Catarina Martins e António Filipe foram vítimas da polarização dos dias e da (vamos pelo eufemismo económico) "inadequação da oferta à procura" política. Rui Tavares mediu muito mal o ar do tempo. O espaço está cada vez mais estreito para quem quer passar por ali.
duas ou três coisas
notas pouco diárias de Francisco Seixas da Costa
segunda-feira, janeiro 19, 2026
A noite (12)
Sempre afirmei que o 25 de Abril também se fez para que a direita democrática tivesse o seu lugar no regime e que a chegada ao poder da direita, com Sá Carneiro, foi a consagração da nossa democracia. Mas essa direita precisa de provar que sabe defender o regime. Hoje não soube.
A noite (11)
Marques Mendes e Gouveia e Melo perderam um ensejo de ouro de se afirmarem do lado da decência, na escolha de 8 de fevereiro. Assim, saem ambos colados a uma neutralidade colaborante com o populismo. Em especial, tenho pena por Marques Mendes.
A noite (10)
Olhando em perspetiva e ponderado tudo o que se passou, o facto de António José Seguro ter sido o candidato que emergiu como contraponto a André Ventura é uma circunstância muito feliz para a democracia portuguesa. Tem o perfil certo para colocar a extrema-direita fora de jogo.
A noite (9)
No momento em que Cotrim, depois de qualificar Seguro de indesejável "presidente socialista", disse não tomar posição contra Ventura, notei que, no meio da sala, um amigo meu não aplaudiu e se manteve de braços cruzados. Não estou a estimular o seu "outing", mas gostei do gesto.
A noite (8)
Fiquei surpreendido com a quantidade de gente amiga e conhecida que embarcou na candidatura do almirante. Nunca percebi o "appeal" daquela aventura, mas imagino que deva ser defeito meu.
A noite (7)
Dizia-me há minutos um amigo: "Se o Ventura ganhar, emigro!" Para logo acrescentar: "Não sei é se tenho dinheiro para isso".
É interessante este novo modelo de emigração, não para ganhar dinheiro mas a necessitar de tê-lo para tal.
Sinal dos tempos!
Os amigos e as ocasiões (take one)
Ter o líder da extrema-direita francesa a apoiá-lo é mesmo um belo cartão de visita. Só faltam o Bannon e o Miller, já que não deve conseguir o Milei - cujo candidato preferido foi derrotado.
A noite (6)
Aos meus amigos (e tenho muitos) do PSD, faço esta simples pergunta: têm alguma dúvida de que o evidente objetivo de Ventura é dar cabo do PSD? Já pensaram o que seria ter Ventura em Belém, a grelhar diariamente em lume brando o PSD? Então?!
domingo, janeiro 18, 2026
A noite (5)
Alguém pensaria que Cotrim se demarcaria da extrema-direita? Bastou ouvir o significativo rugido de apoio na sua gente quando ele disse que não recomendava o voto. E sublinhar o que antes disse sobre ter um (presume-se que perigoso) socialista em Belém.
A noite (4)
O PSD está numa situação muito complicada. Ou melhor, o PSD de Montenegro. Como estará a ser a noite em Massamá?
A noite (3)
Não sei se o slogan "líder da direita", adotado por Ventura, cai bem nos ouvidos da maioria do PSD.
A noite (1)
Luís Montenegro não passou no teste da decência. É pena. Sou obrigado a dizer que não estou surpreendido.
"Osteria"
Há já bastantes anos que a antiga "Mercearia" perdeu esse nome (que permanece num azulejo) e se chama "Osteria", com uma ementa italiana acompanhada da indicação irritante de que é "para partilhar" - uma cultura de estar à mesa que, definitivamente, nunca será a minha.
Olhar adiante
Deveremos olhar com atenção para os votos que Ventura vier a obter na segunda volta, acima do seu resultado de hoje. Esses votos representarão votantes que, não sendo fiéis do Chega, se sentiram motivados a escolhê-lo, embora em face de um opositor moderado como Seguro.
sábado, janeiro 17, 2026
Reflexão
Este blogue hoje não publica nada para respeitar o período de reflexão eleitoral? Não, não publicou nada (a não ser este não-post) porque o "dono" do blogue teve mais que fazer. Era só o que faltava estar a obedecer a uma das leis mais estúpidas da democracia!
sexta-feira, janeiro 16, 2026
Assimetrias
Segundo o "Expresso", se acaso Marques Mendes passar à segunda volta com Ventura, os socialistas optarão por votar Mendes. Por que será que não tenho a mesma certeza de que, no caso de ser Seguro e não Mendes a passar, as coisas se passarão de forma simétrica?
Democracia
O mundo não é a preto e branco. A Venezuela de Maduro era, sempre foi, uma ditadura. Contudo, ao contrário do que muitos pensam, uma parte da oposição a ele e a Chávez nunca foi "flor que se cheire". Ser contra aquele regime não significa ter credenciais democráticas.
Bater no fundo
O triste espetáculo de Corina Machado a oferecer a medalha do seu Prémio Nobel da Paz a Trump quase se equipara ao miserável email do secretário-geral da NATO enviado ao presidente americano. Ambos competem em sabujice, para agradar ao ego de Trump.
Medalha
É uma pena que o Comité Nobel de Oslo não venha a terreiro lamentar que o seu gesto face a Corina Machado tenha por esta sido desvirtuado com a oferta da medalha a Trump. Bastava lembrar-lhe que a escolha dos distinguidos não é da competência dos próprios.
O voto
O voto é secreto, mas não é proibido revelar em quem se vota. Vou votar Seguro, claro. Se não chegar à 2ª volta, votarei contra Ventura, exceto se o adversário for Cotrim, caso em que votarei em branco (mas não me abstenho). Contra Ventura, votarei sem problemas em Mendes e contrariado no almirante.
Últimos dias
Há não muitas semanas, numa noite hiper-neonizada da Times Square, em Nova Iorque, olhei a montra de uma loja que vendia já não sei o quê e em que o esquema era o mesmo: "últimos dias", "liquidação total", "everything must go" ou coisas assim. Ainda ironizei intimamente que talvez fosse uma metáfora sobre os tempos de Trump. Mas não, eram umas bugigangas quaisquer, provavelmente eletrónicas.
E foi então que, naquele que, para muitos, é o centro do mundo em que o mercado é o rei e senhor, onde os números iluminados do Nasdaq há muito substituiram o cowboy fumegante do Camel, me veio à memória um outro dia, exatamente naquele cruzamento de ruas, em dezembro de 1972.
Eu tinha ido de Lisboa, num viagem de grupo. A guia americana, uma mulher de idade (este conceito é mutante: a senhora devia ser bem mais nova do que eu sou hoje...), que falava um português macarrónico, antes de abrir a porta do autocarro que nos despejaria em Times Square, disse então uma coisa que nunca mais esqueci: "Não se deixem impressionar pelos anúncios em casas que estão em "liquidação total", em "últimos dias" de atividade. Algumas dessas casas já as conheço em "últimos dias" há mais de 20 anos..."
quinta-feira, janeiro 15, 2026
A alma dos moedeiros
Não esperava emocionar-me numa sessão sobre cunhagem de moedas. Mas foi exactamente isso que aconteceu.
No final da tarde de hoje, estive na biblioteca da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, movido pela curiosidade da apresentação de um número de uma revista da casa. O que poderia ter sido apenas mais uma sessão institucional transformou-se numa coisa completamente diferente.
Parte importante da apresentação foi dedicada a recordar o lançamento das moedas do euro, a partir de 2002.
E foi então que algo aconteceu. Dois especialistas das oficinas da casa — um deles já aposentado — tomaram a palavra. Com simplicidade, rigor e um entusiasmo genuíno, eles transformaram aquilo que ameaçava ser uma burocrática evocação de rotinas de trabalho numa verdadeira jornada sentimental. Para eles, aquele projeto não tinha sido apenas um trabalho: tinha sido uma aventura que lhes marcou as vidas. Ali, perante todos nós, fizeram um “filme” fascinante desses dias únicos.
A certo ponto, um dos “moedeiros” — conceito que só então conheci — comoveu-se visivelmente ao evocar a sua gente, as suas equipas, aqueles que com ele trabalharam. A necessidade de treinar gente para o futuro dessas tarefas.
Não foi apenas uma demonstração de profundo profissionalismo. Foi a revelação de uma ligação emocional à casa a que orgulhosamente pertencia, às pessoas com quem tinha partilhado anos intensos, ao verdadeiro sentido de missão que a sua tarefa constituía. Acho que todos ficámos tocados por esse momento de verdade.
Foi um final de tarde que, apesar da chuva persistente lá fora, me ajudou a ganhar um belo dia.
quarta-feira, janeiro 14, 2026
Nada como a coerência
O mesmo candidato que, há três dias, deixava em aberto a possibilidade de vir a optar por Ventura no caso de não conseguir chegar à segunda volta, apela agora a Montenegro para o apoiar, a fim de evitar uma possível vitória do candidato do Chega.
Alguém sabe?
É uma sensação muito estranha constatar, mais de meio século depois do 25 de Abril, que um em cada quatro portugueses considera que o país ficaria bem servido se André Ventura fosse eleito presidente da República. Porque a culpa não é deles, pergunto-me onde é que falhámos.
terça-feira, janeiro 13, 2026
segunda-feira, janeiro 12, 2026
América. Afinal havia outra?
domingo, janeiro 11, 2026
"A Arte da Guerra"
Pode ver aqui.
sábado, janeiro 10, 2026
"Fear or values - we must choose"
Não é preciso alguém desistir
Anda por aí um mito em torno da necessidade de desistência de algum dos candidatos da esquerda, antes da primeira volta, para evitar uma vitória da direita pura e dura na segunda volta das presidenciais.
"O medo ou os valores - escolham!"
Artigo que escrevi a convite da revista "Visão", na sua edição desta semana, sob o título em epígrafe
Clima
Esquina do Excelsior (café que já não existe), em Vila Real.
Comentário, à passagem: "Que frio que está!".
Resposta ouvida, bem vila-realense: "É do tempo..." (sendo que, em Vila Real, a palavra soa a "tâimpo").
Será que La Palice alguma vez calcorreou a rua Direita até ao Cabo da Vila (que ali se diz "bila")? Não diria algo de muito diferente.
sexta-feira, janeiro 09, 2026
Bruxelles
Críticas boas
Quinta-feira e outros dias
Os leitores desacordistas do "Público" aguardaram a sacrossanta coluna monotemática das quintas. Como se esperava, ela lá veio ontem (curiosamente, algo contida). Logo, de enxurrada, chegaram as cartas a zurzir o novo provedor do leitor. "Bon courage", João Garcia!
Hardware
Não sei se lhes acontece. Comigo, é o pão nosso de cada dia. Vou a uma loja de computadores ou mesmo de telefones sofististicados e, ainda com pouco tempo de conversa com quem me atende, logo constato uma crescente dificuldade de expressar o que pretendo, porque não domino o léxico. Tudo se agrava perante as perguntas que me fazem. Então, se a conversa é pelo telefone, sinto que tudo se torna ainda pior. A minha forçada modéstia leva-me quase sempre a assumir um "disclaimer", uma auto-confissão de nabice. Na realidade, era desnecessário: eles já tinham percebido.
Ontem, numa dessas lojas, onde levei um computador que achava que estava lento, a conversa foi mais curiosa e mais fácil de seguir. O técnico, que me pareceu extremamente competente, lá conseguiu encontrar um vocabulário à altura da minha própria incompetência. O que me disse ele: que o "hardware" tinha um idade apreciável e que já não comportava "software" atualizado, pelo que a lentidão operativa que eu notava era algo inelutável e que só se iria agravar. Ainda temi que, para tornar a explicação mais fácil para o leigo que sou, ele fosse tentado a acrescentar: "É como as pessoas. Com a passagem dos anos, já não conseguem processar toda a informação, tornam-se mais lentas nas reações e a memória sofre com isso". Mas não: teve a delicadeza de não me amesquinhar com uma metáfora dessas.
E lá regressei a casa com o meu "desktop" debaixo do braço, sem saber bem se vale a pena adquirir, para o meu poiso em Vila Real, material mais recente, ou se este iPad em que escrevo chega e sobra para as encomendas, que o tal tempo também tenderá a que sejam cada vez menos, como cá por casa veementemente se deseja. É que desconfio que, um destes dias, sou eu quem não vai estar, definitivamente, à altura desse novo "hardware". Tenho de pensar nisto. Com calma. Ou será com lentidão?
quinta-feira, janeiro 08, 2026
Exfiltrar
Em português, é comum a palavra "infiltração". Curiosamente, o conceito contrário - "exfiltração", para designar a retirada de algo ou alguém, de dentro para fora - raramente é utilizado na nossa língua.
A Venezuela foi palco recente de duas exfiltrações: Corina Machado e Nicolás Maduro.
100 anos
Em julho, aquando das comemorações do centenário da elevação de Vila Real a cidade, estava muito longe de Portugal, razão por que não pude receber a Medalha do Centenário, com que o município tinha decidido distinguir 30 pessoas.
Isso veio a acontecer hoje, numa cerimónia privada que a Câmara Municipal de Vila Real teve a amabilidade de organizar para mim. O novo presidente da autarquia da minha terra, Alexandre Favaios, na presença da vereação do município, fez-me entrega da medalha e do respetivo diploma.
Apreciei muito o gesto, que agradeço com grande sinceridade.
Falar
Quando lerem que a conversa telefónica ou presencial entre líderes de dois países durou, por exemplo, uma hora, convém lembrar que, em regra, ela passa por um intérprete, o que faz com que, na prática, seja meia hora de interlocução útil. A menos que eles falem uma língua comum.
quarta-feira, janeiro 07, 2026
"O medo ou os valores - escolham!"
A "Visão", uma revista semanal feita de profissionalismo e de coragem, é um milagre do jornalismo português. Esta edição, crismada de "Não fechem os olhos", promete.
Segunda aposta
Faço uma segunda aposta em como a questão da Gronelândia não vai passar de um arrufo que, claro, se irá resolver a contento dos EUA, com a Dinamarca a não perder completamente a face. Dado que os EUA já são, nos dias de hoje, a maior presença militar na região, a Gronelândia pode vir a tornar-se, no plano militar, numa espécie de "território NATO", com acrescida presença americana, com Copenhague a fingir que manda e que "deixou", com alguns europeus a porem por lá bandeirinhas para fingir que são potências.
Primeira aposta
Faço uma primeira aposta: nunca haverá "boots on the ground" de tropas francesas, britânicas ou da "coalition of the willing" em território ucraniano. O que não significa que não possa haver uma monitorização nesse mesmo terreno feita por tropas americanas.
Comentários
Desde o início do ano, são acolhidos neste blogue alguns comentários. Relembro que os comentários devem referir-se ao assunto referido no post. Estimulam-se comentários críticos e contraditórios, desde que sejam redigidos em linguagem não agressiva e marcada pela urbanidade. Não serão publicados comentários que insiram links ou transcrições de textos. Este é um espaço que se pretende sereno, pelo que também não será transformado num "ring" de picardias entre comentadores. Sei que as redes sociais não costumam ter estas limitações, mas estas são as regras por aqui, desculpem lá!
D'accord?
Demissões
Uma dúvida sempre me assaltou: os responsáveis por serviços nos hospitais que, com estrondo mediático, e provavelmente por respeitáveis razões, regularmente anunciam a sua demissão, depois voltam? É que, se assim não for, deve haver uma legião de diretores à lareira.
terça-feira, janeiro 06, 2026
Se Lisboa diz...
"Portugal diz que o vencedor das últimas eleições, Edmundo González, tem de fazer parte do novo governo da Venezuela".
Depois de ouvir isto, tenho a certeza de que Trump vai pensar duas vezes.
Ortographico
Estou muito curioso em perceber o que se vai passar dentro do "Público", depois da desassombrada tomada de posição do seu novo "provedor do leitor", denunciando o caráter retrógrado da não utilização do "Acordo Ortographico" pelo jornal.
Triste
É simplesmente patética a reação europeia perante as ameaças de Trump. Agora, a propósito da Gronelândia, um grupinho (a Europa passou a funcionar por grupinhos) veio a terreiro fazer peito verbal com um comunicado. Coragem era defender a ordem multilateral, convocando o CSNU.
Ainda respiram?
Não sei se me surpreenda ou se me assuste por não ver o "establishment" democrático americano dissociar-se abertamente da narrativa imperial de Trump sobre os recursos do hemisfério ocidental. No passado, essas pessoas projetavam uma outra América. Desistiram ou concordam?
Será?
Trump já esclareceu que não está numa "guerra" com a Venezuela. Existe assim uma crescente curiosidade em saber se, em face da ação desencadeada, se está perante uma "operação militar especial"... É que, às vezes, "les beaux esprits se rencontrent".
Amorim
Para o bem e para o mal, não somos ingleses. Nada melhor o prova do que a forma como um grande clube como o Manchester United se comportou com Rúben Amorim. Qualquer clube português ter- lhe-ia dado com os pés há muito, sob pressão dos resultados. Dito isto, Amorim é um senhor!
segunda-feira, janeiro 05, 2026
Trump em Piscais
Aqui chegámos
Usar a regular colocação de uma muito qualificada funcionária diplomática - sei bem do que falo, como outras pessoas no MNE sabem - como arma de chicana no meio da campanha presidencial é um gesto baixo, bem revelador do estado do país em que nos deixámos cair.
Por que não te Kallas?!
A justa causa deveria poder ser usada pela UE para pôr com dono uma das mais incompetentes personalidades - e já por lá houve outras bem incompetentes - que alguma vez chegou a um posto de responsabilidade europeia: Kaja Kallas. Ao ouvi-la, apetece-me citar o rei espanhol: por que não te Kallas?
Venezuela
domingo, janeiro 04, 2026
"O regresso de Monroe"
Coragem e decência
Coragem e decência é ser capaz de caraterizar a ação americana da Venezuela como uma grosseira violação do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, sem ter a tentação desculpabilizante de logo acrescentar um "mas..."
sábado, janeiro 03, 2026
O legítimo
Tenho cá uma desconfiança sobre quem poderá ser o ditador "legítimo" de quem, implicitamente, a atual direção do CDS terá saudades...
O regresso do bilateralismo
Pena do Maduro?
Depende
O Zé era um comerciante bastante atípico. Na sua loja de antiguidades e velharias, nem sempre era fácil comprar alguma coisa. Tinha mau feitio e, se embirrava com o potencial comprador, ou se estava relutante em desfazer-se de uma peça, começava com circunlóquios que logo afastavam a clientela. Assisti a algunas cenas dessas.
Terá sido esta última circunstância que, um dia, o meu pai, que o conhecia quase desde criança, experimentou. Entrou na loja do Zé, que era nosso vizinho de porta na avenida central da cidade, e perguntou quanto custava um relógio francês, com pêndulo de violão, que se via da rua. Desde sempre, o meu pai teve um fascínio por esse tipo de relógios. Herdei três!
O Zé, que pelos vistos estaria num dos seus dias de não querer vender, respondeu-lhe: "Depende, senhor Costa". O meu pai ficou intrigado. "Depende de quê, senhor Araújo?" E o Zé sai-se então com esta: "Depende do preço que eu pedir: tanto posso pedir nove, como dez ou doze contos por ele..." O meu pai rodou os tacões, ao mesmo tempo que lhe disse: "Estou esclarecido, senhor Araújo!" Chegou a casa furioso: "Aquele teu amigo não regula bem da cabeça!" E contou-me o episódio.
Nesse ou no dia seguinte, no balcão da Gomes, junto à máquina do fiambre, onde o Zé se encostava para fumar, de samarra sobre os ombros (em Vila Real, "homem que é homem" não veste a samarra, "para não dar confiança ao chiasco"), perguntei-lhe: "Então não quiseste vender um relógio ao meu pai? Disse-me que lhe deste uma resposta muito estranha".
O Zé riu-se: "O teu pai não percebeu o que eu lhe disse e saiu logo da loja, sem me dar tempo de lhe explicar que eu tinha ali o relógio à consignação e que o proprietário ainda não tinha decidido qual o preço exato que ia pedir".
Quando, ao fim do dia, contei a resposta do Zé ao meu pai, este não me pareceu muito convencido: "Esse teu amigo anda sempre contra o vento..."
Horas extraordinárias
A noite (13)
Catarina Martins e António Filipe foram vítimas da polarização dos dias e da (vamos pelo eufemismo económico) "inadequação da oferta à ...





























