terça-feira, junho 22, 2010

Aristides Sousa Mendes

Gostava de ter tido ontem comigo, na Embaixada, aqueles que, em Portugal, insistem em não prestar tributo ao gesto do antigo cônsul em Bordéus, Aristides Sousa Mendes, que, nessa qualidade, emitiu alguns milhares de vistos, desobedecendo às ordens recebidas

Gostava de ver essas pessoas confrontadas com a emoção que observei nos olhos de uma cidadã judia, hoje americana, que nesses dias trágicos de Junho de 1940, esteve nas filas do nosso Consulado em Bordéus, entre muitos milhares de refugiados, e que ontem me contou pessoalmente como aí pôde obter um visto gratuito para entrar em Portugal, e daí partir para a liberdade.

Gostava de os ver fazer entender a essa senhora, olhos nos olhos, que Aristides Sousa Mendes não deveria ter emitido o visto que lhe salvou a vida e deveria, com exemplar zelo burocrático, ter seguido as determinações na Circular nº 14. de 11 de Novembro de 1939, segundo as quais "os cônsules de carreira não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (...) aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm".

Gostava.

Coreia do Norte

Muito provavelmente, o meu sentimento patriótico não está, em matéria futebolística, à altura das circunstâncias. Ontem, ao assistir ao descalabro da equipa da Coreia do Norte perante a seleção portuguesa, e embora sabendo que um resultado folgado dava a Portugal uma margem de segurança importante para o apuramento para os oitavos de final, tive um insuperável sentimento de pena por aquele quase anónimo conjunto de jogadores, servido por um guarda-redes digno de um confronto entre-solteiros-e-casados. Para essa atitude contribuiu também o facto - provavelmente, pouco notado por muitos - de que os coreanos, em especial durante a primeira parte, praticamente não cometeram uma única falta, executaram um jogo disciplinarmente irrepreensível.

É que me recordei que, em 1966, no regresso a casa, depois da derrota por 5-3 contra Portugal, e não obstante terem então chegado bem mais longe na competição, os membros da equipa coreana e as suas famílias, segundo reza a história, acabaram por ter alguns problemas no seu país. Infelizmente, com o tempo, os tempos não mudaram muito para os lados de Pyongyang. Ontem, ao ver o resultado avançar para um registo de humilhação nacional, neste que foi o primeiro jogo de futebol transmitido em direto, desde sempre, pela televisão norte-coreana (!), não pude deixar de temer que agora possa acontecer coisa idêntica. A vida ensina-nos que, não raramente, a alegria de uns arrasta a tragédia de outros.

As mulheres e a diplomacia

Há semanas, ao entrar na sala onde ia falar aos novos "adidos de Embaixada" - a categoria de entrada na "carreira" -, não pude deixar de fazer um comentário de alguma surpresa pela circunstância de, entre os presentes, haver muito poucas mulheres. De facto, estava convencido de que, nos últimos anos, havia um progressivo reequilíbrio de género dentro da diplomacia portuguesa, correspondente, aliás, ao maior sucesso académico das mulheres na sociedade portuguesa atual. Pelos vistos, enganei-me.

Fiz parte do primeiro concurso de entrada de diplomatas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros ao qual as mulheres portuguesas foram admitidas. Não por acaso, foi o primeiro realizado após o 25 de abril. Para quem não saiba - e para especial benefício de quantos por aí louvam ainda a bondade de hábitos da ditadura -, convém deixar claro que, até essa data, as senhoras não eram admitidas na diplomacia. Ou melhor, algumas senhoras andavam pelo MNE e pelos postos no exterior, mas apenas em lugares de secretárias, dactilógrafas, funcionárias administrativas e, em muitos escassos casos, como técnicas. Foi nesse concurso de 1975, de cujo júri fazia parte um jovem professor de Económicas chamado Aníbal Cavaco Silva, que foram admitidas as primeiras diplomatas mulheres, graças a uma anterior mudança no regulamento de admissão, da responsabilidade do ministro dos Negócios Estrangeiros Mário Soares.

Várias diplomatas assumem hoje importantes funções dentro do MNE ou em postos no exterior, nomeadamente em chefia de Embaixadas. Impõe-se que, no futuro, isso aconteça cada vez mais, porque se torna importante que a carreira diplomática portuguesa seja um espelho verdadeiro da própria sociedade portuguesa.

domingo, junho 20, 2010

Os sapatos

Seria possível? Seria a mesma loja? Erick olhava deliciado para o pequeno espaço que acomodava o sapateiro, naquela estreita rua da cidade perdida na Bretanha de onde saíra, à pressa, numa tarde de 1939, quando os alemães, que já haviam ocupado a sua Bélgica natal, avançavam pela França dentro.

Erick era então professor na cidade bretã. As suas origens judaicas haviam-lhe recomendado que procurasse sair de França, tão rapidamente quanto possível. Procurou a fronteira espanhola e, com a ajuda de amigos, conseguiu, algumas semanas mais tarde, chegar aos Estados Unidos. Por aí ficou a viver. Só no final dos anos 50 decidira voltar à Europa, à sua Antuérpia, já como turista. A curiosidade e a memória levou-o também a revisitar aquela pequena terreola da Bretanha, que ficara para sempre ligada a um momento complexo da sua vida.

Agora, perante essa pequena loja do sapateiro, uma recordação, que o acompanhara todos esses anos, mostrava-se bem viva: deixara aí uns sapatos para consertar e, na pressa da fuga, nunca os levantara. Quase vinte anos passados, uma imensa curiosidade fê-lo entrar.

A cara do velhote que o olhou, do fundo da loja, não lhe dizia nada. Mas não resistiu a perguntar se, por acaso, já estava por lá há duas décadas. O homem confirmou: era dono da loja desde sempre. Erick contou então a história dos sapatos que deixara para compor e que nunca tivera ensejo de levantar. O sapateiro olhava-o, com uma curiosidade que, contudo, não acompanhava a emoção de Erick. Não se recordava do episódio, naturalmente. Mas, a certo ponto, inquiriu: "que tipo de sapatos eram?". Erick lembrava-se, porque essa imagem ficara-lhe para sempre: "Eram castanhos, com um desenho levemente ondulado na zona lateral".

Abriu os olhos de espanto quando viu o sapateiro, sem uma palavra, dirigir-se para uma arrecadação interior, de onde saíram então uns ruídos de caixas a serem movidas. Até que a voz do sapateiro, lá de dentro, inquiriu: "Eram de cordões ou de pala?". "De cordões", respondeu Erick, cada vez mais perplexo com o jogo que se desenhava. E o sapateiro, ainda de dentro da arrecadação, voltou a perguntar: "Era uma sola descosida no sapato do pé direito?".

Erick não queria crer no que ouvia. Era isso mesmo! O homem descobrira os seus sapatos! Mas, rapidamente, uma núvem de desilusão lhe passou pelo olhar quando viu o sapateiro sair da arrecadação, sem nada nas mãos. O homem olhou-o com um rosto neutro, profissional, e esclareceu: "Estão prontos amanhã. Pode vir buscá-los da parte da tarde".

Não garanto, claro, a veracidade desta história. Contou-ma o meu velho amigo Frederico Amaral Neves, mais ou menos assim, ontem, ao final da noite, na pastelaria Gomes quase deserta, numa Vila Real em tempo de corridas de automóveis. Achei que merecia um lugar neste blogue.

sábado, junho 19, 2010

Diplomacia em livro

Durante algumas semanas, o mundo diplomático parisiense andou agitado com o anúncio da iminente publicação de um livro, escrito por um jornalista, que prometia pôr a nu os bastidores da diplomacia francesa. Porque tenho por vício antigo ler tudo quanto posso sobre a profissão que escolhi, e porque devo também confessar que não sou imune às fragilidades da curiosidade, comprei o volume e, em duas noites, esgotei as suas 394 páginas. E não gostei.

A obra é um potpourri mal escrito, feito de coisas requentadas, de histórias já conhecidas na imprensa, além de um repositório de pequenos ódios de chancelaria, cheio de insinuações e meias-verdades, de tradicionais vingançazinhas de corredor. Escrito "aos solavancos" e desenhado à medida de memórias individuais não inocentes, que têm atrás de si agendas pessoais evidentes e ódios a destilar, este livro acaba por ser "a montanha a parir um rato".

No género, com muito mais graça e muito melhor escrita, volto a recomendar o clássico "Les Ambassades", de Roger Peyrefitte, ou, mesmo, o seu menos interessante "La Fin des Ambassades". E, para quem se quiser rir de forma inteligente com a caricatura da nossa corporação, recomendo sempre o "Esprit de Corps: Sketches from diplomatic life", de Lawrence Durrell. E, mais recente, as divertidas memórias do embaixador brasileiro Guilherme Leite Ribeiro, "Os Bastidores da Diplomacia - o Bife de Zinco e Outras Histórias".

A diplomacia, há que dizê-lo, aparece sempre ligada a um certo glamour, produto de um modelo de outros tempos, que está bem longe de corresponder à sua bem mais comezinha realidade atual. Mas para quem ainda acha graça a cocktails e consegue descortinar um qualquer encanto em jantares formais, o nosso mundo deve parecer um paraíso.

Porque a vida dos diplomatas continua muito presa a esse imaginário, acabando muitas vezes por ser mitificada, ela continua a suscitar um certo voyeurisme, nomeadamente no registo social. que lhe está associado. Confronta-se ainda com uma cultura de despeito que lhe é frequentemente adversa, a qual afeta até alguns políticos - fiquem os leitores deste blogue a saber. Talvez por isso, esta espécie de "exílio" dito dourado é, muitas vezes, vista também com algum ressentimento por algumas outras categorias profissionais. Qualquer pecadilho cometido por um diplomata, por menor que ele seja, cai "como sopa no mel" de um certo jornalismo de escândalo, que desconheceria o facto se acaso tivesse sido praticado por um qualquer técnico de uma direção-geral de outro ministério. Ah! e para esse "jornalismo", o conceito de diplomata é sempre muito extensivo: vai de um profissional de carreira a um funcionário administrativo de chancelaria, passando, naturalmente, por esse mundo muito diverso que são os cônsules honorários.

Ao ler este livro sobre os meus colegas do Quai d'Orsay, onde identifico alguns amigos e conheço ou ouvi falar em muitos outros protagonistas, dou-me conta que, medidas as dimensões diferentes das  nossas carreiras, uma análise similar também poderia ser elaborada sobre os corredores das Necessidades. Valeria a pena? Duvido muito. Não somos muito diferentes. Todas as carreiras diplomáticas têm os seus bons e maus exemplos - no comportamento dos chefes, na vida privada dos funcionários, nos desregulamentos administrativos, etc. São mundos onde se refletem os efeitos do isolamento, das distâncias, dos problemas familiares, das inconstâncias de vida e outras especificidades próprias da profissão.

Correndo o risco de estar a trair um dever de casta, de poder contra mim suscitar uma omertà sem remissão, vou revelar-lhes um imenso segredo: somos exatamente iguais às outras pessoas...   

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago (1922-2010)

O segundo prémio Nobel português (o cientista Egas Moniz recebeu, "a meias", um Nobel da Medicina, em 1949), ontem falecido, foi sempre um homem polémico. Por razões políticas, muitos não o apreciavam e alguns terão tido motivos pessoais para tal. Na literatura, algumas das suas ousadias estilísticas nunca foram bem aceites em certos meios. No plano pessoal, atitudes suas chocavam algumas pessoas e não ajudaram a consensualizar a sua imagem. Nunca se preocupou muito com isso. Por essa razão, o coro de loas que, na hora da sua morte surge por aí, cheira a muita hipocrisia.

Tive o ensejo pessoal de me cruzar com José Saramago, em diversas circunstâncias e em vários lugares do mundo. Tinha com ele uma relação pessoal de simpatia, extensiva a sua mulher, Pilar del Rio. Com ambos tinha combinado, ainda em 2008, no Rio de Janeiro, o projeto de o levar a Paris, para uma "Marathon de la lecture", ideia que a fragilidade da sua saúde não permitiu concretizar.

Faço parte de quantos gostam muito de algumas das obras de Saramago e, mesmo não gostando tanto de outras, o têm por um dos raros génios da nossa literatura. Alguns dão-se ao luxo lusitano de não concordar com isso, no que estão no seu pleníssimo direito. A esses, porém, convém lembrar que a sua opinião é indiferente ao mundo, que consagrou já José Saramago como um dos nomes portugueses mais prestigiados de sempre.

Gaullismo

A França com memória celebra, na data de hoje, o apelo feito há 70 anos, pela rádio, de Londres, pelo general de Gaulle, que consagrou o reerguer do seu país sob ocupação estrangeira.

Charles de Gaulle permanece uma figura política polémica, sem que isso signifique que não seja, a todos os títulos, uma figura maior da história francesa. A sua linha de ação política, de que alguns se reivindicam e de que outros se distanciam, continua a ser objeto de análise. As grandes orientações da sua política externa são regularmente evocadas e postas a par das opções contemporâneas que se abrem à França no campo internacional. No ano em que se celebram os 50 anos das independências africanas, o general é lembrado pelas decisões então tomadas nesse âmbito e pelo quadro da "françafrique" que geriu. Algumas das suas opções em matéria de política económica são hoje olhadas com curiosidade, à luz do intervencionismo que os últimos tempos acabaram por ditar. O carater espartano da sua vida e da sua postura é, frequentemente, constrastado com o dos seus sucessores no cargo.

Gostem ou não os franceses do general de Gaulle como líder político e partidário, o que parece incontestável é que, no seu apelo de há 70 anos, ele soube representar o mais profundo do sentimento da França como país. E essa memória permanecerá sempre como a marca mais prestigiante da sua imagem.

A nova ordem europeia

Confesso que não impressionam muito algumas reações de cariz nacionalista que contestam os modelos de coordenação das políticas orçamentais que ontem foram desenhados em Bruxelas. Não se pode ter "sol na eira e chuva no nabal", isto é, reivindicar o "chapéu" de proteção europeia quando as coisas correm mal e, ao mesmo tempo, pretender ter as mãos nacionais completamente livres para o desenho de decisões em matéria de agravamento do défice público, para satisfazer nichos de mercado eleitoral interno.

Não ignoro que o caminho que a presente crise obrigou a seguir comporta, em si mesmo, alguns riscos em matéria de legitimidade política, à escala nacional. Mais cedo do que alguns gostariam, a questão do conflito de competências entre as instituições políticas dos Estados e as estruturas (noto que não escrevo "instituições") europeias vai colocar-se, com grande acuidade. O assunto pode estar a ser menos sublinhado neste período em que todos estão ainda um tanto aturdidos pela crise, no qual as lideranças europeias demonstram que não conseguem mais do que ser reativas face aos mercados, mas estou convicto de que acabará por ser objeto de uma análise mais fria e mais fina, dentro em breve.

Porém, devo dizer que o que mais me preocupa, em todo o cenário que atualmente se vive, é que toda esta aparente "federalização" da gestão financeira europeia começa a assentar, já não nas instituições regulares, mas apenas nos arranjos, um tanto "ad hoc", impostos pela Alemanha e aceites pelos restantes parceiros como inevitáveis, cujo controlo democrático, a nível europeu, é hoje mais do que discutível. Haveria outra solução? Provavelmente não, mas isso não significa que não devamos pensar o problema, porque a democracia não é um conceito instrumental, mas sim uma condição "sine qua non" para a aceitação das soluções pelas pessoas. De certo modo, estamos, nestes dias, a assistir, no seio da Europa comunitária, a uma reprodução do novo modelo G20 à escala global, com a subalterinzação das instituições multilaterais regulares e a fixação de regras casuísticas ditadas pelos "powers that be".

Alguns, talvez com um realismo à flor da consciência, poderão, um tanto cinicamente, ser de opinião de que, se acaso as instituições decorrentes do Tratado de Lisboa fossem aplicadas em pleno como eixo de gestão das medidas para fazer face a esta crise, o resultado acabaria por não ser muito diferente. Para esses observadores, os desequilíbrios demográficos aceites e projetados por esse  tratado no processo decisório europeu, bem como a "subversão" interinstitucional que decorre do acordo que leva o nome da nossa capital, já haviam criado um dulcificado modelo de "diretório". Não sei se esses "realistas" têm ou não razão, apenas é evidente que já nem esses mecanismos são aplicados... A Europa está perigosa.

(Este texto foi publicado no jornal "Público" em 19.6.10)

quinta-feira, junho 17, 2010

Mário Ruivo

Foi o meu primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros - dos 19 que já tive (é verdade!). Encontrámo-nos, há dias, por acaso, numa esplanada de Paris. Durante bem mais de uma hora apreciei, deliciado, o entusiasmo que coloca em tudo quanto continua a fazer e as memórias riquíssimas que conserva, de quem atravessou tempos decisivos para Portugal.

O professor Mário Ruivo é, de há muito, a alma por detrás do esforço de tratar os oceanos como uma das nossas mais preciosas riquezas. Em todos os tempos políticos e nas várias e (infelizmente) diferentes vagas de interesse, entre nós, sobre essa temática em que é um reputado especialista internacional, vimo-lo sempre como uma figura indiscutida e indiscutível, cujo prestígio ecoa por toda a parte, com grande benefício para Portugal.

Nessa bela noite de conversa, para além dos oceanos, falou-me de um mar de coisas, desde os seus alvores na política até à sua aventura governativa, dos tempos de Itália e do seu cruzamento com inúmeras figuras que por lá passaram, em momentos difíceis. Mário Ruivo é uma personalidade positiva, com uma dose de compreensão e de entendimento dos outros que traduz a delicadeza de uma grande senhor.

quarta-feira, junho 16, 2010

O sorriso

O ambiente era descontraído, a conversa ia mole, entre homens, com tudo o que isso significa de libertação da linguagem, por vezes a níveis vocabulares que o bom gosto desaconselharia. Esse era, contudo, o preço para garantir uma conversa fácil, entre amigos e amigos de amigos, alguns quase desconhecidos, ligados apenas pela vontade de um hora de convívio, nesse ambiente com sonoridades diversas de língua portuguesa. Da matriz imperativa dessa conversa faziam parte, claro, as mulheres.

O nosso diplomata, já há muito em posto, era uma figura bem conhecida dos meios sociais locais, havia-se cruzado, em todo o largo tempo que levava de vida na cidade, com tudo quanto "era gente", conhecia as figuras e as historietas que a cada uma estavam associadas. Como dizem os anglo-saxónicos, o nosso homem "went native", o que significa, muitas vezes, o risco acelerado de propensão para a asneira. Acontece a todos, podem crer...

Naquele fim de tarde, entre cerveja e whisky, a conversa derivou para uma determinada senhora, um figura pública localmente bastante conhecida, embora não pelos respetivos atributos estéticos, cuja ausência, aliás, contrastava com o seu conhecido proselitismo sentimental.

A certo momento da conversa, o nosso homem baixou a guarda da prudência social e lançou para a mesa: "É horrorosa! É uma das mulheres mais feias do mundo! Não entendo como tem tanto sucesso entre os homens". Parte dos circunstantes, apanhada a boleia da má-língua, logo adiantou comentários similares, alguns a roçar o mau gosto, espraiando-se pelos êxitos afetivos da senhora.

Até que, do fundo de um sofá, se ouviu a voz de um comparsa só conhecido de alguns, que até então se tinha mantido pouco loquaz: "Podem achá-la uma mulher feia, mas devem reconhecer que tem um sorriso muito bonito. Aliás, essa foi uma das razões que me levou a casar com ela".

Não valerá a pena tentar descrever a mudança no ambiente, depois desta frase de quem, sendo embora divorciado há muito da senhora em causa, havia feito questão, com apreciável garbo, de vir a terreiro defender a respetiva honra. O ambiente tornou-se irrespirável.

Gabriel Abrantes

Chama-se Gabriel Abrantes, é português, nasceu nos EUA em 1984. Está incluído na exposição coletiva «Dynasty», no Palais de Tokyo e no Musée d'Art Moderne, aqui em Paris. Estudou na École National des Beaux-Arts e é co-realizador de dois filmes de vanguarda, embora a sua obra se espalhe por várias outras dimensões artísticas.

Quem já viu os filmes em exibição em Paris diz-me muito bem desse trabalho. Um destes dias, vou passar pela exposição, que estará aberta até 5 de Setembro. 

terça-feira, junho 15, 2010

Osh


Quando Francisco José Viegas, em 1998, no seu romance "Um crime na Exposição", associou o Quirguistão (ou Quirguízia) ao tema da morte, estava, com certeza, muito longe de pensar nas inúmeras vítimas resultantes da guerra civil que agora devasta aquele pobre país da Ásia Central.

A geografia estratégica desenhada na região por José Estaline comporta algumas verdadeiras perfídias de separação étnica, com bolsas de isolamento em países vizinhos que são verdadeiras bombas ao retardador e que configuram hoje a triste herança que a defunta União Soviética deixou na Ásia Central. Há hoje dois "países" no Quirguistão e a zona de Osh, ao sul, não por acaso aquela onde se refugiou o ex-presidente Bakiev, quando há semanas foi afastado do poder no norte, em Bishkek, mantém um conhecido potencial de turbulência entre os quirguizes e os uzbeques. Osh está praticamente na fronteira entre o Quirguistão e o Uzbequistão, em cujo vale de Fergana tiveram já lugar, há anos, incidentes étnicos e religiosos da maior gravidade. A possibilidade de uma conflito entre os dois Estados ou uma tentativa secessionista não estão excluídos.

Há uns anos, andei em trabalho por essas zonas e hoje pergunto-me o que será feito das pessoas que, com grande dedicação, animavam a "clínica legal" criada em Osh, onde assisti a um magnífico esforço de popularização da justiça e do direito, numa iniciativa da comunidade internacional em que tanta esperança se colocava. E, com alguma nostalgia, também me interrogo sobre o destino do belo "bazar" da cidade (na foto), que, por mo terem descrito como um dos mais animados da Ásia Central, insisti em visitar. Da alegria natural daquela população simples, que a "descolonização" apressada de Moscovo deixou nas mãos dos ex-aparatchiks convertidos em novos líderes "democráticos", deve hoje restar muito pouco, depois das quase duas centenas de mortos que se espalham pela cidade.

"Horizons Lointains"

O debate acabou por ser um pouco mais tenso do que eu estava à espera - confesso! -, mas o visionamento do filme sobre Lisboa e a literatura portuguesa, incluído no ciclo "Horizonts Lointains", da cadeia televisiva franco-alemã Arte, baseado numa ideia dos irmãos Patrick e Olivier Poivre d'Arvor (na imagem), animou fortemente, ontem à noite, os salões da Embaixada.

O filme, de cerca de uma hora, constituiu uma visita guiada aos nossos mitos e sonhos, em conversas excelentemente conduzidas por Patrick Poivre d'Arvor com figuras da nossa cultura. Nelas se destaca uma entrevista muito interessante com António Lobo Antunes.

O filme tem a grande virtualidade de "abrir o apetite" para Lisboa e as suas novas escritas, para o Portugal cultural em rápida mutação. O público franco-alemão terá oportunidade de nos olhar um pouco para além do habitual registo de fixação na História e no cultivo de uma endémica nostalgia.

O aberto contraditório sobre o modo de representar filmicamente Portugal, no equilíbrio instável entre a tradição e a contemporaneidade, atravessou o animado debate que se seguiu ao filme, o qual mobilizou o interesse das mais de 100 pessoas presentes. No final, diga-se, fiquei com a sensação de que ninguém se importou em mergulhar em conhecidos "clichés" lusos: vinho do Porto, queijo da serra e pasteis de nata... 

segunda-feira, junho 14, 2010

Telecomunicações

É encorajante encontrar, numa exposição internacional em França, uma empresa portuguesa de alta tecnologia, com uma importante experiência no domínio das comunicações, da eletrónica e sistemas informáticos.

Foi a experiência que tive esta manhã, no salão militar Eurosatory, ao visitar o stand da EID - Empresa da Investigação e Desenvolvimento de Eletrónica, que vende hoje para países como o Reino Unido, a Holanda, a Espanha e a Dinamarca, entre outros.

Felizmente, há por aí um Portugal desconhecido que (já não) espera por nós.

domingo, junho 13, 2010

Os nossos vuvuzelas

Qual é a semelhança entre os vuvuzelas e alguns profissionais do lusopessimismo?

Plantam-se por todo o lado, criam um ruído permanente, já estamos todos fartos de os ouvir, cada um tenta ser mais escutado que o outro, não se pode mandá-los calar porque é politicamente incorreto, desconcentram-nos do essencial mas, no final de contas, acabam por não ter qualquer influência no resultado.

Vieira da Silva e Paula Rego

Hoje, Maria Helena Vieira da Silva, a pintora portuguesa que a ditadura portuguesa conduziu a tornar-se francesa, faria 102 anos. A França esquece-a como portuguesa e dá-lhe naturais honras de cidadania artística.

Ontem, Paula Rego recebeu da rainha Isabel II uma importante condecoração do país que a adotou - "Portuguese born british painter", era assim que me recordo de a ver irritantemente sintetizada numa biografia britânica.

Não deixa de ser irónico, mas também significativo, que as duas mais famosas pintoras portuguesas se tenham acolhido a países estrangeiros. Mas também não deixa de ser reconfortante que seja em Portugal que, nos dias de hoje, existam os únicos museus dedicados à sua obra.

Festas

Ontem, um concurso de poesia portuguesa em Neuilly, presença num "rally-paper" de uma associação de jovens portugueses, uma missa com centenas de portugueses na catedral de Notre-Dame de Paris e, ao fim da noite, uma deslocação a Les Ulis, nos arredores de Paris, onde teve lugar um excelente espetáculo promovido por uma estrutura associativa. Hoje, foi o dia da grande festa da Rádio Alfa (foto de 2009).

Ser embaixador de Portugal em França é, neste período do ano, um permanente desafio à ubiquidade. Mas quem corre por gosto não cansa (muito), podem crer.

sábado, junho 12, 2010

Europa

Uma intensa agenda de compromissos com a Comunidade portuguesa em França, durante estes dias, impediu-me de aceitar um convite para estar hoje nos Jerónimos, na comemoração dos 25 anos de assinatura do Tratado de Adesão de Portugal às então Comunidades Europeias.

Tive o privilégio profissional de integrar, meses depois dessa data, a primeira equipa que, em Lisboa, passou a coordenar as relações com Bruxelas. A Europa ocupou, desde então,  uma parte importante da minha vida. Dez anos depois da adesão, couberam-me responsabilidades diferentes nessa mesma área, desta feita de natureza política, por um período de mais de cinco anos. Sobre a Europa escrevi e palestrei muito.

Ao fim deste tempo, de tudo o que se passou desde então, às vezes dou comigo a pensar se ainda acredito no futuro do projeto europeu. Quero acreditar, até porque ele é do interesse objetivo de Portugal. Mas cada vez mais me interrogo se, num ambiente político que é bem diferente dos anos de entusiasmo que já se viveram, as coisas irão evoluir no melhor sentido. De uma coisa tenho absoluta certeza: alguns dos países que, desde o início, estiveram no centro do processo integrador europeu vão acabar por arrepender-se da sua recente deriva para a intergovernamentalidade. Resta esperar que ela não acabe por ser trágica para todos os restantes.

No que a Portugal toca, neste dia, um mínimo de justiça obriga a que lembremos a figura histórica que, no momento certo, soube conduzir-nos pelos caminhos da Europa: Mário Soares. 

Sejamos otimistas e ouçamos hoje o meu velho amigo Fausto a cantar o seu "Europa, querida Europa".

1966

Este post é só para quem gosta muito de futebol. E, principalmente, para quem já o acompanha há muito.

É que o início deste Mundial 2010 traz-me, inevitavelmente, a memória da primeira vez em que Portugal chegou a uma fase final. Estávamos em 1966. Não ganhámos - nunca ganhámos! - mas perpassou então pelo país um sonho de vitória, desfeito nas célebres lágrimas de Eusébio, gravadas no preto e branco de uma foto de Nuno Ferrari que correu mundo. Era selecionador Manuel da Luz Afonso e treinador Otto Glória - de há muito que as duas funções passaram a ser exercidas, em toda a parte, por uma mesma pessoa.

Vale a pena recordar estes magníficos "magriços" (nome inventado por "A Bola"). A fotografia é da equipa que disputou e ganhou o segundo jogo, contra a Bulgária (3-0).

De pé, temos a barba serena e alcantarense de Germano, que só assegurou o centro da nossa defesa neste jogo, lugar que seria ocupado pelo sportinguista Alexandre Baptista. Depois, Jaime Graça, então do Vitória de Setúbal, que o Benfica recrutaria em breve e que garantiu sempre a direita do meio-campo, embora com um posicionamento bastante livre nesse setor. A seguir está Festas, um lateral direito do FC do Porto, que viria a dividir o lugar com o sportinguista Morais, há pouco falecido, como aqui se notou. Segue-se o insubstituível Hilário, um permanente "gigante" leão na esquerda da defesa. Depois, o subtil Vicente, do Belenenses, irmão do mítico Matateu, que também garantia o centro da defesa, descaído para a esquerda, que viria a ser substituído, por lesão, nos dois últimos jogos, por José Carlos, também do Sporting, na então chamada posição de "quarto defesa" (para sublinhar a função de apoio ao meio-campo). Finalmente, o guarda-redes do Belenenses, José Pereira, que fez a maioria dos jogos, se descontarmos o primeiro, contra a Hungria, em que Carvalho, do Sporting, esteve na baliza.

À frente, claro, a mítica e indiscutível linha avançada do Benfica: José Augusto, Torres, Eusébio, Coluna e Simões. Como Portugal jogava em 4x2x4, Jaime Graça (na direita) e Coluna (na esquerda) garantiam o "2" do meio campo, para onde Eusébio às vezes recuava, setor que, igualmente, era também apoiado pela subidas de Hilário e/ou Morais (menos por Festas, que sempre jogou mais recuado), o que criava episódicos 4x3x3. Em permanência, apenas Torres estava na zona frontal de área, com os extremos "colados à linha", Simões e José Augusto, embora este sempre um pouco mais "livre" e incursivo no meio campo.

De quantos foram ao Mundial de 1966, não jogaram então o guarda-redes do Porto, Américo, três atacantes do Sporting - o extremo-esquerdo Peres e os avançados-centro Figueiredo (o "Altafini de Cernache") e Lourenço, a quem vi marcar numa tarde, um ano antes, quatro golos ao Benfica, na Luz -, o defesa esquerdo benfiquista Cruz (que tive o gosto de conhecer nos Estados Unidos, em 2002) e os avançados Duarte, do Leixões, e Custódio Pinto, do FC do Porto. Olhando em retrospetiva, as opções de Manuel da Luz Afonso, quanto a deixar estes jogadores no "banco", foram corretas.

Deixo os resultados: começámos por ganhar à Hungria 3-1; depois, como referido. ganhámos 3-0 à Bulgária; de seguida, 3-1 ao Brasil de Pelé. Nos quartos de final, ganhámos à Coreia do Norte por 5-3, depois de estarmos a perder por 3-0. Nas meias finais, perdemos 2-1 com a Inglaterra e, finalmente, na disputa do (inexistente) 3º lugar, derrotámos a Rússia por 2-1. Com quatro vitórias sobre "países comunistas", não admira que a governação salazarista tivesse condecorado tão generosamente os "magriços"...

Foi um belo Mundial!

O revisionismo da tasca

Raramente cito algum texto por aqui. Hoje, depois de ler no X este texto de Ricardo F Lima (@MimeticLima), apeteceu-me transcrevê-lo, com a ...