domingo, 17 de setembro de 2017

Uma estranha obsessão


Há uma semana, nestas mesmas colunas, deparei com um artigo que configurava um raro e insólito exercício de ódio, que me era pessoalmente dirigido. Escrevo "insólito" porque, não conhecendo o autor do texto, me pareceu estranho que de tão vitriólica peça pudesse exsudar uma acrimónia similar àquela que costuma resultar das tensões pessoais mal resolvidas. 

O texto ecoava, basicamente, um exercício feito dias antes na CMTV. Ficava evidente que essa pessoa, valendo-se das tribunas pagas que lhe estavam abertas nesta casa, destilava um abundante rancor e acrimónia a meu respeito. O porquê dessa atitude permanece um mistério.

Nunca na vida tive o menor problema em confrontar-me com opiniões discordantes. No caso vertente, entendo perfeitamente legítimo que alguém considere menos adequada a minha indigitação para o lugar "pro bono" que eu havia aceitado, como missão de serviço público, no Conselho Geral Independente da RTP. E nunca me mostrei fechado a discutir isso. 

Não se tratou, contudo, de uma crítica serena, substantiva, na urbanidade educada em que estas coisas devem ser debatidas. Foi, como quem leu pôde constatar, uma furiosa diatribe "ad hominem", com graves insinuações de caráter, suspeições conspirativas e até uma malévola incursão por um incontroverso episódio do passado, com mais de quatro décadas.

Adiante. A minha aceitação do convite para uma colaboração benévola com a RTP não teve como objetivo ganhar mais uma linha curricular, que creio óbvio não necessitar, mas corresponder a um amável convite para prestar uma contribuição voluntária de serviço público, área que muito prezo e à qual dediquei mais de quatro décadas da minha vida profissional – sem o menor sacrifício e com imenso gosto. 

Entendi que a experiência diplomática que possuo poderia ser considerada útil na contínua reflexão que deve ser feita sobre o papel da RTP e da RDP na área internacional, em especial junto dos países de língua portuguesa e das nossas comunidades - tendo nomeadamente exercido funções de embaixador em dois países onde elas são das mais relevantes.

Uma palavra quanto à recente opinião do regulador sobre este caso. A ERC expressou uma clara posição atestando o que entende ser a adequação do meu perfil à função para que fui indicado. Entre os três membros da ERC um deles entende, contudo, que pode haver uma incompatibilidade entre a minha colaboração com alguma comunicação social e a pertença ao CGI da RTP. Não é essa a minha opinião e, para mim, trata-se de uma "linha vermelha": não prescindo de ter uma voz pública onde e quando me apetecer.

Satisfez-me muito constatar que houve um ponto não controvertido na reflexão que a ERC fez sobre as minhas eventuais incompatibilidades para o cargo. O regulador entendeu que a minha colaboração profissional com as três empresas portuguesas com maior expressão internacional, no âmbito do aconselhamento estratégico para o investimento, não suscitava a menor dificuldade à assunção daquelas funções. Isso sempre me pareceu óbvio, mas foi importante que ficasse claro.

Pergunto-me, aliás, se não é apenas a espuma dos dias de tensão política que se vivem que transforma isto num desproporcionado “casus belli”. Se, afinal, como disse Shakespeare, não é “much ado about nothing”.

(Artigo hoje publicado no "Correio da Manhã")

8 comentários:

Anónimo disse...

Já num post anterior, VExa insurgia-se, e muito bem!, contra as campanhas difamatórias. Mas só agora entendo completamente o alcance da sua conclusão, quando dizia não haver nada a fazer quanto a isso. Com toda frontalidade tenho de lhe dizer que colaborar com o "campeão nacional da difamação" que é o CM, é muito mais que não fazer nada - é alimentar os seus produtores.

Cump.

MRocha

Francisco Seixas da Costa disse...

MRocha: eu não colaboro no CM. Publiquei este artigo no CM porque foi este o lugar onde, há precisamente oito dias, fui atacado. O CM proporcionou-me a oportunidade para me defender no mesmo local - e naturalmente estou grato pela possibilidade de potencialmente ser lido pelo mesmo universo de leitores

Anónimo disse...

Sinto-me esclarecido e apresento as minhas desculpas pelo despropósito. Mas sempre lhe digo que o "universo de leitores" do CM não me parece do género de apreciar defesas de honra. Nessa medida, fazê-lo naquele meio, é dar ao dito um crédito manifestamente imerecido.

Cump.

MRocha

Anónimo disse...

Por falar em RTP lá fora. No outro dia, dei comigo ligado à RTP África. Estava a passar um programa, daqueles muito chaaaaatos, com umas atrizes portuguesas fazendo monólogos sobre a sua infância, olhando para o horizoooooonte, pensatiiiiiivas.

Como é que é possível???!!!!

Anónimo disse...

Fiquei mais tranquilo depois de ler os esclarecimentos que o Sr. Embaixador deu a MRocha!

Anónimo disse...

José Manuel Fernandes e Helena Matos representam hoje de modo cavernoso um certo interesse inspirado pelos EUA mais Tea Party, mais CIA, mais Texas, do mesmo modo que em 1975 andaram dando mau nome à esquerda.

Dizem-se vítimas de excessos juvenis e de certeza que garantem que não eram já então o que depois viriam a ser. Ora, tal como Durão Barroso com quem têm desde então andado de mão dados, são figuras sinistras, intérpretes e cúmplices de uma maneira sangrenta de estar no mundo.

Desconheço-lhe o passado ideológico, mas o crítico televisivo andou pelo Público nesse tempo barrosista pelo qual o país passou quando se garantia em editoriais que o Iraque tinha armas de destruição massiva. Não sei que sentido fará, que conspirativo parece. Mas são todos os quatro tão amiguinhos num modo internacionalista de ver o mundo que não sei.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Como eu ouvi a croniqueta-expresso de muito mau gosto, escusado será dizer que o Sr. Embaixador fez muitíssimo bem em dizer o que tinha a dizer no dito jornal e quem quiser entenda!

Anónimo disse...

"Mas sempre lhe digo que o "universo de leitores" do CM não me parece do género de apreciar defesas de honra. Nessa medida, fazê-lo naquele meio, é dar ao dito um crédito manifestamente imerecido."


Caro Mrocha

Não menospreze qq grupo de pessoas por principio, não lhe fica bem. O positivismo não deve ter sido substituido por birras.

cumprimentos