segunda-feira, janeiro 12, 2026

América. Afinal havia outra?


(Artigo com o título em epígrafe publicado a convite do "Diário de Notícias", na sua edição de hoje)


Entre nós, tem algum eco uma velha escola de anti-americanismo primário, que se alimenta da tese básica de que, na América, “eles” são todos iguais.

Republicanos e democratas, dependendo da conjuntura externa que condiciona o momento, representarão os interesses por trás da mesma moeda, o dólar, com faces apenas aparentemente diversas. São sempre os mesmos powers that be que ditam as regras, que mandam fazer ou desfazer as guerras. Os protagonistas alternam, mas a peça é basicamente idêntica. No fundo, na ocupação da Casa Branca, quase sempre, venha o diabo e escolha.

Com os anos, de forma racional, fui sendo levado, a pensar que, ao contrário dessa escola, nem tudo era assim tão bonnet blanc, blanc bonnet. Houve a tradição do New Deal de Roosevelt, emergiram ondas relevantes de políticas sociais. Nos direitos cívicos - chegando embora tarde ao que era evidente - os democratas estiveram quase sempre na linha da frente, muitas vezes com grande coragem.

É certo que, em momentos decisivos, em especial na obnubilação da Guerra Fria, a Administrações democratas fugiu o pé para os seus Vietnames, para o excecionalismo, para um multilateralismo à la carte. Ainda assim, ia eu concluindo, não era bem a mesma coisa. Longe de ter sido entusiasta de Clinton ou de Obama, sempre me senti mais próximo dessa tradição do que da alternativa republicana, permanecendo um saudoso viúvo de Adlai Stevenson e de George McGovern - esse grupo dos the best presidents we never had.

Com a chegada de Trump à boca de cena, o contraste foi brutal. Tudo o que lhe era oposto passou a parecer melhor. De um dia para o outro, nos “meus”, esqueci os bombardeamentos de Clinton para mudar as notícias de Lewinsky, quase perdoei a cobardia de Obama na manutenção de Guantánamo, tentei apagar da memória a irresponsabilidade de Hillary Clinton na Líbia e, no limite, até desejei ter Kamala Harris na Casa Branca. O desespero induz estas fraquezas.

Trump anunciava-se muito mau. A realidade revelou-se ainda mais impiedosa. A deriva fez-se em catadupa, tanto na ordem interna como no plano internacional. Sanders e Ocasio-Cortez levantavam a voz, mas ela foi submersa na irracionalidade feita política.

Foi então que me lembrei deles: de Bill Clinton, de Al Gore, de Obama, de Hillary Clinton e até, enfim, de Kamala Harris. E esperei que falassem. Em vão.

Quando Trump ameaça usar força militar contra a Gronelândia - território de um aliado NATO - ou quando desmonta, com desdém, o sistema das Nações Unidas que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir, o silêncio daquelas que foram lideranças democratas de peso é perturbador. Os promotores históricos do multilateralismo, de uma ordem internacional com algumas regras ou da agenda climática permanecem ausentes do espaço público, enquanto décadas de diplomacia são desfeitas com uma penada arrogante.

Este silêncio não é neutro. É uma escolha. Quando uma potência se arroga direitos de natureza imperial sem oposição interna credível, cria precedentes. E os precedentes, como bem sabemos, raramente ficam confinados a quem os inaugura. O silêncio de hoje prepara a capitulação de amanhã.

Será então que, afinal, a tese do “eles são todos iguais” tem alguma razão de ser? No final de contas, neste momento decisivo, que é feito da outra América?

domingo, janeiro 11, 2026

"A Arte da Guerra"


Mais uma semana em que a figura de Donald Trump se projeta sobre vários cenários geopolíticos.

Pode ver aqui.

sábado, janeiro 10, 2026

"Fear or values - we must choose"

(This text was published in the Portuguese weekly magazine Visão)

Fear or Values – You Must Choose

The flood of information around us brings a constant stream of unsettling themes. From wars to climate disruption, from the impact of Artificial Intelligence to the global collapse of trust in political leaders, from young people’s anxiety about the future to the toxic debate over migration — our societies increasingly seem unable to find effective answers to the many problems that overwhelm them.

Understandably, this fuels insecurity. More and more people are drawn to radical alternatives, even if that means abandoning values and principles that not long ago felt unshakable within democratic life.

There isn’t one simple explanation for this shift, but if I had to choose a single word, it would be fear.

Fear, as a political force, is anything but passive. It’s an active fuel — refined and injected into public debate by algorithms that reward outrage and by a media ecosystem that profits from anger.

This attention economy creates a vicious circle: the sense of chaos drives people to seek easy, often authoritarian solutions, which then erode democracy’s complex decision-making processes even further. Our biggest crisis is not only the number of problems we face, but our collective inability to handle them without falling into panic. And populism, of course, pretends to be the cure — but it’s only a symptom.

Fear is natural, but intelligence can always overcome it. People want predictability in their lives, even if some risk comes with it. We all know danger exists — yet we like to believe we can manage it by the choices we make. What nobody wants, though, is the unexpected threat around the corner, the confrontation with an unknown danger to ourselves or those we care about.

Perhaps it’s just an illusion, but ordinary citizens have come to see public authorities as a kind of police against social disorder. Politicians in a democracy are expected to provide reassurance — to show there’s a plan for the next day. The trouble is that these figures have lost much of their credibility, and that loss weakens their ability to make people feel safe. Today, it’s simply common to assume that every politician might be using their position for personal gain.

Whether this suspicion is rooted in real guilt or in campaigns to discredit public servants is another question. The point is that doubt now hangs over politics itself.

In modern democracies, political life is becoming shorter. Leaders have less and less time to succeed before public patience runs out. Meanwhile, the decline of the big “catch-all” parties has led to fragmentation — small ideological movements rise, fragile coalitions form, and governments fall into recurring cycles of instability.

A Divided World

The same insecurity that corrodes democracies from within has also spread internationally.

After the Cold War — which shook but didn’t destroy the post-1945 order — the world seemed relatively calm. Many believed the defeated side had accepted its place, and that the global divide was gone for good. That illusion ended with the war in Ukraine.

The multilateral system, with the United Nations and international law at its core, has largely collapsed. Collective trust is gone — and ironically, today’s United States helped dismantle the very mechanisms of cooperation they once built. The moral cowardice the West showed in Gaza, and Europe’s ongoing cynicism in dealing with power politics, have completed the picture. Ordinary citizens, already disillusioned with national institutions, now face the collapse of the global framework that once gave a sense of order.

What Can We Do?

This is not a comforting message; uncertainty is part of it. But if we ask what truly matters for the near future, the answer is simple: our values.

Whatever doubts we may have, the only responsible way to face uncertain times is to stand firm on the basics that define us. In politics, that means defending democracy and rejecting exceptionalism. In society, it means rejecting sectarian and discriminatory ideologies. It means standing up for truth — exposing lies, disinformation, and fear-mongering.

But holding firm to values is not just about words; it’s about daily practice. It means valuing slow, investigative journalism over viral gossip. It means demanding transparency, even from the politicians we support. It means recognising that the world’s problems are complex — and refusing to blame easy scapegoats. These are the real foundations of a healthy civic life: an independent, transparent justice system; education that teaches critical thinking; and a public space where reasoned debate isn’t drowned out by shouting.

Fighting and educating against the populism of fear is the only struggle that truly matters — against the fear of what is different, diverse, or contradictory.

2026 will bring “challenges,” as people like to say. But let’s drop the euphemisms. It will be a year like any other — full of uncertainty about the future. The difference will lie in how we face it. Some will choose to defend their values. Others will give in, abandoning principles in the name of fear.

The choice is yours.

Não é preciso alguém desistir


Anda por aí um mito em torno da necessidade de desistência de algum dos candidatos da esquerda, antes da primeira volta, para evitar uma vitória da direita pura e dura na segunda volta das presidenciais.

O "povo de esquerda" (o conceito foi criado por António Barreto, há 40 anos) sabe muito bem o que quer e não precisa de indicações de voto. 

Por isso, não está à espera de desistências: digam os seus candidatos o que disserem, o "povo de esquerda" - e com ele muitos social-democratas que temem ver o país social em risco - já parece ter percebido que, se quer evitar vir a ter em Belém, por muitos e maus anos, alguém oriundo de uma direita perigosa e imprevisível - populista, radical ou autoritária -, tem simplesmente de votar Seguro. Logo na primeira volta, claro.

Denmark is ready!

 


"O medo ou os valores - escolham!"


Artigo que escrevi a convite da revista "Visão", na sua edição desta semana, sob o título em epígrafe


A avalanche de informação inunda-nos de temas inquietantes. Das guerras à desregulação climática, dos efeitos da Inteligência Artificial à crise global de confiança nos agentes políticos, da angústia de uma juventude com futuro problemático ao ambiente perverso em torno das migrações – criou-se a sensação de que as nossas sociedades estão, de forma crescente, a ficar sem soluções eficazes para a imensidão de problemas que as submergem.

Com alguma naturalidade, isso induz sentimentos de insegurança. Torna cada vez mais pessoas permeáveis à tentação por opções radicais, mesmo que isso signifique abandonar valores e princípios que, ainda há pouco, se davam como adquiridos e definitivamente aculturados na cidadania democrática contemporânea.

Não há uma resposta fácil e única para explicar o que nos sucedeu, mas arriscaria simplificá-la numa palavra: o medo.

O medo, enquanto força política, não é um sentimento meramente passivo. É um combustível ativo, sistematicamente refinado e injetado no debate público por algoritmos que privilegiam o escândalo e pela indústria do clickbait que monetiza a indignação.

Esta economia da atenção cria um círculo vicioso: a perceção de caos alimenta a procura por soluções simples, frequentemente autoritárias, que, por sua vez, degradam ainda mais os mecanismos complexos e deliberativos da democracia. A verdadeira crise, portanto, não é só a dos problemas, mas a da nossa capacidade coletiva de os processar sem pânico. A falsa solução é, claro, a do populismo.

O medo é respeitável, mas é sempre superável pela inteligência. As pessoas gostam de viver com previsibilidade, mesmo que ela comporte uma dose natural de risco. Todos podemos ser assaltados, mas gostamos da sensação de que, em grande medida, gerimos a geografia do perigo ao escolher os nossos caminhos. O que ninguém gosta, definitivamente, é da má surpresa que pode surgir depois de uma esquina, do confronto com o desconhecido ameaçador, para nós e para aqueles que protegemos.

Podendo isso não passar de uma ilusão, o cidadão comum foi levado a olhar para os poderes públicos como uma espécie de polícia da desregulação social. Compete aos políticos, em democracia, apresentar fórmulas para nos ajudar a gerir o dia seguinte. Ora, torna-se cada vez mais evidente que esses mentores da vida pública vivem sob um profundo desgaste de credibilidade. Isso conduz à perda crescente da sua eficácia como um fator indutor de segurança para as sociedades. Olhar para um agente político como um potencial suspeito de abusar do cargo para interesse próprio passou a ser uma atitude corrente.

Se este ambiente de suspeição resulta de culpa objetiva dos atores públicos ou de um ataque deliberado à sua legitimidade por incendiários de opinião, é uma segunda questão. O facto é que está criado um manto de dúvida sobre os agentes políticos.

Em democracia, a regra começa a ser o encurtamento da sua sobrevivência no poder, sob um estado mínimo de graça que lhes garanta eficácia. Acresce que a impopularidade dos partidos "catch-all", outrora hegemónicos, leva a uma fragmentação política crescente. Surgem partidos oriundos de nichos ideológicos, obrigando a coligações instáveis que geram crises cíclicas de ingovernabilidade.


Um Mundo dividido


Se este ambiente de dúvida corrói as democracias internamente, um sentimento análogo de insegurança também se instalou no plano global, em escassos anos.

Depois de uma Guerra Fria que abalou mas não pôs em causa o sistema pactado em 1945, vivia-se um ambiente de relativa acalmia. Acreditava-se que o derrotado na luta global aceitara a sua inferiorização e permitia a exploração do sucesso pelo vencedor. Fixou-se mesmo a ideia de que qualquer futura linha divisória do mundo já não passaria por ali. Essa ilusão morreu na Ucrânia.

A arquitetura institucional do mundo multilateral, com a ONU no centro e o direito internacional como norma, colapsou, afetando a confiança coletiva. O mais irónico é que os próprios Estados Unidos de hoje são "coautores" da desconstrução desses mecanismos de diálogo e confiança mútua. A cobardia moral que o mundo ocidental evidenciou depois em Gaza, e que a Europa prolonga hoje com o cinismo da sua realpolitik de poder acossado, completou esse quadro de afastamento de um mundo decente. O cidadão comum, que já via diluída a sua confiança nas estruturas nacionais, passou a confrontar-se com a ruína do quadro de referência global.


Que fazer?

Este texto não pretende ser sossegante, porque é também tributário da incerteza. Mas se a questão é saber a que devemos estar atentos no futuro imediato, a resposta é muito simples: aos valores.

Tenhamos nós as dúvidas que tivermos, e sem querer esboçar regras de autoajuda, entendo que a única forma responsável de olhar os tempos que se aproximam é sermos de uma extrema firmeza nos "basics" que nos servem de referência: olhar a política sempre sob o primado da democracia e da recusa do excecionalismo; agir em sociedade na permanente rejeição de ideologias sectárias ou discriminatórias; lutar pelo predomínio da verdade, denunciando a desinformação e expondo a falácia das perceções assustadoras.

Mas a firmeza nos valores de que falamos não pode ser uma declaração de intenções vaga. Exige uma prática quotidiana de cidadania exigente. Significa valorizar o jornalismo lento de investigação sobre o rumor viral; exigir transparência mesmo ao político do “nosso” campo; reconhecer a complexidade de um problema global em vez de culpar um bode expiatório local. Estes “basics” são o antídoto institucional e cultural: uma justiça independente e transparente, uma educação que ensine pensamento crítico e não apenas competência técnica, um espaço público onde o debate rigoroso não seja abafado pelo grito.

Combater, denunciar e educar contra o populismo do medo é a única palavra de ordem que vale a pena lançar: contra o medo ao diferente, ao diverso, ao contraditório.

2026 será um ano de desafios – a palavra com que a linguagem moderna gosta de exorcizar as dificuldades. Deixemo-nos de eufemismos: 2026 será um ano como qualquer outro, porque os novos anos carregam sempre todas as incertezas do futuro. A diferença estará em como o enfrentamos. Uns serão capazes de o fazer, afirmando e defendendo valores. Outros acobardar-se-ão, trocando princípios pela pressão dos receios, por mais primários que estes sejam.

É só escolher!

O Estado a que isto chegou

 



Clima


Esquina do Excelsior (café que já não existe), em Vila Real. 

Comentário, à passagem: "Que frio que está!". 

Resposta ouvida, bem vila-realense: "É do tempo..." (sendo que, em Vila Real, a palavra soa a "tâimpo").

Será que La Palice alguma vez calcorreou a rua Direita até ao Cabo da Vila (que ali se diz "bila")? Não diria algo de muito diferente.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Bruxelles


Quem andou pela lides europeias, em Bruxelas, lembrar-se-á, com certeza, destes cadernos com capa de pano, quadriculados ou com linhas, pintados a vermelho na contra-lombada (inventei a palavra agora) e nos topos.

No meu caso, comprava-os sempre numa papelaria do boulevard Adolph Max. Mas imagino que se vendesse em outros locais.

Foi nesses cadernos que anotei centenas de horas de reuniões, em Bruxelas e no Luxemburgo. Numas arrumaçõee, encontrei hoje estes livrinhos, no fundo de um caixote, aqui por Vila Real. Mas desconfio que ainda deve haver muitos outros escondidos algures. 

Quase não me atrevo a abri-los! Os temas devem ser uma imensa chatice! E já não tenho vida disponível para perder tempo com coisas requentadas do meu passado. Do qual gostei muito, devo dizer!

Críticas boas

Hoje, li isto, num perfil a meu respeito:

"Critics have portrayed his broader diplomatic outlook as overly multilateralist and dismissive of populist sentiments, reflecting a perceived establishment bias against non-mainstream political forces. During the same period, his advocacy for stringent EU responses to perceived illiberal shifts was seen by some as prioritizing supranational norms over democratic legitimacy, a view echoed in analyses of the Austria affair as an overreach that foreshadowed tensions in EU enlargement debates."

Há críticas que sabem bem.

Quinta-feira e outros dias

Os leitores desacordistas do "Público" aguardaram a sacrossanta coluna monotemática das quintas. Como se esperava, ela lá veio ontem (curiosamente, algo contida). Logo, de enxurrada, chegaram as cartas a zurzir o novo provedor do leitor. "Bon courage", João Garcia!

Hardware

Não sei se lhes acontece. Comigo, é o pão nosso de cada dia. Vou a uma loja de computadores ou mesmo de telefones sofististicados e, ainda com pouco tempo de conversa com quem me atende, logo constato uma crescente dificuldade de expressar o que pretendo, porque não domino o léxico. Tudo se agrava perante as perguntas que me fazem. Então, se a conversa é pelo telefone, sinto que tudo se torna ainda pior. A minha forçada modéstia leva-me quase sempre a assumir um "disclaimer", uma auto-confissão de nabice. Na realidade, era desnecessário: eles já tinham percebido.

Ontem, numa dessas lojas, onde levei um computador que achava que estava lento, a conversa foi mais curiosa e mais fácil de seguir. O técnico, que me pareceu extremamente competente, lá conseguiu encontrar um vocabulário à altura da minha própria incompetência. O que me disse ele: que o "hardware" tinha um idade apreciável e que já não comportava "software" atualizado, pelo que a lentidão operativa que eu notava era algo inelutável e que só se iria agravar. Ainda temi que, para tornar a explicação mais fácil para o leigo que sou, ele fosse tentado a acrescentar: "É como as pessoas. Com a passagem dos anos, já não conseguem processar toda a informação, tornam-se mais lentas nas reações e a memória sofre com isso". Mas não: teve a delicadeza de não me amesquinhar com uma metáfora dessas. 

E lá regressei a casa com o meu "desktop" debaixo do braço, sem saber bem se vale a pena adquirir, para o meu poiso em Vila Real, material mais recente, ou se este iPad em que escrevo chega e sobra para as encomendas, que o tal tempo também tenderá a que sejam cada vez menos, como cá por casa veementemente se deseja. É que desconfio que, um destes dias, sou eu quem não vai estar, definitivamente, à altura desse novo "hardware". Tenho de pensar nisto. Com calma. Ou será com lentidão?

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Exfiltrar

Em português, é comum a palavra "infiltração". Curiosamente, o conceito contrário - "exfiltração", para designar a retirada de algo ou alguém, de dentro para fora - raramente é utilizado na nossa língua.

A Venezuela foi palco recente de duas exfiltrações: Corina Machado e Nicolás Maduro.

100 anos


Em julho, aquando das comemorações do centenário da elevação de Vila Real a cidade, estava muito longe de Portugal, razão por que não pude receber a Medalha do Centenário, com que o município tinha decidido distinguir 30 pessoas. 

Isso veio a acontecer hoje, numa cerimónia privada que a Câmara Municipal de Vila Real teve a amabilidade de organizar para mim. O novo presidente da autarquia da minha terra, Alexandre Favaios, na presença da vereação do município, fez-me entrega da medalha e do respetivo diploma. 

Apreciei muito o gesto, que agradeço com grande sinceridade.

Falar

Quando lerem que a conversa telefónica ou presencial entre líderes de dois países durou, por exemplo, uma hora, convém lembrar que, em regra, ela passa por um intérprete, o que faz com que, na prática, seja meia hora de interlocução útil. A menos que eles falem uma língua comum.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

"O medo ou os valores - escolham!"


Sei que sou suspeito, porque tenho lá um texto com o título que está em epígrafe, mas acho que o número da "Visão" desta semana, ainda mais do que o habitual, vai valer a pena ler. São mais de 30 textos sobre os temas mais candentes da atualidade. Estou curioso, confesso.

A "Visão", uma revista semanal feita de profissionalismo e de coragem, é um milagre do jornalismo português. Esta edição, crismada de "Não fechem os olhos", promete.

Segunda aposta

Faço uma segunda aposta em como a questão da Gronelândia não vai passar de um arrufo que, claro, se irá resolver a contento dos EUA, com a Dinamarca a não perder completamente a face. Dado que os EUA já são, nos dias de hoje, a maior presença militar na região, a Gronelândia pode vir a tornar-se, no plano militar, numa espécie de "território NATO", com acrescida presença americana, com Copenhague a fingir que manda e que "deixou", com alguns europeus a porem por lá bandeirinhas para fingir que são potências.

Primeira aposta

Faço uma primeira aposta: nunca haverá "boots on the ground" de tropas francesas, britânicas ou da "coalition of the willing" em território ucraniano. O que não significa que não possa haver uma monitorização nesse mesmo terreno feita por tropas americanas.

Comentários

Desde o início do ano, são acolhidos neste blogue alguns comentários. Relembro que os comentários devem referir-se ao assunto referido no post. Estimulam-se comentários críticos e contraditórios, desde que sejam redigidos em linguagem não agressiva e marcada pela urbanidade. Não serão publicados comentários que insiram links ou transcrições de textos. Este é um espaço que se pretende sereno, pelo que também não será transformado num "ring" de picardias entre comentadores. Sei que as redes sociais não costumam ter estas limitações, mas estas são as regras por aqui, desculpem lá!

D'accord?

Percebo que haja pessoas que tenham razões para não gostar do Acordo Ortográfico que, desde há bem mais de uma década, é utilizado, já com normalidade, nas publicações oficiais e em todos os níveis de ensino em Portugal. 

Contudo, tenho dificuldade em entender por que razão muitas dessas pessoas, em lugar de manifestarem essa sua discordância com serena urbanidade, adotam, com grande frequência, uma linguagem agressiva e às vezes insultuosa, seja para com os defensores do Acordo, seja na qualificação do próprio diploma normativo, adjetivando-o de forma ácida. 

Será que isso revela o seu desespero, por terem percebido que já perderam a parada? 

Curiosamente, o contrário não parece acontecer: não vejo, em regra, os defensores do Acordo dizerem coisas desagradáveis dos detratores da norma. Por que será?

Demissões

Uma dúvida sempre me assaltou: os responsáveis por serviços nos hospitais que, com estrondo mediático, e provavelmente por respeitáveis razões, regularmente anunciam a sua demissão, depois voltam? É que, se assim não for, deve haver uma legião de diretores à lareira.

terça-feira, janeiro 06, 2026

Se Lisboa diz...

"Portugal diz que o vencedor das últimas eleições, Edmundo González, tem de fazer parte do novo governo da Venezuela". 

Depois de ouvir isto, tenho a certeza de que Trump vai pensar duas vezes.

Direitas


Ver aqui.

Ortographico

Estou muito curioso em perceber o que se vai passar dentro do "Público", depois da desassombrada tomada de posição do seu novo "provedor do leitor", denunciando o caráter retrógrado da não utilização do "Acordo Ortographico" pelo jornal. 

Triste

É simplesmente patética a reação europeia perante as ameaças de Trump. Agora, a propósito da Gronelândia, um grupinho (a Europa passou a funcionar por grupinhos) veio a terreiro fazer peito verbal com um comunicado. Coragem era defender a ordem multilateral, convocando o CSNU.

Ainda respiram?

Não sei se me surpreenda ou se me assuste por não ver o "establishment" democrático americano dissociar-se abertamente da narrativa imperial de Trump sobre os recursos do hemisfério ocidental. No passado, essas pessoas projetavam uma outra América. Desistiram ou concordam?

Será?

Trump já esclareceu que não está numa "guerra" com a Venezuela. Existe assim uma crescente curiosidade em saber se, em face da ação desencadeada, se está perante uma "operação militar especial"... É que, às vezes, "les beaux esprits se rencontrent".

Amorim

Para o bem e para o mal, não somos ingleses. Nada melhor o prova do que a forma como um grande clube como o Manchester United se comportou com Rúben Amorim. Qualquer clube português ter- lhe-ia dado com os pés há muito, sob pressão dos resultados. Dito isto, Amorim é um senhor!

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Trump em Piscais


Sabem onde é Piscais? Até há pouco eu não sabia. Mas Trump sabia! Só assim se compreende que tenha ido a um portão de Piscais, aqui ao lado de Vila Real, inspirar-se para a decoração do seu gabinete na Casa Branca, apenas dourando o ornamento.

Aqui chegámos

Usar a regular colocação de uma muito qualificada funcionária diplomática - sei bem do que falo, como outras pessoas no MNE sabem - como arma de chicana no meio da campanha presidencial é um gesto baixo, bem revelador do estado do país em que nos deixámos cair.

Por que não te Kallas?!

justa causa deveria poder ser usada pela UE para pôr com dono uma das mais incompetentes personalidades - e já por lá houve outras bem incompetentes - que alguma vez chegou a um posto de responsabilidade europeia: Kaja Kallas. Ao ouvi-la, apetece-me citar o rei espanhol: por que não te Kallas?

Venezuela


(
Texto de uma entrevista hoje concedida ao "Diário de Notícias" da Madeira)

Como observa e classifica a actual operação militar na Venezuela? Considera que estamos perante um episódio pontual ou num tabuleiro geopolítico mais vasto?

A ação militar americana na Venezuela corresponde à consciência, por parte do governo de Washington, de que estão criadas condiçõespara poder atuar, na ordem global, sem estar limitado por aquilo a que alguns ainda vãochamando de Direito Internacional. 

Os Estados Unidos assumiram - e isso está plasmado na sua recente estratégia de segurança nacional - que a sua atividade pelo mundo tem uma única referência: a prioridade absoluta dos interesses americanos. Todos os restantesinteresses nacionais ficam subordinados ao interesse dos EUA. 

Ao assim atuarem, os EUA põem fim a uma ordem internacional regida por regras e em que o diálogo e a conciliação, com respeito pelas diferentes soberanias nacionais, era a metodologia de convivência. Ironicamente, essa tinha sido a ordem internacional que os EUA ajudaram a consagrar no termo da Segunda Guerra Mundial, ao promoverem a criação das Nações Unidas. 

É muito claro que este caso da Venezuela pode vir a significar que os EUA não excluem poder viratuar, de modo similar, em outros cenários. Por isso, o modo como esta ação decorrer pode servir de lição.


A recente referência de Donald Trump ao petróleo venezuelano revela intenções estratégicas claras da administração norte-americana?

É óbvio que a estratégia desta administração Trump tem como objetivo tomar conta de todos os recursos naturais necessários para garantir à economia americana uma capacidade de garantir a liderança global, nomeadamente face à expressão do poder económico chinês. A Venezuela, cujos recursos petrolíferos excedem os da Arábia Saudita e Irão juntos, pode agora vir a ficar sob a tutela das empresas americanas. 

Com uma estratégia económica que já colocou de parte as preocupações ambientais (o que, diga- se de passagem, é uma tragédia para os esforços de descarbonização global), a América de Trump já tinha regressado à prioridade dos combustíveis fósseis. Agora, passará a ter muitos mais ao seu dispor.

Há também quem especule que esta desbragada"mainmise" sobre o petróleo venezuelano tem como objetivo evitar que as transações internacionais do produto fujam ao império dos petrodólares, pelo risco que havia de uma Venezuela cada vez mais próxima dos BRICS poder ajudar a desenvolver uma ordem monetária alternativa. Neste particular, chamo a atenção para o facto importante de, no quadro político interno americano, haver um consenso sobre a necessidade de reforçar o combate à crescente afirmação chinesa. Por isso, com mais ou menos vozes dissonantes, o coro maioritário seguirá a batuta de Trump, podemos disso estar certos.


Na sua leitura, há nesta operação militar uma violação clara do direito internacional? Ou estamos perante mais uma zona cinzenta da diplomacia contemporânea, onde a legalidade internacional é frequentemente relativizada?

Cada um fará a sua leitura. A minha, sem ambiguidades, é a de que os EUA romperam com a ordem internacional, desrespeitaram as Nações Unidas e se colocaram à margem do Direito Internacional. 

Sejamos francos: variadas vezes a América fez isso no passado, frequentemente sob a complacência do mundo ocidental, em especial durante a Guerra Fria. Depois, o caso do Iraque, em 2003, foi o caso mais flagrante e gritante, mas várias da intervenções feitas pelos EUA, durante décadas, em especial na América Latina, tiveram esse caráter. 

Quando falamos, quase com naturalidade, da "doutrina Monroe" - essa "lei" não escrita que os EUA, desde o século XIX, definiram como a possibilidade de intervirem no seu "quintal" latino-americano -, quase que esquecemos a violência que representa um país dar-se o direito de tutelar a soberania dos outros. Sempre achei que a tal"doutrina Monroe", que foi criada para afastar os europeus das Américas, acabava por ter muito de comum com a "doutrina Brejnev", que defendia a "soberania limitada" da periferia da União Soviética.

Imaginemos como nos sentiríamos, na Europa, se algum dos grandes países do continente entendesse ter o direito de intervir na ordem interna de Portugal? Ou se a Espanha criasse um "doutrina dos Filipes" para gerir a Península Ibérica? 


O facto de os EUA quererem assumir a governação de um país estrangeiro, mesmo que numa fase de transição, não abre um precedente grave?

Só não é precedente porque os Estados Unidos tentaram fazer isso no Iraque, em 2003, com as consequências trágicas que se viu. A História revela as dificuldades que sempre houve em criar governos tutelados do exterior, quer com figuras estrangeiras "importadas", quer com personagens locais, sejam "Quislings" ou políticos alternativos. 

Uma coisa é sempre muito clara: esses governos, impostos de fora, nunca são democráticos, porque não derivam do voto popular. Poderão ser transitórios, para preparar a democracia? Nesse caso, a autoridade terá de vir de Nova Iorque, não de Washington - isto é, das Nações Unidas, não da Casa Branca. Os Estados Unidos da América - e é preciso repetir isto alto e bom som - não têm nenhuma autoridade moral que os autorize a ditar o que é o Bem ou o Mal no mundo. Podem fazê-lo pela força? A força pode impor as coisas, mas não define o Bem e o Mal.


Que comentário lhe merece o veto quase imediato do Presidente americano ao nome de Maria Corina Machado?

Fui muito curiosa a reação de Trump. Numa justificação caricata, pode alvitrar-se que Trump terá ficado "invejoso" com o Prémio Nobel da Paz atribuído a Machado. Embora isso fosse o cúmulo do ridículo, com Trump, tudo é possível...

O mais provável é que os americanos não queiram, depois de uma operação desta envergadura, perder as rédeas do futuro imediato da Venezuela, reservando-se quanto à sucessão no poder. Recorde-se que Machado não tem, por exemplo, as credenciais de Gonzalez, em termos de legitimidade formal. 

Washington deve ter a consciência de que este processo de transição é muito complexo e, provavelmente, poderão ser tentados a não desmantelar o poder, como erradamente fizeram no Iraque. Cooptar algumas figuras do tempo de Maduro, colocando-as ao ser serviço, poderia ser uma hipótese. 

E talvez os americanos também tenham consciência - e meço bem o que vou dizer - que muita daquela que foi a oposição política ao chavismo, e ao seu "genérico" que foi o madurismo, estava e está cheia de gente que "não é flor que se cheire", nomeadamente em termos de credenciais verdadeiramente democráticas. Mas, infelizmente, esse não deverá ser o divisor de águas que acabará por prevalece em Washington.


Que papel vão desempenhar outros actores globais — como Rússia, China ou países latino-americanos — neste conflito? Poderemos assistir a uma nova dinâmica de blocos geopolíticos?

Essa é uma bela questão. Comecemos pela vizinhança. 

Um país que deve estar bastante preocupado é o Brasil. Não por dever temer qualquer "remake" deação militar no seu território, mas porque ver os EUA tão diretamente imiscuídos na América do Sul é seguramentr algo muito desconfortável para o governo brasileiro. Lula fez esforços para retomar uma relação funcional com Trump, pelo que agora tem de medir cuidadosamente a sua reação à aventura deste na Venezuela. O Brasil sempre desejou ver a América do Norte ... a Norte! Agora tem-na na fronteira. A eventual retoma de um conflito aberto de Lula com Trump, mesmo no plano de "bate-boca", poderia oferecerum balão de oxigénio à direita brasileira, no caminho para as eleições presidenciais daqui a meses.

A ameaça de Trump sobre a Colômbia parece-me mais um " preemptive strike" retórico, para evitar que o atual presidente, que está em fim de mandato, venha a ser substituído por alguém com orientação similar. Os EUA procurarão conseguir obter na Colômbia - que, recorde-se, é uma democracia sólida - aquilo que obtiveram há semanas nas Honduras, ao ser eleito um pró-trumpista. Depois do que se passou no Chile e atento o poder consolidado de Milei na Argentina, a América Latina parece estar aproximar-se daquilo que Washington deseja. Resta Cuba, que tinha na Venezuela o seu maior apoio, e cuja mudança de regime seria a cereja em cima do bolo do filho de exilados que é Marco Rubio - quiçá o empurrão maior para se ver na Casa Branca.

A ação americana na Venezuela como que abre caminho a um mundo marcada por esferas de influência, desde que se tenha poder militar para as sustentar. 

Já tínhamos o caso de Israel, que se mostra ambicioso no seu "near abroad" e, com toda a certeza, a China sentir-se-á tentada a afirmar a sua força. Até ir a Taiwan? A China terá o seu "timing" próprio neste dossiê, mas o que se passou na Venezuela, se bem que muitodetrimental para as suas ambições na América do Sul, vai obrigá-la a refletir.

A Rússia perde um aliado, com a saída de Maduro. Sendo embora, nos últimos anos, um apoio mais teórico do que efetivo. No plano global, curiosamente, a capacidade de Moscovo de poder aproveitar para afirmar a sua esfera de influência regional está muito limitada pelo "atoleiro" ucraniano, de onde não consegue sair e onde tem avanços ínfimos. Se não consegue chegar a Kharkiv e muito menos a Kiev...

Quanto aos blocos, eles aí estão, claramente: os EUA e o seu "império" (com ou sem a Groenelândia), algum dele feito pelas novas"colónias do medo", na América Latina e noutras latitudes; a China e a sua tentativa de utilizar osBRICS, este ainda um fraco émulo do G7, embora com a Índia hesitante e com um Brasil a ter defazer novas contas à vida; e, claro, a Europa, um pouco "barata tonta", despeitada com a atitude do vizinho transatlântico mas "a pisar ovos" para não arreliar Trump...


Portugal, apesar não ter reconhecido o governo de Maduro, tem laços históricos e humanos fortes com a Venezuela. Que postura considera que o Estado português deve adoptar: prudência, activismo diplomático, ou alinhamento com os EUA?

Esta é uma matéria em que todos devemos ser, simultaneamente, prudentes, realistas e parcos em comentários que possam ter efeitos negativos sobre realidades que nos importam. Perante os acontecimentos, até porque não temos forma de os influenciar, Lisboa deve esperar para ver, deixando algumas mensagens. No plano nacional, expressando pleno apoio aos nossos compatriotas residentes na Venezuela, procurando que tenham condições para atravessarem este período de transição da melhor forma, para o que é importante coordenar esforços com os nossos parceiros da UE. No plano europeu, deveremos procurar ter uma posição unificada, que não abandone a defesa dos princípios e a necessidadeda Europa não esquecer os valores que enformam a sua postura no mundo, nomeadamente a preemiência do multilateralismo. Nas relações com a potência ocupante, lembrar-lhe serenamente os seus deveres e as nossas preocupações. Só isso e quanto menos os nossos políticos falarem, melhor.


A comunidade portuguesa e luso-descendente continua numerosa e exposta. Vê riscos imediatos para essa comunidade? Portugal deve preparar cenários de contingência mais robustos?

Não vale a pena esconder que, se as coisas correrem mal no plano securitário, com enfrentamentos internos, as populações civis correm riscos e a nossa comunidade faz parte dessas pessoas. Confiemos que não. Havendo problemas, as medidas de contingência terão expressão europeia, como é de regra. 

Uma última nota: não somos um país totalitário, não indicamos aos nossos concidadãos o que devem fazer, mas deveríamos recomendar à nossa comunidade que, nestes tempos turbulentos, mantenha a serenidade e se abstenha de quisquer atitudes políticas, num ou noutro sentido. 

Contudo, se outra for a decisão dos nossos compatriotas, respeitá-la-emos e lá deveremosestar para os apoiar. Portugal dispõe na Venezuela de um excelente embaixador, João Pedro Fins do Lago, pessoa que conheço muitobem e que, melhor do que ninguém, saberá o que melhor defende interesses de Portugal e dos nossos compatriotas.


A União Europeia tem sido criticada, noutras crises, por respostas tardias ou tímidas. Acredita que a UE poderá, desta vez, ter um papel significativo, ou continuará refém da sua própria hesitação diplomática?

A União Europeia faz o que pode e, muitas vezes, pode pouco. Não somos um poder militar, não podemos fazer "voz grossa" e ameaçar, fomos muitas vezes tão longe quanto era possível e recomendável. O que temos demonstrado é um egoísmo geopolítico próprio de uma entidade cuja espinha dorsal se verga demasiado aos interesses, o que enfraquece o nosso valor moral. Exemplo? Um morto em Kharkiv vale mais do que um morto em Gaza. Faço-me entender?

Nesta crise, a Europa, sem surpresas, acobardou-se e, da boca do seus principais responsáveis não ouvimos uma denúncia clara de que a ação americana foi e é ilegal. A Europa deveria ter-se colado à posição de António Guterres, e evitar a indecência de acabar todas as frases dos comunicados com um "mas..." 


O que lhe parece mais preocupante: o impacto humanitário interno na Venezuela ou as possíveis repercussões regionais, nomeadamente fluxos migratórios e instabilidade nos países vizinhos?

Tenho esperança de que a situação não redunde numa situação armada interna, que obrigue a fuga de civis, caso em que a crise humanitária seria muito difícil.


Com a sua experiência de décadas na diplomacia, diria que ainda é realista acreditar numa solução negociada? Ou o mundo caminha para uma era em que a força volta a prevalecer sobre a negociação e o direito internacional?

Dizer que não sei é o mais honesto. Os EUA não negociarão com ninguém sobre a Venezuela. Ou conseguem impor as suas soluções ou mudarão de rumo, mas apenas por pressão do factos, não de terceiros. Na sua pergunta está incluída a resposta: o mundo caminha para uma era em que a força volta a prevalecer sobre a negociação e o direito internacional.

domingo, janeiro 04, 2026

Venezuela : e agora?


Ver aqui.

"O regresso de Monroe"


(Artigo que publiquei a convite da revista do "Expresso" em março de 2019

Um dia, numa conversa em Caracas com Hugo Chávez, Lula da Silva fez-lhe notar que o desequilíbrio da balança comercial entre a Venezuela e o Brasil, em especial em bens de consumo corrente, atingira um tal ponto que, embora o saldo fosse agradável para a economia brasileira, começava a ter uma dimensão com que ele próprio, como amigo da Venezuela, não podia deixar de preocupar-se. Lula aconselhou-o, nesse encontro, a deixar criar unidades produtivas em áreas que pudessem dar resposta a algumas dessas carências mais evidentes, até ali supridas por compras ao exterior, adquiridas com os rendimentos do petróleo. Como me contou um ministro presente à conversa, Chávez retorquiu que estava a pensar criar empresas públicas para esses setores produtivos. O presidente brasileiro terá reagido: era em empresas privadas que estava a pensar, em abertura ao investimento estrangeiro - como o então sucesso da economia brasileira bem o provava. Chávez reagiu: “Privados? Nem pensar!” e a ideia ficou por ali.

O socialismo bolivariano era isso mesmo: uma obsessão estatizante, assente em políticas de distribuição de uma riqueza que não correspondia a um real crescimento do país, conduzindo a um ambiente inflacionário e, no plano político, a uma polarização maniqueísta que, cada vez mais, passou a recorrer ao sufoco das vozes dissonantes, nomeadamente através da domesticação da comunicação social. O facto dos setores conservadores venezuelanos, por mais de uma vez, terem dado mostras de não ter pejo em recorrer ao golpismo armado, para inverterem a legitimidade eleitoral que conduzira Chávez à presidência, conferia a este uma forte autoridade interna e, no plano externo, dava-lhe uma certa aura de um poder que, embora radical no formato, parecia ratificado pelo povo. Com o tempo, o autoritarismo político passou a estar presente no dia-a-dia do país. A Venezuela não era Cuba, não tinha o histórico da ilha de Fidel, mas, para se afirmar, Chávez ia mimetizando algumas das práticas repressivas mais detestáveis do seu parceiro privilegiado na região. O seu carisma continuava a suscitar algum proselitismo militante, mas a prova provada de uma impopularidade que se foi alargando era o facto das forças armadas e policiais se terem convertido na sua indispensável guarda pretoriana – contudo, rodeadas de acusações de implicação em negócios pouco claros.

Maduro não é Chávez, mas ninguém pode garantir que, se este tivesse sobrevivido, a Venezuela estaria hoje muito diferente, porque todos os erros que conduziram à atual situação já estavam nas cartas, ao tempo do antigo presidente. O modelo “bolivariano” era, desde o primeiro momento, um desastre anunciado, num mundo que já não ia por aí. Maduro apenas o conduziu inabilmente, e de uma forma quase caricata, ao impasse em que acabou por cair. O facto de uma guerra civil não ter eclodido é talvez o maior milagre que se produziu na Venezuela, mas nem sequer o podemos creditar à gestão de Maduro.

Depois de Cuba, a Venezuela era, de há muito e à evidência, uma espinha encravada nos humores de Washington na América Latina. Não se tratava de um caso qualquer: estamos a falar de um Estado com reservas imensas de petróleo e outras riquezas, circunstância que é óbvio não ser indiferente a um país que delas tem sido um pouco discreto cliente, na fria “realpolitik” do negócio. No passado recente, a bravata anti-yankee dos dirigentes venezuelanos ia sendo tida à conta de uma realidade incómoda que apenas havia que suportar, tanto mais que o país não era “produtor” de insegurança na sua periferia que justificasse uma ação específica nele focada, salvo o apoio às forças opositoras internas. O que é que mudou, entretanto?

No essencial, foi-se esgotando a complacência da comunidade internacional em face de um regime que, dia após dia, se tinha convertido numa mera caricatura democrática. O descaso oficial perante uma situação humanitária cada vez mais trágica, e o completo fechar de portas por Maduro a um diálogo com setores fora do núcleo político-social do governo, começou a escandalizar o mundo, com a União Europeia a dar sinais de crescente inquietude. A isto se somou, nos últimos meses, o afastamento claro do Brasil, com uma nova administração à qual, por razões de política interna, conveio a diabolização do modelo bolivariano. Este fator não tem sido sublinhado com a importância que julgo que realmente tem, porque tudo indica que o empenhamento americano, na tentativa de um rápido derrube de Maduro, dificilmente se teria processado, pelo menos nos moldes que assumiu, se, da parte de Brasília, como potência sub-regional, fosse presumível a promoção de uma qualquer reação, menos de “proteção” de Maduro e mais de rejeição da intromissão americana.

Verdade seja que, ao forçar agora, com determinação, a mão à Venezuela, os Estados Unidos assumem, num novo ciclo histórico, o seu nunca dispensado “droit de regard” sobre a América Latina, na linha clássica da “doutrina Monroe”. Fazem-no numa causa que sabem ser hoje popular em vários quadrantes, explorando o inédito isolamento em que Maduro se deixou cair. Trump aproveita este tipo de “fogachos” como uma oportunidade para gerar uma fácil unidade interna, que lhe pode render alguns dividendos políticos. Na ordem externa, esta iniciativa pode também garantir aos EUA, aos olhos de alguns, um estatuto de liderança na promoção dos valores democráticos. Além disso, deixando o juízo sobre estas prioridades ao sabor de cada um, trata-se de uma oportunidade soberana para Washington poder assegurar um lugar privilegiado na preservação dos seus próprios interesses económicos na região. Ainda neste jogo de sombras que é a agenda de desígnios, convirá notar um ponto que, com toda a certeza, nunca deixou de estar presente na coreografia geopolítica da América: Cuba. Uma queda de Maduro, com Lula e os seus heterónimos já fora do cenário, levará o regime de Havana a sentir-se cada vez mais fragilizado – e isso não pode deixar de fazer parte das contas de prazer em Washington.

Coragem e decência

Coragem e decência é ser capaz de caraterizar a ação americana da Venezuela como uma grosseira violação do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, sem ter a tentação desculpabilizante de logo acrescentar um "mas..."

sábado, janeiro 03, 2026

O legítimo


Tenho cá uma desconfiança sobre quem poderá ser o ditador "legítimo" de quem, implicitamente, a atual direção do CDS terá saudades...

O regresso do bilateralismo




No nº 27 da revista "Negócios Estrangeiros", editada pelo Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em dezembro de 2025, publico um artigo intitulado "O regresso do bilateralismo", cujo texto pode ser lido aqui.

Pena do Maduro?


Na rua, há pouco, em Vila Real. Aproxima-se um colega de escola primária. "Então que me dizes do Maduro?". Respondo-lhe: "Eu sou mais do Pena". Gargalhadas e um abraço. 

(Maduro Roxo e João Pena eram os nossos professores primários nesses idos de 50, na Escola do Trem).

Depende


Há pouco, na rua Direita, naquela que, em outros tempos, foi a artéria mais movimentada de Vila Real, hoje um quase deserto em matéria de comércio, deparei com este letreiro. E dei comigo a pensar que, se o meu amigo José Araújo, Zé Foquita para a memória da cidade, fosse vivo, estaria a rabujentar com o nome. Porquê? Porque, na avenida Carvalho Araújo, ele tinha a sua Galeria d'Artes e ai de quem lhe fizesse sombra! Mas nem o Zé é vivo há muito nem as duas lojas coincidiram no tempo, pelo que esta nota acaba apenas por ser um pretexto para a historieta que vou contar.

O Zé era um comerciante bastante atípico. Na sua loja de antiguidades e velharias, nem sempre era fácil comprar alguma coisa. Tinha mau feitio e, se embirrava com o potencial comprador, ou se estava relutante em desfazer-se de uma peça, começava com circunlóquios que logo afastavam a clientela. Assisti a algunas cenas dessas.

Terá sido esta última circunstância que, um dia, o meu pai, que o conhecia quase desde criança, experimentou. Entrou na loja do Zé, que era nosso vizinho de porta na avenida central da cidade, e perguntou quanto custava um relógio francês, com pêndulo de violão, que se via da rua. Desde sempre, o meu pai teve um fascínio por esse tipo de relógios. Herdei três! 

O Zé, que pelos vistos estaria num dos seus dias de não querer vender, respondeu-lhe: "Depende, senhor Costa". O meu pai ficou intrigado. "Depende de quê, senhor Araújo?" E o Zé sai-se então com esta: "Depende do preço que eu pedir: tanto posso pedir nove, como dez ou doze contos por ele..." O meu pai rodou os tacões, ao mesmo tempo que lhe disse: "Estou esclarecido, senhor Araújo!" Chegou a casa furioso: "Aquele teu amigo não regula bem da cabeça!" E contou-me o episódio.

Nesse ou no dia seguinte, no balcão da Gomes, junto à máquina do fiambre, onde o Zé se encostava para fumar, de samarra sobre os ombros (em Vila Real, "homem que é homem" não veste a samarra, "para não dar confiança ao chiasco"), perguntei-lhe: "Então não quiseste vender um relógio ao meu pai? Disse-me que lhe deste uma resposta muito estranha". 

O Zé riu-se: "O teu pai não percebeu o que eu lhe disse e saiu logo da loja, sem me dar tempo de lhe explicar que eu tinha ali o relógio à consignação e que o proprietário ainda não tinha decidido qual o preço exato que ia pedir". 

Quando, ao fim do dia, contei a resposta do Zé ao meu pai, este não me pareceu muito convencido: "Esse teu amigo anda sempre contra o vento..."

Horas extraordinárias


Em férias, diz-se, não há horas. Aliás, mesmo que as houvesse, não saberíamos às quantas andávamos, se seguíssemos as indicações do relógio da Sé de Vila Real, olhando da esquina da Gomes. O relógio está, no dia de hoje, como a cidade: parado. "Continuação", como por cá se diz! 

"Público"

O artigo com que o novo provedor do leitor do "Público", João Garcia, abre hoje a sua primeira colaboração é exemplar: "um jornal de grande difusão não pode ser escrito de forma que seria censurada, por excesso de erros, numa prova de Português do 4.º ano de escolaridade". 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Vidago


Gosto muito do Vidago Palace Hotel.

Para quem não saiba, aquela unidade hoteleira estava para ser inaugurado no dia 5 de outubro de 1910, pelo rei dom Manuel, mas a República trocou as voltas à sua e à nossa História. O proprietário do novo hotel era o presidente do conselho (ainda não se usava por cá a expressão primeiro-ministro), Teixeira de Sousa. Outros tempos! Imaginem, nos dias de hoje, um presidente da República ir inaugurar um empreendimento de um primeiro-ministro...

Sempre que posso, passo por lá, por aquele que, na minha família, em tempos antigos, se designava pelo Palace e a que, nos dias de hoje, chamamos o "hotel do Vidago" (quem é da região diz "do Vidago" e não "de Vidago"). Vou ali nem que seja para beber apenas um chá, como ontem me aconteceu, no cumprimento de uma tradição já antiga, que se repete no primeiro dia de cada ano, sempre com os mesmos amigos (a fotografia é de há horas). Mas, ao longo do ano, cuido em visitar várias vezes aquela que é, a uma longa distância, a melhor unidade hoteleira de Trás-os-Montes.

Nem sempre foi "pacífica" a minha relação com os proprietários do hotel. Há uns anos, quando a "Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas" era propriedade da Unicer, esta empresa optou por beneficiar o hotel e o parque de Vidago, em detrimento das Pedras Salgadas. Sei que o assunto não tem uma leitura unívoca, mas para mim foi tudo muito claro: dando prioridade ao negócio das águas, a Unicer desprezou os interesses das Pedras Salgadas e privilegiou o Vidago, tendo como "montra" a modernização feita ao seu hotel. As Pedras Salgadas ficaram, desde então, sem nenhuma unidade hoteleira decente, muito embora houvesse promessas formais num outro sentido.

O assunto foi muito polémico, originou manifestações nas Pedras Salgadas, eu saí a terreiro com artigos na imprensa e fiz queixa da Unicer à AICEP, por aquilo que entendi ser uma utilização de recursos públicos que tinha seguido uma via pouco transparente. E também pelo facto, incontroverso, de haver compromissos que a Unicer incumpriu. Houve então - repito, no meu entender - uma cumplicidade objetiva do governo (PS) com as opções da Unicer e, em todo o lado, chamei os bois pelos nomes, para desagrado de alguns correligionários políticos, lado para o qual durmo melhor, como sabe quem me conhece.

Uma coisa, para mim, tive sempre muito clara: nada tinha contra o Vidago e contra a renovação do seu magnífico hotel, obra que achei excelente e que sempre aplaudi. Mas ainda guardo elucidativa correspondência que troquei com o arquiteto Siza Vieira sobre o polémico assunto, de onde se percebe que a história foi muito mal contada pela Unicer. Mas o que lá vai lá vai e não quero fazer chover no molhado...

Toda essa polémica acabou por ter uma irónica síntese, anos depois. Em 2011, ainda ao tempo que estava embaixador em Paris, tive o gosto de receber, numa cerimónia em Lisboa, um prémio especial que me foi atribuído pelo Turismo de Portugal, pelo que foi considerado o papel positivo que terei desempenhado ao longo dos anos, enquanto embaixador, como promotor da gastronomia portuguesa no estrangeiro. Foi uma distinção que muito me agradou e que então recebi na FIL, das mãos de José Bento dos Santos, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia.

Curiosamente, nessa mesma cerimónia, o Turismo de Portugal atribuiu simultaneamente à Unicer um prémio pelo trabalho de requalificação do Vidago Palace Hotel Palace. E ali estive eu, no palco, ao lado de António Pires de Lima, então CEO da Unicer, a empresa que eu tanto tinha zurzido publicamente, a receber um galardão idêntico. Nas diversas vezes em que, nos últimos anos, António Pires de Lima e eu nos cruzamos, sempre com grande cordialidade, evitámos evocar esse conflito do passado...

Repito o que disse: o hotel de Vidago está excelente - e ainda bem. As Pedras Salgadas, terra da minha família, foi a "collateral casualty" de todo esse estranho processo, para utilizar uma expressão do jargão militar. Mas eu já encerrei o "machado de guerra", uma "guerra" que, infelizmente, tal como as Pedras Salgadas, perdi.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Notícias do bloqueio

Uma rede social é apenas mais um terreiro social de contacto. Na vida em sociedade, quando alguém se mostra desagradável para nós, a atitude normal é voltar-lhe as costas. Nas redes sociais, isso equivale a bloquear o contacto com essa pessoa. À bon entendeur...

Igualdade no crime

É muito curiosa, aqui pelas redes sociais, a busca obsessiva da ligação da imigração à delinquência. Há imigrantes que cometem crimes? Claro que sim, tal como há portugueses que os cometem. Os imigrantes são gente como qualquer outra: se cometem crimes são condenados. É simples.

"A Arte da Guerra"


Esta semana, "A Arte da Guerra", o podcast de política internacional que semanalmente faço para o "Jornal Económico" com o jornalista António Freitas de Sousa, analisa algumas das zonas geopolíticas de risco em 2026.

Pode ver aqui.

Pois é!

Prometi-me não cair na saloia promessa de, no ano que agora começa, fazer ou deixar de fazer certas coisas, na lógica do "a partir de agora é que vai ser!" Já tenho idade para poder fazer muitas mais e refinadas asneiras, bem como preservar e adubar todos os meus queridos vícios.

2026


Pronto! Façam favor de comentar aqui no blogue, se acaso quiserem. Já está re-aberto o espaço de comentários. 

E tenham o melhor ano de 2026 possível! 

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Boa!

Então a "solução" encontrada pelas autoridades portuguesas para fazerem face ao caos nos aeroportos foi suspender o sistema de controlo? Assim está "descoberta a pólvora"...

Isto

Neste último dia de 2025, devo dizer que nunca pensei vir a viver num país onde, pelas ruas, há cartazes de ódio xenófobo e racista, onde há partidos que fazem do egoísmo geracional um modo de vida político, onde a palavra solidariedade convoca um encolher de ombros. É isto!

Ruben

Gosto de Ruben Amorim e, a cada semana, faço figas para que tenha êxito no Manchester United. Às vezes, aprendo com o que ele diz, em especial quando não percebo o que diz: "Não jogámos bem e, quando não se joga bem com a bola, tem-se dificuldades mesmo sem ela." Um dia chego lá.

Durmam bem!

A dramatização dos momentos políticos é um velho tropismo das sociedades. Ora, na realidade, Portugal vive hoje na pacífica normalidade das suas instituições e, no leque dos candidatos com hipóteses reais de chegar a Belém, nenhum ameaça a República. Por isso, durmam bem!

Um Natal quase europeu

Um dia, no primeiro semestre de 1985, o então diretor-geral dos Negócios Políticos do MNE, o embaixador Matos Proença, deslocou-se a Luanda, em cuja embaixada eu era então primeiro-secretário, com uma década de carreira.

No fim de um jantar, na residência do embaixador António Pinto da França, ficámos lado a lado num sofá e ele comentou: “Você já está cá há mais de três anos. O que pretende vir a fazer no futuro?”. Disse-lhe que tinha pensado concorrer a um lugar na nossa embaixada na Haia. Fez uma cara surpreendida: “Para a Haia?! Que diabo quer ir fazer para a Holanda?” Não sei o que respondi.

De caminho, na conversa disse-me uma coisa que, de certo modo, alterou o modo como eu via o meu futuro: “Não sei se sabe, mas estes anos em Angola mudaram bastante o modo como você é olhado nas Necessidades. Para melhor! A sua cotação subiu, pelo bom trabalho que se sabe que aqui tem feito”. E eu que não fazia a menor ideia de que o imponderável “mercado” dos claustros me começava a ser favorável! Logo coloquei isso a crédito do apreço que Pinto da França tinha pelo modo como eu trabalhava.

À época, posso agora confessar, as minhas expetativas, em termos de futuro profissional, eram bastante moderadas. E, curiosamente, estava perfeitamente acomodado a elas. Depois de uns discretos anos iniciais em Lisboa, num setor periférico da área económica, seguidos de uma pouco relevante passagem por Oslo, que me coube em rifa sem pedir, tinha sido empurrado para a embaixada Luanda, também sem ser ouvido e sem que me tivesse sido dada outra opção. Embora me achasse, sem modéstia, um “safe pair of hands” para qualquer tarefa, tinha a sensação de que o ambiente dentro do MNE nunca me iria ser favorável. Tinha mesmo a perceção de que tinha entrado, de forma quase irremediável, na “slow lane” profissional. É verdade, era assim que eu então via as coisas.

A minha posição política, que não escondia perante ninguém, e que afirmava, com regularidade, de um modo talvez pouco maduro e até provocatório, parecia-me uma insuperável barreira para poder vir a fazer uma carreira de topo. Mas não estava aberto a mudar de atitude. Assim, quando muito, entendia que podia ambicionar postos de importância média. A aposta na Haia tinha precisamente essa lógica: um posto sereno e confortável, embora com holandeses...

Porque vivia a vida profissional de forma bastante isolada, não fazendo parte de quaisquer grupos ou “networks" dentro da casa, não fazia a menor ideia de como o meu trabalho era olhado. Isso não significava que, intimamente, não achasse que fazia bastante bem aquilo que me competia. 

Ao dizer o que me disse, Matos Proença, um homem discreto, cordial e bastante competente, que viria a morrer muito cedo, fez-me rever essa minha perspetiva. A ser verdade o que ele afirmava, talvez eu pudesse ter direito a outras ambições. 

E Matos Proença logo acrescentou algo que me criou uma vontade nova: “Como sabe, no dia 1 de janeiro do próximo ano, Portugal vai entrar para as Comunidades Europeias. Estamos a preparar uma equipa para isso. Acho que você tem todas as condições para poder ter um lugar de chefia nessa área, na parte da cooperação política europeia. Quer que fale no seu nome ao secretário-geral?“ Disse-lhe que sim, que estava interessado, claro! Luanda era um posto pesado, tinham sido três anos de vida difícil, pelo que era um novo desafio que parecia promissor.

Mas havia um íntimo mas. A Europa? A CEE? Eu era então muito pouco europeísta. Não tinha a fé dos convertidos à religião federal de Monnet & Schuman, mantinha uma leitura algo soberanista da gestão dos nossos interesses, preocupava-me muito a ideia de partilhar o poder nacional, achava que nos iriam impor uma matriz liberal que podia limitar uma possível evolução no "caminho para o socialismo". O quê?! estar-se-ão a perguntar. É verdade! Ao contrário de outros, sou um orgulhoso herdeiro de todo o meu passado. Em 1986, eu ainda pensava assim. Não era contra a aventura europeia, mas era um euro-cuidadoso.

Entretanto, os meses andaram e mais nenhuma notícia me chegou. Matos Proença tinha saído do lugar que ocupava, para ser embaixador na ONU. Achei que o assunto tinha morrido. E preparei-me para viver 1986 em Angola. E, depois, quem sabe, talvez fosse para Haia ou coisa parecida.

Até que um dia, creio que em meados de outubro desse ano de 1985, Pinto da França recebeu um telegrama pessoal do secretário-geral, João de Sá Coutinho, a determinar a minha apresentação em Lisboa, com caráter de urgência. Era expressamente mencionando no texto que me esperava um lugar de chefia nas Necessidades. O embaixador não ficou muito satisfeito com a minha súbita partida, mas teve a amiga atitude de a não inviabilizar.

E lá parti, à pressa, para Lisboa, menos de um mês depois. Como tinha a casa em obras, fui obrigado a ir viver para um apartamento vago, emprestado por um amigo. Depois de mais de três anos de Luanda e sete de estrangeiro, senti que, no fim de contas, iria ser bom regressar a Lisboa. A minha mulher podia voltar ao seu emprego, embora tendo perdido anos de antiguidade e a hipótese de qualquer promoção ou chefia, pelo facto de me ter acompanhado. Mas estávamos felizes na antecipação do novo capítulo de vida que íamos ter. Foi muito bem disposto que me fui apresentar ao secretário-geral.

Sá Coutinho mandou-me sentar na velha cadeira de palhinha que estava em frente à sua secretária e, por uma qualquer sombra no seu olhar, tive um súbito mau pressentimento. Que logo se confirmou: “Ó Seixas da Costa, não tenho boas notícias para si. Houve aqui em Lisboa uma mudança de planos e eu queria perguntar-lhe se não precisa de dois ou três meses, com calma, para pôr em ordem a sua vida.” 

Eu não estava a perceber nada, mas já começava a perceber tudo. Ainda arrisquei: “O senhor embaixador sabe bem que vim à pressa de Luanda, a minha bagagem pessoal ainda nem chegou, apenas porque, num telegrama seu, há poucas semanas, me foi confirmado ir ter aqui um lugar de chefia. O que é que mudou?”

O secretário-geral, um homem grande, pessoa cordial, um aristocrata limiano, com fama liberal (no tempo em que os liberais eram outra coisa e tinham boa fama), estava visivelmente embaraçado: “Meu caro, não quero nem posso ir muito longe, mas foi a política que se meteu no meio disto tudo. O lugar já não é para si. Não vai ser possível ter nenhum lugar de chefia”. 

O meu choque era compreensivelmente grande: “E há alguma ideia sobre o que vou fazer?” Sá Coutinho rodava em torno da secretária e confessou: “Por ora, nada. Mas vá falar com o Gregório Faria, que está a montar as coisas das Comunidades Europeias, na Visconde Valmor, nas áreas mais técnicas. Pode ser que ele tenha qualquer coisa para si”. Senti que ficou muito aliviado quando me viu sair do gabinete. 

Entre a visita de Matos Proença a Luanda e a minha chegada a Lisboa, tinha tomado posse um novo governo, em inícios desse mesmo mês de novembro. O primeiro ministro chamava-se Aníbal Cavaco Silva. Ao sair do Ministério, atravessando os corredores e o pátio, tive o alívio de não me cruzar com nenhum colega, que pudesse inquirir-me sobre o meu destino, nesse que era já um imperativo regresso a Lisboa. Que lhes podia eu dizer?

No dia seguinte, fui recebido pelo embaixador José Gregório Faria, recém-nomeado diretor-geral das Comunidades Europeias (era a designação, à época). Foi simpático, mas revelou-me que, não apenas não tinha, de imediato, nenhum lugar para mim nem, muito menos, qualquer lugar de chefia. Pior ainda: não tinha sequer onde me sentar, de tal modo o novo serviço estava cheio dos técnicos que tinham transitado das estruturas que tinha negociado a adesão. Os diplomatas eram por ali muito poucos e, quase todos, estavam acantonados numa única direção de serviços, essa já sem lugar para mais ninguém. 

Toda a boa-disposição criada em torno do meu regresso a Lisboa tinha-se desvanecido. Estava a viver numa casa emprestada, com a vida improvisada, sem nada para fazer, sem perspetivas de futuro num tempo político tumultuoso e que, pelos vistos, dava ares de me ir ser profissionalmente hostil. 

O meu Natal de 1985, em Vila Real, não foi dos mais simpáticos.

Em Portugal, à época, vivia-se a campanha das eleições presidenciais. À esquerda, Soares, Zenha e Pintasilgo disputavam o eleitorado. A direita, mais unida do que nunca, tinha Freitas do Amaral como candidato. Os comícios sucediam-se, o país estava ao rubro.

O candidato que mais me agradava era Salgado Zenha, que logo se percebeu que não teria qualquer hipótese. A maioria dos meus amigos eram pintasilguistas. O ambiente de crispação política que atravessava Portugal era imenso. O chapéus de palhinha e os “loden” pelas costas eram a imagem de marca da direita em ascensão. Aos meus olhos de então, uma vitória de Freitas quase que podia trazer o fascismo de volta, de tão sinistro me parecia o grupo de gente que o rodeava - alguns são hoje bons amigos meus e um dia tive uma conversa curiosa sobre tudo isto com Freitas do Amaral. O que, por esses dias, me estava a acontecer profissionalmente não ajudava a que criasse uma opinião diferente. Bem pelo contrário.

Votei Zenha na primeira volta e, naturalmente, escolhi Soares na segunda. A noite da sua vitória - ou melhor, a derrota de Freitas - foi talvez a momento mais feliz que tive em política, em toda a minha vida. Isso mesmo: mais do que a vitória do PS, em outubro de 1995, ou a de Sampaio, meses depois.

Neste entretanto, depois de passar umas semanas em casa, fui chamado à direção-geral das Comunidades Europeias, onde, sentando-me aqui e ali, fui ajudar a montar um serviço de cifra para a nova estrutura e me foi dada uma tarefa curiosa e divertida: elaborar um conjunto de ordens de serviço, “pedagógicas”, para moldar aquele imenso grupo de técnicos à “liturgia do MNE”, numa expressão interessante de Gregório Faria. Em cerca de dez diretivas, ensinei como se escreviam os “telegramas’, as “notas verbais” para as embaixadas estrangeiras e outras regras básicas da diplomacia. Um dia, finalmente, fui colocado na direção de serviços das Relações Externas, embora com funções muito limitadas. Mas essa é outra história.

Foi assim, desta forma um tanto atribulada, que eu cheguei ao novo Portugal europeu. 

Vale a pena dizer que o ambiente na direção-geral das Comunidades Europeias - ou na “Visconde Valmor”, como o serviço melhor era conhecido nas Necessidades - era excelente, com grande predominância feminina, gente competente e entusiasmada com as novas tarefas. Era um tempo em que todos estávamos a aprender a nadar nas águas europeias. As idas a Bruxelas, aos grupos de trabalho dos nossos respetivos pelouros, eram momentos interessantes. Para mim, o único verdadeiro problema que enfrentei foi ter de trabalhar num “open space”, sala com pé direito muito baixo, onde toda a gente falava alto ao telefone. Logo eu, que só sei trabalhar em gabinetes de porta fechada. Cheguei a pôr tampões nos ouvidos...

Mas, pronto!, foi assim que entrei "na Europa". Nos anos seguintes, a minha vida profissional deu algumas voltas, e a Europa entrou nela de roldão. E a Europa também entrou em mim - e me convenceu. Oito anos depois, vim de Londres para ser sub-diretor-geral dos Assuntos Europeus, como o setor tinha passado a chamar-se. Um ano mais tarde, fui convidado para ser secretário de Estado da área. 

Lembro isto hoje, precisamente 40 depois da nossa entrada para as Comunidades Europeias - a União Europeia ainda estava para nascer.

Pensando bem, tudo me podia ter corrido bastante pior.

América. Afinal havia outra?

( Artigo com o título em epígrafe publicado a convite do "Diário de Notícias", na sua edição de hoje) Entre nós, tem algum eco uma...