Nesta grande aldeia portuguesa que é Paris, no Théâtre de la Ville, na noite de ontem, foi homenageado José Afonso, neste ano em que se assinalam os 25 anos da sua morte.
Com uma sala entusiástica e a abarrotar, a música do "Zeca" foi interpretada por diversas vozes, femininas e masculinas, que lhe deram ritmos e entoações novas, assumidas como "herdeiras" de uma expressão musical e poética que diz muito a várias gerações - e já não apenas àquela que testemunhou o 25 de abril, como se evidenciava pela plateia, onde também me cruzei com a emoção de muitos franceses.
Durante o espetáculo, dei comigo a tentar perceber como, de tributário da canção coimbrã, José Afonso partiu para a recuperação criativa de temas populares portugueses e, a certo passo, assumiu modulações africanas que hoje ressoam a uma imensa modernidade. Neste terreno, torna-se interessante verificar, nos seus poemas, um profundo sentimento anti-colonial, numa época em que poucos ainda enveredavam musicalmente por esses caminhos.
Um abraço de gratidão e parabéns ao Emmanuel Démarcy-Mota, diretor do Théâtre de la Ville, por esta sua magnífica iniciativa.