1. Ontem, olhava distraído para a televisão, "zappando" entre canais. Como, por deliberada opção pessoal, não tenho acesso à nossa televisão (excepto as inenarráveis RTP internacional e SIC internacional, que vêm com o cabo francês), fixei-me num determinado canal, ao ouvir um filme falado em português. A representação era patética, teatral no mau sentido, com uma implausibilidade de cenas que raiava o absurdo, não obstante uma excelente imagem e alguns planos criativos. Fiquei a ver até ao fim, meia hora depois. Vim a constatar que era o "Singularidades de uma rapariga loira", que julgo ser uma adaptação do conto homónimo de Eça de Queiroz, que, recordo, tinha referências bem simpáticas às mulheres de Vila Real (não faço ideia se o filme as recupera). O realizador do filme era, como vim a constatar, Manoel de Oliveira. Embora talvez seja politicamente incorreto um embaixador de Portugal estar a escrever isto, face a um autor nacional tão celebrado por todo o mundo como é Oliveira, a honestidade leva-me a ter de confessar que achei o (que vi do) filme bem medíocre. Mas o defeito deve ser meu.
2. Desde há meses que, nas conversas que tenho com colegas e interlocutores franceses, tenho vindo a procurar sublinhar o caráter pacífico das manifestações que, em Portugal, têm tido lugar, por virtude da crise económica, subliminarmente tentando passar o contraste com o que vai ocorrendo noutras capitais, onde algumas reações assumiram, desde há muito, expressões bem mais violentas. A minha "inocência" acabou ontem, com as televisões europeias - e, no que me importa, as francesas - a mostrarem os desagradáveis incidentes em frente à Assembleia da República, com cargas de polícia, após as persistentes agressões e as inaceitáveis provocações de que os agentes foram objeto. Ou muito me engano ou, depois desta pouco salutar evidência de que, entre nós, os brandos costumes já foram arquivados, devo voltar a ser chamado a depor em algumas televisões francesas, agora que, de novo, aqui se "acordou" para o que se passa em Portugal. Ficaria muito satisfeito se assim não acontecesse, como se imaginará.
3. Luis Castro Mendes e Paulo Castilho, figuras prestigiadas da nossa diplomacia, recebem agora (e mais uma vez) prémios literários por obras suas, respetivamente nas áreas da poesia e do romance. Com Marcello Mathias, aqueles dois colegas fazem parte da "troika" de glórias da escrita de que muito nos orgulhamos, no seio da diplomacia portuguesa. Alguém me pode lembrar alguma outra carreira do serviço público português de onde, nos tempos que correm, tenham saído escritores premiados? Eu não conheço...
