quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Ulmeiro


Li ontem na imprensa, com tristeza mas sem surpresa, que a Livraria Ulmeiro atravessa uma fase de grande dificuldade. Tenho pena pelo livreiro e editor José Ribeiro, pelo seu notável esforço de décadas em sustentar um projeto que já foi de grande sucesso.

A vida de algumas livrarias, em especial das que permaneceram ligadas a um modelo algo tradicional, é muito difícil. Só em Lisboa, e sem grande esforço, consigo lembrar-me de imensos espaços que foram fechando nos últimos anos.

A Ulmeiro, criada em 1969, chegou a ser uma referência em Lisboa, um local de encontro nos fins-de-semana, onde havia espetáculos e até se fez muita política. Lembro-me bem de a ter visitado logo na primeira semana da sua existência, nessa Lisboa em que as coisas novas eram muito poucas. Foi também uma editora e recordo-me de ter feito para a Ulmeiro, no início dos anos 70, uma tradução de uma obra de Sékou Touré (as coisas que eu fiz!), nunca publicada. Por lá ouvi José Afonso e (creio) poemas lidos pelo Tóssan (quem se lembra dele?).

Embora as perspetivas sejam sombrias para a Ulmeiro de hoje, convidaria quem (ainda) se interessa por livros a passar por lá e ver as pechinchas que existem entre os seus quase 200 mil volumes. Tome nota: é na avenida do Uruguai, 13A (prolongamento da avenida Gomes Pereira), às portas de Benfica.

Ah! E se tiverem uma gata, levem-na. Ela fica a conhecer o Salvador!

3 comentários:

Maria disse...

Faz-me sempre pena e revolta ver livrarias a fechar. Infelizmente esta a tornar-se global. Teimo em "gastar" tempo em livrarias e "lojas de musica" como um miudo meu amigo lhes chama. E la vou eu com os meus sacos nas maos navegar pelas prateleiras dos corredores. Por vezes encontro o que procurava, outras surpreendo-me com o ja tinha desistido de encontrar. Um ultimo exemplo - CD de Miles Davies com a banda sonora do "Fim de Semana no Ascensor" de Louis Malle que ja tive e perdi. A alegria da descoberta deu nisto: dose dupla com uma Absolut au citron ao chegar a casa.

Tenho pena nao poder ir navegar pela livraria Ulmeiro. A foto faz-me raiva e lembra-me Borges "Ay una linea de Verlaine que no volvere a recordar" e "To a cat". O magnifico gato amarelo (presumo que Salvador de sua graca)e o focinho estampado do gato da minha vizinha do res do chao. Ainda tenho as maiores saudades da minha gata que ja esta la em cima com os pardais.

Por fim: tenho a certeza que muitos da minha geracao se lembram de Tossan,em Coimbra, (TEUC) e tambem eu tive direito a caricatura!!!

A minha solidariedade com a Ulmeiro. Afinal a doenca das arvores contagia as livrarias.

Bom dia com sol

F.Crabtree

Curtas & Baratas disse...

Sou cliente habitual da Ulmeiro, embora nos últimos tempos menos assíduo do que gostaria. Foi lá que encontrei o "Caso República", de um tal Francisco S. Costa que só mais tarde vim a saber quem era...
Muita pena se aconter à Ulmeiro aquilo que parece inevitável.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Exactamente, F.Crabtree, também eu me lembro no ginásio da AAC em 1969, pendurado num dos espaldares, de ouvir o Tossan dizer, juntamente com a Maria Barroso,uns poemas numa daquelas célebres assembleias, depois das intervenções sempres acaloradas do Celço Cruzeiro, Osvaldo de Castro e Barros Moura (o Alberto Martins era o mais sereno). Tempos (inesquecíveis) de luta!

A propósito dos fura-greves: "Ó Elsa, vais fazer exame? Não, vou dormir com o chefe...".