domingo, 17 de setembro de 2017

Ainda a Ucrânia


Tenho imensa pena de não saber falar russo. 

(Nos anos 60, ainda andei numas aulas de Jorge Listopad, mas acabei por desistir e oferecer o Linguaphone (lembram-se?) a um colega que ia para Moscovo. Se soubesse, teria aproveitado bem melhor os tempos em que andei pela Ásia Central, depois, várias vezes, pelos Cáucasos. Ter conversas interessantes em inglês de aeroporto não é a melhor solução. Mas chegaria o meu russo, alguma vez, a muito mais do que esse nível?)

Lembrei-me disso ontem, ao tentar perceber de alguns ucranianos, numa noite de alguns copos e muitas conversas sobre a Rússia ("what else?", como diria o Clooney), um pouco mais do sentimento deste país no fio da navalha. 

Este país é hoje dirigido e dominado por quem representa os que detestam abertamente a Rússia, o que, a meu ver, torna totalmente inviável um compromisso com os setores russófilos, maioritários no Leste do país, que a Rússia armou e apoiou militarmente para a secessão "de facto" do Donbass (aproveitando, na passada, para "meter ao bolso" a Crimeia). 

De que lado está a razão, já que a verdade parece clara? O ocidente apoiou um golpe de Estado contra um presidente que era um "homem dos russos", é certo, mas que havia sido eleito com toda a legitimidade. Fez isso para "desequilibrar" a Ucrânia para o "lado de cá", mas só conseguiu mudar o poder em Kiev e levar Putin a um golpe de força - porque era evidente que a Rússia não ia permitir um sobressalto geopolítico. 

A Ucrânia acabou por ficar numa "terra de ninguém", na soleira de uma Nato onde não existe a coragem (e o consenso) para a mandar entrar, e ainda mais longe de uma União Europeia, em que os alargamentos deixaram de ser um tema "sexy" para o projeto.

Não foi cómodo ter de ser realista para os meus (novos) amigos ucranianos, explicando-lhes que a sua entrada para a Nato não traria mais segurança para a aliança (pelo contrário, seria a "importação" pela organização de um complexo conflito) e que as portas da UE parecem entreabertas apenas pelo "politicamente correto" das coisas, mas que tudo será cada vez mais difícil nesse domínio (e a resposta recente à Turquia aí está para o comprovar)

"Mas não podemos ser os únicos donos do nosso próprio futuro, decidindo de que lado queremos estar? Somos eternos reféns da nossa vizinhança com um país mais forte?", perguntava-me um universitário, espírito 1000% ocidental, num perfil antropológico inconfundivelmente de Leste, anti-russo até às raízes dos cabelos. 

Não tive coragem de lhe dizer que, infelizmente, talvez não tivesse esse direito absoluto, tragédia de quem vive nas "grey zones" da geopolítica (a Finlândia do pós-guerra é um bom exemplo). E, claro, também não lhe perguntei o que poderíamos nós responder com sinceridade a um cubano que nos colocasse idêntica questão...

8 comentários:

Anónimo disse...

Pensando que deveria aprender russo, antes de eles madarem em Portugal, frequentei o curso de russo na Associação Portugal Rússia num belo palácio desafectado na Lapa. Ao fim de uns meses percebi que era mais propaganda do que ensino e desisti. Até porque a língua russa não é facil pela escrita. Os sons são parecidos com o português mas.... o resto não.

Anónimo disse...

Como vexa diz de outra maneira, a NATO e a UE, tem grande culpa nisto tudo.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador

Também frequentei nos anos 60 as aulas de russo de Jorge Listopad, no então ISCSPU, mas com pouco proveito. Pouco mais retive do que o alfabeto cirílico.

José Neto

Anónimo disse...

Curiosas as semelhanças entre os ucranianos e os catalães. Também estes são mais europeístas do que os espanhóis, querem ter direito a determinar o seu destino e estão presos pelos interesses de um outro povo.

Joaquim de Freitas disse...

“E, claro, também não lhe perguntei o que poderíamos nós responder com sinceridade a um cubano que nos colocasse idêntica questão”

Texto excelente, Senhor Embaixador. Muito oportuno, sobretudo quando nos recordamos as palavras da secretária de estado americana para a Europa, Victoria Nuland,” Fuck the EU”…

Mas a crise de Cuba demonstrou exactamente até que ponto os americanos consideram que a sua politica exterior é única e se impõe ao mundo inteiro.

Curiosamente, nunca apreciei os ucranianos. Recordo de que maneira colaboraram com Hitler, durante a guerra. Parece que os soldados ucranianos eram mais ferozes contra os russos, que os alemães.E nos campos de concentração alemães, os “kapos” eram frequentemente ucranianos. Esperavam, claro, que os alemães lhes concederiam a independência no fim da guerra.

E mesmo se alguns portugueses e espanhóis também combateram na Rússia ao lado dos alemães, na Divisão Azul , para os Russos a taiçao ucraniana era mais grave;

Anónimo disse...

O texto é, sobretudo sobre o facto de os ucranianos não gostarem dos russos e quererem colar-se à Europa ocidental. Consequentemente, o Freitas desata a desancar nos EUA.

Anónimo disse...

19 de setembro de 2017 às 10:03,

Sobretudo da relação com os russos?

O texto tem 9 parágrafos 9.

Desses há 6 parágrafos 6 que falam de NATO, Ocidente e uma escolha pró-ocidental de alguns ucranianos e ainda consegue concluir que não se fala ali dos EUA?

Ai, ai essa compreensão das coisas lidas. Ou é só vontade de bater em Freitas?

Joaquim de Freitas disse...

Ave, César, morituri te salutant”

No Império Romano, os soldados dentro da arena do Circo lançavam comida ao povo para ovacionar César e quanto mais eles gritavam pelo nome do Imperador, mais alimentos recebiam.

O comentador anónimo de 19 de Setembro de 2017 às 10:03, pequeno soldado yankee, está na arena há muito.

O Império assassina nas ruas de Charlottesville. Os supremacistas racistas do KKK desfilam. O anónimo ovaciona.

Matam nas ruas das cidades e vilas, sobretudo se são negros. O anónimo ovaciona.
Desde Janeiro ultimo, 700 pessoas foram assassinadas pela policia, numa sob proporção de
de Afro -Americanos e de Hispânicos:-

173 Negros (27,2 % de tous les morts) e 324 Brancos (51 %). Na população do pais são respectivamente 12,6 % e 63,7 % dos 320 milhões.
O nosso anónimo ovaciona.

450 000 Americanos são mantidos em prisão, porque sao pobres e nao podem pagar a caução. O nosso anónimo ovaciona.

A injustiça e a estupidez desta prática, que lança as pessoas na prisão antes de todo e qualquer julgamento, porque são pobres.
O nosso anónimo ovaciona.

Este sistema agrava a sobre população das prisões, onde mantém 450 000 pessoas presumidamente inocentes, um recorde mundial, ou seja um quarto dos prisioneiros do pais – 2 milhões - e reforça as disparidades sociais e raciais.
O nosso anónimo ovaciona.

O César da Casa Branca, ameaça o mundo inteiro duma guerra nuclear, porque é claro que se ataca a Coreia do Norte, a China e a Rússia não ficarão com os braços pendentes. Este louco é seguido só por um terço dos Americanos, e não se apresenta mais como defensor do mundo livre, mas da América Uber Ales..O nosso anónimo ovaciona. Ovaciona sempre.

Ovaciona porque não pensa. Sente-se bem sujeitado ao Império. Como um hilota. Os hilotas, eram os servos de Esparta. A última camada social era composta pelas populações dominadas e reduzidas à escravidão pública: os hilotas.

Contrariamente aos escravos de outros Estados, os hilotas iam muitas vezes à guerra, como escolta, carregadores, criados. Tinham uua vida tão dura que o poeta espartano, Tirteu (século VII a. C.) os compara a "asnos sobrecarregados".