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segunda-feira, janeiro 26, 2026

Um cheirinho de goibada


Ficará para a ciência política, com a distância do tempo, refletir um dia sobre as razões pelas quais um eleitorado que tinha dado uma maioria absoluta ao Partido Socialista alterou, num prazo que foi curto, o sentido do seu voto e veio a entregar o poder a uma direita sem um especial carisma. 

Pelo meio, claro, ficaram algumas trapalhadas, bastantes erros e o dedo não inocente de certas instituições. Mas isso não justifica tudo e são contas de outro rosário. 

Para o que aqui nos interessa, a reversão radical da vontade popular foi profunda. E foi assim que, embora sem uma força expressiva, a direita chegou a S. Bento. 

O Partido Socialista ficou isolado, tanto mais que as forças à sua esquerda acentuaram a sua própria irrelevância. Também a nova liderança do PSD logo cuidou em marcar distância, entendendo qualquer aproximação ao PS como tóxica para a nova correlação de forças. Com a extrema-direita e a direita radical-liberal a ajudarem à festa, os socialistas perceberam que estavam em pousio político. E, claro, vão confiando, como Camões dizia, que "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir". 

Entretanto, o país virou à direita. Para esse hemisfério político, ajudado por alguma comunicação social complacente, que cavalga as audiências, as perceções e o culto do escândalo, a culpa do estado das coisas é, claro, o "socialismo". 

O "socialismo" é tudo: é Sócrates e os cifrões, é Costa e o lugar europeu, é Pedro Nuno Santos e as viúvas da Geringonça, até chegar a José Luís Carneiro, sobre o qual o dossiê de culpas ainda é magro, mas, com tempo, lá iremos. Pelo meio, surge ainda a memória de Mário Soares, o tal que "entregou o Ultramar", e de Sampaio, culpado por ter enviado Santana Lopes a banhos para o areal da Figueira. E outros, vivos ou mortos, porque "se não foste tu foi o teu pai". 

Acuados pelo crescente horror público ao conceito, alguns socialistas logo se refugiaram no rótulo de sociais-democratas, último abrigo semântico até que a tempestade passe. (É o equivalente ao centro-direita, do outro lado do espetro). Mas isso não os livra de continuarem encharcados pela tempestade diabolizante. Hoje existe mesmo um grande país contra o "socialismo", não vale a pena esconder - e só o facto de eu ter usado aspas é a prova de que muita coisa mudou. 


O caminho para Belém 

Estas presidenciais vão ser um belo barómetro. 

Perante o óbvio "embarras du choix" dentro do Partido Socialista, António José Seguro avançou. Muitos socialistas de carteirinha franziram o sobrolho. Outros suspiraram de alívio: graças a Seguro, e só a ele, o PS, sem precisar de avançar com ninguém, tinha na liça um seu nome. 

Curiosamente, era alguém que nada tinha ver com a liderança da última década, muito menos com o socratismo, cujo grupo parlamentar, que herdara em 2011, quando lhe caiu nos braços um partido em frangalhos, lhe infernizara a chefia. Seguro foi acusado, por alguns setores do PS, de ter sido complacente com a direita que se tinha coligado com a Troika. Como se acaso tivesse sido ele quem assinou o "memorando de entendimento", que recebera como presente envenenado. (Não, não me venham com o PEC IV!). 

No mundo dos socialistas sem aspas, Seguro é um social-democrata. Muita direita decente percebeu isso, no instante após a primeira volta presidencial, não hesitando em nele recomendar o voto. Só uma direita trauliteira e mentirosa, que parte do princípio de que vivemos num país de imbecis, é que tem o desplante e a falta de decoro de o acusar de radicalismo, de estar preso a rabos de palha ideológicos, de ser uma espécie de "cavalo de Tróia" dos "socialistas" - e aqui voltam as aspas. 


E o Brasil? 

Por esta altura, o leitor deve estar a estranhar o título que dei a este texto. A explicação é simples. 

No Brasil de hoje, o ministro das Finanças chama-se Fernando Haddad. Tinha sido um excelente ministro da Educação de Lula, depois de uma carreira académica prestigiada. Em 2018, Haddad foi escolhido pelo PT para seu candidato presidencial. Lula estava preso, o Brasil vivia em polarização política extrema. 

A direita brasileira não tinha conseguido produzir um candidato que, simultaneamente, tivesse uma "ficha limpa" no plano ético e fosse mobilizador. E foi então que, das catacumbas dos saudosos da sinistra ditadura militar, surgiu uma figura primária, com um discurso populista, uma caricatura do pior que a direita brasileira conseguira decantar. 

E, de um dia para o outro, mais de metade do Brasil se entregou nas mãos de um demagogo incompetente, negacionista face à pandemia, que se aliou a setores militares para um golpe que lhe assegurasse o poder, depois de Lula o ter recuperado nas urnas. O mundo riu-se do ridículo da escolha do Brasil, mas foram os brasileiros quem a teve de suportar. 

Nem Ventura é Bolsonaro, nem Seguro é Haddad. Contudo, e uma vez mais, com alguns a colocarem-se numa "neutralidade colaborante", a acusar o "socialismo" (voltam as aspas) e o perigo do seu regresso montado nessa perigosa figura que é Seguro, subsiste o risco da insanidade poder levar o país a uma tragédia. 

Em tempos de chumbo, Chico Buarque pedia "um cheirinho de alecrim", levado de Portugal. O dias de hoje são menos sombrios, mas nunca fiando. Por isso, do Brasil que, pelo voto, conseguiu esconjurar a ameaça da extrema-direita, apetece-me receber um cheirinho de goiabada.

(Artigo hoje publicado na edição on-line do jornal "Expresso")

domingo, janeiro 25, 2026

Ambiguidade

Corre por aí um modelo para ninguém perder a face na questão da Gronelândia. 

Os EUA obteriam a propriedade das bases no território, o qual manteria o seu estatuto perante a Dinamarca. 

Trump diria que "adquiriu" território, Copenhague preservaria o essencial do "status quo". 

Chama-se a isto ambiguidade diplomática. Será possível?

Seguro, Rushdie e eu


Um dia de julho de 1993, na embaixada de Portugal em Londres, recebi um telefonema de António José Seguro. Não o conhecia pessoalmente, apenas sabia que era o líder da Juventude Socialista.

Seguro queria falar com o embaixador António Vaz Pereira. Expliquei-lhe que, estando ele em férias, era eu, como ministro conselheiro, quem chefiava a embaixada.

Explicou-me estava a organizar a vinda a Portugal de Salmon Rushdie, o escritor que, ao publicar o livro "Versos Satânicos", provocara, anos antes, a ira do fundamentalismo religioso iraniano, que sobre ele decretara uma "fatwa", uma decisão que estimulava os muçulmanos shiitas radicais a ajudarem à sua liquidação, onde quer que ele estivesse. Vivia sob ameaças constantes de morte, sob proteção policial, viajando frequentemente sob nome falso.

Seguro disse-me que a Juventude Socialista estava a organizar, no Porto, um congresso mundial das Juventudes Socialistas, sendo Rushdie o seu convidado principal. A temática da liberdade de expressão e criação estaria no centro do congresso. O próprio presidente da República, Mário Soares, ir-se-ia encontrar aí com Rushdie.

O acolhimento e a segurança de Rushdie em Portugal estavam totalmente assegurados. Ele próprio estava a articular o assunto com o comandante-geral da PSP, general Monteiro Pereira. Era uma operação com alguma delicadeza, atendendo às ameaças que impendiam sobre o escritor. O futuro veio a provar o bom fundamento dessas preocupações.

Por que me estava a telefonar? Porque a viagem de Rushdie, que viajaria sob um outro nome, como era sabido pelas autoridades britânicas que o protegiam, estava a encontrar algumas dificuldades no balcão da TAP, em Londres, como lhe fora comunicado por parte das pessoas que ajudavam o escritor. A organização pretendia assim obter um contacto com alguém responsável no escritório da companhia, com quem pudessem tratar diretamente o assunto, de forma personalizada e discreta. Seria possível obter-lhes esse contacto?

Claro que era. Falei com o delegado da TAP em Londres, expliquei em linhas gerais o assunto e perguntei se podia dar o seu contacto a Seguro. Não meti nenhuma "cunha", nem pedi que fizessem nada de especial. Nem eu sabia se aquilo que os amigos de Rushdie pretendiam da TAP era possível ou não. A companhia que ajuizasse, depois da conversa. E, com a anuência deste, passei o número de telefone do delegado da TAP ao líder da JS. 

E esqueci o assunto. Pelos jornais, dias depois, vi que Rushdie tinha ido ao tal encontro no Porto, de cuja notícia encontrei agora esta curiosa imagem.

Pensava eu que o assunto estava encerrado até que, dias depois, de Lisboa, sou informado que tinha sido ordenado, contra mim, a pedido do gabinete do primeiro-ministro, um inquérito por alegada "pressão" feita junto da TAP, num caso que tinha contornos de afetar a "segurança nacional". Liguei de imediato ao homem da TAP, que me deu a sua palavra de honra de que nada nesse sentido tinha dito a Lisboa. Aliás, como é sabido, as embaixadas não têm a menor autoridade sobre as delegações da companhia, com as quais apenas o bom senso manda que haja as melhores relações.

O tom de Lisboa era "grave e sério", como o Rui Veloso cantava no "Porto Sentido". E o MNE da época, numa subserviência face àquilo que emanasse de S. Bento, ali estava, a "tirar-me satisfações". Que devo ter dado, ao meu estilo, que costumava ser algo irónico e não muito suave, como pelas Necessidades era sabido. E o assunto terá morrido, no vazio da sua óbvia irrelevância. Ah! "For the record": o primeiro-ministro de então chamava-se Cavaco Silva.

Menos de dois anos e meio depois, vim finalmente a conhecer, em pessoa, António José Seguro. Foi na nossa comum tomada de posse como secretários de Estado do governo de António Guterres.

Já passaram mais de vinte anos e não me lembro se alguma vez, nas muitas conversas que tive entretanto com António José Seguro, lhe referi este incidente. Agora, esse ensejo é cada vez mais improvável. É que se o país tiver um módico de senso, ele vai ter mais que fazer nos próximos anos. Com Cavaco Silva e eu a votar nele, claro.

EUA

A informação nos EUA está tão polarizada que é difícil obter dados independentes sobre o caso que ocorreu no Minnesota. Menos sobre os factos, mais sobre o seu real impacto na opinião pública e eventuais consequências políticas. A CNN diz uma coisa, a Fox diz outra. Como olharão os americanos estas informações contraditórias? Qual é o "saldo" disto? Ficam ao lado de Trump, ficam contra ou a vida continua?

sábado, janeiro 24, 2026

Alain

Nunca li nada de Émile-Auguste Chartier, que usava o pseudónimo de Alain, salvo citações. Gosto desta: "Quand quelqu'un me dit qu'il n'est ni de droite ni de gauche, je sais que c'est un homme de droite". Isso é dos anos 30, dirão alguns. Ao que eu respondo: estão aí a chegar...

Ai! Leão

Como sportinguista, PSG e quejandos não me preocupam nada, "comemo-los a todos". Já o Arouca ou o Cascalheira põem-me nervoso. E, como se viu, eu tinha razão...

Ai! América


Pelo modo como andam as coisas nos EUA, não nos admiremos se, um destes dias, um governador de Estado receber voz de prisão. Pode ser uma teoria da conspiração, mas há quem diga que a indução de um crescente ambiente de tensão seria pretexto para Trump impor um estado de exceção.

Kultura

Dizem-me que há uma lista dos nomes da cultura que apoiam o candidato que se opõe a Seguro. Mas que está em segredo, porque os próprios não querem aparecer a público, porque assim a família iria saber...

América

Como é natural, damos maior atenção aos impactos externos da administração Trump. 

Contudo, há dias, um amigo americano anti-Trump só me falava, muito preocupado, da clivagem violenta que a América atravessa, como em Minneapolis, da rutura dos "checks and balances". 

Para ele, a Gronelândia é um "fait divers".

Cada um vê o mundo do lugar onde está.

Um mínimo

Não apelo a uma política de canhoneira, nem sequer a um ato de grande visibilidade pública, mas há um mínimo de reação que Portugal deveria ter (sem se esconder atrás de posições coletivas) junto dos EUA, em face do insulto à memória os nossos soldados mortos no Afeganistão.

A mesma luta

Um grupo de proeminentes cidadãos "não-socialistas" declara apoio a António José Seguro. 

Não o apoiaram na primeira volta, mas, perante a alternativa, escolhem-no para o exercício da função presidencial. 

Quero deixar claro que, se acaso tivesse sido Marques Mendes a passar à segunda volta, este socialista estaria a assinar uma lista semelhante.

Gaza 2030

Peter de Wit

Afinal...

“That's OK, that's what you should be doing, it's a good thing for him to sign a trade deal. If you can get a deal with China, you should do that, right?”, disse Trump há pouco mais de uma semana, aquando da ida do PM do Canadá à China. 

Hoje, ameaçou o Canadá com direitos de 100% se assinar qualquer acordo com a China.

Este blogue


Visitas desde fevereiro de 2009. Não parece mau, num tempo em que se diz que os blogues estão a desaparecer...

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Comentários

Depois de três semanas de uma nova experiência, fui levado a concluir que a re-admissão de comentários no blogue não foi uma ideia brilhante. Poder-se-á dizer que os momentos de tensão política não são os mais adequados ao uso daquele espaço. Seja como for, a partir de hoje, e em definitivo, este blogue deixa de admitir comentários. Quem quiser comunicar pode sempre fazê-lo através de fseixasdacosta@gmail.com.

Déjà vu

Cotrim não escapou à tentação do "clube político". O almirante também deve estar a pensar nisso. É um clássico das ambições frustradas. Agora só falta um tempo numa TV. Alguém devia contar-lhes que a História prova que, tal como o PRD, tudo acaba na Travessa do Fala Só.

Not so special

Estamos a assistir a um momento único na relações entre os EUA e o RU. Nunca, que me recorde, a "special relationship", prezada em Londres à esquerda e à direita, esteve tão tremida. Trump, ao desvalorizar as centenas de mortos britânicos no Afeganistão pisou uma linha vermelha. 

Com toda a probabilidade, Carlos III vai ter de cancelar a sua deslocação aos EUA. Ao tocar no sacrifício dos militares britânicos, Trump fez um gesto insuportável para o RU. E ninguém ainda falou do apetite de Trump sobre o petróleo do mar do Norte, bem patente em Davos.

"Porque morreram os blogues"


Há pouco, dei conta de uma conversa, entre quatro pessoas, na Rádio Observador, sobre tema em epígrafe. Foram 40 minutos de diálogo, um tanto a reboque de a Sapo ter anunciado que vai acabar com a plataforma em que hospedava blogues. Quem tiver paciência, pode ouvir aqui.

Achei graça à troca de opiniões e à avaliação feita ao papel que os blogues desempenharam no início deste século. Foi curiosa a observação de que o Bloco de Esquerda terá sido potenciado pela blogosfera, mas igualmente a nota de que os blogues foram relevantes na discussão pública sobre a questão do aborto. 

A conclusão a que a conversa chegou foi a de que os blogues de opinião passaram definitivamente de moda. Falou-se da transferência do debate para o Facebook, da explosão das redes sociais como lugar de confronto - do Twitter/X, do Threads, do peso da imagem com o Instagram, etc. Mas, curiosamente, ninguém falou do Mastodon ou do Bluesky.

A conversa assentou muito nos blogues coletivos e menos nos "lobos solitários", como é o caso deste "Duas ou Três Coisas". Com razão: os primeiros tiveram muito mais importância e influência. O modelo que utilizo, assinando textos com o nome por baixo, acaba por ser uma espécie de coluna de opinião, muito presa à permanência do autor no espaço público e àqueles que têm paciência de irem lendo o que escreve. 

Os blogues morreram? Nem todos, como aqui se prova, mas a sua popularidade decaiu imenso. Resistirão?

A farsa

Sabemos que Trump é poderoso. Ele também sabe. Há uma coisa, contudo, que ele não consegue: evitar cair no ridículo aos olhos do mundo. O pequeno e medíocre grupo de líderes que juntou no "Conselho da Paz" revelou quem esteve aberto a ser ator daquela triste farsa.

O cansaço

Zelensky cometeu um erro de palmatória ao ler ontem em Davos o excelente texto que um seu cultivado assessor lhe preparou. Foi uma provocação injusta para os europeus, arriscada para a sensibilidade de Trump. Posso estar enganado, mas vai pagar essa ousadia.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O tempo é meu

"Ouviste o discurso do Zelensky? Que achaste?" Não achei nada, não ouvi. Vou ouvir, claro, e com atenção, mas só daqui a umas horas, quando tiver tempo. Essa coisa de estar "ligado" à informação 24 horas por dia é bom para reformados, desculpem lá. Ora eu sou ex-reformado.

Retrato de um presidente enquanto fala

O discurso de Trump em Davos pretendeu ser uma afirmação de poder. E foi. Só que, através dele, o mundo pôde ver, de uma forma indiscutível, que a potência que "calls the shots" pelo mundo é dirigida por um megalómano mentalmente instável e com um problema crónico com a verdade.

Whataboutism

"Nenhuma nação ou grupo de nações está em condições de defender a Gronelândia, sem ser os EUA". Pois, também os Açores...

Whataboutism (1)

Trump diz que nenhum país pode proteger melhor a Gronelândia do que os Estados Unidos. A esta hora, Zelensky deve estar a pensar: "Nenhum país pode proteger melhor a Ucrânia do que os Estados Unidos".

Escuta

Esta ideia dos Estados Unidos quererem salvar o ocidente, mesmo que esse ocidente não queira "ser salvo", lembra a clássica anedota do escuteiro que arrasta a velhinha, para atravessar a rua, embora a senhora não queira passar para o outro lado ...

Ei-los que saltam

Figuras que andam por aí, há anos, a dar-se ares de democratas e que, colocadas perante a escolha entre um homem moderado e razoável como Seguro e o seu opositor, decidem optar por este último, ficarão desmascaradas para sempre. Mas têm todo o direito a serem assim, note-se!

O tempo e o degelo

No discurso americano sobre o Ártico, "falta" explicar a razão da súbita importância da região no quadro estratégico. É simples: o aquecimento global está, ano após ano, a facilitar a navegabilidade do Ártico. Mas não faz parte da doutrina dos EUA o reconhecimento dessa realidade

Lugar aos novos

É justo que o candidato do Chega esteja a ser entrevistado por tudo o que é televisão. É um nome novo, pouco conhecido. Seguro não precisa nada disso: foi líder da JS, deputado, secretário de Estado, ministro, deputado europeu. Lugar aos novos, ora bem!

Escutas

Esta ideia dos Estados Unidos quererem salvar o ocidente, mesmo que esse ocidente não queira "ser salvo", lembra a clássica anedota do escuteiro que arrasta a velhinha, para atravessar a rua, embora a senhora não queira passar para o outro lado ...

Lembrar

Perante o anúncio de um "deal" sobre a Gronelândia, feito com a provável mediação do secretário-geral da NATO, e sem ter pretensões a parecer bruxo, atrevo-me a lembrar o que escrevi por aqui no dia 7 de janeiro.


quarta-feira, janeiro 21, 2026

"A Arte da Guerra"


Esta semana, o jornalista António Freitas de Sousa e eu falamos (surprise!) de Trump, depois também de Trump, mas igualmente da política em Espanha.

Ainda regressam às Lajes

Eles já aí andam: os que justificam a reivindicação da Gronelândia pelo facto dos EUA serem a única força capaz de travar a China (e a Rússia, pronto!) no Ártico e que, tal como ocorreu na Guerra Fria, a América deve tutelar o hemisfério e ser o salvador do ocidente. Amen!

A sério?

Quem será o inimigo de Ventura que o aconselhou a seguir a estratégia de tentar colar a imagem de Seguro à de Sócrates ou de Costa? Não parece ir funcionar com quem viveu neste país nas últimas duas décadas, estando minimanente atento à vida política. Mas eu sei lá...

O sinaleiro da Jamba


Dizem-me que esta carta (verdadeira, não é "fake news") de Trump é dirigida ao primeiro-ministro da Noruega. Pode ser, mas eu continuo a acreditar que ele (ainda) se corresponde com o Savimbi.

CD quê?

Dizem-me que já só nos alfarrabistas é possível obter a extensa declaração do CDS sobre a derrota do seu candidato oficial na noite de domingo. Outros, bem maldosos, afirmam que o candidato do coração dos "centristas" (não levem a mal o nome...) até nem ficou nada mal colocado.

Essa é que é essa!

Está tudo muito calado mas a verdade é que, com o resultado de domingo, o país perdeu a oportunidade de vir a ter vinho canalizado. Só o pessoal da EPAL é que anda satisfeito.

Notícias do Telhal

Uma coisa que deixaria Trump furioso e os americanos a pensar seria uma tomada de posição de um conjunto de psiquiatras de topo, afirmando a existência empírica de sinais de que a América é liderada por alguém afetado por uma demência que pode comprometer a segurança do país.

terça-feira, janeiro 20, 2026

Canadá

Recomendo muito que se ouça e medite naquilo que primeiro-ministro do Canadá disse em Davos. Não "descobriu a pólvora", não tem uma solução mágica para o acosso que o seu país e outros estão a sofrer, mas trouxe um banho de realismo e de pragmatismo, sem concessões nos princípios.

O passamento político de Ventura?

Se há nome que Ventura teme, esse nome é Passos Coelho. Se, numa implosão de Montenegro, o dom Sebastião de Massamá se dispusesse a avançar, muito do capital político de Ventura se esvairia - mas não todo! Passos Coelho será dos mais atentos ao peso de Ventura em 8 de fevereiro.

Gente decente

Tem imensa graça ver hoje, pelas solícitas penas de algumas figuras injustamente acusadas de serem jornalistas, os recados do PSD a Seguro, já a fazerem contas ao possível apoio ... para a sua reeleição! Como se o futuro presidente não soubesse ao que vem! Habituem-se!

A reeleição, já!

Tem imensa graça ver hoje, pelas solícitas penas de algumas figuras injustamente acusadas de serem jornalistas, os recados do PSD a Seguro, já a fazerem contas ao possível apoio ... para a sua reeleição! Como se o futuro presidente não soubesse ao que vem! Habituem-se!

Ai aguenta?

Dizem-me que dentro do PSD há um grande mal-estar. A maioria percebe a atitude de Montenegro, ao não assinalar preferência de voto: aquilo já está tão mal que qualquer decisão partia o resto. Mas sentem que Montenegro navega à vista, sem outra estratégia que não seja aguentar-se.

A perda da graça

Os socialistas moderados são o ai-jesus da direita enquanto dão jeito para desgastar lideranças do PS mais à esquerda. A sua heterodoxia pelas televisões é adorada. Mas, se se aproximam do poder, perdem a graça, pelo temor de que possam abrir caminho ao regresso do PS ao governo.

segunda-feira, janeiro 19, 2026

A noite (15)

António José Seguro pode ser a última barreira para travar um crescimento de Ventura que o coloque à porta do poder. No futuro, nesta tarefa de proteção de uma política decente, dava jeito ter a direita democrática. Mas, para tal, é necessário que ela não se porte como Pilatos.

Os amigos e as ocasiões (take three)

 


O João, a propósito do Valentino


O João era o mais velho de três irmãos, três primos que já partiram deste mundo. Pertencia ao ramo de Chaves da família da minha avó materna. Uns anos mais velho do que eu, a geografia das nossas vidas acabou por nos privar de convívio regular depois da infância, pelo que só nos encontrávamos de quando em vez. 

Era de uma simpatia extrema, caloroso, com um modo de falar muito tributário dos tempos flavienses, tique que lhe ficou para toda a vida. Belo e loiro, dizia-se ser um sortudo junto do sexo a que, equivocamente, alguns chamam oposto. E, ao que constava, ele soube aproveitar bem essa condição.

Da sua vida, e de algumas das voltas que ela dava, eu ia tendo notícias quando, em Chaves, passávamos de visita à sua avó, a tia Tininha, que fazia sempre questão de nos dar relatos grandiloquentes do percurso do neto. Alguma instabilidade nas relações sentimentais e o carácter um pouco errático dos seus sucessivos empregos - creio que ligados à hotelaria num certo período - criou em mim uma ideia de inconstância na vida do João, que eu um dia soube estar a tentar fazer futuro no Brasil.

E, um dia, o Brasil saiu-me na rifa diplomática. Como é natural, procurei saber de quem, da família, por ali andava. O João era uma dessas pessoas e acabou por ser ele a procurar-me. O destino tinha-lhe trazido algumas más surpresas e a situação profissional em que se encontrava não era brilhante. Alguma coisa foi possível fazer para melhorar o que não ia bem.

Num fim de semana passado no Rio, decidi convidar o João para almoçar. Pensei que acharia graça em ir ao Copacabana Palace, um lugar luxuoso e sempre na moda. Eu tinha o ensejo de lho proporcionar; ele teria assim a oportunidade de viver essa experiência. Constatei que o João nunca lá tinha entrado.

Foram duas ou três horas muito bem passadas, em que “demos a volta” à nossa família comum, relembrámos os tempos de infância nas Pedras Salgadas, a “casa das tias”, com historietas cruzadas. Fez-me muito bem ter estado com o João, nesse que viria a ser o nosso último encontro. Saí meses depois do Brasil e a saúde não tardaria a pregar ao João uma derradeira partida, como mais tarde vim a saber.

A razão por que hoje me lembrei do João foi ter acabado de ver a notícia da morte do estilista Valentino.

Nesse final de manhã no Copacabana Palace, na sala de refeições do Pérgula, o João disse-me, a certa altura:

- Olha lá! Aquele não é o Valentino?

Olhei e, de facto, numa mesa não muito distante, lá estava o costureiro italiano, que ambos só conhecíamos das revistas sociais. Aquela cara e aquele cabelo eram inconfundíveis. Estava numa mesa de quatro pessoas, com o ar grave de sempre e uma camisa que recordo escura.

O João olhou e reolhou e deixou cair, para minha surpresa:

- Sabes, no fundo, tenho pena dele.

Que estranho! Perguntei-lhe porquê. A resposta desarmou-me:

- Um tipo como ele, que passou uma vida rodeado de mulheres lindas, e é “viado”. Não achas que é de ter pena?

Não sei se o Valentino ouviu a minha gargalhada. Era o João, politicamente incorreto como era vulgar na nossa geração, ele, o “conquistador” da família - como o meu pai carinhosamente sempre lhe chamou -, no seu melhor.

A morte de Valentino fez-me hoje ter saudades do meu primo João.

A noite (14)

O futuro dos partidos à esquerda do PS dependerá muito, como é sabido, do modo como o próprio PS se comportar. Ontem, foram vítimas óbvias do voto útil. O partidos não são donos dos votos de ninguém e o espetro de ter Ventura em Belém foi um respeitável susto.

A noite (13)

Catarina Martins e António Filipe foram vítimas da polarização dos dias e da (vamos pelo eufemismo económico) "inadequação da oferta à procura" política. Rui Tavares mediu muito mal o ar do tempo. O espaço está cada vez mais estreito para quem quer passar por ali.

A noite (12)

Sempre afirmei que o 25 de Abril também se fez para que a direita democrática tivesse o seu lugar no regime e que a chegada ao poder da direita, com Sá Carneiro, foi a consagração da nossa democracia. Mas essa direita precisa de provar que sabe defender o regime. Hoje não soube.

A noite (11)

Marques Mendes e Gouveia e Melo perderam um ensejo de ouro de se afirmarem do lado da decência, na escolha de 8 de fevereiro. Assim, saem ambos colados a uma neutralidade colaborante com o populismo. Em especial, tenho pena por Marques Mendes.

A noite (10)

Olhando em perspetiva e ponderado tudo o que se passou, o facto de António José Seguro ter sido o candidato que emergiu como contraponto a André Ventura é uma circunstância muito feliz para a democracia portuguesa. Tem o perfil certo para colocar a extrema-direita fora de jogo.

Os amigos e as ocasiões (take two)

 


A noite (9)

No momento em que Cotrim, depois de qualificar Seguro de indesejável "presidente socialista", disse não tomar posição contra Ventura, notei que, no meio da sala, um amigo meu não aplaudiu e se manteve de braços cruzados. Não estou a estimular o seu "outing", mas gostei do gesto.

A noite (8)

Fiquei surpreendido com a quantidade de gente amiga e conhecida que embarcou na candidatura do almirante. Nunca percebi o "appeal" daquela aventura, mas imagino que deva ser defeito meu.

A noite (7)

Dizia-me há minutos um amigo: "Se o Ventura ganhar, emigro!" Para logo acrescentar: "Não sei é se tenho dinheiro para isso". 

É interessante este novo modelo de emigração, não para ganhar dinheiro mas a necessitar de tê-lo para tal. 

Sinal dos tempos!

Os amigos e as ocasiões (take one)


Ter o líder da extrema-direita francesa a apoiá-lo é mesmo um belo cartão de visita. Só faltam o Bannon e o Miller, já que não deve conseguir o Milei - cujo candidato preferido foi derrotado. 

O primeiro cartaz de Ventura para a segunda volta.

 


A noite (6)

Aos meus amigos (e tenho muitos) do PSD, faço esta simples pergunta: têm alguma dúvida de que o evidente objetivo de Ventura é dar cabo do PSD? Já pensaram o que seria ter Ventura em Belém, a grelhar diariamente em lume brando o PSD? Então?! 

domingo, janeiro 18, 2026

A noite (5)

Alguém pensaria que Cotrim se demarcaria da extrema-direita? Bastou ouvir o significativo rugido de apoio na sua gente quando ele disse que não recomendava o voto. E sublinhar o que antes disse sobre ter um (presume-se que perigoso) socialista em Belém.

A noite (4)

O PSD está numa situação muito complicada. Ou melhor, o PSD de Montenegro. Como estará a ser a noite em Massamá?

A noite (3)

Não sei se o slogan "líder da direita", adotado por Ventura, cai bem nos ouvidos da maioria do PSD. 

A noite (2)

"Não é não" a Ventura, por parte de Montenegro, são águas passadas...

A noite (1)

Luís Montenegro não passou no teste da decência. É pena. Sou obrigado a dizer que não estou surpreendido.

"Osteria"


Há já bastantes anos que a antiga "Mercearia" perdeu esse nome (que permanece num azulejo) e se chama "Osteria", com uma ementa italiana acompanhada da indicação irritante de que é "para partilhar" - uma cultura de estar à mesa que, definitivamente, nunca será a minha. 

A qualidade é satisfatória, com o preço condizente. A comodidade não é muita, o serviço é atencioso mas, atenção!, não há Multibanco.

Vai para 36 anos, "fechei" a antiga "Mercearia" para convidar amigos, na minha despedida antes de ir para Londres. 

Neste almoço, em dia de eleições, não pude deixar de lembrar-me do meu amigo António Oliveira, criador da "Mercearia", da efémera "Carvoaria" e, essencialmente, da clássica "Varina da Madragoa" - que hoje estava de férias. Por algum tempo, foi o "triângulo do Oliveira", então desafiado, um pouco mais acima, pelas "belgas" Vivianne e Sofia, na magnífica "Travessa". 

Naquele outro tempo dos anos 70 e 80, em que a cidade era muito diferente, passava por essa Madragoa uma certa Lisboa política, intelectual e jovem - quando os jovens éramos nós... 

Às vezes apareciam por ali, despernados, uns estrangeiros com um guia na mão, a achar que tinham descoberto uma raridade só para iniciados. E lá tínhamos que lhes explicar, em "franciú", o que eram os "grenadinos de vitela" do Oliveira, servidos pelo amigo Veiga.

Embora me fique a "walking distance", embora com algum esforço, em regra vou pouco por ali. Contudo, na noite de Santo António, continuo a "alugar" a rua das Madres, em frente à "Varina", para uma grande mesa de amigos, com sardinhas e febras, tudo bem regado.

Olhar adiante

Deveremos olhar com atenção para os votos que Ventura vier a obter na segunda volta, acima do seu resultado de hoje. Esses votos representarão votantes que, não sendo fiéis do Chega, se sentiram motivados a escolhê-lo, embora em face de um opositor moderado como Seguro. 

sábado, janeiro 17, 2026

Reflexão

Este blogue hoje não publica nada para respeitar o período de reflexão eleitoral? Não, não publicou nada (a não ser este não-post) porque o "dono" do blogue teve mais que fazer. Era só o que faltava estar a obedecer a uma das leis mais estúpidas da democracia!

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Assimetrias

Segundo o "Expresso", se acaso Marques Mendes passar à segunda volta com Ventura, os socialistas optarão por votar Mendes. Por que será que não tenho a mesma certeza de que, no caso de ser Seguro e não Mendes a passar, as coisas se passarão de forma simétrica?

Democracia

O mundo não é a preto e branco. A Venezuela de Maduro era, sempre foi, uma ditadura. Contudo, ao contrário do que muitos pensam, uma parte da oposição a ele e a Chávez nunca foi "flor que se cheire". Ser contra aquele regime não significa ter credenciais democráticas.

Bater no fundo

O triste espetáculo de Corina Machado a oferecer a medalha do seu Prémio Nobel da Paz a Trump quase se equipara ao miserável email do secretário-geral da NATO enviado ao presidente americano. Ambos competem em sabujice, para agradar ao ego de Trump.

Medalha

É uma pena que o Comité Nobel de Oslo não venha a terreiro lamentar que o seu gesto face a Corina Machado tenha por esta sido desvirtuado com a oferta da medalha a Trump. Bastava lembrar-lhe que a escolha dos distinguidos não é da competência dos próprios.

Ah! Lisboa! Que luz!


 

O voto

O voto é secreto, mas não é proibido revelar em quem se vota. Vou votar Seguro, claro. Se não chegar à 2ª volta, votarei contra Ventura, exceto se o adversário for Cotrim, caso em que votarei em branco (mas não me abstenho). Contra Ventura, votarei sem problemas em Mendes e contrariado no almirante.

Últimos dias


É um clássico. Chegou-me ontem, com o "Expresso", um folheto sobre uma "liquidação total" de tapetes. Uma venda de coisas quase ao desbarato deve ser ainda apelativa para muita gente, que logo ali imagina preços baixos, verdadeiras pechinchas, uma ocasião a não desperdiçar. O mais das vezes é uma mera ilusão, como quem tem alguma experiência de vida bem sabe. Mas o que seria da vida sem este tipo de ilusões?

Há não muitas semanas, numa noite hiper-neonizada da Times Square, em Nova Iorque, olhei a montra de uma loja que vendia já não sei o quê e em que o esquema era o mesmo: "últimos dias", "liquidação total", "everything must go" ou coisas assim. Ainda ironizei intimamente que talvez fosse uma metáfora sobre os tempos de Trump. Mas não, eram umas bugigangas quaisquer, provavelmente eletrónicas.

E foi então que, naquele que, para muitos, é o centro do mundo em que o mercado é o rei e senhor, onde os números iluminados do Nasdaq há muito substituiram o cowboy fumegante do Camel, me veio à memória um outro dia, exatamente naquele cruzamento de ruas, em dezembro de 1972. 

Eu tinha ido de Lisboa, num viagem de grupo. A guia americana, uma mulher de idade (este conceito é mutante: a senhora devia ser bem mais nova do que eu sou hoje...), que falava um português macarrónico, antes de abrir a porta do autocarro que nos despejaria em Times Square, disse então uma coisa que nunca mais esqueci: "Não se deixem impressionar pelos anúncios em casas que estão em "liquidação total", em "últimos dias" de atividade. Algumas dessas casas já as conheço em "últimos dias" há mais de 20 anos..."

quinta-feira, janeiro 15, 2026

A alma dos moedeiros


Não esperava emocionar-me numa sessão sobre cunhagem de moedas. Mas foi exactamente isso que aconteceu.

No final da tarde de hoje, estive na biblioteca da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, movido pela curiosidade da apresentação de um número de uma revista da casa. O que poderia ter sido apenas mais uma sessão institucional transformou-se numa coisa completamente diferente.

Parte importante da apresentação foi dedicada a recordar o lançamento das moedas do euro, a partir de 2002. 

E foi então que algo aconteceu. Dois especialistas das oficinas da casa — um deles já aposentado — tomaram a palavra. Com simplicidade, rigor e um entusiasmo genuíno, eles transformaram aquilo que ameaçava ser uma burocrática evocação de rotinas de trabalho numa verdadeira jornada sentimental. Para eles, aquele projeto não tinha sido apenas um trabalho: tinha sido uma aventura que lhes marcou as vidas. Ali, perante todos nós, fizeram um “filme” fascinante desses dias únicos.

A certo ponto, um dos “moedeiros” — conceito que só então conheci — comoveu-se visivelmente ao evocar a sua gente, as suas equipas, aqueles que com ele trabalharam. A necessidade de treinar gente para o futuro dessas tarefas. 

Não foi apenas uma demonstração de profundo profissionalismo. Foi a revelação de uma ligação emocional à casa a que orgulhosamente pertencia, às pessoas com quem tinha partilhado anos intensos, ao verdadeiro sentido de missão que a sua tarefa constituía. Acho que todos ficámos tocados por esse momento de verdade.

Foi um final de tarde que, apesar da chuva persistente lá fora, me ajudou a ganhar um belo dia.​​​​​​​​​​​​​​​​

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Nada como a coerência

O mesmo candidato que, há três dias, deixava em aberto a possibilidade de vir a optar por Ventura no caso de não conseguir chegar à segunda volta, apela agora a Montenegro para o apoiar, a fim de evitar uma possível vitória do candidato do Chega.

Alguém sabe?

É uma sensação muito estranha constatar, mais de meio século depois do 25 de Abril, que um em cada quatro portugueses considera que o país ficaria bem servido se André Ventura fosse eleito presidente da República. Porque a culpa não é deles, pergunto-me onde é que falhámos.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

América. Afinal havia outra?


(Artigo com o título em epígrafe publicado a convite do "Diário de Notícias", na sua edição de hoje)


Entre nós, tem algum eco uma velha escola de anti-americanismo primário, que se alimenta da tese básica de que, na América, “eles” são todos iguais.

Republicanos e democratas, dependendo da conjuntura externa que condiciona o momento, representarão os interesses por trás da mesma moeda, o dólar, com faces apenas aparentemente diversas. São sempre os mesmos powers that be que ditam as regras, que mandam fazer ou desfazer as guerras. Os protagonistas alternam, mas a peça é basicamente idêntica. No fundo, na ocupação da Casa Branca, quase sempre, venha o diabo e escolha.

Com os anos, de forma racional, fui sendo levado, a pensar que, ao contrário dessa escola, nem tudo era assim tão bonnet blanc, blanc bonnet. Houve a tradição do New Deal de Roosevelt, emergiram ondas relevantes de políticas sociais. Nos direitos cívicos - chegando embora tarde ao que era evidente - os democratas estiveram quase sempre na linha da frente, muitas vezes com grande coragem.

É certo que, em momentos decisivos, em especial na obnubilação da Guerra Fria, a Administrações democratas fugiu o pé para os seus Vietnames, para o excecionalismo, para um multilateralismo à la carte. Ainda assim, ia eu concluindo, não era bem a mesma coisa. Longe de ter sido entusiasta de Clinton ou de Obama, sempre me senti mais próximo dessa tradição do que da alternativa republicana, permanecendo um saudoso viúvo de Adlai Stevenson e de George McGovern - esse grupo dos the best presidents we never had.

Com a chegada de Trump à boca de cena, o contraste foi brutal. Tudo o que lhe era oposto passou a parecer melhor. De um dia para o outro, nos “meus”, esqueci os bombardeamentos de Clinton para mudar as notícias de Lewinsky, quase perdoei a cobardia de Obama na manutenção de Guantánamo, tentei apagar da memória a irresponsabilidade de Hillary Clinton na Líbia e, no limite, até desejei ter Kamala Harris na Casa Branca. O desespero induz estas fraquezas.

Trump anunciava-se muito mau. A realidade revelou-se ainda mais impiedosa. A deriva fez-se em catadupa, tanto na ordem interna como no plano internacional. Sanders e Ocasio-Cortez levantavam a voz, mas ela foi submersa na irracionalidade feita política.

Foi então que me lembrei deles: de Bill Clinton, de Al Gore, de Obama, de Hillary Clinton e até, enfim, de Kamala Harris. E esperei que falassem. Em vão.

Quando Trump ameaça usar força militar contra a Gronelândia - território de um aliado NATO - ou quando desmonta, com desdém, o sistema das Nações Unidas que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir, o silêncio daquelas que foram lideranças democratas de peso é perturbador. Os promotores históricos do multilateralismo, de uma ordem internacional com algumas regras ou da agenda climática permanecem ausentes do espaço público, enquanto décadas de diplomacia são desfeitas com uma penada arrogante.

Este silêncio não é neutro. É uma escolha. Quando uma potência se arroga direitos de natureza imperial sem oposição interna credível, cria precedentes. E os precedentes, como bem sabemos, raramente ficam confinados a quem os inaugura. O silêncio de hoje prepara a capitulação de amanhã.

Será então que, afinal, a tese do “eles são todos iguais” tem alguma razão de ser? No final de contas, neste momento decisivo, que é feito da outra América?

domingo, janeiro 11, 2026

"A Arte da Guerra"


Mais uma semana em que a figura de Donald Trump se projeta sobre vários cenários geopolíticos.

Pode ver aqui.

sábado, janeiro 10, 2026

"Fear or values - we must choose"

(This text was published in the Portuguese weekly magazine Visão)

Fear or Values – You Must Choose

The flood of information around us brings a constant stream of unsettling themes. From wars to climate disruption, from the impact of Artificial Intelligence to the global collapse of trust in political leaders, from young people’s anxiety about the future to the toxic debate over migration — our societies increasingly seem unable to find effective answers to the many problems that overwhelm them.

Understandably, this fuels insecurity. More and more people are drawn to radical alternatives, even if that means abandoning values and principles that not long ago felt unshakable within democratic life.

There isn’t one simple explanation for this shift, but if I had to choose a single word, it would be fear.

Fear, as a political force, is anything but passive. It’s an active fuel — refined and injected into public debate by algorithms that reward outrage and by a media ecosystem that profits from anger.

This attention economy creates a vicious circle: the sense of chaos drives people to seek easy, often authoritarian solutions, which then erode democracy’s complex decision-making processes even further. Our biggest crisis is not only the number of problems we face, but our collective inability to handle them without falling into panic. And populism, of course, pretends to be the cure — but it’s only a symptom.

Fear is natural, but intelligence can always overcome it. People want predictability in their lives, even if some risk comes with it. We all know danger exists — yet we like to believe we can manage it by the choices we make. What nobody wants, though, is the unexpected threat around the corner, the confrontation with an unknown danger to ourselves or those we care about.

Perhaps it’s just an illusion, but ordinary citizens have come to see public authorities as a kind of police against social disorder. Politicians in a democracy are expected to provide reassurance — to show there’s a plan for the next day. The trouble is that these figures have lost much of their credibility, and that loss weakens their ability to make people feel safe. Today, it’s simply common to assume that every politician might be using their position for personal gain.

Whether this suspicion is rooted in real guilt or in campaigns to discredit public servants is another question. The point is that doubt now hangs over politics itself.

In modern democracies, political life is becoming shorter. Leaders have less and less time to succeed before public patience runs out. Meanwhile, the decline of the big “catch-all” parties has led to fragmentation — small ideological movements rise, fragile coalitions form, and governments fall into recurring cycles of instability.

A Divided World

The same insecurity that corrodes democracies from within has also spread internationally.

After the Cold War — which shook but didn’t destroy the post-1945 order — the world seemed relatively calm. Many believed the defeated side had accepted its place, and that the global divide was gone for good. That illusion ended with the war in Ukraine.

The multilateral system, with the United Nations and international law at its core, has largely collapsed. Collective trust is gone — and ironically, today’s United States helped dismantle the very mechanisms of cooperation they once built. The moral cowardice the West showed in Gaza, and Europe’s ongoing cynicism in dealing with power politics, have completed the picture. Ordinary citizens, already disillusioned with national institutions, now face the collapse of the global framework that once gave a sense of order.

What Can We Do?

This is not a comforting message; uncertainty is part of it. But if we ask what truly matters for the near future, the answer is simple: our values.

Whatever doubts we may have, the only responsible way to face uncertain times is to stand firm on the basics that define us. In politics, that means defending democracy and rejecting exceptionalism. In society, it means rejecting sectarian and discriminatory ideologies. It means standing up for truth — exposing lies, disinformation, and fear-mongering.

But holding firm to values is not just about words; it’s about daily practice. It means valuing slow, investigative journalism over viral gossip. It means demanding transparency, even from the politicians we support. It means recognising that the world’s problems are complex — and refusing to blame easy scapegoats. These are the real foundations of a healthy civic life: an independent, transparent justice system; education that teaches critical thinking; and a public space where reasoned debate isn’t drowned out by shouting.

Fighting and educating against the populism of fear is the only struggle that truly matters — against the fear of what is different, diverse, or contradictory.

2026 will bring “challenges,” as people like to say. But let’s drop the euphemisms. It will be a year like any other — full of uncertainty about the future. The difference will lie in how we face it. Some will choose to defend their values. Others will give in, abandoning principles in the name of fear.

The choice is yours.

Não é preciso alguém desistir


Anda por aí um mito em torno da necessidade de desistência de algum dos candidatos da esquerda, antes da primeira volta, para evitar uma vitória da direita pura e dura na segunda volta das presidenciais.

O "povo de esquerda" (o conceito foi criado por António Barreto, há 40 anos) sabe muito bem o que quer e não precisa de indicações de voto. 

Por isso, não está à espera de desistências: digam os seus candidatos o que disserem, o "povo de esquerda" - e com ele muitos social-democratas que temem ver o país social em risco - já parece ter percebido que, se quer evitar vir a ter em Belém, por muitos e maus anos, alguém oriundo de uma direita perigosa e imprevisível - populista, radical ou autoritária -, tem simplesmente de votar Seguro. Logo na primeira volta, claro.

Denmark is ready!

 


"O medo ou os valores - escolham!"


Artigo que escrevi a convite da revista "Visão", na sua edição desta semana, sob o título em epígrafe


A avalanche de informação inunda-nos de temas inquietantes. Das guerras à desregulação climática, dos efeitos da Inteligência Artificial à crise global de confiança nos agentes políticos, da angústia de uma juventude com futuro problemático ao ambiente perverso em torno das migrações – criou-se a sensação de que as nossas sociedades estão, de forma crescente, a ficar sem soluções eficazes para a imensidão de problemas que as submergem.

Com alguma naturalidade, isso induz sentimentos de insegurança. Torna cada vez mais pessoas permeáveis à tentação por opções radicais, mesmo que isso signifique abandonar valores e princípios que, ainda há pouco, se davam como adquiridos e definitivamente aculturados na cidadania democrática contemporânea.

Não há uma resposta fácil e única para explicar o que nos sucedeu, mas arriscaria simplificá-la numa palavra: o medo.

O medo, enquanto força política, não é um sentimento meramente passivo. É um combustível ativo, sistematicamente refinado e injetado no debate público por algoritmos que privilegiam o escândalo e pela indústria do clickbait que monetiza a indignação.

Esta economia da atenção cria um círculo vicioso: a perceção de caos alimenta a procura por soluções simples, frequentemente autoritárias, que, por sua vez, degradam ainda mais os mecanismos complexos e deliberativos da democracia. A verdadeira crise, portanto, não é só a dos problemas, mas a da nossa capacidade coletiva de os processar sem pânico. A falsa solução é, claro, a do populismo.

O medo é respeitável, mas é sempre superável pela inteligência. As pessoas gostam de viver com previsibilidade, mesmo que ela comporte uma dose natural de risco. Todos podemos ser assaltados, mas gostamos da sensação de que, em grande medida, gerimos a geografia do perigo ao escolher os nossos caminhos. O que ninguém gosta, definitivamente, é da má surpresa que pode surgir depois de uma esquina, do confronto com o desconhecido ameaçador, para nós e para aqueles que protegemos.

Podendo isso não passar de uma ilusão, o cidadão comum foi levado a olhar para os poderes públicos como uma espécie de polícia da desregulação social. Compete aos políticos, em democracia, apresentar fórmulas para nos ajudar a gerir o dia seguinte. Ora, torna-se cada vez mais evidente que esses mentores da vida pública vivem sob um profundo desgaste de credibilidade. Isso conduz à perda crescente da sua eficácia como um fator indutor de segurança para as sociedades. Olhar para um agente político como um potencial suspeito de abusar do cargo para interesse próprio passou a ser uma atitude corrente.

Se este ambiente de suspeição resulta de culpa objetiva dos atores públicos ou de um ataque deliberado à sua legitimidade por incendiários de opinião, é uma segunda questão. O facto é que está criado um manto de dúvida sobre os agentes políticos.

Em democracia, a regra começa a ser o encurtamento da sua sobrevivência no poder, sob um estado mínimo de graça que lhes garanta eficácia. Acresce que a impopularidade dos partidos "catch-all", outrora hegemónicos, leva a uma fragmentação política crescente. Surgem partidos oriundos de nichos ideológicos, obrigando a coligações instáveis que geram crises cíclicas de ingovernabilidade.


Um Mundo dividido


Se este ambiente de dúvida corrói as democracias internamente, um sentimento análogo de insegurança também se instalou no plano global, em escassos anos.

Depois de uma Guerra Fria que abalou mas não pôs em causa o sistema pactado em 1945, vivia-se um ambiente de relativa acalmia. Acreditava-se que o derrotado na luta global aceitara a sua inferiorização e permitia a exploração do sucesso pelo vencedor. Fixou-se mesmo a ideia de que qualquer futura linha divisória do mundo já não passaria por ali. Essa ilusão morreu na Ucrânia.

A arquitetura institucional do mundo multilateral, com a ONU no centro e o direito internacional como norma, colapsou, afetando a confiança coletiva. O mais irónico é que os próprios Estados Unidos de hoje são "coautores" da desconstrução desses mecanismos de diálogo e confiança mútua. A cobardia moral que o mundo ocidental evidenciou depois em Gaza, e que a Europa prolonga hoje com o cinismo da sua realpolitik de poder acossado, completou esse quadro de afastamento de um mundo decente. O cidadão comum, que já via diluída a sua confiança nas estruturas nacionais, passou a confrontar-se com a ruína do quadro de referência global.


Que fazer?

Este texto não pretende ser sossegante, porque é também tributário da incerteza. Mas se a questão é saber a que devemos estar atentos no futuro imediato, a resposta é muito simples: aos valores.

Tenhamos nós as dúvidas que tivermos, e sem querer esboçar regras de autoajuda, entendo que a única forma responsável de olhar os tempos que se aproximam é sermos de uma extrema firmeza nos "basics" que nos servem de referência: olhar a política sempre sob o primado da democracia e da recusa do excecionalismo; agir em sociedade na permanente rejeição de ideologias sectárias ou discriminatórias; lutar pelo predomínio da verdade, denunciando a desinformação e expondo a falácia das perceções assustadoras.

Mas a firmeza nos valores de que falamos não pode ser uma declaração de intenções vaga. Exige uma prática quotidiana de cidadania exigente. Significa valorizar o jornalismo lento de investigação sobre o rumor viral; exigir transparência mesmo ao político do “nosso” campo; reconhecer a complexidade de um problema global em vez de culpar um bode expiatório local. Estes “basics” são o antídoto institucional e cultural: uma justiça independente e transparente, uma educação que ensine pensamento crítico e não apenas competência técnica, um espaço público onde o debate rigoroso não seja abafado pelo grito.

Combater, denunciar e educar contra o populismo do medo é a única palavra de ordem que vale a pena lançar: contra o medo ao diferente, ao diverso, ao contraditório.

2026 será um ano de desafios – a palavra com que a linguagem moderna gosta de exorcizar as dificuldades. Deixemo-nos de eufemismos: 2026 será um ano como qualquer outro, porque os novos anos carregam sempre todas as incertezas do futuro. A diferença estará em como o enfrentamos. Uns serão capazes de o fazer, afirmando e defendendo valores. Outros acobardar-se-ão, trocando princípios pela pressão dos receios, por mais primários que estes sejam.

É só escolher!

O Estado a que isto chegou

 



Clima


Esquina do Excelsior (café que já não existe), em Vila Real. 

Comentário, à passagem: "Que frio que está!". 

Resposta ouvida, bem vila-realense: "É do tempo..." (sendo que, em Vila Real, a palavra soa a "tâimpo").

Será que La Palice alguma vez calcorreou a rua Direita até ao Cabo da Vila (que ali se diz "bila")? Não diria algo de muito diferente.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Bruxelles


Quem andou pela lides europeias, em Bruxelas, lembrar-se-á, com certeza, destes cadernos com capa de pano, quadriculados ou com linhas, pintados a vermelho na contra-lombada (inventei a palavra agora) e nos topos.

No meu caso, comprava-os sempre numa papelaria do boulevard Adolph Max. Mas imagino que se vendesse em outros locais.

Foi nesses cadernos que anotei centenas de horas de reuniões, em Bruxelas e no Luxemburgo. Numas arrumaçõee, encontrei hoje estes livrinhos, no fundo de um caixote, aqui por Vila Real. Mas desconfio que ainda deve haver muitos outros escondidos algures. 

Quase não me atrevo a abri-los! Os temas devem ser uma imensa chatice! E já não tenho vida disponível para perder tempo com coisas requentadas do meu passado. Do qual gostei muito, devo dizer!

Críticas boas

Hoje, li isto, num perfil a meu respeito:

"Critics have portrayed his broader diplomatic outlook as overly multilateralist and dismissive of populist sentiments, reflecting a perceived establishment bias against non-mainstream political forces. During the same period, his advocacy for stringent EU responses to perceived illiberal shifts was seen by some as prioritizing supranational norms over democratic legitimacy, a view echoed in analyses of the Austria affair as an overreach that foreshadowed tensions in EU enlargement debates."

Há críticas que sabem bem.

Quinta-feira e outros dias

Os leitores desacordistas do "Público" aguardaram a sacrossanta coluna monotemática das quintas. Como se esperava, ela lá veio ontem (curiosamente, algo contida). Logo, de enxurrada, chegaram as cartas a zurzir o novo provedor do leitor. "Bon courage", João Garcia!

Hardware

Não sei se lhes acontece. Comigo, é o pão nosso de cada dia. Vou a uma loja de computadores ou mesmo de telefones sofististicados e, ainda com pouco tempo de conversa com quem me atende, logo constato uma crescente dificuldade de expressar o que pretendo, porque não domino o léxico. Tudo se agrava perante as perguntas que me fazem. Então, se a conversa é pelo telefone, sinto que tudo se torna ainda pior. A minha forçada modéstia leva-me quase sempre a assumir um "disclaimer", uma auto-confissão de nabice. Na realidade, era desnecessário: eles já tinham percebido.

Ontem, numa dessas lojas, onde levei um computador que achava que estava lento, a conversa foi mais curiosa e mais fácil de seguir. O técnico, que me pareceu extremamente competente, lá conseguiu encontrar um vocabulário à altura da minha própria incompetência. O que me disse ele: que o "hardware" tinha um idade apreciável e que já não comportava "software" atualizado, pelo que a lentidão operativa que eu notava era algo inelutável e que só se iria agravar. Ainda temi que, para tornar a explicação mais fácil para o leigo que sou, ele fosse tentado a acrescentar: "É como as pessoas. Com a passagem dos anos, já não conseguem processar toda a informação, tornam-se mais lentas nas reações e a memória sofre com isso". Mas não: teve a delicadeza de não me amesquinhar com uma metáfora dessas. 

E lá regressei a casa com o meu "desktop" debaixo do braço, sem saber bem se vale a pena adquirir, para o meu poiso em Vila Real, material mais recente, ou se este iPad em que escrevo chega e sobra para as encomendas, que o tal tempo também tenderá a que sejam cada vez menos, como cá por casa veementemente se deseja. É que desconfio que, um destes dias, sou eu quem não vai estar, definitivamente, à altura desse novo "hardware". Tenho de pensar nisto. Com calma. Ou será com lentidão?

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Exfiltrar

Em português, é comum a palavra "infiltração". Curiosamente, o conceito contrário - "exfiltração", para designar a retirada de algo ou alguém, de dentro para fora - raramente é utilizado na nossa língua.

A Venezuela foi palco recente de duas exfiltrações: Corina Machado e Nicolás Maduro.

100 anos



Em julho, aquando das comemorações do centenário da elevação de Vila Real a cidade, estava muito longe de Portugal, razão por que não pude receber a Medalha do Centenário, com que o município tinha decidido distinguir 30 pessoas. 

Isso veio a acontecer hoje, numa cerimónia privada que a Câmara Municipal de Vila Real teve a amabilidade de organizar para mim. O novo presidente da autarquia da minha terra, Alexandre Favaios, na presença da vereação do município, fez-me entrega da medalha e do respetivo diploma. 

Apreciei muito o gesto, que agradeço com grande sinceridade.



Falar

Quando lerem que a conversa telefónica ou presencial entre líderes de dois países durou, por exemplo, uma hora, convém lembrar que, em regra, ela passa por um intérprete, o que faz com que, na prática, seja meia hora de interlocução útil. A menos que eles falem uma língua comum.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

"O medo ou os valores - escolham!"


Sei que sou suspeito, porque tenho lá um texto com o título que está em epígrafe, mas acho que o número da "Visão" desta semana, ainda mais do que o habitual, vai valer a pena ler. São mais de 30 textos sobre os temas mais candentes da atualidade. Estou curioso, confesso.

A "Visão", uma revista semanal feita de profissionalismo e de coragem, é um milagre do jornalismo português. Esta edição, crismada de "Não fechem os olhos", promete.

Segunda aposta

Faço uma segunda aposta em como a questão da Gronelândia não vai passar de um arrufo que, claro, se irá resolver a contento dos EUA, com a Dinamarca a não perder completamente a face. Dado que os EUA já são, nos dias de hoje, a maior presença militar na região, a Gronelândia pode vir a tornar-se, no plano militar, numa espécie de "território NATO", com acrescida presença americana, com Copenhague a fingir que manda e que "deixou", com alguns europeus a porem por lá bandeirinhas para fingir que são potências.

Primeira aposta

Faço uma primeira aposta: nunca haverá "boots on the ground" de tropas francesas, britânicas ou da "coalition of the willing" em território ucraniano. O que não significa que não possa haver uma monitorização nesse mesmo terreno feita por tropas americanas.

Comentários

Desde o início do ano, são acolhidos neste blogue alguns comentários. Relembro que os comentários devem referir-se ao assunto referido no post. Estimulam-se comentários críticos e contraditórios, desde que sejam redigidos em linguagem não agressiva e marcada pela urbanidade. Não serão publicados comentários que insiram links ou transcrições de textos. Este é um espaço que se pretende sereno, pelo que também não será transformado num "ring" de picardias entre comentadores. Sei que as redes sociais não costumam ter estas limitações, mas estas são as regras por aqui, desculpem lá!

D'accord?

Percebo que haja pessoas que tenham razões para não gostar do Acordo Ortográfico que, desde há bem mais de uma década, é utilizado, já com normalidade, nas publicações oficiais e em todos os níveis de ensino em Portugal. 

Contudo, tenho dificuldade em entender por que razão muitas dessas pessoas, em lugar de manifestarem essa sua discordância com serena urbanidade, adotam, com grande frequência, uma linguagem agressiva e às vezes insultuosa, seja para com os defensores do Acordo, seja na qualificação do próprio diploma normativo, adjetivando-o de forma ácida. 

Será que isso revela o seu desespero, por terem percebido que já perderam a parada? 

Curiosamente, o contrário não parece acontecer: não vejo, em regra, os defensores do Acordo dizerem coisas desagradáveis dos detratores da norma. Por que será?

Demissões

Uma dúvida sempre me assaltou: os responsáveis por serviços nos hospitais que, com estrondo mediático, e provavelmente por respeitáveis razões, regularmente anunciam a sua demissão, depois voltam? É que, se assim não for, deve haver uma legião de diretores à lareira.

terça-feira, janeiro 06, 2026

Se Lisboa diz...

"Portugal diz que o vencedor das últimas eleições, Edmundo González, tem de fazer parte do novo governo da Venezuela". 

Depois de ouvir isto, tenho a certeza de que Trump vai pensar duas vezes.

Direitas


Ver aqui.

Um cheirinho de goibada

Ficará para a ciência política, com a distância do tempo, refletir um dia sobre as razões pelas quais um eleitorado que tinha dado uma maior...