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sexta-feira, novembro 23, 2012

Colegas

Dois colegas deixaram-nos há pouco: os embaixadores Favila Vieira e Melo Gouveia. Tinham ambos 82 anos. Desde muito cedo que, na "casa", eu ouvira falar, a colegas mais antigos, do "Favila" e do "Melo Gouveia". Acabei por conhecer o primeiro em Viena, logo em 1976, quando por lá passei "de mala" (isto é, transportando a mala diplomática) e, depois, a espaços, fomos conversando, em encontros fortuitos pelas Necessidades. Melo Gouveia era visto na casa como um homem "do Oriente", por ter andado sucessivamente pela Austrália, pela Tailândia e pelo Japão. Convivemos mais quando regressou definitivamente a Lisboa, em meados dos anos 90. Deixo aqui este registo sentido em sua memória.

Ao tempo em que entrei no Ministério, era possível conhecer praticamente todos os colegas. Às vezes, isso demorava uns anos, porquanto alguns andavam por sítios longínquos e deslocavam-se pouco a Lisboa. Quando isso acontecia, não era raro nós estarmos, pela nossa vez, colocados em postos no estrangeiro. Assim, os desencontros eram frequentes. Mas, um dia ou outro mais tarde, acabávamos por colocar uma cara no seu nome. Isso hoje, porém, é muito difícil de suceder.

Esse escasso conhecimento não obstava, porém, a que, quase sempre, tívessemos uma "opinião" relativamente formada sobre cada colega, fruto de conversas cruzadas, de historietas ouvidas, de elogios ou opiniões menos favoráveis propagadas. Não raramente, com alguma leviandade, ao falarmos de alguém, contribuíamos para espalhar aquela que era a sua imagem "de corredor", quase sempre sem cuidar em confirmar se ela correspondia ou não à realidade. Vim, por vezes, a constatar a existência de alguns falsos "génios" e, frequentemente, a corrigir ideias negativas que me tinham passado sobre outros colegas. 

As "bíblias" em que tradicionalmente assentavam as conversas sobre a carreira eram os "anuários", um eufemismo para designar uma publicação oficial do MNE que só sai "quando o rei faz anos" (e não todos os anos como o nome poderia sugerir), onde figuram as nossas biografias oficiais, com os postos ocupados e as datas das promoções, bem como outros dados sobre a "casa". Já um dia aqui falei dos anuários.

Recordo-me sempre de um embaixador que se comprazia em fazer a leitura crítica do anuário, comentando, página a página, sem grande piedade, o perfil de colegas, alguns dos quais verifiquei que conhecia basicamente "de ouvido". Numa dessas ocasiões, vi-o passar muito rapidamente uma página onde, pela lógica alfabética, estaria a biografia de um colega de quem eu sempre ouvira dizer horrores. Perguntei-lhe por que razão saltara a sequência crítica em que se tinha lançado. Respondeu-me: "Ora essa! Porque é meu amigo..."

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