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segunda-feira, março 09, 2026

Será?


Em França, o Rassemblement National é qualificado como sendo de "extrema-direita", com toda a naturalidade, por parte da imprensa. Em Portugal, onde o Chega está ideologicamente bastante mais à direita do que o RN, parece haver pudor (será medo?) em "chamar os bois pelos nomes".

domingo, março 08, 2026

Estava assim...


... há minutos.

Em Belém



Entrei no palácio de Belém, pela primeira vez, em início de maio de 1974 (foi há muito tempo: maio ainda se escrevia com maiúscula). Tinha ali sido enviado pela unidade onde era militar, para abordar um assunto delicado com um senhor chamado Vitor Alves, um simpático major que só então percebi ser uma importante figura do tal MFA, entidade ainda misteriosa à volta da qual rodava a nossa vida pública de então. 

Voltei lá - e lá estava Vitor Alves outra vez - na noite de 11 de março de 1975, integrado num grupo de oficiais, ou quase isso, que interrompeu uma reunião do "Conselho dos Vinte" e forçou a realização da assembleia do MFA que leva para a História o nome dessa data - dia que, recordo, tinha começado com uma tentativa violenta de golpe de estado spinolista. 

No final de maio desse ano, ali regressei de novo, dessa vez chamado ao Conselho da Revolução, que estava presidido por Costa Gomes, enviado pelo SDCI, o serviço de informações militares onde então estava colocado, para abordar um assunto que igualmente não vem ao caso. No final, fui convidado para almoçar com eles (recordo que eram lulas e nada más). Ah! E Vitor Alves lá estava também. 

Vinte anos mais tarde, recebendo Vítor Alves no meu gabinete do governo na Cova da Moura (curiosamente, o mesmo que tinha sido ocupado por Spínola no 25 de Abril - esse Abril tem sempre maiúscula - e já fora de Botelho Moniz e centro da "abrilada" falhada de 1961) rimo-nos dessas coincidências em tempos revolucionários. 

Creio que, ainda nesse ano único que foi 1975, voltei a Belém, em junho, chamado por Loureiro dos Santos, que ainda não era general e secretariava o Conselho da Revolução. O motivo dessa curta conversa também não é para aqui chamado, mas era menos relevante. Semanas depois eu iria sair do serviço militar e ingressar no MNE.

Depois disso, como diplomata, voltei bastantes vezes a Belém, nos tempos de Eanes e de Soares, mas, naturalmente, nunca para ali ser recebido por qualquer deles. 

Com Sampaio, em funções no governo ou como embaixador, estive ali inúmeras vezes. 

Já outras, poucas, porque não havia razões funcionais que a isso justificassem, foram as ocasiões com Cavaco Silva. Mas, curiosamente, fui o primeiro embaixador português que ele recebeu em audiência após ter sido empossado. 

Coincidiu ter de ir a Belém na tarde da passada sexta-feira, último dia útil dos dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente com quem mais vezes ali estive, não obstante me ter reformado de funções públicas anos antes da sua primeira posse. Diferentes encargos e ensejos levaram a que as coisas assim fossem. 

Na ocasião, o Pátio dos Bichos estava como a imagem mostra.

Creio que nunca até hoje contei em público o trecho de uma conversa que um dia tive, também em Belém, com Jorge Sampaio. Apetece-me fazê-lo hoje. Viviam-se os derradeiros meses da insólita, embora felizmente efémera, experiência primo-ministerial de Santana Lopes. 

Falava com Sampaio de três líderes sucessivos do PSD: Marcelo, Barroso e Lopes. Sampaio comentou qualquer coisa como isto: "Tive com o Barroso uma relação institucional sempre correta, embora não isenta de fortes tensões. Uma delas, por sua causa, como sabe. Do mesmo modo, o Lopes (ele usava uma outra "fórmula" nominativa, semanticamente algo diversa mas divertida, para se referir ao agora edil da Figueira) cuida sempre em manter uma atitude de respeito e um comportamento adequado, não obstante questões várias que têm surgido (Sampaio era muito reservado em matérias de Estado, observando o clássico "need to know" e eu não precisava de saber dos problemas dele com o primeiro-ministro de então). Nesse domínio, da correção institucional, devo dizer que não tenho a menor razão de queixa de ambos. Mas sinto sempre que há qualquer coisa de fundo a separar-me deles. Fazem parte de outra geração, de um outro mundo de vida. Curiosamente, com o Marcelo nunca é assim: com ele, não obstante todas as divergências, e até dificuldades que possam surgir com aspetos da sua personalidade, acaba por passar sempre uma corrente, talvez devido à maior proximidade da idade. Não é da mesma opinião?"

Era e continuo a ser, tanto mais que a minha idade está bem mais próxima da do presidente "sortant", como chamam os franceses ao incumbente até amanhã. Mas devo confessar que, não obstante todo o respeito institucional que me merece, bem como o registo de simpatia e até amizade que não escondo ter por ele, ainda não "assentou o pó", dentro de mim, sobre o saldo da década de Marcelo Rebelo de Sousa como presidente da República. Assim, apetece-me usar a fórmula da contabilidade: no razão desta presidência, pelo método das partidas dobradas, só posso concluir que os débitos ficam à esquerda e os créditos à direita. É o que, nesta fase, tenho a dizer para os autos...

sábado, março 07, 2026

Lá terá que ser!


Como sportinguista, tenho de reconhecer: para o ano há mais. 

É a vida e é apenas uma bola.

Elevadores

Desculpem lá, mas alguém sabe se, com o acidente do elevador da Glória, "morreram" de vez os elevadores de Lisboa? Os restantes não deviam já estar a operar em pleno? Por que será que ninguém fala disto?

Golfo

Com a mania que Donald Trump tem de mudar a toponímia a seu bel-prazer, estou admirado que não tenha começado a chamar "Golfo Arábico" ao Golfo Pérsico, como os árabes gostam (e, já agora, alguns comentadores deviam aprender que os iranianos são muçulmanos mas não são árabes).

"A sombra de Passos"


É muito raro eu colocar por aqui um texto de que não seja autor. Hoje abro uma exceção para este artigo de José Pacheco Pereira.

"Seria bom que Passos desse passos para entrar a todo o vapor na política partidária de uma forma mais transparente do que o alimento cínico do sebastianismo.

Passos Coelho deixou uma herança maldita no PSD, mais funda do que se pensa: o abandono da identidade social-democrata, que mal ou bem tinha sobrevivido até Cavaco Silva. O Governo Passos-Portas-troika foi mais do que um Governo de “necessidade” imposta, foi uma experiência de engenharia social que só não foi mais longe devido às limitações que o Tribunal Constitucional colocou à governação e ao falhanço da tentativa de mudar o programa do PSD que foi entregue à direita radical. Foi isso que significou “ir além da troika”.

Muitas das ideias que hoje estão encarnadas no Chega e na Iniciativa Liberal foram aplicadas pela governação de Passos, em particular a colocação como alvo da austeridade da classe média que tinha ascendido da pobreza pela acção do Estado. Este processo de elevador social era um elemento fundamental do pensamento de Sá Carneiro, e correspondia à tradição social-democrata e à doutrina social da Igreja, a de que o funcionamento do capitalismo e do mercado não eram eficazes no combate à exclusão e à injustiça social, que devia ser uma função garantida por um Estado com um programa que olhasse para a desigualdade e para as suas raízes. O último momento em que o PSD fez uma séria tentativa de aplicar este programa social-democrata foi o Plano de Erradicação das Barracas, com Cavaco Silva.

Mas, como sempre acontece, Passos deslocou o PSD para uma direita radical, atacando a função pública, colocando os “jovens” contra os seus pais e avós com a ideia de uma “justiça geracional”, atacando os sindicatos e retirando direitos aos trabalhadores, privatizando tudo o que pôde, parando apenas quando o travaram, como aconteceu com a Caixa Geral de Depósitos, e fazendo pagar a austeridade aos sectores da sociedade que tinham recentemente saído da pobreza, num processo que tenho classificado como o de “pai lavrador – filha professora primária – neto universitário”. O bloqueio do elevador social em Portugal, como noutros países da Europa, foi um dos factores do ascenso do populismo e da extrema-direita após a crise financeira da banca, que acabou por ser paga por aqueles que nenhuma culpa tinham da ganância que a motivou. Schäuble, um dos seus autores, reconheceu que errou e pediu desculpa, cá nada disso aconteceu.

Mas as políticas moldam os partidos e o PSD nunca mais foi igual. Os discípulos de Passos que não foram para o Chega nem para a Iniciativa Liberal – e muitos foram – estão hoje à frente do PSD, da direcção do partido ao grupo parlamentar. Mas são, de facto, menos “reformistas” no sentido de Passos (e, diga-se de passagem, do Chega), porque são mais tacticistas e perceberam o desgaste eleitoral do Governo Passos-Portas-troika na base eleitoral do PSD, perdendo a juventude para a Iniciativa Liberal e os mais velhos ou para a abstenção, ou para o Chega.

Porém, com ou sem “linhas vermelhas” e “não é não”, é à direita que hoje o PSD está confrontado com a diluição das suas fronteiras sociais-democratas. Essas fronteiras já tinham soçobrado em vários momentos, nas regiões autónomas e na competição com o Chega no mais perigoso tema da imigração. Embora a questão da imigração seja real e tenha havido muitos erros na governação socialista e na incapacidade de reconhecer que havia aqui um “problema”, o modo como Montenegro e o Governo a defrontaram significou um upgrade do discurso do Chega que, a partir daí, dominou a agenda política, e foi o melhor serviço que foi prestado ao Chega. A combinação de uma declaração solene do primeiro-ministro em horário nobre com a rusga hipermediática na Rua do Benformoso, o complemento da declaração dramática de Montenegro, foi sem dúvida o factor mais relevante na ascensão do Chega, que viu a sua visão estrutural da imigração impor-se pela acção do Governo.

Passos está aqui em completa sintonia com a dinâmica do Chega e o Portugal que daqui sairia seria o da direita radical, do Vox a Trump, uma espécie de institucionalização de uma guerra civil como a que já hoje se passa nos EUA

A sombra e a motivação para o frenesim declaratório de Passos, que não tem outro sentido senão um regresso, não se sabe muito bem como, são o chamado “pacote laboral”, a “reforma” que está presente por detrás das suas declarações sobre o falhanço reformista do Governo. Não é por acaso que o “pacote laboral” é a motivação de Passos, embora o alcance da sua acção seja mais vasto. O primeiro passo de Passos é a pressão para um acordo parlamentar de fundo entre o PSD e o Chega e a Iniciativa Liberal, e qualquer acordo sobre a legislação laboral é sempre um acordo de fundo. Depois, esse acordo que daria a maioria às políticas da direita radical mostraria quem manda em Portugal, revelaria a irrelevância da esquerda, a começar pelo PS, e abriria caminho para outros acordos, a começar pelo Tribunal Constitucional e na revisão da própria Constituição. Passos está aqui em completa sintonia com a dinâmica do Chega, e o Portugal que daqui sairia seria o da direita radical, do Vox a Trump, uma espécie de institucionalização de uma guerra civil como a que já hoje se passa nos EUA.

Por isso, o pessimismo da inteligência deve ser nestes dias mais forte do que o optimismo da vontade. Se esse optimismo se dirigir para o combate duro a este caminho, será bem-vindo. É também por isso que seria bom que Passos desse passos para entrar a todo o vapor na política partidária de uma forma mais transparente do que o alimento cínico do sebastianismo."

Um texto aqui publicado há dez anos


"Chega hoje a Belém. Esperemos que para bem. Não votei nele, mas desejo, com a maior sinceridade, que, nos próximos cinco anos, saiba interpretar o interesse do país, que conhece muito bem. Entra de mãos livres, com escassa dependência partidária, o que lhe confere uma maior responsabilidade. Por um tempo de graça cuja duração só dele depende, terá a possibilidade de ser o presidente da "acalmação", como noutros tempos se dizia.

Julgo que o conheço bem, mas quantos de nós não dirão o mesmo? É um homem inteligente, arguto, rápido, perspicaz. Por muito que o olhemos sempre no meio de muita gente, é um solitário. Confia imenso em si mesmo, porque a vida lhe tem dado razões para isso, porque a sorte também o tem bafejado, embora a sorte dê muito trabalho. Espera-se que, em Belém, saiba ouvir e seja capaz de refrear um estilo impulsivo que, por vezes, o fez cometer alguns erros. Erros que, no entanto, não foram suficientes para estragar o "percurso limpo" que, com maestria estratégica, o levou até à Presidência - verdade seja que também por falta de comparência de uns e por falta de jeito de outros.

Não vale a pena sublinhar o contraste que fará com a imagem de Cavaco Silva, que ele procurará tornar muito evidente, sem nunca o dizer. O seu modelo de presidente, também sem o dizer, é, na realidade, Mário Soares - no abraço, na afetividade, na simplicidade que, nem por ser ensaiada com coreografia de mestre, de uma forma tão natural que já faz parte de si mesmo, deixa de ter alguma coisa de genuíno. No fundo, estou certo de que, no dia que sair de Belém, também lhe não desagradaria ser comparado, em postura ética, a Jorge Sampaio. Mas também nunca o dirá. Será igual a si mesmo. Enfim, logo veremos!"

sexta-feira, março 06, 2026

O sinaleiro de Belém


Lá estava ele, hoje à tarde, o sinaleiro do cruzamento de Belém, perto da Versailles nº 2. 

Nunca percebi a lógica das aparições deste que me parece ser o único sinaleiro de Lisboa  - em tempos não muito longínquos, vi outro em S. Mamede.

Se alguém souber a resposta para isto, não a dê, para manter o segredo.

Líderanças


Parece não se confirmar que esta afirmação de Trump tenha alguma coisa a ver com a liderança futura do PSD.

Perfilados de medo



Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

(Alexandre O'Neill)


quinta-feira, março 05, 2026

Gibert Jeune

Tive o privilégio de pertencer a uma geração, com pouco dinheiro mas muita sorte, que conseguia flanar algumas vezes por Paris, do final dos anos 60 em diante. 

De início, chegávamos à boleia, outras vezes no Sud, à Gare de Austerlitz, mais tarde em viagens aéreas baratas e, depois, já nem por isso. 

Recordo-me que, das primeiras vezes, um dos lugares tradicionais de encontro com amigos ou conhecidos, nessa época sem telemóveis, era a Place Saint-Michel, junto à fonte, ao final do dia. 

Comprar livros novos, na Paris desse tempo, era um luxo. Nas Gibert Jeune ou nas Gibert Joseph, os saldos, de livros novos e usados, eram sempre magníficos. Só que, depois, era difícil transportá-los para cá. Alguns ainda por aí andam nas estantes, com poucas páginas lidas. 

Leio que a Gibert Jeune da Place Saint Michel fechou portas. Pronto, que se há-de fazer!

Médio Oriente


Ver aqui

António Lobo Antunes


Morreu António Lobo Antunes, um dos escritores maiores da língua portuguesa. Fui seu leitor desde o primeiro livro, embora não tenha lido toda a sua obra. Só o vim a conhecer pessoalmente quando vivi em Paris, capital de um país onde ele era admirado, estudado e muito divulgado. Tive-o por diversas vezes em eventos na embaixada que chefiava, jantámos em algumas ocasiões, charlámos em público outras. Tal como eu, ele admirava Melo Antunes, que cruzara na guerra colonial e de que fora um amigo muito próximo. Na relação social, António Lobo Antunes tinha, em permanência, a atitude que os franceses qualificam de "nonchalant", que desarmava os interlocutores e os deixava na dúvida sobre a importância que realmente dava às conversas. Era um homem brilhante, com tiradas magníficas, como luminosa era a sua escrita, da crónica ao romance, através da qual mantinha uma espécie de eterna guerrilha virtual com José Saramago, que se lhe terá adiantado no Nobel da Literatura por que visivelmente ansiava, embora o não quisesse admitir. A última vez que falámos foi, já há anos, na tarde de um sábado, na livraria Ler, em Campo de Ourique. Felicitei-o então pelo anúncio de que a Gallimard tinha decidido incluir a sua obra na prestigiada coleção Pléiade, ideia infelizmente ainda não concretizada. Disse-lhe que era uma extraordinária consagração; notei que ele estava compreensivelmente feliz com a notícia. O Nobel veio à nossa conversa, que por ora prefiro guardar. Deixo um abraço de muito pesar aos meus amigos e seus irmãos Miguel e Manuel.

Eles à bulha

Desde que o PSD (ainda PPD) existe, sempre achei muita graça aos seus dissídios internos. Era sempre um gosto ver aquela gente "à bulha", porque pressentia que isso ia ser bom "para nós". Nos dias de hoje, por que será que quase (só quase, claro) sinto pena de Montenegro?

quarta-feira, março 04, 2026

"Olhe que não, olhe que não"


A minha conversa semanal com Jaime Nogueira Pinto, desta vez falando de jornais.

Pode ver clicando aqui.

terça-feira, março 03, 2026

Espanha


A Espanha é dos escassos países europeus cuja atitude, face aos EUA, merece a minha admiração.

Isso é que era!


Pena foi que Portugal nunca tivesse mandado a dona Gertrudes Thomaz a uma reunião da NATO.

segunda-feira, março 02, 2026

"Livros!"


"É proibido ter livros?" retoquiu o estudante a um dos pides que tinham invadido a "república", onde vivia com uma dezena de colegas, e que, de rompante, lhe entrara pelo quarto dentro. 

O homem, à vista de uma estante apinhada de volumes, e desapontado por não ter descortinado nada de suspeito, nessa incursão repressiva que tinha outros alvos, havia soltado um desdenhoso "Livros!"

"Não é proibido, mas é um mau começo", respondeu-lhe o esbirro da António Maria Cardoso.

O fascismo era também isto.

Duas amigas

Regozijo-me ao ver duas amigas, com profissões muito diferentes, assumirem agora posições que representam óbvios passos em frente no seu percurso, como reconhecimento do seu mérito e como oportunidade para porem em prática a experiência entretanto adquirida. 

Falo de Helena Carreiras, eleita reitora do ISCTE, e de Valentina Marcelino, que vai assessorar politicamente o novo ministro da Administração Interna. 

Conheço Helena Carreiras do tempo em que ambos integrámos a direção do Clube de Lisboa e, depois, ao acompanhar e pontualmente colaborar com a sua ação como ministra da Defesa. 

Trabalhei de perto com Valentina Marcelino no MNE, há mais de 30 anos, tendo observado depois, em Londres, o seu percurso na BBC, bem com a sua posterior especialização, como jornalista, na área onde agora vai operar.

A ambas desejo muitas felicidades.

"Da Guerra e da Paz"


Colóquio promovido pela Associação Bento de Jesus Caraça. 

Ver clicando aqui.

sábado, fevereiro 28, 2026

Teste

Quando alguém acha que a necessidade de observância das regras do Direito Internacional depende da simpatia ou da antipatia que um determinado país ou regime lhe merece, fica tudo dito sobre a ética e a moralidade dessa pessoa.

Ah! Pois é!

Em França, nos últimos dias, há uma polémica sobre se uma certa maneira de pronunciar a palavra Epstein tem ou não conotações anti-semitas.

Mas não é isso que aqui me importa.

O que me importa é o facto de nenhum francês ter coragem de confessar (sem se rir) sobre a razão pela qual, no seu país, a palavra Putin tem "ou", um "e" no final e se escreve "Poutine".

"Conta lá"


Tenho uma imensa simpatia pelo canal televisivo "Conta lá". 

Falar sobre o país positivo, sobre gente que se destaca, sobre tarefas e profissões que não andam nas parangonas, sobre localidades que muita gente não conhece, é um grande serviço público. 

Parabéns, "Conta lá".

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Britannia

O PM btitânico Keir Starmer conseguiu há semanas apoio dos seus colegas trabalhistas perante aquela que foi a primeira ameaça interna à sua liderança. A história pode, contudo, não ir ficar por ali, em especial depois da derrota na “by-election” de hoje. Se as eleições municipais de maio lhe correrem mal, Starmer - embora dispondo de uma maioria histórica que ele próprio titulou - pode vir a ter os seus dias contados. 

Pavlov

Há muito que prevalece, em alguma diplomacia e forças armadas portuguesas, a atitude de estar do lado dos americanos, façam eles o que fizerem, porque são "do nosso lado" e "eles lá sabem". Curioso - e significativo - é essa atitude pavloviana persistir mesmo em tempos de Trump.

Irão

O pessoal diplomático americano não essencial em Israel foi aconselhado pelo embaixador a deixar de imediato o país. Isto pode prenunciar estar iminente um ataque americano ao Irão, a que poderia seguir-se uma retaliação iraniana sobre Israel, provavel parceiro nesse ataque.

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

"Da Guerra e da Paz"


Bento de Jesus Caraça morreu poucos meses depois de eu nascer - e eu já nasci há bastante tempo. Foi um cientista que combateu a ditadura salazarista, a quem o fascismo não perdoou e perseguiu. A Associação com o seu nome convidou-me hoje para um colóquio onde, com o professor Pedro Bacelar de Vasconcelos, falei "Da Guerra e da Paz". Com abordagens diferentes, desenvolvemos o tema e fomos depois interpelados pela assistência. Foi uma bela sessão. Amanhã colocarei aqui um link para o que ali se disse, não vá dar-se o caso de haver gente interessada em ler.

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

São todos iguais?


Ontem falei aqui dos cartazes políticos que se eternizam na paisagem. Não expliquei por que razão ninguém reprime isso, com fortes coimas ou retirada compulsiva: porque, da direita à esquerda, todos os agentes políticos são cúmplices dessa prática. Sem exceção, que se conheça.

Lembram-se?


Nos anos 90, Portugal tinha legislação que restringia severamente os cartazes e anúncios comerciais ao longo das autoestradas e estradas nacionais, visando proteger a paisagem, a segurança rodoviária e evitar distrações aos condutores.

O Decreto-Lei n.º 105/98, de 8 de maio, proibiu a afixação ou inscrição de publicidade fora dos aglomerados urbanos em locais visíveis das estradas nacionais. 

A proibição foi revogada pela Lei n.º 34/2015, de 27 de abril (Estatuto das Entidades Públicas Empresariais), que substituiu tais restrições por um regime de licenciamento municipal para publicidade. 
Assim se chegou à selva que atualmente se vive!  

Adivinhem quem tinha maioria na AR, na ocasião em que foi autorizada a bandalheira? Claro! Tinha de ser! 

Conferência de Munique


No "Olhe que não, olhe que não" desta semana, Jaime Nogueira Pinto e eu fazemos um balanço à Conferência de Segurança de Munique.

Pode ver aquihttps://youtu.be/_8M9VotkXLc

terça-feira, fevereiro 24, 2026

"Taberna Albricoque"


Fica mesmo ao lado da entrada para a estação de Santa Apolónia (rua dos Caminhos de Ferro, 98). É uma bela taberna antiga, com uma sala ao fundo imperdível, tudo modernizado para servir de espaço a um restaurante muito criativo, sob a mão segura de Bertílio Gomes, um algarvio cuja cozinha sigo há anos. Iniciou a sua atividade profissional no Hotel da Lapa e encontrei-o em restaurantes como a Bica do Sapato, o Faz Figura, o VírGula (onde fui imensas vezes, chegando a fechar a casa para o grupo do Procópio) e o Chapitô à Mesa. Os preços da casa são bem simpáticos, atenta a qualidade oferecida. O ambiente é muito agradável, nada formal. Nunca de lá saí arrependido.

Para estacionar (quem for comodista tem uma praça de taxis em frente), siga pela avenida Infante Dom Henrique e procure um parque, do lado contrário à estação, na entrada em frente ao Lux. Ao fundo do parque, quase sempre há lugares. Reserve mesa. Eu faço-o pelo TheFork (usem esta app, é muito cómoda), mas podem telefonar (927 559 359 / 218 861 182). Fecha aos domingos e 2ªas.

Serei?


Serei só eu quem pensa que este hábito lusitano de, passadas umas eleições, os cartazes ficarem por ali a apodrecer, sem um mínimo de sensibilidade face à triste poluição da paisagem, é uma mostra de descaso cívico e de medíocre terceiro-mundismo?

Será?


Olhem para as pessoas à vossa volta, nas ruas: será mesmo inevitável esta transformação das nossas sociedades em multidões de pessoas com estas plaquinhas na mão? 

Quando a esmola é grande...


Estou a ficar preocupado com o salto brutal das visitas a este blogue. Falo a sério. Não há nenhuma explicação racional para tanta gente se sentir atraída pelo que aqui publico, em especial depois de ter decidido deixar de aceitar comentários. Como sou um "nabo" informático, temo que esteja em curso alguma golpada tecnológica sobre o blogue. Oxalá esteja enganado. 

Mandelson


O que vou dizer vai soar como corporativo. E é. Mas ouvir insistentemente que o detido Peter Mandelson era "embaixador" (foi-o apenas meia dúzia de meses, de nomeação política, fora da carreira regular), quando antes havia sido lorde, deputado, ministro, comissário europeu, etc, irrita-me.

Julgo que isso se nota no que comecei por dizer à CNN Portugal. Aqui.

Da guerra e da paz

 


segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Jaime Ramos


Há um rumor que circula pelos mentideros: com a saída de Luís Neves da direção da Polícia Judiciária - chamado agora a ministro da Administração Interna - o nome mais falado para o suceder é o do inspetor Jaime Ramos, figura de prestígio na PJ do Porto. Limito-me a relatar o rumor. Não estou a fazer lóbi, acreditem.

Mas quem é, afinal, este homem? Deixo um perfil que li algures e que me parece auto-explicativo: “Jaime Ramos é um investigador especial: preocupa-o a distinção entre lei e justiça; define-se a si mesmo como um biógrafo de vidas desesperadas; discute com as armadilhas da História e com as poderosas endogamias portuguesas; construiu uma relação especial com a cozinha; recorda o seu passado político; como pessimista, é um cómico que enfrenta o sofrimento dos outros. Tudo o interessa, como um erudito; nada o comove aparentemente, como um homem que vive à parte.

Há, porém, uma camada adicional nesta história - e não é uma coincidência menor. Como é sabido, o escritor Francisco José Viegas criou, há mais de três décadas, uma personagem com o mesmo nome: “Jaime Ramos”, também inspetor da Polícia Judiciária, que passeou por muitos dos seus romances. 

Uma situação curiosa, imagino que inédita. Nunca houve um Maigret real no Quai des Orfèvres, em que Simenon se pudesse ter inspirado.

Leitor atento da obra de Viegas, sempre me perseguiu uma dúvida: como viveria o verdadeiro inspetor com a sua figura ficcionada? E decidi conhecê-lo. Não foi simples.

Telefonei a um velho amigo, há muito afastado da Judiciária, sabendo que os dois se haviam cruzado noutros tempos. Quando lhe disse que precisava de ajuda para falar com Jaime Ramos, ele interrompeu-me, alarmado: “O homem da Madeira, amigo do Alberto João?” “Não - o inspetor da Judiciária”, esclareci. Não percebi porquê, ficou logo mais sossegado. Mas não deixou de torcer o nariz - senti-o, ainda que falássemos ao telefone. “É um tipo sério, mas bisonho. Duvido que queira falar contigo. Os diplomatas não devem fazer muito o estilo dele.”

Mas fez. Consegui agendar um encontro com o homem da Judiciária. Como costumo ficar num hotel muito próximo da casa onde vive, perto de Campanhã, sugeri que tomássemos aí o pequeno-almoço. “Mas lá não se fuma, não é?” - e riu-se. Depois, sempre sereno: “Por mim, tudo bem. Mas não sei se lhe vai interessar alguma coisa o que eu lhe possa dizer.”

A hora era matutina. Ele foi mais pontual do que eu, ainda estremunhado por uma noite mal dormida. Reconheci-o no instante - sem nunca o ter visto.

Sentámo-nos nos sofás, junto ao grande vidro que dá para a rua do Heroísmo. Para interromper a minha verborreia explicativa sobre o motivo da conversa - “temos três quartos de hora, não posso ficar mais tempo”, avisou logo -, apontou para um bar do outro lado da rua. “Estragaram aquela casa, o Nova Sintra. Vinha ali muito. Nunca me pediam para apagar o charuto.” E sorriu.

Disse-lhe ao que vinha: era para mim muito interessante que ele, o verdadeiro inspetor Jaime Ramos, fosse a sombra da figura que o escritor fazia passear pelos seus romances. Como convivia com esse facto? Era um caso inédito, curiosamente pouco conhecido no mundo literário português.

Jaime Ramos ouvia-me sem me fixar. Olhava à distância, parecendo atento à algaraviada de um grupo de turistas espanhóis, com crianças irrequietas esparramadas pelas alcatifas do hotel. 

Depois, subitamente, falou, com uma franqueza que me desarmou: “Nós não nos conhecemos e hesitei antes de termos esta conversa. Só o nosso comum amigo me convenceu. Mas já que teve a amabilidade de querer ter este encontro, vou ser tão franco consigo quanto posso.”

Fiquei estupefacto. Não estava à espera de uma qualquer confissão intimista. Dei comigo a pensar que isso estava nos antípodas do recorte psicológico da personagem que conhecia dos romances. Mas, caramba!, tinha de entender que ele era outra pessoa. E se este Jaime Ramos, o verdadeiro, tivesse afinal muito pouco a ver com aquele que o escritor nos vendia? Talvez o Francisco tivesse tido optado por não os "fundir".

“É amigo do Viegas?”, perguntou. Percebi que algum distanciamento me faria ganhar terreno. “Sou, mas não somos íntimos. Encontrámo-nos aqui ou ali, às vezes na praia…”

Voltou a olhar à distância - desta vez para a fila de carros parada até ao semáforo da esquina, logo depois da Cozinha do Manel, onde o Zé António me tinha reservado mesa para a uma. Não me fixava. Senti-o como que triste ou só nostálgico.

“Foram muitos anos. Conhecemo-nos no Bonaparte, na Foz, quando o Viegas andava a matutar no livro sobre o futebolista. Leu? "A Morte no Estádio". (Eu conhecia, claro). Perguntou-me então se podia usar o meu nome e a minha vida para desenhar a personagem que estava a criar. Achei graça e, quase sem pensar, disse que sim. Depois foi o que se viu. Ao longo do tempo, ele tentou falar-me várias vezes. Mas eu não quis. Ele ia sabendo coisas de mim por outros. E eu lia o meu nome nos romances.”

Fez uma pausa longa, na barulheira do hotel. “Ao contrário do que se possa julgar, isto não tem sido fácil. E gostava que soubesse que não me ajudou nada na profissão.”

Pareceu-me genuíno na melancolia que transpirava das palavras. Senti alguma pena. Levantou-se. Nem um quarto de hora tinha passado. Fomos andando em silêncio, até às escadas que dão para a rua. Confundido, um pouco baralhado, arrisquei uma última pergunta: “Mas, depois de todo este sucesso à volta do seu nome - está arrependido?”

“Pergunta bem. Não lhe sei responder.”

Logo saberemos. Se a ministra da Justiça vier a dar ao inspetor Jaime Ramos o lugar a que merecidamente tem direito, lá estarei na posse. Espero que Francisco José Viegas também não falte. Prometo que os reconcilio.

domingo, fevereiro 22, 2026

Nuremberga



Ontem apeteceu-me ver o filme "Nuremberga". Os atores eram de qualidade, o tema apelativo. O saldo, porém, ficou aquém do esperado. A combinação de diferentes registos fílmicos, sob uma trama centrada na relação entre um psiquiatra militar americano e Goering, não me pareceu resultar — mas pode ser dos meus olhos.

O aspeto mais curioso do filme residia logo no seu ponto de partida: o caráter inédito do tribunal internacional ad hoc criado em Nuremberga, em 1945-46. A cidade alemã onde o regime de Hitler encenara alguns dos seus grandes momentos coreográficos e propagandísticos tornou-se o palco de uma decisão histórica: em vez de liquidar de imediato os vinte e tal facínoras nazis, pelos hediondos crimes cometidos, os aliados optaram por sentá-los no banco dos réus. Alguns foram depois enforcados, outros receberam penas menos capitais.

Nuremberga inaugurou a justiça internacional para crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes contra a paz. Décadas mais tarde, o mesmo modelo inspirou os tribunais ad hoc para a ex-Jugoslávia (1993) e para o Ruanda (1994). Em 2002, dando corpo a uma justiça internacional permanente e mais estruturada, foi instituído o Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede na Haia - do qual alguns dos mais poderosos Estados do mundo se recusaram a fazer parte, entre eles os EUA, a Rússia e a China.

A razão dessa ausência sintomática parece-me óbvia, a menos que inventem outra mais plausível: esses Estados não conseguem garantir que os seus cidadãos não venham a estar envolvidos em crimes de guerra e crimes contra a humanidade, preferindo subtrair-se à responsabilidade internacional daí decorrente. 

Figuras do calibre ético de Putin - indiciado pela deportação ilegal de crianças ucranianas - ou de Netanyahu - indiciado por crimes de guerra em Gaza - têm mandados de captura emitidos pelo TPI. Seria muito interessante, ainda que pouco plausível, vê-los algum dia no banco dos réus.

Mas regressemos a Nuremberga. Por causa desse tribunal, tive curiosidade de ir visitar a cidade numa das primeiras viagens que fiz à Alemanha, logo no início dos anos 70. O episódio do julgamento sempre me fascinou.

A Segunda Guerra Mundial tinha uma presença forte nas estantes lá de casa, em Vila Real, onde vivia com os meus pais e os avós maternos. A "História Secreta da Guerra", romances de Hans Hellmut Kirst e Erich Maria Remarque - entre outras obras que só vim a ler anos mais tarde - faziam parte da paisagem da nossa sala de estar. Um tio que vivia em Lisboa municiava literariamente aquela casa, onde as conversas sobre a última guerra europeia eram frequentes. As Seleções do Reader’s Digest ajudavam a prolongar, nas décadas seguintes ao conflito, a memória desse tempo trágico.

A minha família era aliadófila e bastante ambivalente na apreciação dos alemães pós-nazis: o facto de terem estado na origem de duas guerras recomendava alguma cautela. Churchill e a resistência britânica eram muito respeitados, havia algum fascínio pelos americanos e um apreço nítido por De Gaulle, de quem o meu pai era o admirador mais fervoroso. A heroicidade da resistência soviética terá sido reconhecida, mas a admiração ter-se-á diluído com a invasão da Hungria, e quase desapareceu com o Muro de Berlim.

Embora tenha boa memória, nunca consegui reconstituir com rigor o meu percurso de leituras, sobretudo da infância para a adolescência. Lembro-me bem, porém, de que, com quinze anos, fui passar uma semana de férias a casa de umas tias, nas Pedras Salgadas - e levei comigo "O Julgamento de Nuremberga", cuja edição portuguesa era então bastante recente. O livro estava repleto de fotografias, e eu alternava a leitura com frequentes idas a essas imagens, como se, pela observação repetida das caras, pudesse ir desenhando os retratos psicológicos daquelas figuras - cujos nomes passei a saber de cor. 

Não faço ideia se o livro era bom ou mau. Para mim, naquele verão, foi uma leitura fascinante. Há tempos, doei o livro ao fundo bibliográfico com o meu nome, na Biblioteca Municipal de Vila Real. Mas não vou ousar pedi-lo de volta para reler, com medo de uma desilusão retrospetiva.

sábado, fevereiro 21, 2026

O novo esperanto


Anda por aí uma polémica sobre o lugar da língua inglesa nas universidades portuguesas. Não vou entrar nela - em especial no que toca à questão da designação das escolas de economia e gestão. Neste debate, sinto que há, por vezes, um certo deslumbre provinciano, travestido de elitismo snobe. Mas existe também uma realidade incontornável, da qual me fui apercebendo ao longo dos anos: as universidades portuguesas não conseguem atrair alunos estrangeiros - que em alguns casos são essenciais à sua própria sobrevivência - se não ministrarem grande parte dos cursos em inglês. Tão simples como isto. Tem inconvenientes? Claro. Mas é a vida.

O inglês “ganhou a guerra”, como os orgulhosos franceses acabaram por aprender melhor do que ninguém. Tornou-se o esperanto das relações internacionais, além de ser a verdadeira língua dos negócios. Há por aí tanta coisa escrita sobre o assunto que me dispenso de sublinhar o óbvio. Prefiro contar uma história pessoal.

Desde que me aposentei, em 2013, tenho colaborado com empresas portuguesas que operam no mercado internacional. Com exceção de uma delas - e apenas por alguns anos -, em todas as restantes os documentos de trabalho são redigidos exclusivamente em inglês. É essa a língua comum aos administradores de diversas nacionalidades, e é também essa a língua do léxico técnico partilhado pelas consultoras internacionais com que as empresas inevitavelmente trabalham. 

Há termos e expressões da gestão de que naturalmente se conhecem os equivalentes em língua portuguesa, mas que simplesmente deixaram de se usar. Por isso, para um ouvinte exterior, uma conversa empresarial, mesmo entre portugueses, pode muitas vezes estar recheada de expressões britânicas: "Para entregarmos o Ebitda e o Ebit em linha com o guidance ao mercado, temos de manter o Capex disciplinado, assegurar um cash flow robusto, atingir o break-even nos novos projetos, proteger a margem e garantir que o Roic acompanha o crescimento do top line". Construí esta frase com algum excesso de linguagem "cifrada", mas muitas vezes este é registo normal de gente que cruzamos em reuniões de empresas. Embora ande a trabalhar nisto há mais de 13 anos, confesso, aqui entre nós que ninguém nos ouve, que ainda há coisas que às vezes me escapam...

A história que quero aqui deixar é ainda sobre o uso do inglês em ambiente empresarial e passou-se numa reunião da administração de uma das maiores multinacionais portuguesas.

À volta da mesa, em Lisboa, estavam reunidas pouco mais de uma dezena de pessoas. Num videowall, participavam, à distância, alguns em outros continentes, cidadãos de várias nacionalidades - um ou outro seria administrador da empresa, mas eram sobretudo diretores regionais que iam sendo chamados ao debate, conforme os pontos da agenda. Os documentos e gráficos que todos tínhamos nos nossos iPad eram exclusivamente em inglês. As intervenções, sem exceção, também.

A certa altura, por uma rara coincidência, todos os participantes estrangeiros tinham deixado de participar na reunião, mesmo aqueles que estavam à distância. Só ficámos portugueses. Eu era então um dos membros mais recentes e estava ainda com um olhar algo exterior aos hábitos da casa. Talvez por isso, terei sido o único a aperceber-me de que todos continuámos - creio que por mais de uma hora - a intervir exclusivamente em inglês. Podíamos ter mudado para português? Sim, mas iria ser uma imensa e insensata confusão referirmo-nos, em português, a assuntos que estavam em textos escritos apenas em inglês. A menos que todos passássemos àquele linguagem mesclada que caricaturei atrás.

Lembro-me bem do momento em que a pessoa que presidia à reunião quebrou o fluxo da conversa em inglês e disse, em bom português: “Bom, parece que concluímos a nossa agenda. Até à nossa próxima reunião!” 

E lá saímos, à conversa, comigo a contar a alguém, imagino, alguma anedota ou historieta divertida no elevador. Daquelas que só têm graça ditas em português.

The Doctrine of Preemptive Subordination

Donald Trump once brought into existence something he called the Board of Peace, initially centred on his proposal for a final solution for the Palestinian question. To that end, he assembled a handful of partners, each of whom wrote a generous cheque to purchase his goodwill — and promptly announced to the world yet another “peace” of his making, another step toward a future Nobel Prize. The group featured some profoundly dubious figures, though that alone would hardly distinguish it from the ethical standard set by its own architect.

The project envisioned transforming a deliberately razed territory into a Riviera of warm waters on the eastern Mediterranean. As a tourist venture, it was not without a certain vision. It had, however, one irritant — as the euphemism now goes: the land happened to be inhabited by a population that had lived there for centuries. The area’s population density ranked among the highest on earth. It should be noted, in fairness, that Israel’s meticulous policy of intensive Palestinian liquidation — in Gaza and the West Bank alike — pursued as a disproportionate response to the terrorist attack it suffered, had been doing its part to ease that demographic inconvenience.

The arrival of Trump 2.0 left the world disoriented, and Europe most of all — a continent whose posture toward the Israeli-Palestinian conflict had long been a showcase of impotence and moral cowardice. Having assumed collective guilt for the extreme-right Nazi genocide, Europeans adopted a studied timidity, unwilling to challenge Israel for fear of being branded antisemitic — a label wielded as a cudgel against anyone who dares question the exceptionalism of the Jewish state. With successive American administrations of every political stripe held captive by domestic lobby pressure, Europe chose early on to simply defer to Washington.

The Board of Peace has since evolved, in keeping with Washington’s rhetorical momentum, into an institution ostensibly dedicated to performing the miracle of global peace under the self-appointed leadership of Donald Trump himself — whose else? On the margins of Davos, the American president staged a diplomatic show, casting about for the most accommodating partners he could find.

For once, Europe hesitated. Stung by the tariff offensive and the brazen claims over Greenland, the European Union initially kept its distance from Trump’s project. But necessity has a way of bending the will, and in the end, with the classical logic that accommodates power over principle, ethics was quietly filed away. The Union discreetly let it be known that it would participate as an “observer” of the Peace Council.

For anyone possessing even a rudimentary literacy in international relations, the Board of Peace is nothing more or less than a body plainly designed to supplant the United Nations in practice, if not yet in name. Trump intends to impose his own architecture on the world order and delegitimise a global organisation that, without imperial supervision, has served as a meaningful platform of representation for 193 countries. It’s true that the UN is facing a stalemate—especially when the permanent members of its Security Council, notably the United States and Russia, treat it à la carte. But it is what we have, and it bears remembering that there is far more to the United Nations than its Security Council.

In all of this, where is Portugal? A familiar pattern repeats itself. Our country—whatever America may be—remains bound to a simple posture: never to take a stance that might risk displeasing Washington. It’s not even about confronting the United States; it’s about trying to guess how America might react—if it even noticed our existence—should we dare to think for ourselves, in any way even mildly dissonant with the “American friend.” One could call it the doctrine of preventive subordination. 

It is not new. In 2003, Portugal hosted at Lajes the summit that sealed the invasion of Iraq — a press conference that entered history as an infamous monument to Western servility. The host was the Portuguese government of the day. The UN had been bypassed; international law ignored. And Portugal proudly provided the stage for that violation, in the illusion that diplomatic visibility might compensate for the abandonment of principle. History has not been generous in its verdict.

More than twenty years on, Portugal has now announced that it too — alongside a handful of European states — will serve as an “observer” of Trump’s Peace Council. For a moment, I harboured the naïve hope that Lisbon might, out of some minimal sense of dignity, have recalled that the Secretary-General of the United Nations — the organisation Trump so openly demonises — is himself Portuguese. But no. The neck bent once more. Following the embarrassment of Portugal’s conduct in the Venezuela affair, Portuguese foreign policy has revealed, under this government, what it truly is — or rather, that it does not exist at all, and amounts to nothing more than an art of evasion and a servile deference to Washington.

At Lajes, there was at least the excuse of naivety. Today, there is none.​​​​​​​​​​​​​​​​

Francisco Seixas da Costa
Portuguese ambassador

(The original version of this text was published in the Portuguese daily newspaper "Publico", 21.02.2026, https://www.publico.pt/2026/02/21/mundo/opiniao/doutrina-subordinacao-preventiva-2165444 )

A doutrina da subordinação preventiva


Donald Trump inventou um dia aquilo a que chamou o Conselho da Paz, inicialmente centrado na sua proposta para uma solução final da questão palestina. Para tal, juntou uns quantos parceiros, cada um dos quais passou um gordo cheque para ganhar a sua boa vontade. E logo anunciou ao mundo ter feito mais uma "paz", a caminho de um futuro Nobel. O grupo tinha gente pouco recomendável, mas não seria isso que o iria distinguir do nível ético do seu promotor.

O projeto era transformar uma área deliberadamente arrasada numa Riviera de águas tépidas, a leste do Mediterrâneo. Como projeto turístico, era uma excelente ideia. Tinha, porém, um irritante, como agora se diz: havia por lá uma população que habitava aquela terra, desde há séculos. A densidade populacional da área era mesmo das maiores do mundo. Verdade seja que Israel, com uma meticulosa política de liquidação intensiva dos palestinos, por ali e na Cisjordânia, como retribuição desproporcionada pelo ataque terrorista que sofrera, vinha ajudando a atenuar o tarefa. 

A chegada de Trump 2.0 atordoou o mundo, desde logo a Europa, cuja atitude face ao conflito israelo-palestino era, desde há muito, uma montra de impotência e cobardia. Assumindo como se fosse sua a culpa da genocida extrema-direita nazi, os europeus haviam adotado a tibieza de não ousar enfrentar Israel, temerosos do labéu do anti-semitismo, ferrete usado contra quem questiona a excecionalidade do Estado judaico. Com as administrações americanas, de qualquer cor política, de mãos atadas face à pressão do seu lóbi interno, a Europa cedo optou por se subordinar a Washington. 

O Conselho da Paz evoluiu entretanto, na dinâmica retórica de Washington, para uma instituição vocacionada para operar o milagre da paz pelo mundo, sob a liderança auto-nomeada do próprio Donald Trump - de quem havia de ser? À margem do encontro de Davos, o presidente americano montou um show diplomático para o qual procurou carrear os parceiros mais complacentes. 

Por uma vez, a Europa hesitou. Com a agressão das taxas alfandegárias e o desplante das ambições sobre a Gronelândia, a União Europeia, um tanto ofendida, distanciou-se inicialmente do projeto de Trump. Mas o que tem de ser tem muita força e, com o tempo, num lógica clássica da flexibilidade da vontade perante os poderes fáticos, a ética foi colocada na gaveta. Discretamente, a União informou ir ser "observadora" do Conselho da Paz. 

O Conselho da Paz, para quem tenha um mínimo de literacia em relações internacionais, é nada mais nada menos do que um órgão com a intenção óbvia de vir a substituir-se, no plano dos factos, às Nações Unidas. Trump pretende impor a sua estrutura ao mundo e desqualificar uma organização global que, sem tutelas imperiais, tem servido de plataforma de representação útil para 193 países. A ONU atravessa um impasse, é certo, desde logo quando os membros permanentes do seu Conselho de Segurança, a começar pelos Estados Unidos e a Rússia, a utilizam à la carte. Mas é o que temos e importa notar que há muito mais Nações Unidas para além do seu Conselho de Segurança. 

Em tudo isto, por onde anda Portugal? Há um padrão que se repete. O nosso país, seja a América o que ela for, vive subordinado a uma postura simples: nunca se colocar numa posição que suspeite poder desagradar a Washington. Não é sequer afrontar os EUA; é tentar adivinhar como reagiria a América, se acaso suspeitasse que existimos, caso ousássemos pensar pela nossa própria cabeça, de forma minimamente dissonante com o “amigo americano”. É o que se pode chamar a doutrina da subordinação preventiva. 

Não é de hoje. Em 2003, Portugal acolheu nas Lajes a cimeira que selou a invasão do Iraque, numa conferência de imprensa que ficou para a história infamous da subserviência ocidental. O anfitrião era o governo português de então. A ONU tinha sido ultrapassada, o direito internacional ignorado. E Portugal, orgulhosamente, ofereceu palco a esse atropelo, na ilusão de que a visibilidade diplomática compensaria a abdicação de princípios. A História não foi generosa nessa apreciação. 

Passados mais de vinte anos, Portugal anunciou agora que, tal como alguns escassos países europeus, vai ser "observador" do Conselho da Paz de Trump. Por um segundo, tinha tido a ingénua esperança de que, por um mínimo de dignidade, Lisboa se tivesse lembrado de que é português o secretário-geral da ONU - a organização que Trump abertamente diaboliza. Mas não. A cerviz dobrou de novo e, depois do vexame que foi a atitude portuguesa no caso da Venezuela, a política externa portuguesa revelou, com este governo, o que é - ou melhor, que não existe, que se resume a um fugir por entre as pingas e a um seguidismo subserviente face a Washington. 

Nas Lajes, pelo menos, havia a desculpa da ingenuidade. Hoje, não há.

Finalmente!

Uma bela escolha para a Administração Interna. Até que enfim que sinto vontade de elogiar uma escolha de Luís Montenegro.

"A doutrina da subordinação preventiva"


A propósito da anunciada intenção do governo de vir a colocar Portugal como "observador" do Conselho para a Paz, de Donald Trump, escrevo no Público deste sábado um artigo intitulado "A doutrina da subordinação preventiva".  

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Embaixadores políticos


A propósito da anunciada nomeação de Rui Moreira para embaixador junto da OCDE, deixo aqui este estudo de 2019, que fiz para a revista JANUS.

O algoritmo humano


Passei umas horas a ouvir falar de algoritmos, pela boca de quem sabe do assunto, em especial da sua utilização pela Inteligência Artificial e do que daí pode decorrer. É um mundo fascinante, que já aí está a marcar-nos todos os instantes, com o qual temos de aprender a viver. 

Um dos efeitos mais vulgares dos algoritmos é a experiência que todos já tivemos de nos ser sugerida a aquisição de produtos ou serviços, à luz daquilo que adquirimos no passado. Tenho essa prática, com regularidade, nas compras de livros que faço na Amazon, onde "eles" já sabem das minhas tendências e procuram mostrar-me aquilo em que presumem que eu possa estar interessado. E algumas vezes estou.

Mas há "algoritmos humanos". Eu explico. Um dia, no Brasil, entrei numa livraria Saraiva, um cadeia que desapareceu já há uns anos. Como acontece no comércio naquele país, quando entramos numa loja "cola-se-nos" frequentemente um empregado, que procura saber o nosso nome e tenta ser útil, embora em regra só consiga ser chato. A ideia parece ser de que uma eventual compra da nossa parte lhe possa vir a ser atribuída, para seu crédito profissional. Nada de novo. No meu caso, por regra, enxoto-os com a possível delicadeza.

Nesse dia, como é meu hábito, cirandei por todo o espaço da loja, até que me fixei numa mesa ou numa estante, da qual fui avaliando alguns livros. A certo passo, o meu "seguidor" aproximou-se com um livro na mão e perguntou: "Já viu este livro?" Já não sei que obra era, mas disse-lhe que não estava interessado. Minutos depois, apareceu-me com outro livro, que também não me despertava a atenção. Comecei a ficar intrigado e perguntei: "Por que é que me está a mostrar esses livros?" 

Aquele homem, recordo bem, era uma pessoa muito simples, que manifestamente não fazia a menor ideia do conteúdo dos livros que por ali estavam. O belo tempo dos livreiros conhecedores, que nos ajudam a descobrir obras que nos interessam, já não abençoava aquelas lojas de massificação de papel. 

E foi então que me explicou, em voz baixa, que fora instruído a seguir o cliente, a observar as mesas em que este mais se concentrava e, a partir daí, a propor-lhe os últimos livros dessas áreas temáticas que tivessem chegado à livraria. 

Eu imagino que devia andar pelos "current issues", pelas memórias, pela política e pela história - é esse o meu habitual "fond de commerce" - e o homem tinha tentado impingir-me coisas que achava deverem corresponder ao meu perfil de comprador. Não teve sorte. 

O algoritmo da Amazon é bom, bem melhor do que aquele empregado da Saraiva, mas eu continuo a preferir os bons livreiros.

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Júlio Isidro


Não sou íntimo de Júlio Isidro, longe disso!, mas conheço-o desde sempre. Da televisão pré-Abril, claro, onde me recordo de o ver fardado e em programas de aeromodelismo, até ao Rádio Clube Português, na Sampaio e Pina, onde conversámos nas noites "sem sono" de 1974. Bebemos depois copos com amigos comuns num bar da Infante Santo e estivemos na primeira Festa do Avante, na FIL, também nesses outros belos tempos. E, pelos anos adiante, fomo-nos cruzando, pelos acasos da sorte, aqui e ali, como aconteceu na Avenida da Liberdade, no dia em que, ambos de cravo ao peito, comemorávamos os 50 anos dela.

Júlio Isidro acompanhou, do outro lado do écran, toda a minha vida. Um pouco como acontece com Sérgio Godinho e, com uns anos de diferença, com Herman José. Tudo gente que mal conheço mas que conheço muito bem, "de toda a vida", como dizem na Linha ou na minha vizinhança da Lapa. O sorriso de Júlio Isidro, a sua simpatia e facilidade de comunicação transformaram-no num "compagnon de route" da minha geração. Ele esteve sempre ali.

Leio que Júlio Isidro vai deixar a RTP. Não sei o que será uma RTP sem ele. Embora Júlio Isidro pareça ser alguém que nunca se cansa, a verdade é que ele também tem direito ao descanso.

Por tudo, obrigado, Júlio Isidro! Até sempre!

Bom nome?

Acho lindamente que os dirigentes dos clubes de futebol se insultem entre si, que "cortem relações" com a imprensa e coisas assim. Contudo, podiam evitar uma expressão que roça sempre o ridículo: dizerem que foi atacado o seu "bom nome". Bom nome?!

terça-feira, fevereiro 17, 2026

À mesa no Alentejo

Começo por um "disclaimer": o que vão ler está longe de ser uma crónica gastronómica. Trata-se apenas de notas despretensiosas sobre algumas "escassas" refeições, em restaurantes, num fim de semana alargado no Alentejo, aproveitando o Carnaval e a "aberta" climática.


A jornada começou por aquela que se converteu numa das grandes mesas de Estremoz: a Mercearia do Gadanha. Prémio "Maria de Lurdes Modesto" 2024, de cozinha tradicional portuguesa, da Academia Portuguesa de Gastronomia, esta casa mantem, há vários anos, uma notável constância de qualidade. A sua lista é soberba. A relação satisfação/preço é excelente. Volto lá sempre que posso.


Um almoço menos exigente, com simpatia no atendimento e a oferta sempre muito honesta para o preço praticado, foi-nos proporcionada na Cadeia Quinhentista, ao lado da Pousada Rainha Santa Isabel.  Sejamos justos: o bacalhau dourado da Cadeia, que tem a tradição da Pousada de Elvas por detrás, estava muito bom. E do resto também nos não queixamos. À saída, foi com pena que olhei as portas e janelas fechadas do saudoso restaurante São Rosas


A marca Gadanha expandiu-se para outro espaço da cidade, a Casa Gadanha, num modelo diferente da casa mãe, mais "produzido", com opções de degustação na lógica da moda dos "momentos", com ou sem "harmonização" etílica. O serviço tem a "secura" tradicional do modelo escolhido, embora sem chegar ao "casual arrogant" de alguns espaços lisboetas (e não só) análogos. Comeu-se muito bem, com pratos excelentemente apresentados (deixo acima uma imagem). O ambiente é um pouco frio, "clean". O meu teste habitual é este: volto? Volto.

Para chegar ao Tintos e Petiscos, indo de Estremoz, são trinta e tal quilómetros até Vaiamonte. Comecei por conhecer a casa num outro espaço, já num outro tempo. A qualidade da oferta, numa lista 100% alentejana, foi sempre boa. Vale a pena ir à arrecadação para escolher os vinhos, embora em regra nada baratos. Fui por um Douro, ainda a preço razoável. Saímos satisfeitos, como sempre por ali tem acontecido.


De regresso a Estremoz, a noite estava animada no magnífico espaço do Howard's Folly, no sábado de Carnaval e "Valentine's day". Além de restaurante num espaço ao lado, é também um local para um copo, em ambiente simpático, com música ambiente. Casa conhecida por vinhos próprios muito bons, a decoração do seu espaço é muito interessante. A comida, sem ser um espanto, também o é.

Deixámos Estremoz sem rever o restaurante da Pousada (só dá jantares), bem como o surpreendente Larau e, uma vez mais, sem testar como se comporta a velha Adega do Isaías, desde há uns tempos com nova gerência. E sem repetir o Alecrim, uma aposta de difícil afirmação numa terra com tão boa oferta. As obras no Águias de Ouro continuam.


Vila Fernando não fica à mão de semear, mas raramente passo por aquela zona do Alentejo sem dar uma saltada à Taberna do Adro. As mesas são muito poucas no espaço da dona Maria José, mas a sua simpatia "vaut le détour", para utilizar o termo clássico do Michelin "vert". Os petiscos, anunciados na carta forrada a pano, fazem o resto, que é muito. Preço sempre em conta. Volto sempre.

Embora Estremoz seja, cada vez mais, "um caso sério" da gastronomia no Alentejo, Évora é a grande "Meca". 


Na imensidão da oferta eborense, andava há uns tempos com curiosidade de ir à Enoteca Cartuxa, junto ao Templo de Diana e à Pousada local. A experiência, sem ser esmagadora, foi bem simpática. Fez-se várias partilhas e estava tudo bastante bom. O serviço era muito agradável. É uma bela opção, quando se não pretende fazer uma refeição pesada.


Idêntica fórmula se seguiu, no almoço seguinte, no clássico Café Arcada, na Praça do Giraldo, agora renovado com uma estética quiçá discutível. As empadas estavam magníficas.


Fechou-se Évora com um sólido jantar no Luar de Janeiro: sempre muito bom, consistente, quase sem falhas. O serviço foi eficaz e bem divertido. Este espaço do Luar é bem melhor do que o que anteriormente ocupava, na mesma rua "larga".

Quando estou em Évora, arrependo-me sempre de não regressar à Tasquinha do Oliveira, ao Dom Joaquim, ao Moinho do Cu Torto, ao Origens, ao Tua Madre, ao Quarta-Feira - e sei lá a quantos outros excelentes lugares que por lá há, para além dos que se criaram fama e se deitaram na cama. 


Fechámos hoje a expedição carnavalesca com uma casa simples, já a caminho de Lisboa, em Santiago do Escoural. "Foste o Manuel Azinheirinha?", perguntará um expert das mesas alentejanas. Não. Foi uma alternativa mais singela, o Rabino's, onde a jornada terminou de forma simpática, com o dono da casa diligentemente a guiar-nos pela lista que mostro acima, num espaço que ganharia em ser um pouco "confortabilizado". Mas valeu a pena! 

De regresso a Lisboa, há agora que fazer uma semana mais espartana, para compensar os exageros de um belo tempo de Carnaval alentejano. E vou passar esta minha renovada lista de restaurantes ao meu médico de clínica geral, que tem gostos similares aos meus (se não fosse assim eu não o tinha escolhido).

Será?

Em França, o Rassemblement National é qualificado como sendo de "extrema-direita", com toda a naturalidade, por parte da imprensa....