 2019

Vandalismo legal


Aparentemente, a Comissão Nacional de Eleições considera não haver qualquer ilegalidade na execução da pintura que militantes do Bloco de Esquerda efetuaram na parede do Instituto Superior Técnico, como a imagem documenta. 

Deve tratar-se de uma lei antiga, remanescente dos tempos da Revolução, que ninguém ousa propor que seja revogada, para não ser acusado de reacionário.

Na democracia madura em que vivemos, é perfeitamente incongruente que uma propriedade, pública ou privada, possa ser sujeita a este tipo de práticas, feitas sem autorização dos proprietários, que podiam ser simpáticas e até politicamente admissíveis em 1974/76, mas que já não se justificam nos dias de hoje. 

E se a todos os partidos desse na real gana desatar a colocar pinturas em todas as paredes e prédios “apetecíveis” deste país? Pelos vistos, até seria legal! Imagina-se o espetáculo...

Neste caso, será o orçamento do IST, pago por todos os contribuintes, a ter de arcar com os custos da restauração da parede.

Num sistema político moderno, a propaganda eleitoral tem lugares próprios, com tempo de exposição limitado, distribuídos por forma a não agredir a paisagem urbana, evitando tornar-se numa constante poluição visual. 

Por exemplo, o que, desde há vários meses, se passa em locais de Lisboa como o Marquês ou a praça de Espanha, é uma vergonha para a cidade e para a imagem do país.

Salvo em ditaduras e regimes autoritários, bem como em algumas democracias subdesenvolvidas, não conheço país onde este exagero de agressão propagandística, por parte das máquinas e agentes políticos, seja tão ostensivo como em Portugal. 

Sei que falar nisto não dá votos a ninguém, mas seria um ato de grande responsabilidade cívica ver alguém propor a revisão da legislação que, pelos vistos, ainda permite este tipo de coisas.

Repito: o ato levado a cabo pelo Bloco de Esquerda pode ter sido legal. Porém, um partido como o Bloco de Esquerda, que afirma pretensões de acesso ao poder, deveria, como prova de maturidade, abster-se de levar à prática ações desta natureza. Só lhe ficaria bem e daria razões aos portugueses, cujos votos pretende conquistar, de que são um partido responsável. Assim, continuam a dar a ideia de serem apenas os netos dos “pinta-paredes”...

“Sank roo doe noo”


Os muitos dias em que andei à boleia pela Europa, na viragem dos anos 60 para 70, trouxeram-me experiências curiosas. Uma leitora qualificava-as ontem, num comentário, como “aventuras”. Não estou de acordo: foram sempre viagens serenas, com episódios interessantes e às vezes pitorescos, mas nunca configuraram o menor registo aventureiro. Não faz o meu género...

Um desses episódios passou-se três dias depois da refeição “memorável” em Bouillon, que ontem contei. Eu partia do Luxemburgo para Paris, onde tencionava ficar uns dias mais, antes do retorno a Portugal, nesse ano de 1971. Na localidade industrial de Longwy, à saída do Luxemburgo, um “carocha” com matrícula alemã parou para me dar boleia. Eram dois militares americanos, que estavam numa base na Alemanha, que iam passar um fim de semana à capital francesa. A boleia era assim direta para Paris. A mim dava-me um jeitaço! Como eles não falavam uma palavra de francês, ficaram igualmente encantados em que eu os ajudasse a chegar ao seu destino.

A mais proeminente referência parisienses que traziam, para além do hotel, dos "trottoirs" da rue Saint-Denis e de alguns locais congéneres de Montmartre, onde iriam “concentrar” os seus escassos dias, era o "Harry's Bar".

Para quem não saiba, o “Harry’s Bar” parisiense (o nome é vulgar pelo mundo, mas os mais clássicos, embora de natureza algo diferente, estão em Veneza, Roma e Florença, e merecem uma visita, em especial o primeiro), foi, por décadas (não sei se ainda será), um lugar de culto, uma barra alcoólica quase obrigatória para expatriados do outro lado do Atlântico, por onde passaram “batalhões” de militares americanos. Foi no “Harry’s Bar” que muito parou Ernest Hemingway, o qual, ali bem próximo, a “walking distance”, fez história, aquando da libertação de Paris, ao ter tomado a decisão de “libertar” das “garras nazis” esse ponto “estratégico” que era o bar do Hotel Ritz, que ainda hoje conserva o seu nome.

Por muito tempo, o então New York Herald Tribune (depois, International Herald Tribune, hoje, International New York Times), que foi criado como um jornal para os americanos na Europa, incluía, na sua última página, publicidade ao Harry's Bar, onde o respectivo endereço - 5, rue Daunou - era apresentado em transcrição fonética, por forma a permitir ao consumidor yankee dizê-lo com facilidade ao taxistas parisienses: "Just tell the taxi driver: sank roo doe noo"...

Voltemos à boleia que os militares americanos nesse dia me davam. À época, o meu conhecimento de Paris, em especial fora do centro, era bastante limitado. Lembro-me que, por quase uma hora, os fiz perder por bairros periféricos, com os militares a começarem a perder a paciência e comigo a usar o meu francês, com transeuntes que cruzávamos, para tentar chegar à Opera, de onde eu sabia o caminho para o bar.

Finalmente, chegámos! Fiquei-me pelo gin tónico que me ofereceram, porque tinha de ir à procura de alojamento e, decididamente, os nossos planos para os dias seguintes não coincidiam. Vi-os iniciar o fim-de-semana com um Bourbon duplo e logo imaginei o que aí viria. Escapuli-me quando pude, não sem que antes lhes tivesse deixado imensas notas desenhadas no "Paris à vol d'oiseau", um mapa da cidade então muito em voga. Pode-se imaginar que o Louvre e outros polos culturais parisienses não faziam parte dessas notas orientadoras...

domingo, setembro 22, 2019

De Bouillon a Berasategui


Ao ouvir, há dias, na RTP, a jornalista Cândida Pinto perguntar aos líderes políticos qual era a sua refeição memorável de vida, dei comigo a responder intimamente à questão. E com grande facilidade.

Era o fim do verão de 1971. Eu andava, há mais de três semanas, numa das minhas viagens à boleia, pela Europa. Depois de ter ido até aos países nórdicos, regressava já ao sul. 

Nesse dia, tinha saído de Roterdão, na Holanda, e pretendia chegar ao Luxemburgo. Às vezes, naquela vida à boleia (o Interail ainda não tinha sido inventado, esclareço), as coisas não corriam de feição. Tinha já passado Lovaina e Namur, na Bélgica, mas o Luxemburgo ainda ficava longe e uma chuva miudinha, puxada a vento, tornava esse final de tarde desagradável, para quem tinha de ficar bastante tempo nos cruzamentos, de dedo estendido e uma placa de papel com o nome do destino pretendido. Surgiam boleias para pequenos troços mas, a certo ponto, percebi que já não iria conseguir chegar ao Luxemburgo nesse dia. Onde dormir, então? Já encarava a hipótese de uma qualquer pensão de estrada.

No guia de “pousadas de juventude” que trazia comigo, alojamentos que eu procurava e quase sempre consegui utilizar, descobri que, numa localidade um pouco fora do meu percurso, chamada Bouillon, local de que eu nunca ouvira falar*, havia um desses albergues. Já ao cair da noite, consegui, finalmente, uma última boleia que me deixou à porta da pousada, que sempre recordo que tinha uma vista deslumbrante, como se vê na imagem (que agora arranjei na net).

Entrei e ninguém estava no balcão da receção. Pousei a mochila, andei pela casa, seguindo vozes que ouvia ao longe e fui parar a uma espécie de refeitório. Num instante, vi os olhos de cerca de duas dezenas de pessoas que por ali estavam a jantar concentrarem-se em mim. De entre eles, ergueu-se um homem mais velho, que logo percebi ser o gestor da pousada. Olhou o meu ar, imagino que um pouco esbodegado pela atribulada jornada, e, com um sorriso simpático e acolhedor, disse-me: “Sente-se já! Venha jantar connosco. Acho que deve estar com fome. Tratamos da sua inscrição depois”. 

Tenho de confessar que o frango corado, com batatas e arroz, que comi nesse jantar em Bouillon, e que há quase meio século trago no meu arquivo gustativo de prazeres, compara muito bem com o almoço que, na passada sexta-feira, sob a batuta do chefe Martín Berasategui, também com uma bela vista, apreciei no “estrelado” Fifty Seconds, no topo da torre Vasco da Gama. A cada momento, o seu prazer.

(*Em tempo: o meu amigo Carlos Leite lembra-me que Bouillon era a terra de Godofredo do Bolhão, figura que a História nos ensinou. Eu sabia lá!)

sábado, setembro 21, 2019

Um debate


Ao final da tarde de ontem, participei, num “mano-a-mano”, com o historiador Rui Ramos, num debate sobre a situação política, nestas vésperas de eleições legislativas. 

Sem supresas, o encontro, organizado para os sócios e convidados do “Círculo Eça de Queirós”, sob a moderação da jornalista Maria Elisa Domingues, foi animado, quase sempre contrastante, e, claro, disputado com a elegância expectável. 

Sendo naturalmente suspeito para fazer uma leitura da conversa, que se prolongou por quase duas horas, intervalada com um jantar, arrisco poder dizer, em síntese muito genérica, que procurei opor, a uma leitura algo negativa de Rui Ramos sobre a dinâmica da sociedade política portuguesa contemporânea, que ele entende ter caído numa estagnação de projeto muito agravada pela governação da Geringonça, uma visão bastante mais “rósea” (em todos os sentidos...) e otimista do futuro, sem esconder algumas perplexidades que também partilho. Quem lê Rui Ramos no “Observador” sabe o que ele pensa, quem me lê por aqui também, pelo que me abstenho de ir mais longe.

A certo ponto, fui perguntado sobre se não temia uma maioria absoluta do PS (coisa que, aliás, não acredito que possa vir a acontecer). Confesso que não tenho “strong feelings” sobre o assunto - compreendo os argumentos de quem a defende como desejável, como igualmente respeito os de quantos temem esse modelo de governação. Porém, tenho a impressão de que muitos dos que hoje reagem contra essa hipótese o fazem por razões precisamente opostas às minhas: ainda me não passou o “trauma” das maiorias absolutas de Cavaco e da coligação troika/PSD/CDS.

(Explicação da fotografia: numa das portas do Círculo Eça de Queiroz figura, repetidamente, o nº 202, que recorda o “202, avenue des Champs Elysées”, suposta residência em Paris de “Jacinto”, figura central de “A Cidade e as Serras”, romance póstumo de Eça de Queiroz).

Feitos ao bife!

Alguns amigos estranharam a minha acrisolada defesa do bife, depois da investida da Universidade de Coimbra contra a carne de vaca (anoto que, em rigor, ficou de fora a carne de boi e de vitela).

Ora a minha indignação tem uma história. É que o bife está indissoluvelmente ligado à memória diplomática portuguesa, como bem o demonstra este texto de Eça de Queirós em “Uma Campanha Alegre”:

Os diplomatas portugueses passam por agradar no estrangeiro pela sua palidez! Mas não se sabe que a sua palidez vem, não da beleza da raça peninsular, mas da fraqueza de legação mal alimentada. Onde um embaixador português mais se demora, não é diante das instituições estrangeiras com respeito, é diante das lojas de mercearia com inveja! E se eles não podem alcançar bons tratados para o País – é porque andam ocupados em arranjar mais rosbife para o estômago. Se não fossem os jantares da corte e as ceias dos bailes, a posição do diplomata português era insustentável. E ainda veremos os jornais estrangeiros, noticiarem: “Ontem, na Rua de… caiu inanimado de fome um indivíduo bem trajado. Conduzido para uma botica próxima o infeliz revelou toda a verdade – era o embaixador português. Deram-lhe logo bifes. O desgraçado sorria, com as lágrimas nos olhos.”

Que o país atenda a esta desgraçada situação! Que tenha um movimento generoso e franco! Dê aos seus embaixadores menos títulos e mais bifes! Embora lhes diminua as atribuições, aumente-lhes ao menos a hortaliça. Eles pedem ao seus país uma coisa bem simples: não é um palácio para viver, nem um landau para passear, nem fardas, nem comendas! É carne! Que o País no número do pessoal diplomático – diminua os adidos e aumente os bois.”

sexta-feira, setembro 20, 2019

Diplomacia e bom senso


Deixando os créditos da mais velha profissão do mundo para outras artes, pode dizer-se que a vetusta gestão dos “rituais de entendimento” coletivo à escala internacional que é a diplomacia, como lhe chamou Paulouro das Neves, se tem constituído, ao longo dos séculos, como um eficaz instrumento na prevenção e resolução de conflitos, sendo que, quando em absoluto os não consegue evitar, é da sua natureza e missão procurar manter abertos, por cima de todas as dificuldades, os canais de contacto e diálogo.

A evolução da prática diplomática, como se tornou flagrante nas últimas décadas, acabou por simplificar muita da “coreografia” que, historicamente, envolvia a ação dos seus profissionais. Contudo, algum da “liturgia” da profissão é ainda preservada, porque isso constitui um relativo suporte para o mútuo respeito por procedimentos que, no fundo, padronizam e regulam o exercício de uma mesma atividade por cidadãos oriundos de culturas muito diversas. Pela introdução de fórmulas comportamentais e de tratamento muito próprias, foi possível estruturar, e ver basicamente praticada, uma “linguagem” que muito facilita a interlocução. Algumas regras de bom senso e, vá lá, de educação, são, no fundo, esse terreno comum que as escolas diplomáticas procuram ensinar.

Um político não é um diplomata, mas muita da diplomacia dos nossos dias é executada por políticos, que se envolvem diretamente nos processos negociais, curto-circuitando, muitas vezes com grande vantagem, as estruturas de mediação diplomática. Essa cada vez maior tendência para a interlocução internacional por parte dos atores políticos coloca, porém, na sua mão parte da responsabilidade da preservação dos relacionamento entre os Estados. Há que ter a noção de que estes vão sobreviver para além de quem ocasionalmente os representa, pelo que essas pessoas devem ter consciência de que não podem, na sua ação conjuntural, titular atos ou atitudes que possam condicionar negativamente, de forma duradoura, o caminho futuro que caberá aos seus sucessores percorrer.

Quero com isto dizer que me parece de alguma gravidade o que começa a ser visível, um pouco por todo o mundo, ao assistir-se a uma inédita escalada de comentários depreciativos, ou mesmo insultos, entre titulares de órgãos de soberania de diferentes Estados, adotando uma inédita linguagem que pode fechar “portas” para diálogos futuros e, muito em especial, reduzindo a sua própria margem de recuo, para compromissos que a vida pode tornar necessários. 

Tudo aponta para que é a circunstância de os políticos gerirem cada vez mais a sua agenda com o olhar voltado para o efeito mediático das suas declarações que está a levar as coisas por este caminho. A comunidade internacional pode, por esta forma, estar a encaminhar-se para um tempo em que a diplomacia tradicional acabará por ter de fazer “damage controle” da inépcia de quem, afinal, tem a legitimidade política para a orientar. Há que convir que é uma imensa ironia.

A oração final



O (meu) Sporting perdeu ontem com o PSV Eindhoven. 

O nome do clube holandês trouxe-me à memória uma historieta com mais de três décadas.

O Benfica disputava a final da antiga Taça dos Campeões Europeus, em Estugarda, na Alemanha, contra esse mesmo PSV Eindhoven. 

De Lisboa, tinham partido, nesse dia de 1988, vários aviões. Eu ia num deles, com amigos, entre os quais se contavam alguns sportinguistas (como eu), que iam, abertamente, apoiar o Benfica nessa final (é verdade!). Alguns até com cachecol verde. Era um grupo divertidíssimo!

Lembro-me de que Miguel Esteves Cardoso, que tinha ido num outro avião, escreveu então, creio que para “O Independente”, uma crónica saborosa sobre aquela sua inédita experiência futebolística.

A partida foi difícil, com as chuteiras dos jogadores do Benfica a descalçarem-se, por inexplicadas razões. Ao meu lado, o grande Germano, velha glória da Tapadinha e da Luz, sofria a bom sofrer, visivelmente nervoso mas sempre silencioso.

Ao final do tempo regulamentar, o resultado era um nulo. Foi-se para prolongamento e tudo se manteve igual. Restavam os penáltis. E é aí que a cena se passa.

José Vera Jardim, um sportinguista dos sete costados, voltou-se para outro grande "leão", o padre Vitor Melícias, e apelou:

- Ó padre Melícias! Contamos com umas oraçõezinhas suas, agora para os penáltis!

Vitor Melícias, que já no avião nos tinha brindado, de microfone na mão, com anedotas que abalaram o voo de riso, quebrou a nervoseira geral que se vivia naquela bancada, num momento que estava a ser algo tenso, com uma pronta resposta, no tom de voz tão típico que é o seu:

- Orações?! Essa agora! Eu já aguentei isto a "pai-nossos" e "avé-marias" até ao final do prolongamento. Agora, para os penáltis, só o cardeal patriarca!

O cardeal não estava lá, Veloso falhou o penálti decisivo e o Benfica perdeu. Tal como o (meu) Sporting, ontem.

quinta-feira, setembro 19, 2019

Europa


Ao final da tarde de hoje, tive grande gosto em fazer uma palestra sobre os grandes desafios europeus aos alunos do mestrado em Economia Internacional e Estudos Europeus e do mestrado em Desenvolvimento e Cooperação Internacional, do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), na presença de docentes e outros convidados da faculdade.

Estrelato


Ontem, dormi num hotel de “quatro estrelas”, que se paga como tal, mas que, na realidade, não passa de um bastante razoável “três estrelas”. (Há meses, já estive também num falso “cinco estrelas”. Quem permite estas coisas, ao não avaliá-las continua e devidamente, contribui para enganar os utentes).

À chegada ao hotel, olhei para a placa exibida, com a classificação média dada pelos clientes do sistema de reservas Booking, e notei que tinham 8,8, um “score” relativamente fraco (na minha opinião, que sei discutível, de “frequent sleeper”). A empregada da receção, a quem perguntei a razão daquela “nota”, respondeu-me que eram poucos os clientes com reservas individuais (“trabalhamos mais com companhias aéreas”) e que, por isso, essa classificação era dada pelos escassos utentes que se davam a esse cuidado. É claro que isso não explicava minimamente por que a nota era tão baixa. Depois, contudo, à passagem do tempo, fui percebendo.

Eu, que faço parte dos que “pontuam” com regularidade, lamento ter de contribuir para baixar ainda mais aquela média do hotel onde dormi. É que um lugar onde sou tratado (à laia da saloíce de alguns serviços) por “senhor Francisco” e por “você”, perde-me eternamente como cliente e ganha-me como detrator.

Dubai 2020


Imagem da reunião, ontem, do Conselho Consultivo da participação portuguesa na Expo Dubai 2020.

Na sopa

O jantar começou tarde, com muito boa disposição, como é típico dos ambientes africanos. Era uma mesa muito longa, bastante larga, que apenas permitia conversa com os parceiros do lado. À minha esquerda, estava uma senhora bem servida de carnes, uma figura política local. À direita, tinha um franzino alto funcionário, encarregado das questões da dívida pública desse país.

A conversa iniciou-se com este último, que elegi como alvo de curiosidade protocolar sobre a situação económica. Fi-lo, confesso, mais por não ter outro tema de conversa do que por interesse particular sobre os equilíbrios macro-económicos dessa antiga colónia de um poder europeu, situada na África central. Deixei-o explanar as dificuldades, disse duas ou três platitudes e, numa pausa, voltei-me para a volumosa vizinha da esquerda, com quem encetei uma breve troca de impressões.

Na sala, entretanto, as conversas ressoavam altas e bem animadas. Era uma visita oficial portuguesa e o chefe da nossa delegação, frequentemente macambúzio, estava nessa noite de boa onda. A certa altura, senti um toque no meu braço direito e voltei-me, de novo, para o meu vizinho. O seu fácies pareceu-me estranho, estava agora silencioso e, em segundos, vi a sua cabeça, sempre voltada para mim, descair e entrar, com lenta suavidade ... na sopa! Continuava a olhar-me, de lado, com ar vidrado e parte da cara submersa no "consommé". Não consegui ver se estava pálido, por óbvias razões...

Por um segundo, fiquei sem saber o que fazer. Desmaiado estava, pela certa. Mas teria o homem morrido? Atrapalhado, dei um toque na vizinha da esquerda, na esperança que tivesse uma solução de emergência, mas ela estava numa conversa galhofeira com um qualquer membro da nossa delegação e não se voltou. Fiz gestos de chamada para as pessoas em frente de mim, mas os espíritos continuavam altos e ninguém me ligou nada. Optei por me levantar, o que levou algumas pessoas a olhar-me e, rapidamente, a notar o estado esvaído do meu antigo interlocutor.

Foi então que uma rápida operação logística se desencadeou. Como se estivessem já preparados e sem denotar surpresa, apareceram do fundo da sala dois latagões, que retiraram o corpo do homem. De seguida, criados recolheram com rapidez o prato de sopa e limparam a área. Tudo foi feito com tal despacho que até parecia rotina. Um minuto depois, num gesto de inusitada normalidade, sentou-se ao meu lado uma outra figura local, sorridente, que logo pretendeu retomar conversa social, como se nada se tivesse passado, quase ignorando a minha preocupação com o estado de saúde do meu ex-vizinho. O resto da mesa, salvo, por instantes, alguns membros da delegação portuguesa que estavam mais próximos, continuou na anterior cavaqueira, "business as usual". 

O homem tinha tido um ataque epilético, vim depois a saber. Já era costume, tinha acontecido várias vezes, em ocasiões diversas, ninguém estranhou nada. Só eu é que, nessa noite, perdi por completo o apetite...

quarta-feira, setembro 18, 2019

Jorge Sampaio


Há dias, uma minha familiar que tem quase metade da idade de Jorge Sampaio dizia-se confortada e admirativa por ter encontrado, numa sua entrevista, uma linguagem ao mesmo tempo serena e determinada, uma abordagem bem realista dos problemas, a que, contudo, não faltava um empenhado sentimento de esperança no futuro. Fiquei a pensar nessa apreciação e só pude concluir que, uma vez mais, Jorge Sampaio se mantém igual a si próprio.

Sampaio é uma figura muito rara no cenário político português. Nunca o vi vacilar em matéria ética, nunca lhe notei nenhuma transigência em termos de observância dos princípios que a si próprio se impunha para estar na vida pública. Às vezes, surpreendi-me com a constatação de que convivia, com demasiada naturalidade, com o facto de outros não serem assim. Alguns viam nessa sua atitude uma certa condescendência, a implícita afirmação de uma superioridade moral. Não creio tratar-se disso. Sempre interpretei essa postura de Jorge Sampaio como a manifestação de uma saudável distância face àquilo a que os franceses chamam a “politique politicienne”, que entre nós se traduz lindamente por “política politiqueira”.

Acompanhei com atenção, primeiro a alguma distância, depois mais de perto, a vida cívica de Jorge Sampaio. Não o fiz por mera curiosidade, mas muito mais por, desde há muito, ter sido seduzido pela sua forma única de estar na praça política. Nem sempre estive de acordo com opções que tomou, critiquei escolhas que fez, mas, sem a menor hesitação, posso hoje dizer que me revejo largamente naquilo que soube construir, enquanto figura política. A decência (gosto muito da palavra e acho que se lhe aplica como a poucos) que imprimiu à sua forma de atuar soube granjear-lhe uma genuína admiração por parte de gente de quadrantes muito diversos, às vezes contrastantes. Estou certo que História ser-lhe-á justa, tanto mais que se há uma marca que se lhe cola, desde sempre e para sempre, à imagem essa é a de um apurado sentido de serviço público, feito de uma dedicação permanente à causa da democracia e da solidariedade coletiva. A geração a que pertenço, como já um dia escrevi, fica a dever-lhe um raro legado de ética e integridade política.

Jorge Sampaio faz hoje 80 anos. Há, respetivamente, dez e 20 anos, tive o gosto de estar com ele, neste dia, com muitos dos seus amigos, alguns que o tempo entretanto levou e que sei que muita falta lhe fazem. Não o posso fazer hoje, mas quis deixar-lhe aqui um testemunho público muito sincero de grande amizade e respeito.

terça-feira, setembro 17, 2019

Calem-nos, por favor!


“Vou estar num jantar com o Rui Moreira e o Souto Moura!”. A “piquena” afadigava-se, há duas horas, à saída de Lisboa, no Alfa Pendular, para que toda a gente tivesse conhecimento do serão de personalidades que, chegada ao Porto, a aguarda. Depois, mudou para espanhol e lá a ouvimos em tratações, na língua de Messi e Cervantes, com uma amigalhaça qualquer, durante um bom quarto de hora.

Agora, ao meu lado, um executivo de uma PME ou de uma “start-up” (ou“down”) explica longamente a um interlocutor, em voz altíssima, como deve “pôr a coisa no site” e onde está a chave da garagem. O outro, do lado de lá, parece pouco esclarecido, tantas são as vezes que este meu vizinho repete as instruções. (Eu fiquei a saber tudo).

Não se pode calar esta gente? A CP não pode colocar uns letreiros informando que os passageiros não devem fazer chamadas telefónicas dentro das carruagens (ou, se as têm imperativamente de fazer, fazê-las em voz baixa, sem obrigarem os outros a ouvirem as suas conversas), incomodando quem viaja, lê ou, simplesmente, quer aproveitar a viagem para descansar?

Nos “Bilhetes de Colares”, a mãe de A.B. Kotter, com a sua snobeira anglo-saxónica, referindo-se aos portugueses sem maneiras, dizia que “nem cem anos farão disto gente”. Não vou tão longe, mas lá que demora tempo, lá isso demora!

O “rollsbeef”


Neste dia em que a Universidade de Coimbra anuncia a proibição da carne de vaca nas suas cantinas, quero aqui fazer, em jeito de desagravo, uma modesta mas muito sincera homenagem ao Café de São Bento, onde, desde há muito, se serve o “rollsbeef” de Lisboa.

As vindimas

O debate de ontem, entre António Costa e Rui Rio, foi interessante. Entre os dois homens passa uma corrente de simpatia pessoal, com certeza fruto do tempo em que ambos lideravam as duas mais importantes autarquias portuguesas.

Rio partiu para este debate sob a ameaça de um resultado catastrófico, como todas as sondagens apontam, no dia 6 de outubro. As expetativas eram, assim, muito más e foi “contra elas” que a sua prestação foi avaliada. E, nesse registo, ficou aprovado. Rio tem um estilo curioso, fala das coisas muitas vezes com a linguagem do cidadão comum, desprezando algum rigor, mesmo terminológico. Apenas na economia procura alguma precisão. O aspeto mais sedutor da sua mensagem é dado pela sinceridade que transmite, a ideia de que, perante um argumento convincente do outro lado, não terá pejo em concordar. Há uma autenticidade desarmante em muito daquilo que diz, muito rara na política “tribal” que por cá se instalou. Veja-se a sua indignação sobre os “julgamentos na praça pública” e os ataques à magistratura - temas que sabe que desagradam à direita e a muita imprensa, mas que ele insiste em abordar, porque claramente acredita naquilo que afirma.

Percebe-se que Costa tem alguma dificuldade em debater com Rio. Não porque não seja capaz: Costa é muito melhor preparado politicamente do que Rio e ser-lhe-ia fácil desestabilizá-lo, tornando-o “irritadiço”, retirando-lhe a bonomia que lhe dá alguma graça, obrigando-o a uma postura defensiva, que explorasse ainda mais as suas múltiplas contradições. Porém, taticamente, não convém a Costa partir para o ataque contra o líder do PSD, porquanto a sua vitória far-se-á precisamente com o voto de muitos de quantos, no passado, votaram no PSD e cujo campo não convém hostilizar excessivamente. Costa sabe que, para ter uma maioria absoluta, tem de ter muito eleitor conservador consigo. Por isso, porque o primeiro-ministro quer transmitir uma imagem “mainstream”, começou por atacar o Bloco, distanciando-se do seu radicalismo, sabendo que o BE é a “bête noire” da direita. A defesa que agora faz dos juízes é, como antes se dizia, “de fazer chorar as pedras da calçada”... Muitos dentro do PS terão ontem ficado mais ao lado da indignação de Rio sobre a ”justiça na rua” e muito menos do silêncio na matéria do secretário-geral socialista - silêncio esse que deve ter sido ressentido e ecoado na Ericeira. Se a isso somarmos as reiteradas proclamações sobre o rigor orçamental, está feito um “pacote” que soa a música celestial nos ouvidos conservadores. Já só falta Centeno aparecer na campanha...

Rio ganhou e Costa perdeu? Rio melhorou e Costa estabilizou. Alguns indecisos, se, no dia 6, ainda se lembrarem do debate de ontem e se, no decurso da campanha, Rio não “estragar” tudo, podem optar por vir a votar PSD. Assim, um evidente “derrotado” do debate de ontem é Santana Lopes, que estava a ser o “muro das lamentações” de muitos PSDs que andavam desiludidos com a “performance” do líder e que ontem podem ter sido convencidos a voltar ao redil. Menos seduzível será a ala passista, que agora se sente atraída pelo radicalismo de direita caceteira e liberal, mas que parece irrecuperável por Rio.

Começo a ficar com a convicção de que Rui Rio, se fizer uma boa campanha e tiver um resultado não inferior a 25% pode conseguir manter-se à frente do PSD. Provavelmente, nesse cenário, o PS não teria uma maioria absoluta, o que seria uma má notícia para Costa. A compensação, também para ele, seria a muito boa notícia da continuidade de Rio.

Até ao lavar dos cestos são as vindimas? É verdade e esta é a época delas.

segunda-feira, setembro 16, 2019

António Arnaut



Conheci-o na Noruega, há quatro décadas, numa delegação parlamentar, que ele chefiava. Eu estava encarregado de negócios, na ausência do embaixador. Fui esperar a delegação ao aeroporto e levei-a ao hotel.

Notei que António Arnaut era um homem muito educado, coimbrão na forma, voz forte e inconfundível. Ele não tinha de saber quem eu era e, pela formalidade que começou por usar no seu trato para comigo, fiquei com a sensação de que via em mim uma certa imagem que, pelo menos à época, se colava muito aos quadros das Necessidades.

No almoço do dia seguinte, oferecido pelos noruegueses, ficámos lado a lado, na mesa da nossa delegação. Na conversa, falou-se de muitas coisas mas, a certo passo, veio à baila, entre os deputados portugueses presentes, nem sei bem a que propósito, a reunião da Oposição Democrática que, em 1969, tivera lugar em S. Pedro de Muel. Arnault era o único, de entre eles, que havia estado presente nessa histórica ocasião.

Num determinado momento, Arnaut contou uma cena ocorrida numa das sessões dessa reunião, que identificou como tendo sido presidida por Vasco da Gama Fernandes. Eu permiti-me corrigir: “Tenho ideia que era o José Vareda quem estava a chefiar a sessão, nessa altura. Mas posso estar enganado e a memória trair-me”.

Ainda estou a ver os olhos de Arnaut, por detrás daqueles óculos, arregalarem-se, olhando-me, verdadeiramente, pela primeira vez! Afinal, o jovem diplomata português que, interinamente, chefiava a embaixada em Oslo não era um daqueles “eunucos políticos” que, na visão simplificada de muita gente, o MNE produzia em abundância. A curiosidade ou a cerimónia dos outros deputados não foi suficiente para perguntarem a razão pela qual eu tinha partilhado com Arnaut aquela experiência.

Notei que António Arnaut também teve o cuidado de não ir mais longe, à mesa, na exploração da cumplicidade política potencial que o meu comentário lhe suscitara. Afinal, a delegação parlamentar que chefiava era multipartidária e viviam-se os tempos do governo AD. Mas a simpatia com que, a partir daí, nesse almoço, passou a tratar-me foi muito evidente. À despedida, o nosso aperto de mão foi muito mais caloroso.

A vida fez-me cruzar bastantes mais vezes com António Arnaut, que morreu no ano passado. Um homem que conseguiu concretizar o sonho do Serviço Nacional de Saúde, uma das grandes conquistas da Revolução de Abril, cuja criação agora se comemora.


domingo, setembro 15, 2019

Campanha

Ainda não percebi: aqueles que, olhando para os resultados prováveis das eleições proclamam, bisonhos e ácidos, “temos aquilo que merecemos!” não deviam, afinal, estar radiantes com o facto de, pelos vistos, lhes estar a ser feita justiça? Mas não, parece que andam por aí macambúzios...

O leitor de jornais


Alguém me perguntava, ontem, sobre como decorre uma das provas de entrada no Ministério dos Negócios Estrangeiros, que no passado se chamava “de apresentação” e que agora me dizem que tem outra designação, que não fixei.

Expliquei que consistia numa conversa, de 15 a 20 minutos, com cada candidato. Três diplomatas "seniores" fazem parte desse painel, que entabula uma conversa variada com o pretendente à admissão, tentando saber um pouco dos seus interesses culturais e de vida, ao mesmo tempo que se afere a sua capacidade de expressão. Períodos houve em que uma parte da conversa se passava em francês ou inglês, à escolha do candidato.

Confesso que achei sempre essa prova um dos momentos de verdade da admissão à carreira diplomática: dela não se percebe se o candidato vai ser ou não um bom diplomata, mas deduz-se de imediato se ele é totalmente não-dotado para a profissão. Dizem-me que a prova, agora, é a última dos concurso e que se passa exclusivamente em português. Mas o objetivo do exercício continua basicamente o mesmo.

No decorrer da conversa de ontem, lembrei-me de uma história divertida, passada num concurso de admissão, nos anos 90, de cujo júri eu fazia parte.

Num dos dias, um dos jovens candidatos quis "dar-se ares" e, ao ser perguntado por mim se seguia a política internacional, adiantou, com grande firmeza: "Há vários anos que acompanho a imprensa internacional. Todos os dias leio o 'Libération'". 

Confesso que fiquei espantado! Se tivesse dito o "Le Monde", o então “International Herald Tribune" ou mesmo o "Financial Times", era mais plausível. O "Libération", contudo, era um jornal que chegava a Portugal em quantidade muito limitada e era "obra" tê-lo como de leitura diária. Eu lia-o apenas esporadicamente.

Decidi testar o rapaz: "Isso é muito interessante! Então você lê regularmente o "Libération"?! Nesse caso, talvez me possa dar a sua opinião sobre a reforma gráfica pela qual o jornal passou no último mês. Até deve lembrar-se, com certeza, do editorial da semana passada, no qual o diretor, o Serge July avaliava esse esforço de auto-reconversão do jornal".

O nosso candidato embatucou, mas apenas por uns instantes. Com jeito e artes para não cair em contradições, lá disse umas coisas que, revelando ter uma vaga ideia do "Libération", demonstraram agilidade de raciocínio e capacidade de improviso. E, por isso, passou.

Anos mais tarde, encontrei-o num corredor das Necessidades, já ocupando um lugar de chefia no MNE, e perguntei-lhe: "Então! Continua a ler o "Libération"?". Ambos demos uma boas gargalhadas.  Hoje já é embaixador!

"A Arte da Guerra"

Esta semana, em "A Arte da Guerra", António Freitas de Sousa e eu havíamos de falar de quê?  Ver aqui .