sexta-feira, setembro 22, 2017

As Nações Unidas têm futuro


As Nações Unidas são uma "criação" americana, como já o havia sido a sua antecessora Sociedade das Nações. No termo da Segunda Guerra mundial, de que foi o mais destacado vencedor, a América considerou que um órgão regulador dos poderes à escala global seria a solução mais eficaz para a preservação da paz e da estabilidade. E convenceu disso o mundo. Claro que pretendia que fosse uma "pax americana", porque o "America first", lá no fundo, sempre sobredeterminou todos os gestos de Washington, o que, convenhamos, não deixa de ser natural.

A Guerra Fria transformou a ONU numa espécie de arena diplomática, com lugares marcados. O espetáculo principal tinha dois lutadores e acabou com a exaustão de um. As lutas secundárias foram, quase sempre, reflexo do prélio central, da Coreia ao Vietnam, do Afeganistão a Angola. Sob o ponto de vista do seu papel resolutivo de crises, a ONU passou por alguma obscuridade até à queda do muro de Berlim.

Mas, entretanto, a ONU não foi apenas isso. Na constelação das suas estruturas e agências, as Nações Unidas revelaram-se um formidável instrumento da História, na construção do sistema multilateral que hoje estrutura toda a ordem internacional. Foi nesse universo onusino que o "terceiro mundo" encontrou expressão institucionalizada depois da Conferência de Bandung, foi através dele que conquistas de modernidade, como os temas ambientais ou as grandes questões de desenvolvimento, encontraram o seu espaço, onde a defesa dos Direitos Humanos garantiu um terreno de prestígio, por maiores que sejam as limitações que ainda condicionam a respetiva implementação. 

Com todas as suas deficiências, o património – não hesito em escrever “moral” – das Nações Unidas não deixa de ser enorme e essencial para um ciclo importante do percurso da humanidade. O mundo deve imenso à ONU, isto é, deve congratular-se consigo mesmo por ter conseguido estruturar e manter esta instituição “do bem”.

Ao terem impulsionado a criação da ONU, os Estados Unidos geraram  um “monstro” que já não conseguem dominar, quanto mais não seja pelo facto da “ideologia” multilateral já não ser reversível na consciência universal. É-lhes possível, nos intervalos da sua história nacional em que a decência é raptada pela prevalência de uma agenda escandalosamente egoísta, bloquear a capacidade resolutiva da organização e enveredar pelo unilateralismo. Mas o resto do mundo continua lá, não dá a mínima mostra de deixar de acreditar em que aquele é o caminho – desde o acordo climático de Paris à proteção dos refugiados, passando por milhares de outros dossiês da modernidade civilizacional. 

As Nações Unidas não apenas têm futuro como são, elas mesmas, o futuro da ordem internacional. Um futuro depois de Trump, claro.

Parabéns, João!

João Gomes Cravinho acaba de ser escolhido para reitor do prestigiado Colégio da Europa, em Bruges, depois de vencer um concurso internacion...