segunda-feira, janeiro 05, 2026

Venezuela


(
Texto de uma entrevista hoje concedida ao "Diário de Notícias" da Madeira)

Como observa e classifica a actual operação militar na Venezuela? Considera que estamos perante um episódio pontual ou num tabuleiro geopolítico mais vasto?

A ação militar americana na Venezuela corresponde à consciência, por parte do governo de Washington, de que estão criadas condiçõespara poder atuar, na ordem global, sem estar limitado por aquilo a que alguns ainda vãochamando de Direito Internacional. 

Os Estados Unidos assumiram - e isso está plasmado na sua recente estratégia de segurança nacional - que a sua atividade pelo mundo tem uma única referência: a prioridade absoluta dos interesses americanos. Todos os restantesinteresses nacionais ficam subordinados ao interesse dos EUA. 

Ao assim atuarem, os EUA põem fim a uma ordem internacional regida por regras e em que o diálogo e a conciliação, com respeito pelas diferentes soberanias nacionais, era a metodologia de convivência. Ironicamente, essa tinha sido a ordem internacional que os EUA ajudaram a consagrar no termo da Segunda Guerra Mundial, ao promoverem a criação das Nações Unidas. 

É muito claro que este caso da Venezuela pode vir a significar que os EUA não excluem poder viratuar, de modo similar, em outros cenários. Por isso, o modo como esta ação decorrer pode servir de lição.


A recente referência de Donald Trump ao petróleo venezuelano revela intenções estratégicas claras da administração norte-americana?

É óbvio que a estratégia desta administração Trump tem como objetivo tomar conta de todos os recursos naturais necessários para garantir à economia americana uma capacidade de garantir a liderança global, nomeadamente face à expressão do poder económico chinês. A Venezuela, cujos recursos petrolíferos excedem os da Arábia Saudita e Irão juntos, pode agora vir a ficar sob a tutela das empresas americanas. 

Com uma estratégia económica que já colocou de parte as preocupações ambientais (o que, diga- se de passagem, é uma tragédia para os esforços de descarbonização global), a América de Trump já tinha regressado à prioridade dos combustíveis fósseis. Agora, passará a ter muitos mais ao seu dispor.

Há também quem especule que esta desbragada"mainmise" sobre o petróleo venezuelano tem como objetivo evitar que as transações internacionais do produto fujam ao império dos petrodólares, pelo risco que havia de uma Venezuela cada vez mais próxima dos BRICS poder ajudar a desenvolver uma ordem monetária alternativa. Neste particular, chamo a atenção para o facto importante de, no quadro político interno americano, haver um consenso sobre a necessidade de reforçar o combate à crescente afirmação chinesa. Por isso, com mais ou menos vozes dissonantes, o coro maioritário seguirá a batuta de Trump, podemos disso estar certos.


Na sua leitura, há nesta operação militar uma violação clara do direito internacional? Ou estamos perante mais uma zona cinzenta da diplomacia contemporânea, onde a legalidade internacional é frequentemente relativizada?

Cada um fará a sua leitura. A minha, sem ambiguidades, é a de que os EUA romperam com a ordem internacional, desrespeitaram as Nações Unidas e se colocaram à margem do Direito Internacional. 

Sejamos francos: variadas vezes a América fez isso no passado, frequentemente sob a complacência do mundo ocidental, em especial durante a Guerra Fria. Depois, o caso do Iraque, em 2003, foi o caso mais flagrante e gritante, mas várias da intervenções feitas pelos EUA, durante décadas, em especial na América Latina, tiveram esse caráter. 

Quando falamos, quase com naturalidade, da "doutrina Monroe" - essa "lei" não escrita que os EUA, desde o século XIX, definiram como a possibilidade de intervirem no seu "quintal" latino-americano -, quase que esquecemos a violência que representa um país dar-se o direito de tutelar a soberania dos outros. Sempre achei que a tal"doutrina Monroe", que foi criada para afastar os europeus das Américas, acabava por ter muito de comum com a "doutrina Brejnev", que defendia a "soberania limitada" da periferia da União Soviética.

Imaginemos como nos sentiríamos, na Europa, se algum dos grandes países do continente entendesse ter o direito de intervir na ordem interna de Portugal? Ou se a Espanha criasse um "doutrina dos Filipes" para gerir a Península Ibérica? 


O facto de os EUA quererem assumir a governação de um país estrangeiro, mesmo que numa fase de transição, não abre um precedente grave?

Só não é precedente porque os Estados Unidos tentaram fazer isso no Iraque, em 2003, com as consequências trágicas que se viu. A História revela as dificuldades que sempre houve em criar governos tutelados do exterior, quer com figuras estrangeiras "importadas", quer com personagens locais, sejam "Quislings" ou políticos alternativos. 

Uma coisa é sempre muito clara: esses governos, impostos de fora, nunca são democráticos, porque não derivam do voto popular. Poderão ser transitórios, para preparar a democracia? Nesse caso, a autoridade terá de vir de Nova Iorque, não de Washington - isto é, das Nações Unidas, não da Casa Branca. Os Estados Unidos da América - e é preciso repetir isto alto e bom som - não têm nenhuma autoridade moral que os autorize a ditar o que é o Bem ou o Mal no mundo. Podem fazê-lo pela força? A força pode impor as coisas, mas não define o Bem e o Mal.


Que comentário lhe merece o veto quase imediato do Presidente americano ao nome de Maria Corina Machado?

Fui muito curiosa a reação de Trump. Numa justificação caricata, pode alvitrar-se que Trump terá ficado "invejoso" com o Prémio Nobel da Paz atribuído a Machado. Embora isso fosse o cúmulo do ridículo, com Trump, tudo é possível...

O mais provável é que os americanos não queiram, depois de uma operação desta envergadura, perder as rédeas do futuro imediato da Venezuela, reservando-se quanto à sucessão no poder. Recorde-se que Machado não tem, por exemplo, as credenciais de Gonzalez, em termos de legitimidade formal. 

Washington deve ter a consciência de que este processo de transição é muito complexo e, provavelmente, poderão ser tentados a não desmantelar o poder, como erradamente fizeram no Iraque. Cooptar algumas figuras do tempo de Maduro, colocando-as ao ser serviço, poderia ser uma hipótese. 

E talvez os americanos também tenham consciência - e meço bem o que vou dizer - que muita daquela que foi a oposição política ao chavismo, e ao seu "genérico" que foi o madurismo, estava e está cheia de gente que "não é flor que se cheire", nomeadamente em termos de credenciais verdadeiramente democráticas. Mas, infelizmente, esse não deverá ser o divisor de águas que acabará por prevalece em Washington.


Que papel vão desempenhar outros actores globais — como Rússia, China ou países latino-americanos — neste conflito? Poderemos assistir a uma nova dinâmica de blocos geopolíticos?

Essa é uma bela questão. Comecemos pela vizinhança. 

Um país que deve estar bastante preocupado é o Brasil. Não por dever temer qualquer "remake" deação militar no seu território, mas porque ver os EUA tão diretamente imiscuídos na América do Sul é seguramentr algo muito desconfortável para o governo brasileiro. Lula fez esforços para retomar uma relação funcional com Trump, pelo que agora tem de medir cuidadosamente a sua reação à aventura deste na Venezuela. O Brasil sempre desejou ver a América do Norte ... a Norte! Agora tem-na na fronteira. A eventual retoma de um conflito aberto de Lula com Trump, mesmo no plano de "bate-boca", poderia oferecerum balão de oxigénio à direita brasileira, no caminho para as eleições presidenciais daqui a meses.

A ameaça de Trump sobre a Colômbia parece-me mais um " preemptive strike" retórico, para evitar que o atual presidente, que está em fim de mandato, venha a ser substituído por alguém com orientação similar. Os EUA procurarão conseguir obter na Colômbia - que, recorde-se, é uma democracia sólida - aquilo que obtiveram há semanas nas Honduras, ao ser eleito um pró-trumpista. Depois do que se passou no Chile e atento o poder consolidado de Milei na Argentina, a América Latina parece estar aproximar-se daquilo que Washington deseja. Resta Cuba, que tinha na Venezuela o seu maior apoio, e cuja mudança de regime seria a cereja em cima do bolo do filho de exilados que é Marco Rubio - quiçá o empurrão maior para se ver na Casa Branca.

A ação americana na Venezuela como que abre caminho a um mundo marcada por esferas de influência, desde que se tenha poder militar para as sustentar. 

Já tínhamos o caso de Israel, que se mostra ambicioso no seu "near abroad" e, com toda a certeza, a China sentir-se-á tentada a afirmar a sua força. Até ir a Taiwan? A China terá o seu "timing" próprio neste dossiê, mas o que se passou na Venezuela, se bem que muitodetrimental para as suas ambições na América do Sul, vai obrigá-la a refletir.

A Rússia perde um aliado, com a saída de Maduro. Sendo embora, nos últimos anos, um apoio mais teórico do que efetivo. No plano global, curiosamente, a capacidade de Moscovo de poder aproveitar para afirmar a sua esfera de influência regional está muito limitada pelo "atoleiro" ucraniano, de onde não consegue sair e onde tem avanços ínfimos. Se não consegue chegar a Kharkiv e muito menos a Kiev...

Quanto aos blocos, eles aí estão, claramente: os EUA e o seu "império" (com ou sem a Groenelândia), algum dele feito pelas novas"colónias do medo", na América Latina e noutras latitudes; a China e a sua tentativa de utilizar osBRICS, este ainda um fraco émulo do G7, embora com a Índia hesitante e com um Brasil a ter defazer novas contas à vida; e, claro, a Europa, um pouco "barata tonta", despeitada com a atitude do vizinho transatlântico mas "a pisar ovos" para não arreliar Trump...


Portugal, apesar não ter reconhecido o governo de Maduro, tem laços históricos e humanos fortes com a Venezuela. Que postura considera que o Estado português deve adoptar: prudência, activismo diplomático, ou alinhamento com os EUA?

Esta é uma matéria em que todos devemos ser, simultaneamente, prudentes, realistas e parcos em comentários que possam ter efeitos negativos sobre realidades que nos importam. Perante os acontecimentos, até porque não temos forma de os influenciar, Lisboa deve esperar para ver, deixando algumas mensagens. No plano nacional, expressando pleno apoio aos nossos compatriotas residentes na Venezuela, procurando que tenham condições para atravessarem este período de transição da melhor forma, para o que é importante coordenar esforços com os nossos parceiros da UE. No plano europeu, deveremos procurar ter uma posição unificada, que não abandone a defesa dos princípios e a necessidadeda Europa não esquecer os valores que enformam a sua postura no mundo, nomeadamente a preemiência do multilateralismo. Nas relações com a potência ocupante, lembrar-lhe serenamente os seus deveres e as nossas preocupações. Só isso e quanto menos os nossos políticos falarem, melhor.


A comunidade portuguesa e luso-descendente continua numerosa e exposta. Vê riscos imediatos para essa comunidade? Portugal deve preparar cenários de contingência mais robustos?

Não vale a pena esconder que, se as coisas correrem mal no plano securitário, com enfrentamentos internos, as populações civis correm riscos e a nossa comunidade faz parte dessas pessoas. Confiemos que não. Havendo problemas, as medidas de contingência terão expressão europeia, como é de regra. 

Uma última nota: não somos um país totalitário, não indicamos aos nossos concidadãos o que devem fazer, mas deveríamos recomendar à nossa comunidade que, nestes tempos turbulentos, mantenha a serenidade e se abstenha de quisquer atitudes políticas, num ou noutro sentido. 

Contudo, se outra for a decisão dos nossos compatriotas, respeitá-la-emos e lá deveremosestar para os apoiar. Portugal dispõe na Venezuela de um excelente embaixador, João Pedro Fins do Lago, pessoa que conheço muitobem e que, melhor do que ninguém, saberá o que melhor defende interesses de Portugal e dos nossos compatriotas.


A União Europeia tem sido criticada, noutras crises, por respostas tardias ou tímidas. Acredita que a UE poderá, desta vez, ter um papel significativo, ou continuará refém da sua própria hesitação diplomática?

A União Europeia faz o que pode e, muitas vezes, pode pouco. Não somos um poder militar, não podemos fazer "voz grossa" e ameaçar, fomos muitas vezes tão longe quanto era possível e recomendável. O que temos demonstrado é um egoísmo geopolítico próprio de uma entidade cuja espinha dorsal se verga demasiado aos interesses, o que enfraquece o nosso valor moral. Exemplo? Um morto em Kharkiv vale mais do que um morto em Gaza. Faço-me entender?

Nesta crise, a Europa, sem surpresas, acobardou-se e, da boca do seus principais responsáveis não ouvimos uma denúncia clara de que a ação americana foi e é ilegal. A Europa deveria ter-se colado à posição de António Guterres, e evitar a indecência de acabar todas as frases dos comunicados com um "mas..." 


O que lhe parece mais preocupante: o impacto humanitário interno na Venezuela ou as possíveis repercussões regionais, nomeadamente fluxos migratórios e instabilidade nos países vizinhos?

Tenho esperança de que a situação não redunde numa situação armada interna, que obrigue a fuga de civis, caso em que a crise humanitária seria muito difícil.


Com a sua experiência de décadas na diplomacia, diria que ainda é realista acreditar numa solução negociada? Ou o mundo caminha para uma era em que a força volta a prevalecer sobre a negociação e o direito internacional?

Dizer que não sei é o mais honesto. Os EUA não negociarão com ninguém sobre a Venezuela. Ou conseguem impor as suas soluções ou mudarão de rumo, mas apenas por pressão do factos, não de terceiros. Na sua pergunta está incluída a resposta: o mundo caminha para uma era em que a força volta a prevalecer sobre a negociação e o direito internacional.

domingo, janeiro 04, 2026

Venezuela : e agora?


Ver aqui.

"O regresso de Monroe"


(Artigo que publiquei a convite da revista do "Expresso" em março de 2019

Um dia, numa conversa em Caracas com Hugo Chávez, Lula da Silva fez-lhe notar que o desequilíbrio da balança comercial entre a Venezuela e o Brasil, em especial em bens de consumo corrente, atingira um tal ponto que, embora o saldo fosse agradável para a economia brasileira, começava a ter uma dimensão com que ele próprio, como amigo da Venezuela, não podia deixar de preocupar-se. Lula aconselhou-o, nesse encontro, a deixar criar unidades produtivas em áreas que pudessem dar resposta a algumas dessas carências mais evidentes, até ali supridas por compras ao exterior, adquiridas com os rendimentos do petróleo. Como me contou um ministro presente à conversa, Chávez retorquiu que estava a pensar criar empresas públicas para esses setores produtivos. O presidente brasileiro terá reagido: era em empresas privadas que estava a pensar, em abertura ao investimento estrangeiro - como o então sucesso da economia brasileira bem o provava. Chávez reagiu: “Privados? Nem pensar!” e a ideia ficou por ali.

O socialismo bolivariano era isso mesmo: uma obsessão estatizante, assente em políticas de distribuição de uma riqueza que não correspondia a um real crescimento do país, conduzindo a um ambiente inflacionário e, no plano político, a uma polarização maniqueísta que, cada vez mais, passou a recorrer ao sufoco das vozes dissonantes, nomeadamente através da domesticação da comunicação social. O facto dos setores conservadores venezuelanos, por mais de uma vez, terem dado mostras de não ter pejo em recorrer ao golpismo armado, para inverterem a legitimidade eleitoral que conduzira Chávez à presidência, conferia a este uma forte autoridade interna e, no plano externo, dava-lhe uma certa aura de um poder que, embora radical no formato, parecia ratificado pelo povo. Com o tempo, o autoritarismo político passou a estar presente no dia-a-dia do país. A Venezuela não era Cuba, não tinha o histórico da ilha de Fidel, mas, para se afirmar, Chávez ia mimetizando algumas das práticas repressivas mais detestáveis do seu parceiro privilegiado na região. O seu carisma continuava a suscitar algum proselitismo militante, mas a prova provada de uma impopularidade que se foi alargando era o facto das forças armadas e policiais se terem convertido na sua indispensável guarda pretoriana – contudo, rodeadas de acusações de implicação em negócios pouco claros.

Maduro não é Chávez, mas ninguém pode garantir que, se este tivesse sobrevivido, a Venezuela estaria hoje muito diferente, porque todos os erros que conduziram à atual situação já estavam nas cartas, ao tempo do antigo presidente. O modelo “bolivariano” era, desde o primeiro momento, um desastre anunciado, num mundo que já não ia por aí. Maduro apenas o conduziu inabilmente, e de uma forma quase caricata, ao impasse em que acabou por cair. O facto de uma guerra civil não ter eclodido é talvez o maior milagre que se produziu na Venezuela, mas nem sequer o podemos creditar à gestão de Maduro.

Depois de Cuba, a Venezuela era, de há muito e à evidência, uma espinha encravada nos humores de Washington na América Latina. Não se tratava de um caso qualquer: estamos a falar de um Estado com reservas imensas de petróleo e outras riquezas, circunstância que é óbvio não ser indiferente a um país que delas tem sido um pouco discreto cliente, na fria “realpolitik” do negócio. No passado recente, a bravata anti-yankee dos dirigentes venezuelanos ia sendo tida à conta de uma realidade incómoda que apenas havia que suportar, tanto mais que o país não era “produtor” de insegurança na sua periferia que justificasse uma ação específica nele focada, salvo o apoio às forças opositoras internas. O que é que mudou, entretanto?

No essencial, foi-se esgotando a complacência da comunidade internacional em face de um regime que, dia após dia, se tinha convertido numa mera caricatura democrática. O descaso oficial perante uma situação humanitária cada vez mais trágica, e o completo fechar de portas por Maduro a um diálogo com setores fora do núcleo político-social do governo, começou a escandalizar o mundo, com a União Europeia a dar sinais de crescente inquietude. A isto se somou, nos últimos meses, o afastamento claro do Brasil, com uma nova administração à qual, por razões de política interna, conveio a diabolização do modelo bolivariano. Este fator não tem sido sublinhado com a importância que julgo que realmente tem, porque tudo indica que o empenhamento americano, na tentativa de um rápido derrube de Maduro, dificilmente se teria processado, pelo menos nos moldes que assumiu, se, da parte de Brasília, como potência sub-regional, fosse presumível a promoção de uma qualquer reação, menos de “proteção” de Maduro e mais de rejeição da intromissão americana.

Verdade seja que, ao forçar agora, com determinação, a mão à Venezuela, os Estados Unidos assumem, num novo ciclo histórico, o seu nunca dispensado “droit de regard” sobre a América Latina, na linha clássica da “doutrina Monroe”. Fazem-no numa causa que sabem ser hoje popular em vários quadrantes, explorando o inédito isolamento em que Maduro se deixou cair. Trump aproveita este tipo de “fogachos” como uma oportunidade para gerar uma fácil unidade interna, que lhe pode render alguns dividendos políticos. Na ordem externa, esta iniciativa pode também garantir aos EUA, aos olhos de alguns, um estatuto de liderança na promoção dos valores democráticos. Além disso, deixando o juízo sobre estas prioridades ao sabor de cada um, trata-se de uma oportunidade soberana para Washington poder assegurar um lugar privilegiado na preservação dos seus próprios interesses económicos na região. Ainda neste jogo de sombras que é a agenda de desígnios, convirá notar um ponto que, com toda a certeza, nunca deixou de estar presente na coreografia geopolítica da América: Cuba. Uma queda de Maduro, com Lula e os seus heterónimos já fora do cenário, levará o regime de Havana a sentir-se cada vez mais fragilizado – e isso não pode deixar de fazer parte das contas de prazer em Washington.

Coragem e decência

Coragem e decência é ser capaz de caraterizar a ação americana da Venezuela como uma grosseira violação do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, sem ter a tentação desculpabilizante de logo acrescentar um "mas..."

sábado, janeiro 03, 2026

O legítimo


Tenho cá uma desconfiança sobre quem poderá ser o ditador "legítimo" de quem, implicitamente, a atual direção do CDS terá saudades...

O regresso do bilateralismo




No nº 27 da revista "Negócios Estrangeiros", editada pelo Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em dezembro de 2025, publico um artigo intitulado "O regresso do bilateralismo", cujo texto pode ser lido aqui.

Pena do Maduro?


Na rua, há pouco, em Vila Real. Aproxima-se um colega de escola primária. "Então que me dizes do Maduro?". Respondo-lhe: "Eu sou mais do Pena". Gargalhadas e um abraço. 

(Maduro Roxo e João Pena eram os nossos professores primários nesses idos de 50, na Escola do Trem).

Depende


Há pouco, na rua Direita, naquela que, em outros tempos, foi a artéria mais movimentada de Vila Real, hoje um quase deserto em matéria de comércio, deparei com este letreiro. E dei comigo a pensar que, se o meu amigo José Araújo, Zé Foquita para a memória da cidade, fosse vivo, estaria a rabujentar com o nome. Porquê? Porque, na avenida Carvalho Araújo, ele tinha a sua Galeria d'Artes e ai de quem lhe fizesse sombra! Mas nem o Zé é vivo há muito nem as duas lojas coincidiram no tempo, pelo que esta nota acaba apenas por ser um pretexto para a historieta que vou contar.

O Zé era um comerciante bastante atípico. Na sua loja de antiguidades e velharias, nem sempre era fácil comprar alguma coisa. Tinha mau feitio e, se embirrava com o potencial comprador, ou se estava relutante em desfazer-se de uma peça, começava com circunlóquios que logo afastavam a clientela. Assisti a algunas cenas dessas.

Terá sido esta última circunstância que, um dia, o meu pai, que o conhecia quase desde criança, experimentou. Entrou na loja do Zé, que era nosso vizinho de porta na avenida central da cidade, e perguntou quanto custava um relógio francês, com pêndulo de violão, que se via da rua. Desde sempre, o meu pai teve um fascínio por esse tipo de relógios. Herdei três! 

O Zé, que pelos vistos estaria num dos seus dias de não querer vender, respondeu-lhe: "Depende, senhor Costa". O meu pai ficou intrigado. "Depende de quê, senhor Araújo?" E o Zé sai-se então com esta: "Depende do preço que eu pedir: tanto posso pedir nove, como dez ou doze contos por ele..." O meu pai rodou os tacões, ao mesmo tempo que lhe disse: "Estou esclarecido, senhor Araújo!" Chegou a casa furioso: "Aquele teu amigo não regula bem da cabeça!" E contou-me o episódio.

Nesse ou no dia seguinte, no balcão da Gomes, junto à máquina do fiambre, onde o Zé se encostava para fumar, de samarra sobre os ombros (em Vila Real, "homem que é homem" não veste a samarra, "para não dar confiança ao chiasco"), perguntei-lhe: "Então não quiseste vender um relógio ao meu pai? Disse-me que lhe deste uma resposta muito estranha". 

O Zé riu-se: "O teu pai não percebeu o que eu lhe disse e saiu logo da loja, sem me dar tempo de lhe explicar que eu tinha ali o relógio à consignação e que o proprietário ainda não tinha decidido qual o preço exato que ia pedir". 

Quando, ao fim do dia, contei a resposta do Zé ao meu pai, este não me pareceu muito convencido: "Esse teu amigo anda sempre contra o vento..."

Horas extraordinárias


Em férias, diz-se, não há horas. Aliás, mesmo que as houvesse, não saberíamos às quantas andávamos, se seguíssemos as indicações do relógio da Sé de Vila Real, olhando da esquina da Gomes. O relógio está, no dia de hoje, como a cidade: parado. "Continuação", como por cá se diz! 

"Público"

O artigo com que o novo provedor do leitor do "Público", João Garcia, abre hoje a sua primeira colaboração é exemplar: "um jornal de grande difusão não pode ser escrito de forma que seria censurada, por excesso de erros, numa prova de Português do 4.º ano de escolaridade". 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Vidago


Gosto muito do Vidago Palace Hotel.

Para quem não saiba, aquela unidade hoteleira estava para ser inaugurado no dia 5 de outubro de 1910, pelo rei dom Manuel, mas a República trocou as voltas à sua e à nossa História. O proprietário do novo hotel era o presidente do conselho (ainda não se usava por cá a expressão primeiro-ministro), Teixeira de Sousa. Outros tempos! Imaginem, nos dias de hoje, um presidente da República ir inaugurar um empreendimento de um primeiro-ministro...

Sempre que posso, passo por lá, por aquele que, na minha família, em tempos antigos, se designava pelo Palace e a que, nos dias de hoje, chamamos o "hotel do Vidago" (quem é da região diz "do Vidago" e não "de Vidago"). Vou ali nem que seja para beber apenas um chá, como ontem me aconteceu, no cumprimento de uma tradição já antiga, que se repete no primeiro dia de cada ano, sempre com os mesmos amigos (a fotografia é de há horas). Mas, ao longo do ano, cuido em visitar várias vezes aquela que é, a uma longa distância, a melhor unidade hoteleira de Trás-os-Montes.

Nem sempre foi "pacífica" a minha relação com os proprietários do hotel. Há uns anos, quando a "Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas" era propriedade da Unicer, esta empresa optou por beneficiar o hotel e o parque de Vidago, em detrimento das Pedras Salgadas. Sei que o assunto não tem uma leitura unívoca, mas para mim foi tudo muito claro: dando prioridade ao negócio das águas, a Unicer desprezou os interesses das Pedras Salgadas e privilegiou o Vidago, tendo como "montra" a modernização feita ao seu hotel. As Pedras Salgadas ficaram, desde então, sem nenhuma unidade hoteleira decente, muito embora houvesse promessas formais num outro sentido.

O assunto foi muito polémico, originou manifestações nas Pedras Salgadas, eu saí a terreiro com artigos na imprensa e fiz queixa da Unicer à AICEP, por aquilo que entendi ser uma utilização de recursos públicos que tinha seguido uma via pouco transparente. E também pelo facto, incontroverso, de haver compromissos que a Unicer incumpriu. Houve então - repito, no meu entender - uma cumplicidade objetiva do governo (PS) com as opções da Unicer e, em todo o lado, chamei os bois pelos nomes, para desagrado de alguns correligionários políticos, lado para o qual durmo melhor, como sabe quem me conhece.

Uma coisa, para mim, tive sempre muito clara: nada tinha contra o Vidago e contra a renovação do seu magnífico hotel, obra que achei excelente e que sempre aplaudi. Mas ainda guardo elucidativa correspondência que troquei com o arquiteto Siza Vieira sobre o polémico assunto, de onde se percebe que a história foi muito mal contada pela Unicer. Mas o que lá vai lá vai e não quero fazer chover no molhado...

Toda essa polémica acabou por ter uma irónica síntese, anos depois. Em 2011, ainda ao tempo que estava embaixador em Paris, tive o gosto de receber, numa cerimónia em Lisboa, um prémio especial que me foi atribuído pelo Turismo de Portugal, pelo que foi considerado o papel positivo que terei desempenhado ao longo dos anos, enquanto embaixador, como promotor da gastronomia portuguesa no estrangeiro. Foi uma distinção que muito me agradou e que então recebi na FIL, das mãos de José Bento dos Santos, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia.

Curiosamente, nessa mesma cerimónia, o Turismo de Portugal atribuiu simultaneamente à Unicer um prémio pelo trabalho de requalificação do Vidago Palace Hotel Palace. E ali estive eu, no palco, ao lado de António Pires de Lima, então CEO da Unicer, a empresa que eu tanto tinha zurzido publicamente, a receber um galardão idêntico. Nas diversas vezes em que, nos últimos anos, António Pires de Lima e eu nos cruzamos, sempre com grande cordialidade, evitámos evocar esse conflito do passado...

Repito o que disse: o hotel de Vidago está excelente - e ainda bem. As Pedras Salgadas, terra da minha família, foi a "collateral casualty" de todo esse estranho processo, para utilizar uma expressão do jargão militar. Mas eu já encerrei o "machado de guerra", uma "guerra" que, infelizmente, tal como as Pedras Salgadas, perdi.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Notícias do bloqueio

Uma rede social é apenas mais um terreiro social de contacto. Na vida em sociedade, quando alguém se mostra desagradável para nós, a atitude normal é voltar-lhe as costas. Nas redes sociais, isso equivale a bloquear o contacto com essa pessoa. À bon entendeur...

Igualdade no crime

É muito curiosa, aqui pelas redes sociais, a busca obsessiva da ligação da imigração à delinquência. Há imigrantes que cometem crimes? Claro que sim, tal como há portugueses que os cometem. Os imigrantes são gente como qualquer outra: se cometem crimes são condenados. É simples.

"A Arte da Guerra"


Esta semana, "A Arte da Guerra", o podcast de política internacional que semanalmente faço para o "Jornal Económico" com o jornalista António Freitas de Sousa, analisa algumas das zonas geopolíticas de risco em 2026.

Pode ver aqui.

Pois é!

Prometi-me não cair na saloia promessa de, no ano que agora começa, fazer ou deixar de fazer certas coisas, na lógica do "a partir de agora é que vai ser!" Já tenho idade para poder fazer muitas mais e refinadas asneiras, bem como preservar e adubar todos os meus queridos vícios.

2026


Pronto! Façam favor de comentar aqui no blogue, se acaso quiserem. Já está re-aberto o espaço de comentários. 

E tenham o melhor ano de 2026 possível! 

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Boa!

Então a "solução" encontrada pelas autoridades portuguesas para fazerem face ao caos nos aeroportos foi suspender o sistema de controlo? Assim está "descoberta a pólvora"...

Isto

Neste último dia de 2025, devo dizer que nunca pensei vir a viver num país onde, pelas ruas, há cartazes de ódio xenófobo e racista, onde há partidos que fazem do egoísmo geracional um modo de vida político, onde a palavra solidariedade convoca um encolher de ombros. É isto!

Ruben

Gosto de Ruben Amorim e, a cada semana, faço figas para que tenha êxito no Manchester United. Às vezes, aprendo com o que ele diz, em especial quando não percebo o que diz: "Não jogámos bem e, quando não se joga bem com a bola, tem-se dificuldades mesmo sem ela." Um dia chego lá.

Durmam bem!

A dramatização dos momentos políticos é um velho tropismo das sociedades. Ora, na realidade, Portugal vive hoje na pacífica normalidade das suas instituições e, no leque dos candidatos com hipóteses reais de chegar a Belém, nenhum ameaça a República. Por isso, durmam bem!

Um Natal quase europeu

Um dia, no primeiro semestre de 1985, o então diretor-geral dos Negócios Políticos do MNE, o embaixador Matos Proença, deslocou-se a Luanda, em cuja embaixada eu era então primeiro-secretário, com uma década de carreira.

No fim de um jantar, na residência do embaixador António Pinto da França, ficámos lado a lado num sofá e ele comentou: “Você já está cá há mais de três anos. O que pretende vir a fazer no futuro?”. Disse-lhe que tinha pensado concorrer a um lugar na nossa embaixada na Haia. Fez uma cara surpreendida: “Para a Haia?! Que diabo quer ir fazer para a Holanda?” Não sei o que respondi.

De caminho, na conversa disse-me uma coisa que, de certo modo, alterou o modo como eu via o meu futuro: “Não sei se sabe, mas estes anos em Angola mudaram bastante o modo como você é olhado nas Necessidades. Para melhor! A sua cotação subiu, pelo bom trabalho que se sabe que aqui tem feito”. E eu que não fazia a menor ideia de que o imponderável “mercado” dos claustros me começava a ser favorável! Logo coloquei isso a crédito do apreço que Pinto da França tinha pelo modo como eu trabalhava.

À época, posso agora confessar, as minhas expetativas, em termos de futuro profissional, eram bastante moderadas. E, curiosamente, estava perfeitamente acomodado a elas. Depois de uns discretos anos iniciais em Lisboa, num setor periférico da área económica, seguidos de uma pouco relevante passagem por Oslo, que me coube em rifa sem pedir, tinha sido empurrado para a embaixada Luanda, também sem ser ouvido e sem que me tivesse sido dada outra opção. Embora me achasse, sem modéstia, um “safe pair of hands” para qualquer tarefa, tinha a sensação de que o ambiente dentro do MNE nunca me iria ser favorável. Tinha mesmo a perceção de que tinha entrado, de forma quase irremediável, na “slow lane” profissional. É verdade, era assim que eu então via as coisas.

A minha posição política, que não escondia perante ninguém, e que afirmava, com regularidade, de um modo talvez pouco maduro e até provocatório, parecia-me uma insuperável barreira para poder vir a fazer uma carreira de topo. Mas não estava aberto a mudar de atitude. Assim, quando muito, entendia que podia ambicionar postos de importância média. A aposta na Haia tinha precisamente essa lógica: um posto sereno e confortável, embora com holandeses...

Porque vivia a vida profissional de forma bastante isolada, não fazendo parte de quaisquer grupos ou “networks" dentro da casa, não fazia a menor ideia de como o meu trabalho era olhado. Isso não significava que, intimamente, não achasse que fazia bastante bem aquilo que me competia. 

Ao dizer o que me disse, Matos Proença, um homem discreto, cordial e bastante competente, que viria a morrer muito cedo, fez-me rever essa minha perspetiva. A ser verdade o que ele afirmava, talvez eu pudesse ter direito a outras ambições. 

E Matos Proença logo acrescentou algo que me criou uma vontade nova: “Como sabe, no dia 1 de janeiro do próximo ano, Portugal vai entrar para as Comunidades Europeias. Estamos a preparar uma equipa para isso. Acho que você tem todas as condições para poder ter um lugar de chefia nessa área, na parte da cooperação política europeia. Quer que fale no seu nome ao secretário-geral?“ Disse-lhe que sim, que estava interessado, claro! Luanda era um posto pesado, tinham sido três anos de vida difícil, pelo que era um novo desafio que parecia promissor.

Mas havia um íntimo mas. A Europa? A CEE? Eu era então muito pouco europeísta. Não tinha a fé dos convertidos à religião federal de Monnet & Schuman, mantinha uma leitura algo soberanista da gestão dos nossos interesses, preocupava-me muito a ideia de partilhar o poder nacional, achava que nos iriam impor uma matriz liberal que podia limitar uma possível evolução no "caminho para o socialismo". O quê?! estar-se-ão a perguntar. É verdade! Ao contrário de outros, sou um orgulhoso herdeiro de todo o meu passado. Em 1986, eu ainda pensava assim. Não era contra a aventura europeia, mas era um euro-cuidadoso.

Entretanto, os meses andaram e mais nenhuma notícia me chegou. Matos Proença tinha saído do lugar que ocupava, para ser embaixador na ONU. Achei que o assunto tinha morrido. E preparei-me para viver 1986 em Angola. E, depois, quem sabe, talvez fosse para Haia ou coisa parecida.

Até que um dia, creio que em meados de outubro desse ano de 1985, Pinto da França recebeu um telegrama pessoal do secretário-geral, João de Sá Coutinho, a determinar a minha apresentação em Lisboa, com caráter de urgência. Era expressamente mencionando no texto que me esperava um lugar de chefia nas Necessidades. O embaixador não ficou muito satisfeito com a minha súbita partida, mas teve a amiga atitude de a não inviabilizar.

E lá parti, à pressa, para Lisboa, menos de um mês depois. Como tinha a casa em obras, fui obrigado a ir viver para um apartamento vago, emprestado por um amigo. Depois de mais de três anos de Luanda e sete de estrangeiro, senti que, no fim de contas, iria ser bom regressar a Lisboa. A minha mulher podia voltar ao seu emprego, embora tendo perdido anos de antiguidade e a hipótese de qualquer promoção ou chefia, pelo facto de me ter acompanhado. Mas estávamos felizes na antecipação do novo capítulo de vida que íamos ter. Foi muito bem disposto que me fui apresentar ao secretário-geral.

Sá Coutinho mandou-me sentar na velha cadeira de palhinha que estava em frente à sua secretária e, por uma qualquer sombra no seu olhar, tive um súbito mau pressentimento. Que logo se confirmou: “Ó Seixas da Costa, não tenho boas notícias para si. Houve aqui em Lisboa uma mudança de planos e eu queria perguntar-lhe se não precisa de dois ou três meses, com calma, para pôr em ordem a sua vida.” 

Eu não estava a perceber nada, mas já começava a perceber tudo. Ainda arrisquei: “O senhor embaixador sabe bem que vim à pressa de Luanda, a minha bagagem pessoal ainda nem chegou, apenas porque, num telegrama seu, há poucas semanas, me foi confirmado ir ter aqui um lugar de chefia. O que é que mudou?”

O secretário-geral, um homem grande, pessoa cordial, um aristocrata limiano, com fama liberal (no tempo em que os liberais eram outra coisa e tinham boa fama), estava visivelmente embaraçado: “Meu caro, não quero nem posso ir muito longe, mas foi a política que se meteu no meio disto tudo. O lugar já não é para si. Não vai ser possível ter nenhum lugar de chefia”. 

O meu choque era compreensivelmente grande: “E há alguma ideia sobre o que vou fazer?” Sá Coutinho rodava em torno da secretária e confessou: “Por ora, nada. Mas vá falar com o Gregório Faria, que está a montar as coisas das Comunidades Europeias, na Visconde Valmor, nas áreas mais técnicas. Pode ser que ele tenha qualquer coisa para si”. Senti que ficou muito aliviado quando me viu sair do gabinete. 

Entre a visita de Matos Proença a Luanda e a minha chegada a Lisboa, tinha tomado posse um novo governo, em inícios desse mesmo mês de novembro. O primeiro ministro chamava-se Aníbal Cavaco Silva. Ao sair do Ministério, atravessando os corredores e o pátio, tive o alívio de não me cruzar com nenhum colega, que pudesse inquirir-me sobre o meu destino, nesse que era já um imperativo regresso a Lisboa. Que lhes podia eu dizer?

No dia seguinte, fui recebido pelo embaixador José Gregório Faria, recém-nomeado diretor-geral das Comunidades Europeias (era a designação, à época). Foi simpático, mas revelou-me que, não apenas não tinha, de imediato, nenhum lugar para mim nem, muito menos, qualquer lugar de chefia. Pior ainda: não tinha sequer onde me sentar, de tal modo o novo serviço estava cheio dos técnicos que tinham transitado das estruturas que tinha negociado a adesão. Os diplomatas eram por ali muito poucos e, quase todos, estavam acantonados numa única direção de serviços, essa já sem lugar para mais ninguém. 

Toda a boa-disposição criada em torno do meu regresso a Lisboa tinha-se desvanecido. Estava a viver numa casa emprestada, com a vida improvisada, sem nada para fazer, sem perspetivas de futuro num tempo político tumultuoso e que, pelos vistos, dava ares de me ir ser profissionalmente hostil. 

O meu Natal de 1985, em Vila Real, não foi dos mais simpáticos.

Em Portugal, à época, vivia-se a campanha das eleições presidenciais. À esquerda, Soares, Zenha e Pintasilgo disputavam o eleitorado. A direita, mais unida do que nunca, tinha Freitas do Amaral como candidato. Os comícios sucediam-se, o país estava ao rubro.

O candidato que mais me agradava era Salgado Zenha, que logo se percebeu que não teria qualquer hipótese. A maioria dos meus amigos eram pintasilguistas. O ambiente de crispação política que atravessava Portugal era imenso. O chapéus de palhinha e os “loden” pelas costas eram a imagem de marca da direita em ascensão. Aos meus olhos de então, uma vitória de Freitas quase que podia trazer o fascismo de volta, de tão sinistro me parecia o grupo de gente que o rodeava - alguns são hoje bons amigos meus e um dia tive uma conversa curiosa sobre tudo isto com Freitas do Amaral. O que, por esses dias, me estava a acontecer profissionalmente não ajudava a que criasse uma opinião diferente. Bem pelo contrário.

Votei Zenha na primeira volta e, naturalmente, escolhi Soares na segunda. A noite da sua vitória - ou melhor, a derrota de Freitas - foi talvez a momento mais feliz que tive em política, em toda a minha vida. Isso mesmo: mais do que a vitória do PS, em outubro de 1995, ou a de Sampaio, meses depois.

Neste entretanto, depois de passar umas semanas em casa, fui chamado à direção-geral das Comunidades Europeias, onde, sentando-me aqui e ali, fui ajudar a montar um serviço de cifra para a nova estrutura e me foi dada uma tarefa curiosa e divertida: elaborar um conjunto de ordens de serviço, “pedagógicas”, para moldar aquele imenso grupo de técnicos à “liturgia do MNE”, numa expressão interessante de Gregório Faria. Em cerca de dez diretivas, ensinei como se escreviam os “telegramas’, as “notas verbais” para as embaixadas estrangeiras e outras regras básicas da diplomacia. Um dia, finalmente, fui colocado na direção de serviços das Relações Externas, embora com funções muito limitadas. Mas essa é outra história.

Foi assim, desta forma um tanto atribulada, que eu cheguei ao novo Portugal europeu. 

Vale a pena dizer que o ambiente na direção-geral das Comunidades Europeias - ou na “Visconde Valmor”, como o serviço melhor era conhecido nas Necessidades - era excelente, com grande predominância feminina, gente competente e entusiasmada com as novas tarefas. Era um tempo em que todos estávamos a aprender a nadar nas águas europeias. As idas a Bruxelas, aos grupos de trabalho dos nossos respetivos pelouros, eram momentos interessantes. Para mim, o único verdadeiro problema que enfrentei foi ter de trabalhar num “open space”, sala com pé direito muito baixo, onde toda a gente falava alto ao telefone. Logo eu, que só sei trabalhar em gabinetes de porta fechada. Cheguei a pôr tampões nos ouvidos...

Mas, pronto!, foi assim que entrei "na Europa". Nos anos seguintes, a minha vida profissional deu algumas voltas, e a Europa entrou nela de roldão. E a Europa também entrou em mim - e me convenceu. Oito anos depois, vim de Londres para ser sub-diretor-geral dos Assuntos Europeus, como o setor tinha passado a chamar-se. Um ano mais tarde, fui convidado para ser secretário de Estado da área. 

Lembro isto hoje, precisamente 40 depois da nossa entrada para as Comunidades Europeias - a União Europeia ainda estava para nascer.

Pensando bem, tudo me podia ter corrido bastante pior.

terça-feira, dezembro 30, 2025

Sol a mais

Ontem estive no funeral de uma pessoa que me era próxima. O dia estava radioso. Detesto funerais com bom tempo. A despedida de alguém deve rimar com chuva e dia pesado.

É só saúde!


Dizia alguém: "Este tipo, sendo liberal, só pode estar a gozar connosco! E fala como se fosse para o governo!" Mas há uma parte do país que se deixa embalar por este discurso modernaço, como se alguém que foi gestor público de topo, nomeado pelo CDS, venha de fora do sistema.

Rir é o melhor remédio

Gouveia e Melo tem toda a razão em queixar-se do facto de terem ido desenterrar casos antigos, só para atrapalhar a sua campanha. Contudo, ser ele a falar de "assassinatos de caráter", depois das suspeitas não fundamentadas que suscitou sobre Marques Mendes, dá vontade de rir.

Notícias

Será uma incontrolável raiva pelo êxito alheio? Coloquei um recorte do "Público", com os cargos obtidos na Europa por portugueses. Fiquei à espera da réplica adversativa, do "mas...", que sabia que viria por aí. E veio, claro. A vesícula de alguns portugueses nunca nos desilude.

Emprego

É escandaloso o que está a passar no aeroporto de Lisboa, com repercussão reputacional muito negativa na nossa imagem de país com pretensões a ser uma potência turística. Se o senhor almirante, como espero, vier a ficar sem futuro institucional em 18 de janeiro, poderia ter ali um belo teste às suas consabidas qualidades de organizador logístico. O país agradeceria.

Embrulhem!

 


Incompetência

É extraordinário que, num processo tão previsível e calendarizado como é uma eleição presidencial, seja "impossível" evitar que os nomes dos candidatos rejeitados pelo Tribunal Constitucional apareçam nos boletins de voto. Isto só tem um nome: incompetência. 

Justiça

Não faço ideia se o almirante fez ou não fez ajustes diretos. Não voto nele, claro, mas nada indica que não seja um homem sério. Há que interrogarmo-nos sobre a razão por que, em momentos políticos sensíveis, surgem estas "fugas" da justiça. A nossa democracia também se mede por isto.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Seguro

Posso perceber que muitos socialistas gostassem de ver António Vitorino presidente da República. Contudo, não consigo entender, salvo por um exercício de masoquismo, a razão pela qual, na eleição que aí vem, hesitam um segundo que seja entre António José Seguro e os seus competidores.

"Olhe que não, olhe que não"


Desta vez, falamos do Natal.

Veja aqui.

Estava assim



BB do outro lado


Hoje, dia em que tanto se falará da BB, aqui fica outro BB, o genial Bertolt Brecht, comunista como já não está na moda alguém ser. O seu "Sobre o pobre B.B.", traduzido por António Cícero:


"Eu, Bertolt Brecht, sou das florestas negras.

Minha mãe me trouxe para as cidades

dentro do ventre. E o frio das florestas

estará comigo ao me cobrir a laje.


Na cidade de asfalto estou em casa e a caráter,

com todos os últimos sacramentos

ministrados: jornais, tabaco, conhaque:

desconfiado, indolente e enfim satisfeito.


Sou amável com os outros. E visto

meu chapéu-coco, como todo o mundo.

Digo: são bichos de cheiro esquisito

e também digo: e daí? Também sou, no fundo.


Às vezes, nas cadeiras de balanço,

coloco algumas moças, de manhã,

e digo: em mim vocês têm, eu garanto,

alguém em quem não podem confiar.


À tarde me reúno com colegas.

Tratamo-nos de “gentleman”, então.

Eles dizem, com os pés à minha mesa:

as coisas vão melhorar, e não pergunto quando.


Na madrugada cinza, abetos mijam

e piam os pássaros, que são seus vermes.

Na cidade, meu copo se esvazia,

largo o charuto e durmo um sono leve.


Assentamo-nos, uma geração leviana 

em prédios que quiséramos indestrutíveis

(assim construímos os arranha-céus da ilha de Manhattan e as finas antenas sobre o Atlântico a nos divertirem).


Destas cidades ficará quem as atravessou, o vento!

A casa faz feliz quem nela come: quem a esvazia.

Sabemos sermos efêmeros

e que depois de nós o que virá será sem valia.


Nos terremotos vindouros, que não seja meu fado

deixar por amargura o meu Virginia se apagar,

Eu, Bertolt Brecht, largado nas cidades de asfalto,

oriundo das florestas negras, no ventre da mãe, tempos atrás.

Antas

Como sportinguista, assumo, por regra, a atitude do pessimista, do cético no êxito: se o ano correr mal, "eu bem dizia"; se correr bem, "tudo o que vier à rede...". Este ano, com o Benfica a ficar para trás, preocupa-me o Porto. Aquela ideia de mudarem de treinador foi péssima!

Pipi

No passado, era muito popular na cultura social lisboeta a figura do "pipi". Tratava-se de uma personagem masculina muito penteadinha, muito Brylcreem, de galã canastrão a querer disfarçar a idade. Antes desta campanha presidencial, já quase tinha esquecido a figura.

Zelensky

Goste-se ou não da personagem Zelensky e daquilo que ela representa, é irrecusável ser alguém que, desde há cerca de quatro anos, é a cara de um projeto para um país que eventualmente terá nascido contra a lógica da História. Se outra for a Ucrânia, Zelensky terá de sair de cena.

Apresentação

 


Trump

Passados estes dias agitados, alguém um dia irá publicar um estudo científico sobre a figura de Donald Trump, sobre o seu perfil psicológico. Posso estar enganado, mas quero crer que se chegará à conclusão de que a maior potência do mundo esteve à mercê de uma pessoa perturbada.

Presidenciais

Não irei votar em Marques Mendes, pelo menos na primeira volta. Mas acho miserável a campanha negra de que é objeto, por parte de gente sem um passado cívico minimamente relevante para poder chegar a Belém. Marques Mendes está a pagar o banho de decência que um dia deu ao PSD.

Lembrar


Para lembrar o dia de 2025 em que a Europa foi chamada a despacho a Washington...

domingo, dezembro 28, 2025

O lugar do Eurico


Ontem, (também) morreu Eurico de Figueiredo. Tinha 86 anos. 

Na minha adolescência, em Vila Real, o nome de Eurico de Figueiredo identificava um estudante de "ideias avançadas", saído anos antes da cidade, que liderara as lutas académicas lisboetas de 1962 e que, depois de uma agitada passagem pela universidade de Coimbra, se exilara na Suíça. 

Conheci muito bem o seu pai, Otílio de Figueiredo, médico e figura maior da vida cívica de Vila Real, com quem trabalhei de perto na aventura oposicionista da CDE de Vila Real, em 1969. 

Só vim a conhecer o Eurico muito depois do 25 de abril, quando regressou a Portugal para exercer psiquiatria e, posteriormente, para se envolver na ação política, da qual um dia acabou por se cansar - e talvez com razão.

Não éramos íntimos, mas fomos desenhando uma relação de amigos. Há anos, convidou-me para apresentar um seu livro. Depois, contracenámos com o seu velho comparsa de Genebra, António Barreto, numa evocação qualquer no teatro de Vila Real. Já o não via há bastante tempo.

Lembro uma história que, por equívoco, nos ligou e sobre a qual um dias nos rimos. Estávamos em julho de 1999. Eu era então, desde há três anos e meio, secretário de Estado dos Assuntos europeus.

Um dia, informei o gabinete do primeiro-ministro de que necessitava de falar com António Guterres, com alguma urgência. Horas depois, foi-me perguntado o motivo da reunião, para justificar a pressa com que pedia o encontro. Mandei dizer que não revelava. No dia seguinte, já um pouco irritado, voltei a insistir. Ao final desse dia, o primeiro-ministro recebeu-me.

António Guterres acolheu-me com um sorriso e a grande simpatia com que sempre me tratou.

- Este seu pedido de reunião, com caráter de urgência, criou por aqui alguma especulação, como já deve ter percebido.

Eu já então presumia essa especulação. Num segundo, liguei-a ao facto de, três dias antes, ter estado numa audiência, também a meu pedido, com o presidente da República, Jorge Sampaio. Que diabo um simples secretário de Estado, lugar subalterno no governo, quereria, na mesma semana, das duas principais figuras do Estado?

Esclareci então António Guterres que a razão da minha visita nada tinha a ver com aquilo que fora tratar com o presidente. No seu caso, eram assuntos estritamente ligados às questões europeias, mas que exigiam uma orientação urgente do primeiro-ministro. A particular sensibilidade do tema recomendava, porém, uma conversa pessoal. Só isso.

Guterres disse-me então das razões da especulação em S. Bento.

- Como você sabe, estamos em pleno processo de formação das listas de candidatos a deputados à Assembleia da República. E, como também é público, Eurico Figueiredo deixou vago o lugar de cabeça de lista por Vila Real, que também é a sua terra. Houve muita gente que pensou que você, sendo embora independente e não militante do PS, poderia estar interessado no lugar e que era essa a razão por que pretendia falar comigo com urgência. Eu, contudo, conhecendo-o, devo dizer que nunca pensei que quisesse ser deputado. Mas também achei que seria legítimo se acaso o quisesse ser.

E tinha toda a razão. A vida parlamentar nunca me seduziu minimamente. Mas, à distância, fiquei sempre com a curiosidade de saber o que teria acontecido se eu, de facto, tivesse tido essa pretensão. Assim, salvo na boataria entre S. Bento e o Rato, acabei por não me "cruzar" com o meu amigo Eurico Figueiredo nos caminhos da representação política de Vila Real.

sábado, dezembro 27, 2025

Segurança

Um amigo, membro de uma tertúlia a que pertenço, que há meses nos tinha anunciado o voto no almirante, acaba de dizer que, tudo ponderado, decidiu que vai votar em António José Seguro. 

Há pouco, li que um dos mais ferozes opositores dentro do PS a esta candidatura concluiu que ela é a única que recolhe "os mínimos", o que imagino indicia que pode afinal vir a ser essa a sua escolha final.

Isto ainda se vai compor, meu caro António José Seguro!

Viana


Sou de Vila Real, mas também me sinto muito de Viana, a terra do meu pai. Ligam-me a Viana memórias de infância e juventude. Por lá passei muitas férias - e as férias costumam ser, e no meu caso foram, uma parte boa da vida. 

Vou a Viana sempre que posso, ando por aquelas ruas como se fossem da terra onde nasci. A cidade retribui-me: sou seu cidadão honorário e tive o gosto de ser presidente de honra da maior romaria do país, a Senhora da Agonia.

Em Viana vivia a minha avó paterna, que partiu há muito com uns respeitáveis 93 anos, depois de 55 anos de viuvez. Conservou até ao fim uma jovialidade que nos marcou a todos. Por ali tive tias e tios que, com o tempo, foram desaparecendo. E bastantes primos. 

Há semanas, um deles, com a minha idade - como eu, há muito emigrado em Lisboa - saltou fora da vida, horas depois da nossa última conversa a dois. Hoje, outra prima, a decana da família, já na casa dos 90, deixou-nos. Na semana passada, ao telefone, tínhamos combinado que iria vê-la a Viana, daqui a dias, como há anos fazia. Vou, mas para o funeral.

Há meses de dezembro menos tristes, podem crer.

sexta-feira, dezembro 26, 2025

O meu "grupo" do Natal


A Consoada aproximava-se. Da sala, já me pediam para preparar os vinhos, pelouro irrecusável que há muito me cabe. A tarde tinha sido de um lado para o outro. Dei conta de que ainda havia imensa gente a quem gostaria de mandar uma mensagem de Boas Festas. Não havia manifestamente tempo para uma nota personalizada a cada um. Que fazer?

Talvez uma frase simples chegasse, para que essas pessoas soubessem que não me tinha esquecido delas. Por SMS ou Whatsapp? Há amigos que se queixam de que uso demasiado SMS, num tempo em que toda a gente utiliza mais o Whatsapp. Fui então para o Whatsapp. No iPhone, no espaço de endereços, fui acumulando os nomes das pessoas a quem iria enviar a mensagem. Muitas. Tantas que optei por ficar a meio. Faria outro "carregamento" depois. 

Intimamente, pensei que estava apenas a criar, para mim próprio, uma lista de endereços. E, nesse engano de alma ledo e cego de quem usa o Whatsapp menos do que devia, fugiu-me o dedo para "Novo Grupo". E aí cliquei! O que fui fazer?! Nunca na vida tinha criado um grupo de Whatsapp - e logo fui fazer uma imensa asneira a meia hora da Consoada. Nabo informático como sou, não é que me excluí, em seguida, do grupo, ainda antes de o eliminar?! Só o contacto de um amigo, que tinha estranhado tudo aquilo, me permitiu, por seu intermédio, avisar e tentar explicar àquele heteróclito grupo de pessoas o que é que ali faziam, todas juntas, por minha iniciativa. Confesso que avancei para o bacalhau da Consoada num estado de serenidade que rimava mal com a data.

O "meu" grupo do Natal, sem que o criador o possa eliminar, ainda deve andar pelo Whatsapp. Só espero que quem dele involuntariamente faz parte o vá abandonando. De uma coisa podem essas pessoas estar certas: tinha a intenção de lhes desejar Boas Festas! Valha-me ao menos isso! 

... e Carter dá a notícia!

 


quinta-feira, dezembro 25, 2025

Natal


Em Vila Real, Natal sem briol não tem graça.

A revelação


Foi numa noite de Consoada como esta, há bem mais de sete décadas. Em casa da minha avó paterna, em Viana do Castelo, a família tinha estado reunida no jantar de Consoada. No dia seguinte, os meus pais e eu partiríamos de comboio para Vila Real, onde teria lugar um jantar no dia de Natal, desta vez com os meus avós maternos e a família desse lado. Foi assim, por muitos e bons anos, a geografia dos meus Natais.

Para mim, por essas horas, só havia um tema importante: os presentes. Na manhã de 25, junto ao presépio e à árvore, sabia que iriam surgir coisas que, segundo a narrativa que dominava a minha cabeça, o Pai Natal ali teria colocado durante a madrugada. E, na noite seguinte, quando chegasse a Vila Real, outro conjunto de presentes estaria à minha espera. De certo modo, eu sentia-me beneficiado, em relação a alguns dos meus primos. É que o Pai Natal faria duas deslocações por minha causa. 

A noite de Consoada em Viana estava a terminar. Os meus tios começavam a despedir-se e a sair para as respetivas casas. Foi então que um primo, um ano mais velho do que eu, me chamou a um corredor interior daquela grande casa do Largo Vasco da Gama e, com um sorriso de superioridade, de quem sabia mais do que eu, me disse: "Queres ver os teus presentes?". E abriu a porta de um compartimento interior, apontando-me umas caixas coloridas. "Ai julgavas que era o Pai Natal?! Quem comprou as coisas foram os teus pais...". E, imagino que contente com a minha cara, correu e desapareceu de cena.

Não me lembro de ter sentido um grande desapontamento, como hoje seria bonito dizer. Não posso mesmo excluir que a revelação tivesse apenas confirmado alguma coisa que eu já suspeitasse, talvez mesmo uma dúvida sobre dificuldade logística da imensa tarefa do Pai Natal. De uma coisa tenho a certeza: custou-me imenso a adormecer. Não terá sido pela desilusão induzida pelo gesto do meu primo, mas apenas porque passei algum tempo a magicar que diabo estaria dentro daquelas caixas. Dali a horas, contar-me-iam, como habitualmente, a história de que tudo se ficava a dever à gentileza anual de um errante tipo de barbas brancas. Intimamente, devo ter-me sentido mais forte perante os meus pais: é que eles não sabiam que eu já sabia a verdade!

O mundo no ano que acaba


Há muitos anos, a RTP, à volta do Natal, fazia um programa em que resumia a situação internacional no ano prestes a terminar. Eu ainda não tinha a diplomacia no meu radar profissional mas recordo-me bem que organizava sempre a minha vida de modo a poder ver esse programa, feito de colagem de filmes que sintetizavam o curso da vida pelo mundo.

Lembrei-me disto na terça-feira ao gravar, com António Freitas de Sousa, a penúltima edição do ano do nosso podcast "A Arte da Guerra". É que optámos, nesta edição, por fazer um bosquejo pelo que nos pareceu ser mais importante no ano de 2025.

Começámos, sem surpresa, por Donald Trump, tentando caraterizar o que ele trouxe de novo à América e ao mundo. Depois falámos da Europa e do seu difícil papel de charneira entre o poderoso vizinho atlântico e a Rússia. E, finalmente, abordámos ... o resto: a China, a Índia e por aí adiante. Isto é: tentámos "meter o Rossio na Betesga".

Nos dias de hoje, o tempo que as pessoas estão dispostas a perder, á frente de um écran, é em regra inferior à duração de uma análise como aquela que a nossa "A Arte da Guerra" promove, todas as semanas, há quase cinco anos. Se optássemos por ser mais sintéticos, teríamos com certeza uma maior audiência. Contudo, e com pena nossa, o que temos para dizer não cabe num "espartilho" mais pequeno. E estamos muito confortáveis com o número de pessoas que nos vê.

Se estiver disposto a perder (não tenho a imodéstia de escrever "ganhar ") alguns minutos, basta clicar aqui.

terça-feira, dezembro 23, 2025

Somos todos dinamarqueses

 


Receita

 


A cortina

Gronelândia ou Venezuela vs Epstein: nada melhor do que começar uma guerra para esconder um imenso embaraço.

Ó diabo!


A propósito da Cimpor, o "Observador" coloca-me hoje como secretário de Estado de Cavaco Silva. Espero que o senhor professor não se tenha ofendido com o lapso; eu já perdoei. Não sabemos como reagiria António Seixas da Costa Leal, um estimável e muito competente servidor público, que foi subsecretário e secretário de Estado, tendo chegado a ministro, mas que já se foi desta vida em 2007. 

Venezuela

( Texto de uma entrevista hoje concedida ao "Diário de Notícias" da Madeira ) Como observa e classifica a actual operação militar ...