terça-feira, 19 de setembro de 2017

"Abril e outras transições"


José Cutileiro acaba de publicar um pequeno livro de recordações da sua vida, onde, com a graça e a imensa inteligência que são as dele, reflete um pouco sobre o mundo e o país. 

Disse um "pequeno livro" porque não passa das 128 páginas, dimensão editorial que, no passado, nos habituámos a ser a regra dos utilíssimos "Que sais-je?", que ainda hoje enchem as estantes de muitos de nós. 

E também escrevi "recordações", e não memórias, no seu sentido clássico, porque Cutileiro deliberadamente não pretendeu atribuir essa dimensão a este volume - e quanto ganharíamos se isso tivesse acontecido! 

José Cutileiro é um homem de grande cultura, sagaz observador, cruel caraterizador dos homens e das situações, pouco propenso a ter paciência para gente assim-assim. Há nele, e ele assume-o, um elitismo estrangeirado que transparece a espaços, e esse pano de fundo ajuda-nos a perceber melhor o porquê de algumas das suas observações. Ao longo da vida interessante que teve, Cutileiro viu muito, conheceu de perto gente curiosa, alguma com impacto no mundo e no país. Teve então ocasião de comparar imensas figuras, de julgar as suas fraquezas e esporádicas grandezas. E isso anda um pouco por todo o livro.

Como todos os conservadores céticos, José Cutileiro olha o país como se este estivesse condenado a deslizar num inexorável declive (que ele interpreta como um declínio), condenado a um futuro incerto e em cujo desfecho não participa e, com toda a segurança, não muito glorioso, à luz dos seus padrões pessoais. Portugal surge, nestas páginas, povoado por gente cuja ambição é apenas ir sobrevivendo "tant bien que mal", numa existência sujeita à lei do menor esforço, baixada que foi a exigência e a "accountability", graças a lideranças em geral medíocres, que não se elevam muito acima desse padrão.

Dito isto, acho imperdível este livro - que projeta muitas ideias com que não concordo, que parte de muitos pressupostos que não partilho e onde também encontro muitas coisas em que me revejo. 

Mas a inteligência e o brilho não têm "partido", nem têm mesmo que se confrontar necessariamente com um qualquer teste de verdade, porque cada um tem a sua. E a forma de José Cutileiro expressar a sua verdade é feita de argúcia, sarcasmo e ironia, que ele aplica aos episódios que testemunhou, que é visível na seleção dos ditos que anotou, que dão uma cor única aos seus textos.

Este "Abril e outras transições" é uma obra cujo principal defeito é, talvez, ficar a saber a pouco. O que já diz muito, creio, deste pequeno livro que imagino tenha dado algum gozo ao autor escrever. Embora na consciência, que também será a sua, de que fica a dever a si próprio (e a nós, por tabela) um outro trabalho com mais fôlego. Mas posso imaginar que talvez ele não tivesse paciência para o escrever.

15 comentários:

Anónimo disse...

Sarcasmo e ironia ainda vá, que somos um país de sarcásticos e irónicos e esse é um estilo que fomos apurando e em que somos muito bons. Mas não sei que argúcia haverá em retratar este país como "a deslizar num inexorável declive". Ainda estamos nisso, a sério? Para uns, já andamos em declive há quinhentos anos, para outros há cem anos, para outros ainda há uns quarenta anos... Já não era tempo de sermos o Burundi da Europa?

Luís Lavoura disse...

livro que projeta muitas ideias com que não concordo, que parte de muitos pressupostos que não partilho e onde também encontro muitas coisas em que me revejo

Eu diria o mesmo dos comentários que José Cutileiro semanalmente faz sobre política internacional num programa da Antena 1 das 12 às 13 aos domingos. Eu diria mesmo mais: esse programa é muito interessante, salvo os comentários de Cutileiro, os quais são perfeitamente dispensáveis.

Anónimo disse...

O que são pessoas assim-assim?

Anónimo disse...

Caro Luis Lavoura

ha quem pense que os comentarios dispensaveis sao os seus...

Anónimo disse...

Como diria um inteligente filósofo actual:

"No limite não houve nenhuma transição de Abril"

Anónimo disse...

@Anónimo de 19 Setembro às 11:15

Desde os finais dos anos 70 a Europa acordou para a hipótese de Portugal vir a ser uma segunda Cuba.
E daí para cá tem feito os possíveis para que neste espaço territorial europeu só haja um Portugal sério. Se o conseguiu ou não temos de ver o que se quer de um país sério, se é isto ou ainda temos de penar mais.

Anónimo disse...

@anónimo de 19 Setembro 12:04

Por exemplo:

Ele é uma parte da população que podem dizer: Sim sim para isso encotramo-nos entre as 10 e as 11 horas no sítio tal.

[Gostaria de ler outros exemplos]

Luís Lavoura disse...

Uma coisa que acho curiosa em José Cutileiro é que ele é bastante pró-americano quando fala, por exemplo, da questão ucraniana ou da questão síria, mas quando fala da ex-Jugoslávia, em particular da Bósnia, já é bastante anti-americano, nomeadamente acusando os EUA de terem boicotado um acordo de paz só para poderem ter o prazer de bombardear a Sérvia.
Gostava de perceber exatamente porque é que José Cutileiro castiga tanto os EUA em relação à ex-Jugoslávia mas já é muito mais amigo deles noutros locais.

Anónimo disse...

Caro colega anónimo das 14:51, um “país a sério”? Ai, como eu gosto dessa expressão. E “ainda temos de penar mais”? Eu desconfio que não tem idade para saber o que é penar. Isso deve ser o spleen. Razão tinha o Unamuno.

Anónimo disse...

Do blog "Retrvisor" de José Cutileiro, um pequeno excerto retirado do texto "Barrabás":


"Os povos portam-se mal, mesmo povos que toda a gente aprendeu na escola serem viveiros de democracia. (Embora haja progresso: se, em vez de passar os dedos pelo teclado do computador para compor estas linhas no ano da Graça de 2016 eu estivesse a passar aparo de caneta de tinta permanente sobre papel almaço no ano em que nasci, quisesse ser rigoroso e ficar bem com a minha consciência, teria tido de escrever “que toda a gente que foi à escola aprendeu” porque à escola no Portugal dessa altura pouquíssima gente ia, sendo o remanescente maioritário das crianças portuguesas grupo a que o aparachique e ficcionista Soeiro Pereira Gomes chamou “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, dedicando-lhes o romance Esteiros de que gostei, sendo o único romance neorrealista que me agradou porque os outros sofriam todos de pecha, comum também às pinturas dessa escola, que professor numa universidade de Londres explicava bem:

“No impressionismo pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que sente; no realismo social pinta-se o que se ouve”. Pinta-se e escreve-se)."

Joaquim de Freitas disse...

Portugal, qual transição?

Há quem diga “chez nous” que “tout va bien”! Mas é que eles existem, aqueles para quem tudo corre bem… Como aquele comentarista que escreve que Portugal, por um triz, não foi como Cuba…Ele não vê que Portugal se esvazia pouco a pouco dos seus filhos, e não procura saber as razoes deste êxodo.

Hoje, podemos estar conscientes da nossa felicidade de viver num país, Portugal, que acolhe milhares de casais franceses que têm reformas de dois mil euros , que podem comer um bom almoço por 7 euros, com vinho, sobremesa e tudo…Mas que miséria se esconde por trás deste eldorado para estrangeiros?

Mas qual é a relação com a democracia? Quando os nossos homens políticos nos falam da nossa “chance” de viver em democracia em Portugal ou no Ocidente, eles e nós, não sabem exactamente do que falam Não sabemos comparar e não podemos saber. A única coisa que poderíamos contabilizar é o número de guerras que provocamos ou financiamos, e o número de mortos que resultou…E sobre este simples calculo, não podemos ficar orgulhosos.

A diferença entre a nossa democracia e os países de hoje ou de ontem não está ligada aos sistemas políticos, mas aos progressos tecnológicos, à geografia, às capacidades a evitar as guerras, as disparidades na população e os privilégios, por conseguinte as revoluções.

Nas nossas democracias, isto é, nas nossas ditaduras de crenças onde não aceitamos nenhuma mudança, os nossos homens políticos são como nós, não prevêem nada doutro.

Preocupam-se dos seus problemas próprios, a sua visão não vai mas longe que a próxima eleição na esperança que poderão ainda beneficiar um pouco do sistema.

Deixam-se aconselhar na esperança que isso será suficiente para nos fazer crer que” tudo vai bem”. Propõem-nos reformas “profundas” que devem permitir aos nossos modelos económicos de melhorar ou de recuperar o nosso bem estar, mas não propõem nenhuma mudança como deitar ao lixo o modelo económico, inventar um sistema que evite ou limite as disparidades, de nos dar a possibilidade de escolher.

Votamos para eleger os nossos representantes e supostamente assim determinar o nosso futuro, mas o nosso futuro parece irremediavelmente traçado, que nos leva ao que tínhamos já constatado no passado.

Tudo parece escrito de antemão e lamentámo-nos contra os representantes que parecem demasiado estúpidos para mudar a marcha dos acontecimentos ou que os precipitam mesmo, mas os nossos representantes são como nós filhos da democracia.
Candide é intemporal.

Anónimo disse...

O camarada Rajoy é que ja anda a armar ao Franco

a coisa ainda lhe corre mal...

Anónimo disse...

Entretanto, no país vizinho, outros abris são necessários, outras transições se impõem. Apreendem-se panfletos, prendem-se políticos, impede-se a democracia...

Se um dia destes voltarem a rebentar bombas a culpa será dos marcianos, claro...

Anónimo disse...

Limpem os cadernos eleitorais de esqueletos....e deixem de olhar para o umbigo dos respectivos "partidos" (grupos de interesses)....maçons, ilgas etc.....

Anónimo disse...

Não há alternativas! nem pensar! Mas que a democracia é uma "merda", lá isso é! (parafraseando Churchill em vernáculo)